Outro diabo, outro aprendiz…

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                   Duccio di Buoninsegna (1260-1318), O Massacre dos Inocentes

                                                                                      ♣

Meu caro Giracuca,

Admirável! Você não apenas levou seu paciente a deitar-se com aquela moça desprezível com quem ele está namorando, mas ele até a engravidou! E o melhor de tudo: agora eles estão prestes a realizar um aborto.

Se você puder empurrá-los desse despenhadeiro, marcará três pontos a seu favor: duas almas destruídas parcialmente e um corpo destruído totalmente. Que perfeita paródia da “Sagrada Família” aqueles três são! Ah, fazemos bem em orgulharmo-nos do nosso trabalho, Giracuca – você por obedecer meu sábio conselho e eu por dá-lo.

O Comando Inferior coordenará seus esforços com os de Esmagalmo, designado para a garota, já que você pode pressioná-la de modo mais eficaz por meio dele. Eis algumas dicas:

Faça seu paciente pensar que ele está sendo “compassivo” quando se preocupa com ela no que diz respeito às consequências “inimagináveis” de levar a gravidez até o fim, seja ficando com o bebê, seja encaminhando-o para adoção. Faça-os prestar atenção aos fardos incluídos nas alternativas ao aborto, mas nunca ao aborto em si. Isso deve sempre aparecer como uma rota de fuga.

Faça-o exagerar, primeiro na própria mente e depois na dela, o estigma social que ela teme por uma gravidez fora do matrimônio – como se todos os amigos dela fossem vitorianos! E certifique-se de que ela considere psicologicamente impossível dar o bebê para adoção – como se os instintos maternais dela fossem muito fortes para que ela deixe o filho viver com qualquer outra pessoa, mas não tão fortes que a impeçam de matá-lo!

Acrescente os temores e as tolices bastante reais de um “casamento feito às pressas”. Mas não deixe que ela pense nas consequências do aborto tanto para ela como para o bebê: a culpa e a amargura, a insensibilidade, a perda da inocência, do idealismo e do romance, as memórias obsessivas que aparecerão em cada aniversário da morte do bebê.

Naturalmente, jamais deixe que nenhum deles use uma linguagem tão simples e honesta como essa. Certifique-se de que eles se sintam tão confortáveis em chamar a criança de “feto” e tão horrorizados em chama-la de bebê, que o realismo e a honestidade morram em suas almas antes que o bebê seja morto no útero.

E não se esqueça de exagerar os riscos médicos da gravidez e de minimizar os do aborto, particularmente a esterilidade e a frigidez frequentes. Nossos agentes têm escondido bem fatos como esses, apesar dos livros que os documentam, pois nós nos certificamos de que esses livros sejam divulgados e lidos apenas pelos já convertidos.

Faça-o levá-la a um daqueles “centros de aconselhamento para a gravidez”, que propagandeiam a “escolha”, mas que são verdadeiros alimentadores das nossas clínicas de aborto. Certifique-se de que eles não topem com uma daquelas armadilhas alternativas ao aborto como a Birthright. Elas são mais perigosas para a nossa causa do que todos os argumentos do mundo.

Então, você deve manter os fatos escondidos. Lembre-se sempre do primeiro princípio: Ofusque as Luzes. Faça que eles não pensem na simples e honesta pergunta a respeito da verdade objetiva, a pergunta sobre o que o aborto é e sobre o que é a “coisa” envenenada, queimada ou fatiada pelo aborto. JAMAIS DEIXE QUE ELES A CHAMEM DE “BEBÊ”!

 Você e pergunta: como? Eles sabem com certeza que se trata de um bebê. Sim, mas faça-os pensar que chamar essa coisa de bebê determinaria a questão (como de fato o faria) e fecharia todos os caminhos de “fuga” (aborto) e assim obscureceria a mente deles. Você pode até dar um jeito para que eles pensem que deixar um bebê vivo é algo tacanho; e assassiná-lo, uma atitude liberal. Leia mais deste post

A sexta via: Complexidade Irredutível

 

Assista também ao vídeo PERPLEXIDADE NA COMPLEXIDADE:

CRISTO RESSUSCITOU!

Ressurreicao

Pascoa_Texto_Papa

Os números de 2015

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

O Museu do Louvre, em Paris, é visitado todos os anos por 8.5 milhões de pessoas. Este blog foi visitado cerca de 170.000 vezes em 2015. Se fosse o Louvre, eram precisos 7 dias para todas essas pessoas o visitarem.

Clique aqui para ver o relatório completo

“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1, 14)

Obi-Wan_Aquino

FELIZ E SANTO NATAL A TODOS!

Tomás responde: A alma de Cristo foi sujeita à paixão?

James_Tissot_Jesus_chorouJames Tissot (1836-1902), Jesus Chorou (entre 1886-1894)

Parece que a alma de Cristo não foi sujeita à paixão:

  1. Com efeito, não se padece senão por ação do mais forte, pois o agente pode mais que o paciente, como ensinam Agostinho e Aristóteles. Ora, nenhuma criatura foi mais forte do que a alma de Cristo. Logo, a alma de Cristo não pôde padecer por parte de criatura alguma. Desta sorte, não esteve sujeita à paixão, pois se não podia sofrer por nenhuma causa, seria inútil nela a potência de padecer.
  2. Além disso, diz Túlio que as paixões da alma são “como enfermidades”. Ora, na alma de Cristo não houve qualquer enfermidade, pois a enfermidade da alma vem do pecado, conforme o Salmo 40: “Sara a minha alma porque pequei contra ti”. Logo, em Cristo não existiram paixões da alma.
  3. Ademais, parece que as paixões da alma são a mesma coisa que a inclinação ao pecado. Assim o Apóstolo, na Carta aos Romanos, as chama “paixões pecaminosas”. Ora, em Cristo não houve inclinação ao pecado, como antes foi dito. Logo, parece que nele não existiram as paixões da alma e, portanto, a alma de Cristo não foi sujeita à paixão.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, no Salmo 87, se diz da pessoa de Cristo: “Minha alma está repleta de males”, não de pecados, mas de males humanos, ou seja, “dores”, como a Glosa explica. Portanto, a alma de Cristo esteve sujeita à paixão.

