Chestertoninas: Idealismo

“Há um cético mais terrível ainda do que aquele que acredita que tudo começou na matéria. É possível encontrar o cético que acredita que tudo começou em si mesmo. Este é o que duvida não da existência de anjos ou de demônios, mas da existência dos homens e das vacas. Para ele, os próprios amigos não passam de uma mitologia que sua mente arquitetou: foi ele quem criou o próprio pai e a própria mãe. Essa horrível fantasia tem em si qualquer coisa que a torna decisivamente atraente para o egoísmo, um tanto ou quanto místico, do mundo moderno. Aquele editor que pensava que certos homens iriam longe se acreditassem em si mesmos, aqueles que andam em busca do super-homem e vão procurá-lo no espelho, aqueles escritores que falam em imprimir a sua personalidade em vez de criarem vida para o mundo: todos esses homens estão, positivamente, a uma polegada de distância do mais terrível vácuo. E quando o benéfico mundo que nos cerca se tiver enegrecido como uma mentira, quando os amigos se esvaírem como fantasmas, quando os alicerces do mundo desmoronarem, quando o homem que não acredita em nada nem ninguém ficar sozinho no meio do seu pesadelo, ver-se-á escrita sobre ele, numa ironia vingadora, a grande legenda individualista. As estrelas serão apenas pontos na escuridão do seu cérebro, e a face de sua mãe não será mais do que um simples esboço traçado pelo lápis de um louco nas paredes da sua cela. E por sobre essa mesma cela estará escrita esta terrível verdade: Este acredita em si mesmo.”

G. K. Chesterton, Ortodoxia

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Chestertoninas: O poeta e o lógico

Comecemos, portanto, pelo hospício. Desta nefasta e fantástica pousada lancemos vôo para a nossa jornada intelectual. E, se temos de encarar a filosofia da sanidade, a primeira coisa a fazer é refutar um grande e comum erro. Anda espalhada a todos os ventos a noção de que a imaginação, principalmente a imaginação mística, é perigosa para o equilíbrio mental do homem. Fala-se, geralmente, dos poetas como de pessoas que, psicologicamente, não são dignas de confiança. Mas os fatos, assim como a história, desmentem veementemente tal ponto de vista. Os grandes poetas, na sua maioria, foram, não só pessoas sãs, mas também pessoas inteiramente práticas: e, se Shakespeare, segundo se conta, se entregou durante algum tempo ao mister de tomar conta de cavalos às portas dos teatros, é porque era pessoa suficiente capaz para fazê-lo. A imaginação não produz a loucura: o que produz a loucura é exatamente a razão. Os poetas não enlouquecem, os jogadores de xadrez, sim. Os matemáticos e os caixas enlouquecem, mas os artistas criadores raramente chegam a tal estado. Como se há de observar no decorrer deste livro, não é meu propósito atacar a lógica; quero apenas frisar que o perigo está na lógica e não na imaginação.

A poesia é sã porque flutua, facilmente, num mar infinito; a razão procura cruzar o mar infinito para, assim, torna-lo finito. O resultado é um esgotamento mental, como o esgotamento físico de Holbein. Aceitar todas as coisas é um exercício, entender todas as coisas é um esforço. O poeta procura apenas a exaltação e a expansão, isto é, procura um mundo no qual ele possa se expandir. O poeta pretende apenas meter a cabeça no Céu, enquanto que o lógico se esforça por meter o Céu na cabeça. E é a cabeça que acaba por estourar.

G. K. Chesterton, Ortodoxia

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Chestertoninas: Saúde e cuidado

O erro de toda essa discussão médica está exatamente no fato de associar a idéia de saúde com a de cuidado. Qual a relação entre saúde e cuidado? Saúde tem relação com a falta de cuidado. Em casos especiais e anormais é necessário ter cuidado. Quando estamos particularmente doentes pode ser necessário tomar cuidados para recuperar a saúde. Mas, mesmo nesse caso, apenas estamos tentando ser saudáveis para sermos descuidados. Caso sejamos médicos, falaremos com homens excepcionalmente doentes, e estes devem ser aconselhados a tomarem certos cuidados. Mas, quando somos sociólogos, nos dirigimos aos homens normais, nos dirigimos à humanidade. E a humanidade deve ser aconselhada a ser imprudente, pois todas as funções fundamentais de um homem saudável devem ser, certamente, desempenhadas com prazer e pelo prazer. Por certo não devem ser desempenhadas com precaução ou por precaução. Um homem deve comer por ter um bom apetite a satisfazer e, certamente, não por ter um corpo para sustentar. Um homem deve se exercitar não porque seja muito gordo, mas porque ama floretes, cavalos ou montanhas, e os ama pelo que são. Um homem deve se casar porque se apaixonou e, decididamente, não porque o mundo precisa ser povoado. A comida verdadeiramente renovará os tecidos do corpo, uma vez que a pessoa não pense em seus tecidos. O exercício fará alguém realmente entrar em forma, contanto que a pessoa pense em algo mais. E o casamento terá alguma chance de produzir uma geração saudável generosa se tiver origem num entusiasmo natural e generoso. A primeira lei da saúde é que Leia mais deste post

