Só no Brasil mesmo, ou “Tomás responde: Os nomes que implicam relação com as criaturas são atribuídos a Deus em sentido temporal?”

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Inacreditável! Uma música de Jorge Ben sobre a questão 13, artigo 7, da 1ª parte da Suma Teológica, em álbum de 1975. Quem poderia imaginar uma coisa assim? Não gostava das músicas dele e vou continuar não gostando, mas essa merece um lugarzinho aqui no blog. Vai primeiro a letra da música e depois o artigo.

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Assim falou Santo Tomás de Aquino

A semelhança da criatura com Deus
É tão imperfeita que não chega a ser
O gênero comum, comum
Pois certos nomes que implicam relação de Deus com a criatura
Deles se predicam temporariamente
E não são eternos, não são eternos e não são eternos
Deve se saber que quem ensinou
Que a relação não é uma realidade da natureza e sim da razão
Estão enganados, puramente enganados
Estão errados, puramente enganados
Deus não é uma medida proporcionada ou medido
Por isso não é necessário que esteja contido
No mesmo gênero da criatura
No mesmo gênero da criatura
Da criatura
Por isso dobro os meus joelhos
Diante do pai de nosso Senhor Jesus Cristo
Do qual toda sua sábia paternidade
Tomou nome nos céus e na terra
Assim falou Santo Tomás de Aquino
Assim falou Santo Tomás de Aquino
Assim falou Santo Tomás de Aquino
Assim falou Santo Tomás de Aquino

Senhor que tens tido feito o nosso refúgio
Senhor que tens tido feito o nosso refúgio
Senhor que tens tido feito o nosso refúgio
Senhor que tens tido feito o nosso refúgio

Tomás responde: Os nomes que implicam relação com as criaturas são atribuídos a Deus em sentido temporal?

Parece que os nomes que implicam relação com as criaturas não são atribuídos a Deus em sentido temporal:

1. Com efeito, diz-se comumente que esses nomes significam a substância divina, o que leva Ambrósio a afirmar: “Este nome Senhor exprime o poder, que é em Deus sua substância; Criador significa a ação de Deus, que é sua essência”. Ora, a substância de Deus não é temporal, mas eterna. Logo, esses nomes não são atribuídos a Deus em sentido temporal, mas de eternidade.

2. Além disso, o que convém a algo em sentido temporal pode ser dito feito; assim, o que é branco, nesse sentido, foi feito branco. Ora, ser feito não convém a Deus. Logo, nada é atribuída a Deus em sentido temporal.

3. Ademais, se alguns nomes são atribuídos a Deus em sentido temporal, em razão da relação que implicam com as criaturas, o mesmo argumento valeria para todos os nomes que implicam uma relação com as criaturas. Ora, certos nomes que comportam uma relação com as criaturas são atribuídos a Deus em sentido de eternidade; assim, desde toda a eternidade Deus conhece e ama a criatura, segundo o texto de Jeremias: “Eu te amo com um amor eterno”. Logo, os outros nomes que implicam relação com as criaturas, como Senhor e Criador, são atribuídos a Deus em sentido de eternidade.

4. Ademais, esses nomes significam relação. Ou bem esta relação é algo em deus, ou apenas na criatura. Ora, ela não pode estar unicamente na criatura; pois, nesse caso, Deus seria chamado Senhor segundo a relação oposta, a que está nas criaturas. Ora, nada é designado por seu oposto. Logo, a relação tem de ser algo em Deus. Em Deus, porém, nada é temporal, pois Ele está acima do tempo. Logo, parece que esses nomes não são ditos de Deus em sentido temporal.

5. Ademais, o que se diz segundo uma relação é dito relativamente. Por exemplo, senhor diz-se segundo a relação de senhorio, como branco segundo a de brancura. Assim, se a relação de senhorio não está em Deus realmente, mas somente segundo a razão, segue-se que Deus não é realmente Senhor, o que é evidentemente falso.