Chestertoninas: A liberdade, o progresso e a educação como evasivas

Todos os ideais e expressões populares modernos são evasivas para evitar o problema do que é o bem. Gostamos de falar de “liberdade”, ou seja, temos uma desculpa para evitar discutir o que é bom. Gostamos de falar do “progresso”, ou seja, temos um expediente para evitar discutir o que é bom. Gostamos de falar de “educação”, ou seja, temos um método para evitar discutir o que é bom. O homem moderno diz: “Deixemos de lado todos os padrões arbitrários e abracemos a liberdade”. Caso isto seja logicamente compreendido, significa: “Não decidamos o que é bom, mas deixemos que seja considerado bom não decidir”. Diz também: “Fora com nossa antiga fórmula moral; sou pelo progresso”. Isso, logicamente compreendido, significa: “Não fixemos o que é bom; mas estabeleçamos se vamos receber mais do mesmo”. Diz ainda: “Não é nem na religião nem na moral, meu amigo, que repousa a esperança da raça, mas na educação”. Isso, claramente expresso, significa: “Não podemos decidir o que é bom, mas deixemos que seja dado aos nossos filhos”.

G. K. Chesterton, Hereges

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Chestertoninas: A saudável moralidade mística

Um anacoreta que rola sobre pedras num furor de submissão é, fundamentalmente, uma pessoa mais saudável que muitos homens soberbos de chapéus de cetim que caminham por Cheapside [rua no bairro financeiro de Londres]. Para muitos, esses homens são bons somente por um conhecimento degenerado do mal. Não estou, no momento, reivindicando, para o devoto, nada mais que esta vantagem primária: a de que embora possa, pessoalmente, estar se fazendo fraco e miserável, está, mesmo assim, fixando os pensamentos, sobretudo, numa felicidade e força gigantes, numa força que não tem limites e numa felicidade que não tem fim. Sem dúvida, há outras objeções razoáveis que podem ser levantadas contra a influência na moralidade de deuses e visões, seja na cela do monge, seja nas ruas. Mas a moralidade mística deve ter sempre esta vantagem: é sempre mais alegre. Um jovem pode evitar o vício pela lembrança contínua da doença. Pode evita-lo também pela lembrança contínua da Virgem Maria. Pode haver dúvida sobre qual método é mais razoável, ou mesmo qual é mais eficiente. Mas certamente não pode haver dúvida sobre qual é mais saudável.

G. K. Chesterton, Hereges

Chestertoninas: Diálogo entre Syme e o guarda (O homem que foi quinta-feira)

Syme, naquele tempo, andava mal vestido. Usava um chapéu alto fora de moda, andava embrulhado num sobretudo preto e roto, ainda mais fora de moda, e aquele vestuário dava-lhe um aspecto de cínico de romance de Dickens ou Bulwer Lytton. A barba e o cabelo amarelado também andavam mais hirsutos e despenteados do que quando, muito mais tarde e já aparados e penteados, apareceram nos jardins de Saffron Park. Pendia-lhe dos dentes cerrados um charuto negro, esguio e comprido, comprado no Solio por dois pence, e no conjunto passava por um espécime muito satisfatório dos anarquistas a quem votara guerra santa. Foi talvez por isso que um polícia se dirigiu a ele e lhe deu as boas-tardes. Syme, numa das suas crises de temor mórbido pela sorte da humanidade, pareceu picado pela simples solidez do automático guarda, um mero vulto azulado no crepúsculo.

– Com que então boa tarde? – disse rispidamente. Vocês seriam capazes de chamar boa-tarde ao fim do mundo. Olhe para aquele pôr de Sol vermelho de sangue e para o rio sangrento! Mesmo que se tratasse de facto de sangue humano, você continuaria na calma, à procura de um pobre inocente vagabundo a quem pudesse mandar circular. Vocês, os polícias, são cruéis para os pobres, mas, se não fosse a vossa calma, talvez me sentisse capaz de até essa crueldade perdoar.

– Se somos calmos é porque temos a calma da resistência organizada.

– Hein? – proferiu Syme, boquiaberto.

– O soldado tem de ser calmo no mais aceso da batalha. A compostura do exército é a ira da nação.

– Valha-me Deus, as Board-Schools! Isto é que é a educação laica?

– Não – respondeu tristemente o polícia. – Nunca tive nenhuma dessas regalias, as Board-Schools ainda não existiam no meu tempo. Receio que a educação que recebi fosse muito grosseira e antiquada.

– Onde a recebeu?

– Oh, em Harrow – respondeu o guarda.

– As simpatias de classe, por mais falsas que sejam, são, não obstante, para muitas pessoas as coisas mais verdadeiras do mundo. – E Syme sentiu-as explodirem dentro de si antes que pudesse refreá-las.

– Mas, meu Deus, homem! Você nunca devia ser polícia.

O guarda suspirou e abanou a cabeça.

– Bem sei – disse solenemente -, bem sei que não sou digno.

– Mas por que se alistou na Polícia? – inquiriu Syme, com curiosidade malcriada.

– Pela mesma razão porque você a insultou. Descobri que no serviço havia um lugar especial para aqueles cujos receios pela humanidade se relacionavam mais com as aberrações do intelecto científico do que com as erupções, normais e desculpáveis, se bem que excessivas, da vontade humana. Espero que me faça compreender.

– Se pergunta se se exprime com clareza, suponho que assim é. Mas agora, se quer dizer que se faz compreender, isso nunca. Como explica que um homem como você esteja, de capacete azul na cabeça, a falar de filosofia junto às margens do Tamisa?

– É evidente que não ouviu falar nos mais recentes métodos do nosso sistema policial, e não me admiro, pois não os revelamos às classes educadas, pois nelas se encontram a maior parte dos nossos inimigos. Mas parece-me que você atravessa o estado de espírito apropriado. Creio que está quase a unir-se a nós. 

–  Unir-me a quem?

– Explicarei tudo – respondeu o policial com lentidão. – A situação é a seguinte: à testa de uma das nossas repartições está um dos mais célebres detectives europeus, que é há muito da opinião que uma conspiração puramente intelectual brevemente ameaçará a própria existência da civilização. Está certo de que os mundos artísticos e científicos se uniram silenciosamente numa cruzada contra a família e contra o Estado. Em vista disto, formou um corpo especial de polícias, que são simultaneamente filósofos, e é seu dever observar o início desta conspiração, não só no sentido criminal, como também no terreno da Leia mais deste post

Chestertoninas: A razão e os dogmas

Se a razão humana pode evoluir ou não, é um problema muito pouco discutido, e não há nada mais perigoso do que fundamentar nossa filosofia social numa teoria que é discutível, mas que não foi discutida. Mas se admitirmos, só para argumentar, que houve no passado, ou que haverá no futuro, algo que se assemelhe ao crescimento ou ao aprimoramento da inteligência humana propriamente dita, haverá ainda um forte óbice a ser levantado contra a versão moderna do aprimoramento. O vício da noção moderna do progresso mental é estar sempre relacionado ao rompimento de laços, à abolição de fronteiras, à rejeição de dogmas. Mas se houver algo parecido com um crescimento mental, isso deve significar crescimento em direção a convicções cada vez mais definidas, que mais e mais vão se tornando dogmas. O cérebro humano é uma máquina de tirar conclusões; se não puder concluir, enferruja. Quando ouvimos falar de um homem inteligente demais para ser crível, escutamos algo que se assemelha a uma contradição em termos. É como ouvir a respeito de um prego bom demais para fixar um carpete; ou de um ferrolho muito firme para manter a porta trancada. O homem dificilmente pode ser definido, à moda de Carlyle, como um animal que fabrica ferramentas. Formigas, castores e muitos outros animais fabricam ferramentas, no sentido de utensílio. O homem pode ser definido como um animal que fabrica dogmas. À medida que empilha doutrina sobre doutrina e conclusão sobre conclusão, ao formar algum enorme esquema filosófico e religioso, está, no único sentido legítimo de que a expressão é capaz, se tornando mais e mais humano. Ao abandonar doutrina após doutrina, num refinado ceticismo, ao recusar filiar-se a um sistema, ao dizer que superou definições, ao dizer que duvida da finalidade, quando, na própria imaginação, senta-se como Deus, não professando nenhum credo, mas contemplando todos, então está, por intermédio do mesmo processo, imergindo lentamente na indistinção dos animais errantes e da inconsciência da grama. Árvores não têm dogmas. Nabos são particularmente tolerantes.