6. Ademais, nos termos relativos que não são simultâneos por natureza, um pode existir sem que o outro exista; por exemplo, existe objeto cognoscível, mesmo que não haja conhecimento, como se diz no livro das Categorias. Ora, os termos relativos que se atribuem a Deus e à criatura não são simultâneos por natureza. Logo, pode-se atribuir algo de Deus com relação à criatura, ainda que a criatura não exista. E assim estes nomes: Senhor e Criador são atribuídos a Deus em sentido de eternidade e não em sentido temporal.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, Agostinho assegura que esta denominação relativa, Senhor, convém a Deus em sentido temporal.

Certos nomes que implicam relação com a criatura são atribuídos a Deus em sentido temporal e não de eternidade.

Para prová-lo, deve-se saber que alguns afirmaram que a relação não é algo real, mas apenas da razão. Ora, isso é falso, pois as coisas reais são naturalmente ordenadas e referidas umas às outras. No entanto, deve-se saber que, como a relação exige dois extremos, é de três maneiras diferentes que ela pode ser real ou de razão.

1. Às vezes, é de razão dos dois lados, quando só existe entre os dois termos uma ordem ou relação segundo a apreensão da razão. Por exemplo, quando dizemos que o mesmo é idêntico ao mesmo. Pois quando a razão apreende duas vezes algo único, ela o estabelece como se fossem dois; e assim apreende nele uma relação com ele mesmo. O mesmo acontece com todas as relações entre o ente e o não-ente que são formadas pela razão enquanto apreende o não-ente como termo de uma relação. O mesmo se deve dizer de todas as relações que resultam de um ato da razão, como entre gênero e espécie etc…

2. Certas relações são algo real em seus dois extremos: o que acontece quando há relação entre dois termos em razão de algo que convém realmente a um e a outro. Isto é claro com todas as relações resultantes da quantidade, como entre grande e pequeno, duplo, metade etc., pois a quantidade está em um e outro dos dois extremos. O mesmo acontece com as relações que resultam da ação e da paixão, como entre motor e móvel, pai e filho etc.

3. Às vezes, no entanto, a relação é algo real em um dos extremos, e no outro somente de razão. Isso acontece cada vez que os dois extremos não são da mesma ordem. Por exemplo, o sentido e o entendimento se referem ao sensível e ao cognoscível, que, enquanto são algo existente no ser natural, estão fora da ordem do ser sensível e inteligível. Eis por que existe na verdade uma relação real entre o entendimento e o sentido, um e outro ordenados a conhecer e sentir as coisas. Essas coisas, porém, consideradas em si mesmas, estão fora de tais ordens, por isso, nelas, não existe uma relação real com o entendimento e com o sentido, mas somente de razão, enquanto o intelecto apreende essas coisas como termos das relações do conhecimento e da sensação. Daí, assegurar o Filósofo, no livro V de Metafísica, que se essas realidades se encontram em relação, não é porque elas próprias se refiram a outras, e sim porque estas outras se referem a elas. Assim se diz que a coluna se encontra à direita unicamente porque se situa à direita do animal: daí que essa relação não é real, mas no animal.

Como Deus está fora de toda ordem das criaturas, e todas as criaturas se ordenam a Ele sem que a recíproca seja verdadeira, é evidente que as criaturas têm uma relação real com Deus. Em Deus, porém, não existe uma relação real com as criaturas, apenas uma relação de razão, uma vez que as criaturas são a Ele referidas. Assim, nada impede que esses nomes, implicando uma relação com as criaturas, sejam atribuídas a Deus em sentido temporal; não por causa de uma mudança em Deus, mas por causa de uma mudança da criatura. Como a coluna que se põe à direita do animal, excluída qualquer mudança nela, tendo o animal mudado de lugar.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. Certos termos relativos são empregados para significar as relações, como senhor, pai e filho e servo. São chamados relativos segundo o ser. Outros são empregados para significar coisas das quais resultam certas relações, como motor e movido, chefe e subordinado etc. São chamados relativos segundo a expressão. É preciso considerar essa distinção ao tratar dos nomes divinos, pois alguns deles significam a relação com a criatura, como Senhor. Esses não significam diretamente a substância divina, mas indiretamente, enquanto a pressupõem; como o senhorio pressupõe o poder, que é a substância divina. Outros nomes significam diretamente a essência divina, e, como consequência implicam uma relação, como Salvador, Criador etc., que significam uma ação de Deus que é sua essência. No entanto, esses dois nomes são atribuídos a Deus em sentido temporal, em razão da relação que implicam, seja de maneira principal, seja consequente; e não em razão de significarem a essência divina, direta ou indiretamente.