G. K. Chesterton, Hereges, Ecclesiae, pág. 257-258

Chestertoninas: Os materialistas e os doidos

Devemo-nos lembrar que a filosofia materialista (verdadeira ou não) é muito mais limitadora do que qualquer religião. É certo que, em determinado sentido, todas as idéias inteligentes são estreitas: não podem ser mais largas do que elas próprias. Um cristão é tão limitado quanto um ateu. O cristão não poderá julgar o cristianismo falso e continuar a ser cristão. O mesmo ocorre com um ateu. Acontece, porém, que há um sentido muito especial no qual o materialismo tem maiores restrições do que o espiritualismo. Mc Cabe julga-me um escravo porque não posso acreditar no determinismo, e eu julgo Mc Cabe um escravo porque ele não pode acreditar em fadas. Examinando, porém, os dois vetos, verificaremos que o dele é, realmente, muito mais proibitivo do que o meu. O cristão tem plena liberdade de acreditar que existe no Universo uma ordem estabelecida e um inevitável desenvolvimento, mas o materialista não pode admitir, na sua irrepreensível máquina, a menor parcela de espiritualismo ou de milagre. O pobre Mc Cabe não poderá admitir o menor diabinho, nem que ele esteja escondido numa pimpinela. O cristianismo admite que o Universo é multiforme e, por vezes, misto, exatamente como o homem normal admite a própria complexidade. O homem são sabe, perfeitamente, que há em si qualquer coisa de animal, de demônio, de santo e de cidadão, chegando mesmo a admitir, quando é verdadeiramente são, que há em si alguma coisa de louco. Mas o mundo do materialista é perfeitamente simples e sólido, exatamente como o louco está convencido de que é uma criatura perfeitamente sã. O materialista julga que a história tem sido, simples e unicamente, uma cadeia de causalidade, como aquele interessante indivíduo, a quem há pouco nos referimos, que estava convencido de que era, simples e unicamente, um verdadeiro frango. Os materialistas e os doidos nunca têm dúvidas.

G. K. Chesterton, Ortodoxia, LTr, 2001, pág. 41-42

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Chestertoninas: Caridade humana e caridade cristã

O general explodiu:

– Com todos os diabos! Se o senhor está pensando que vou me reconciliar com uma víbora como essa, quero lhe dizer que não sairia da minha boca uma única palavra que pudesse salvá-lo do inferno. Eu disse que poderia perdoar um duelo normal e leal, mas quanto a nojentos assassinos como esse…

O jornalista estava fora de si:

– Ele deveria ser linchado. Deveria ser queimado vivo como fazem com os negros nos Estados Unidos. E se existe mesmo essa história de queimar nos fogos eternos, é isso mesmo que…

Mallow também quis dar sua opinião:

– Por mim quero ficar o mais longe possível dele.

Lady Outram fora tomada de um acesso de tremor.

– Há um limite para a caridade humana…

O padre Brown acrescentou secamente:

– Há mesmo, e essa é a diferença real entre a caridade humana e a caridade cristã. Peço-lhes que me desculpem se não me deixei abater pelo desprezo de todos por minha falta de caridade hoje, ou pelas lições que pretenderam dar-me quanto ao perdão para todos os pecadores. E isso porque me parece que todo mundo só perdoa os pecados que não considera realmente pecados. O mundo só perdoa os criminosos quando eles cometem o que não é considerado um crime e sim apenas uma convenção. Então chegam a tolerar um duelo convencional da mesma forma que toleram um divórcio. Perdoam porque Leia mais deste post

Chestertoninas: Sobre saúde, eficiência e mediocridade

 

“Quando tudo um povo enfraquece e se torna ineficiente, esse povo começa a falar de eficiência. Assim, também, quando o corpo de um homem começa a fraquejar, ele, pela primeira vez, começa a falar de saúde. Organismos vigorosos não falam de seus processos, mas de seus objetivos. Não há melhor prova da eficiência física de um homem do que a animação ao falar sobre uma viagem ao fim do mundo. E não há melhor prova de eficiência prática de uma nação do que a constante menção a uma viagem ao fim do mundo, uma viagem ao dia do juízo e à nova Jerusalém. E não há sinal mais claro de uma saúde debilitada do que a tendência a buscar elevados e extravagantes ideais. É no primeiro vigor da infância que tentamos alcançar a lua. Nenhum  homem enérgico das eras fortes entenderia o que queremos dizer com “trabalhar para eficiência”. Hildebrand [nome do Papa São Gregório VII, um dos maiores pontífices que a Igreja conheceu e que esteve no trono de Pedro de 1073 a 1085] teria dito que não estava empregando seus esforços para ser eficiente, mas pela Igreja Católica. Danton teria dito que não estava labutando para ser eficiente, mas pela liberdade, igualdade e fraternidade. Mesmo se o ideal de tais homens fosse o ideal de empurrar alguém escada abaixo, eles pensariam na finalidade como homens e não no processo como paralíticos. Não diriam, “Ao elevar minha perna, podereis notar que utilizando os músculos da coxa e da panturrilha, que estão em excelente forma…”. O sentimento deles foi bem diferente. Estavam tomados pela bela visão de um homem estatelado ao término dos degraus que, neste êxtase, o restante se seguia num segundo. Na prática, o hábito de generalizar e idealizar não significa, de forma alguma, fraqueza. O tempo das grandes teorias foi o tempo dos grandes resultados. Numa época de sentimentalismo e de palavras elegantes, ao final do século XVIII, os homens eram realmente robustos e eficientes. Os sentimentalistas conquistaram Napoleão. Os cínicos não conseguiram pegar De Wet [Christin Rudolph de Wet (1854-1922), político sul-africano e general bôer na Guerra dos Bôeres]. Há cem anos, nossos assuntos, fossem para o bem ou para o mal, eram tratados triunfantemente por retóricos. Agora, nossos assuntos são irremediavelmente desorganizados por homens fortes e silenciosos. E assim como o repúdio das grandes palavras e das grandes visões nos trouxe uma raça de anões na política, trouxe também uma raça de anões nas artes. Nossos políticos modernos tentam desfrutar dos méritos de César e do super-homem e alegam que são muito práticos para serem puros e muito patrióticos para serem morais. Mas o resultado de tudo isso é ter um medíocre como Ministro da Fazenda. Nossos novos filósofos artísticos exigem a mesma licença moral, clamam por uma liberdade para devastar céus e terras com sua energia; mas o resultado disso é um medíocre como poeta laureado [no caso, Alfred Austin (1835-1913)]. Não digo que não haja homens mais fortes que estes, mas será que alguém dirá que há homens mais fortes do que os de outrora, dominados pela filosofia e impregnados pela religião? Se a servidão é melhor que a liberdade, isso é uma questão a ser discutida. Mas que a servidão dos antigos fez mais que a nossa liberdade será difícil negar.”

G. K. Chesterton, Hereges

Chestertoninas: Bom e mau gosto

“O bom gosto, a última e mais desprezível das superstições, teve sucesso em silenciar-nos onde todos fracassaram. Sessenta anos atrás, era de mau gosto ser um ateu declarado. Então, surgiram os bradlaughitas [seguidores de Charles Bradlaugh, o mais famoso ateu militante do século XIX na Inglaterra], os últimos homens religiosos, os últimos homens a se preocuparem com Deus; mas não puderam alterar a situação. Ainda é de mau gosto ser um ateu declarado. Mas a agonia deles conseguiu apenas isto – agora é igualmente de mau gosto ser um cristão declarado. A emancipação apenas trancou o santo na mesma torre de silêncio do heresiarca.”

G. K. Chesterton, Hereges

Chestertoninas: O temor de Deus

“O temor de Deus, que é o princípio da sabedoria, e que por isso pertence aos princípios, e que se sente no frio das primeiras horas antes da alvorada da civilização; o sopro que vem da selva, e rodopia em turbilhão, e quebra os deuses de pedra; o poder ante o qual as nações do Oriente se prostram, rastejantes; o sopro à frente do qual os profetas primitivos correram nus e aos gritos, simultaneamente proclamando o seu deus e dele fugindo; o temor que está enraizado, com razão, nos princípios de toda a religião, verdadeira ou falsa: o temor do Senhor que é princípio mas não fim de toda a sabedoria.”

G. K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino

Chestertoninas: A tirania da especialização

“Teorias gerais são desprezadas em todos os lugares; a doutrina dos Direitos do Homem é posta de lado juntamente com a doutrina do Pecado Original. O ateísmo, aos olhos do mundo atual, é muito teológico. A revolução é, em grande parte, um sistema; a liberdade é, em grande parte, uma limitação. Não teremos generalizações.  O Sr Bernard Shaw resumiu a situação num perfeito epigrama: “A regra de ouro é que não há regra de ouro”. Tendemos cada vez mais a discutir detalhes em arte, política e literatura. A opinião de um homem sobre os bondes tem importância; sua opinião sobre Botticelli tem importância; sua opinião sobre todas as coisas não tem importância. Pode se mudar de opinião e explorar milhões de objetos, mas não deve encontrar aquele objeto estranho, o universo, pois se o fizer, terá uma religião, e estará perdido. Tudo tem importância, exceto tudo.”