2. Como as relações atribuídas a Deus em sentido temporal não estão em Deus senão segundo a razão, assim ser feito ou ter sido feito somente são atribuídos a Deus, segundo a razão, excluída qualquer mudança em Deus, como diz o salmista: “Senhor, te fizeste nosso abrigo”.

3. A operação do intelecto e da vontade está no que conhece e no que ama. Eis por que os nomes que significam as relações consecutivas a esses atos são atribuídas a Deus em sentido de eternidade. Mas as relações consecutivas aos atos que, segundo nosso modo de compreender, estendem-se a efeitos exteriores a Deus, são atribuídas a Ele em sentido temporal, como Salvador, Criador etc.

4. As relações, significadas pelos nomes que são atribuídos a Deus em sentido temporal, estão em Deus apenas segundo a razão, ao passo que as relações opostas que estão nas criaturas são reais. E não há inconveniente em que Deus receba nomes tirados das relações que são reais na criatura, contanto que nosso intelecto as apreenda como relações opostas em Deus, de modo que Deus seja dito relativamente à criatura, pelo fato de que a criatura lhe é referida. Segundo o Filósofo, no livro V da Metafísica, o cognoscível é dito relativamente porque o entendimento se refere a ele.

5. Como Deus se refere à criatura pela mesma razão que a criatura a Ele se refere, e como a relação de sujeição é real na criatura, segue-se que Deus não é Senhor apenas segundo a razão, mas realmente. Pois de acordo com a maneira segundo a qual a criatura lhe está sujeita, Ele é chamado Senhor.

6. Para conhecer se termos relativos são simultâneos ou não por natureza, não se deve considerar a ordem das coisas a que se atribuem, mas o que significam esses termos relativos. Porque, se um inclui o outro em sua compreensão e reciprocamente, então tais termos são simultâneos por natureza, como duplo e metade, pai e filho etc. Porém, se um inclui o outro em sua compreensão sem que haja reciprocidade, eles não são simultâneos por natureza. É o caso do conhecimento e do objeto cognoscível. Pois o objeto cognoscível diz-se em potência, ao passo que o conhecimento em habitus ou em ato. Daí que, de acordo com a significação da palavra, o objeto cognoscível existe antes do conhecimento. Se se toma, porém, o objeto cognoscível em ato, ele existe simultaneamente com o conhecimento em ato. Pois algo só é conhecido se dele há conhecimento. Logo, ainda que Deus seja anterior às criaturas, como na significação de Senhor está incluído que tenha um servo, e reciprocamente, estes dois termos relativos são simultâneos por natureza. Assim, Deus não foi Senhor antes de contar com criaturas sujeitas a ele.

Suma Teológica I, q.13, a.7

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5 Responses to Só no Brasil mesmo, ou “Tomás responde: Os nomes que implicam relação com as criaturas são atribuídos a Deus em sentido temporal?”

  1. Pingback: Rock do Aquinate « Suma Teológica – Summae Theologiae

  2. Pe. Lúcio André Pereira says:

    Concordo com o Rodrigo. Genial!

  3. FANTÁSTICO! MUI AGRADECIDA EM MANTE-LO NO BLOG.

  4. Rodrigo says:

    Aliás, o seu blog é sensacional! Muito obrigado por colocá-lo e mantê-lo no ar!

  5. Rodrigo says:

    Jorge Ben Jor foi genial nessa criação. Muito obrigado por postá-la no blog. Abraços!

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