G. K. Chesterton, Hereges

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Igreja, Teologia, Filosofia

Chestertoninas: O homem moderno e a Idade Média

“Imagine o jornalista ou homem de letras comum, jovem e bem educado, recém-saído de uma escola pública ou faculdade, parado diante de uma coleção ainda maior de livros ainda maiores das bibliotecas da Idade Média – digamos, todos os volumes de São Tomás de Aquino. Digo-lhe que, de nove casos em dez, aquele jovem bem-educado não tem a menor noção do que iria encontrar naqueles volumes encadernados em couro. Pensa que irá encontrar discussões sobre as capacidades dos anjos de se equilibrarem sobre pontas de agulhas, e talvez o fizesse. Mas afirmo que ele não pensa – nem de longe – que irá encontrar um professor universitário a discutir quase todas as coisas que Herbert Spencer discutiu: política, sociologia, formas de governo, monarquia, liberdade, anarquia, propriedade privada, comunismo, e todas as variadas idéias que, no nosso tempo, se dedicam a brigar em nome do futuro “socialismo”.

Igualmente, não sei muito sobre Maomé ou o maometanismo. Não levo o Alcorão para ler na cama toda noite. Mas, se em determinada noite o fizesse, há pelo menos um sentido em que sei o que não encontrarei nele. Suponho que a obra não transbordará de fortes encorajamentos ao culto dos ídolos; que não se cantarão ali em alta voz os louvores do politeísmo; que o caráter de Maomé não será submetido a nada que se parece com o ódio e o ridículo; e que a grande doutrina moderna da irrelevância da religião não será enfatizada sem necessidade.
Mas troque novamente a imagem, e imagine o homem moderno (o pobre homem moderno) que tivesse levado um volume de teologia medieval para a cama. Ele esperaria encontrar ali um pessimismo que não há, um fatalismo que não há, um amor à barbárie que não há, um desprezo pela razão que não há.
Aliás, seria na verdade muito bom que fizesse a experiência. Far-lhe-á bem de uma forma ou de outra: ou o fará dormir – ou o fará acordar.”
G.K. Chesterton, Illustrated London News, 15.11.1913
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Chestertoninas: O pragmatista e o tomista

“O pragmatista deseja ser prático, mas a sua prática vê-se, afinal, que é inteiramente teórica. O tomista começa por ser teórico, mas a sua teoria chega a resultados totalmente práticos. É por isso que grande parte do mundo está hoje retornando a ele.”

G. K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Igreja, Filosofia, Teologia

Chestertoninas: A razão é sempre racional

Os dois vultos que eles seguiam rastejavam como moscas pretas através do enorme contorno verde de um monte. Era evidente que estavam profundamente entretidos a conversar e talvez não reparassem para onde se dirigiam, mas não havia dúvida que se estavam dirigindo para as elevações mais ermas e calmas do Heath. Os seus perseguidores ao ganharem distância sobre eles  tinham de tomar as posições pouco dignificantes dos caçadores de espera, agachando-se atrás de moitas e até rastejando deitados na erva cerrada. Por meio destas deselegantes habilidades, os caçadores até chegaram suficientemente próximo da presa para ouvirem o rumor da discussão, mas nenhuma palavra era perceptível a não ser a palavra “razão”, repetindo-se frequentemente num tom de voz excitado e quase infantil. Uma vez numa depressão abrupta do terreno e de um denso emaranhado de moitas, os detetives chegaram a perder de vista os dois vultos que estavam seguindo. Durante uns angustiantes dez minutos perderam a pista e quando a reencontraram ela levava ao cume de um monte sobranceiro a um anfiteatro com o cenário de um esplêndido e solitário pôr do Sol. Debaixo de uma árvore neste local imponente, mas desprezado, havia um velho banco de madeira em ruínas. Neste banco estavam sentados os dois padres conversando seriamente. Os deslumbrantes azul e verde ainda estavam presos ao horizonte que escurecia, mas a abóbada por cima deles estava mudando de verde-pavão para azul-pavão eas estrelas destacavam-se cada vez mais como jóias verdadeiras. Acenando silenciosamente para os seus ajudantes, Valentin conseguiu rastejar por detrás da grande árvore frondosa e, permanecendo aí num silêncio sepulcral, ouviu pela primeira vez as palavras dos estranhos padres.

Depois de os ter escutado durante um minuto e meio foi dominado por uma dúvida diabólica. Talvez ele estivesse arrastado os dois polícias ingleses pelos terrenos de uma charneca noturna para uma missão tão louca como procurar uma agulha num palheiro. Porque os dois padres estavam conversando exatamente como padres, devotamente, com sabedoria e vagar, sobre os enigmas mais elevados da teologia. O padre baixinho do Essex falava com mais simplicidade com a sua cara redonda voltada para as estrelas revigorantes, o outro falava com a cabeça inclinada como se não fosse digno de contemplá-las. Mas uma conversa tão clerical, tão inocente como aquela poderia ser ouvida num claustro branco italiano ou numa escura catedral espanhola.

A primeira coisa que escutou foi o final de uma das frases do Padre Brown, que terminava assim:

– … o que eles realmente queriam dizer na Idade Média a respeito dos céus serem incorruptíveis.

O padre mais alto acenou com a cabeça inclinada e disse:

– Ah, sim, estes infiéis modernos invocam a razão, mas quem é que pode olhar para aqueles milhões de mundos e não sentir que podem muito bem haver universos maravilhosos por cima de nós onde a razão é totalmente irracional?

– Não – disse o outro padre – a razão é sempre racional, mesmo no derradeiro limbo, no limite perdido das coisas. Eu sei que pessoas acusam a Igreja de rebaixar a razão, mas é exatamente o contrário. Só a Igreja no mundo torna a razão realmente suprema. Só a Igreja no mundo afirma que Deus está vinculado pela razão.

O outro padre levantou a sua face austera para o céu brilhante e disse:

– No entanto, quem sabe se naquele infinito universo…?

– Apenas infinito fisicamente – disse o padre baixinho, voltando-se vivamente no banco, – não no sentido de escapar às leis da verdade.

Valentin, por trás da árvore, estava puxando violentamente as unhas das mãos numa fúria silenciosa. Quase lhe parecia ouvir os risinhos dos detetives ingleses que ele tinha trazido até tão longe atrás de uma fantástica conjectura apenas para ouvirem a tagarelice metafísica de dois serenos velhos padres. Na sua impaciência não conseguiu ouvir a resposta igualmente elaborada do clérigo alto e quando se pôs à escuta de novo era outra vez o Padre Brown que falava:

– A razão e justiça abarcam a estrela mais remota e solitária. Olhe para aquelas estrelas. Não parecem diamantes e safiras? Pois bem, pode imaginar qualquer louca botânica ou geologia que quiser. Pense em florestas de diamantes com folhas de brilhantes. Pense que a lua é azul, uma única e enorme safira. Mas não julgue que toda essa louca astronomia iria fazer a mais pequena diferença à razão e à justiça do comportamento. Em planícies de opalas, em penhas talhados de pérolas, iria ainda encontra uma tabuleta como aviso: “NÃO ROUBARÁS”.

G. K. Chesterton, A Inocência do Padre Brown

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Chestertoninas: Os ovos e a metafísica

“… a filosofia de Santo Tomás funda-se na convicção universal e comum de que os ovos são ovos. Pode o hegeliano dizer que um ovo é, em verdade, uma galinha, por ser parte do interminável processo do vir-a-ser; pode o berkeleiano sustentar que os ovos estrelados têm somente a existência dos sonhos, dado ser tão fácil chamar ao sonho a causa dos ovos como os ovos a causa do sonho; pode o pragmatista acreditar que tiramos melhor partido dos ovos mexidos, esquecendo que sempre foram ovos, mas recordando somente a mistura. Nenhum discípulo de Santo Tomás, porém, precisa estragar o juízo para ver como há de estragar os ovos, nem por a cabeça em determinado ângulo ao olhar para os ovos, nem trocar a vista olhando para eles, ou fechar o outro olho para ver nova simplificação dos ovos. O tomista põe-se firmemente na luz clara, comum a todos os homens, seus irmãos; põe-se na comum evidência de que os ovos não são galinhas, nem sonhos, nem meras hipóteses de caráter prático, mas coisas certificadas pela autoridade dos sentidos, a qual provém de Deus.

Desse modo, até os que apreciam a profundeza metafísica do tomismo em outras matérias têm manifestado surpresa por ele não tratar do que muitos consideram hoje a principal questão metafísica: se podemos provar que é real o ato primário do conhecimento de qualquer realidade. A resposta é que Santo Tomás descobriu imediatamente o de que tantos cépticos modernos têm começado com grande dificuldade a suspeitar: que um homem ou tem de responder a essa pergunta afirmativamente, ou de outra maneira nunca poderá responder a nenhuma pergunta, nem fazê-la, nem sequer existir intelectualmente, para responder como para perguntar.”

G. K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino

Santo Tomás de Aquino, Igreja, Filosofia, Suma Teológica

Chesterton – 75 anos do falecimento

Oração pela beatificação de Chesterton 

Deus Nosso Pai,
Tu que enchestes a vida de teu Servo Gilbert Keith Chesterton com aquele sentido de assombro e alegria, e lhe destes aquela fé que foi o fundamento de seu incessante trabalho, aquela esperança que nascia de sua perene gratidão pelo dom da vida humana, aquela caridade para com todos os homens, particularmente em relação aos seus adversários; faz com que sua inocência e seu riso, sua constância em combater pela fé cristã em um mundo descrente, sua devoção de toda a vida pela Santíssima Virgem Maria e seu amor por todos os homens, especialmente pelos pobres, concedam alegria a aqueles que se encontram sem esperança, convicção e ardor aos crentes tíbios e o conhecimento de Deus àqueles que não tem fé.
Te rogamos que nos outorgue os favores que te pedimos por sua intercessão, de maneira que sua santidade possa ser reconhecida por todos e a Igreja possa proclamá-lo Beato.
Tudo isto te pedimos por Cristo Nosso Senhor.
Amém.
Fonte: ChestertonBrasil
Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Igreja

Chestertoninas: Sobre credos e dogmas

Em verdade, isto ilustra vivamente a estupidez provinciana dos que fazem objeção ao que eles chamam “credos e dogmas”. Foi precisamente o credo e o dogma o que salvou a saúde moral do mundo. Essas pessoas propõem, em geral, uma religião alternativa de intuição e de sentimento. Se na era realmente das trevas tivesse havido uma religião de sentimento, teria sido de sentimento negro e suicida. Foi o credo rígido que resistiu ao ímpeto desse sentimento suicida. Os críticos do ascetismo têm talvez razão quando supõem que muitos eremitas ocidentais se sentiam muito semelhantes a faquires orientais. Mas o que não podiam era pensar como faquires orientais, por serem católicos ortodoxos. E só o dogma manteve o seu pensamento em contato com um pensamento mais saudável e humano. Não podiam negar que um Deus bom criara um mundo normal e natural; e não podiam dizer que o demônio fizera o mundo, porque não eram maniqueus.

Milhares de entusiastas do celibato, na era da grande corrida para o deserto ou para o claustro, poderiam ter chamado pecado ao casamento, se considerassem somente os seus ideais individuais, à moda moderna, e os seus sentimentos imediatos a respeito do casamento. Felizmente, tinham de aceitar a autoridade da Igreja, que definira não ser pecado o casamento. Uma religião moderna e emotiva poderia, em um momento, ter transformado o Catolicismo no maniqueísmo. Mas, ainda que o sentimento religioso tornasse os homens loucos, lá estava a teologia para os curar.

Neste sentido é que surge Santo Tomás como o grande teólogo ortodoxo, que recordou aos homens a doutrina da criação, quando muitos deles se inclinavam ainda para o pessimismo e a destruição. É ridículo que os críticos do medievalismo citem uma centena de frases medievais, que parecem tocadas de simples pessimismo, sem no entanto compreender o fato central: que os homens medievais não se importavam com ser antigos ou modernos e não aceitavam a autoridade de uma disposição por ela ser melancólica, mas importavam-se muitíssimo com a ortodoxia, que não é uma disposição ou inclinação.

G. K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Igreja, ortodoxia

Chestertoninas: O pecado e o gato

“Os modernos mestres da ciência, bem como os antigos mestres de religião, advogam a necessidade de se começar toda e qualquer investigação por um fato positivo. Eles começavam pelo pecado – fato esse tão positivo quanto as batatas. Quer o homem pudesse ou não ser banhado em águas miraculosas, não havia dúvida de que, de qualquer forma, essa ablução era necessária. No entanto, certos líderes religiosos em Londres, não meros materialistas, começaram atualmente a negar, não tanto a muito discutível água, mas a indiscutível sujeira. Alguns dos novos teólogos discutem o pecado original, que é a única parte da teologia cristã que pode ser realmente provada. Certos seguidores do Rev. R. J. Campbell, na sua quase excessiva e fastidiosa espiritualidade, admitem a pureza divina, que não pode ser vista nem mesmo em sonhos, mas negam essencialmente o pecado humano, que pode ser visto a toda hora nas ruas. Os maiores santos, assim como os céticos mais arraigados, tomavam, igualmente, o mal positivo como ponto de partida para a sua argumentação. Se é verdade (como de fato é) que um homem pode sentir uma estranha felicidade ao esfolar um gato, então o filósofo religioso pode fazer apenas uma dessas duas deduções: ou deve negar a existência de Deus, como fazem todos os ateus, ou deve negar a presente união entre Deus e esse homem, como todos os cristãos fazem. Os novos teólogos, no entanto, julgam ter encontrado uma solução altamente racional: negar o gato.”

G. K. Chesterton, Ortodoxia

Tomás de Aquino, Suma Teológica, Igreja, Cristo, Filosofia

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