tomas_respondoDe duas maneiras pode ser sujeita a paixões a alma unida ao corpo: ou pela paixão corporal ou pela paixão na própria alma. Sofre pela paixão corporal, por uma lesão no corpo. Com efeito, sendo a alma forma do corpo, segue-se que é um só o existir da alma e do corpo. Assim, conturbado o corpo por alguma paixão corporal, é necessário que a alma seja também conturbada por acidente, ou seja, quanto ao existir que possui no corpo. Portanto, como o corpo de Cristo foi sujeito a paixões e mortal, também sua alma necessariamente foi sujeita a paixões dessa maneira.

Diz-se que a alma sofre pela paixão na própria alma pela operação que é ou própria dela ou que é dela mais principalmente que do corpo. Embora se diga que a alma sofra algo segundo o entender e o sentir, no entanto, como na II Parte foi dito, chamam-se propriissimamente paixões da alma as afecções do apetite sensitivo, que existiram em Cristo, como tudo o mais que pertence à natureza do homem. Assim diz Agostinho: “O Senhor se dignou viver na forma de servo e humanamente disso se serviu, quando o julgou conveniente. Pois onde era verdadeiro o corpo do homem e verdadeira a alma do homem, o afeto humano não era falso”.

No entanto, deve-se saber que essas paixões existiram em Cristo de maneira diferente do que em nós quanto a três aspectos:

  1. Quanto ao objeto. Em nós essas paixões muitas vezes tendem a coisas ilícitas, o que não acontecia em Cristo.
  2. Quanto ao princípio. Em nós essas paixões antecedem frequentemente o juízo da razão; em Cristo, porém, todos os movimentos do apetite sensitivo eram orientados segundo a disposição da razão. Por isso diz Agostinho: “Esses movimentos, pela graça de uma disposição certíssima, Cristo acolheu quando quis na alma humana, assim como se fez homem quando quis”.
  3. Quanto ao efeito. Em nós esses movimentos algumas vezes não se detêm no apetite sensitivo, mas arrastam consigo a razão. Mas isso não sucedeu em Cristo, pois os movimentos que convinham naturalmente à carne humana de tal modo permaneciam, segundo sua disposição, no apetite sensitivo, que a razão não era, de maneira alguma, impedida de fazer o que era conveniente. Eis por que diz Jerônimo: “O Senhor nosso, para provar a verdade do homem que assumira, verdadeiramente se entristeceu; no entanto, como a paixão não dominava seu ânimo, se diz por uma paixão incoativa: ‘começou a entristecer-se’”, de modo que se entenda uma paixão perfeita quando é dominada pelo ânimo, isto é, pela razão; paixão incoativa quando começa no apetite sensitivo, mas não se estende além dele.

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Tomás responde: Deus se encarnou mais para remédio dos pecados atuais do que para remédio do pecado original?

Schnorr_von_Carolsfeld_Adao_Eva_ExpulsosJulius Schnorr von Carolsfeld (1794–1872), Adão e Eva expulsos do Paraíso (1851-1860)

Parece que Deus se encarnou mais para remédio dos pecados atuais do que pra remédio do pecado original:

  1. Com efeito, quanto mais é grave um pecado, tanto mais se opõe à salvação humana, para a qual Deus se encarnou. Ora, o pecado atual é mais grave do que o pecado original; pois, como Agostinho diz, ao pecado original se deve um castigo mínimo. Logo, a encarnação de Cristo ordena-se principalmente a apagar os pecados atuais.
  2. Além disso, ao pecado original não se deve a pena dos sentidos, mas somente a pena do dano, como acima foi estabelecido. Ora, Cristo veio sofrer a pena dos sentidos na cruz para satisfação dos pecados, mas não a pena do dano, pois não sofreu nenhuma diminuição da visão e fruição divinas. Logo, veio sobretudo para apagar o pecado atual mais do que o original.
  3. Ademais, diz Crisóstomo: “Este é o sentimento do servo fiel, a saber, considerar como concedidos somente a si os benefícios de seu senhor que são concedidos a todos. Como se falasse apenas de si, escreve Paulo aos Gálatas: ‘Amou-me e se entregou por mim’ (2, 20)”. Ora, os nossos próprios pecados são pecados atuais e, com efeito, o pecado original é um pecado comum. Logo, devemos sentir de tal modo que julguemos ter ele vindo por causa dos pecados atuais.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o Evangelho de João diz: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (1, 29).

tomas_respondoÉ certo que Cristo veio a esse mundo não só para apagar o pecado transmitido originalmente aos apóstolos, mas também para apagar todos os pecados que depois foram acrescentados. Não que todos efetivamente sejam apagados, em razão da deficiência dos homens que não aderem a Cristo, conforme o que diz o Evangelho de João: “A luz veio ao mundo e os homens preferiram as trevas à luz” (3, 19), mas porque ele realizou o que foi suficiente para apagar todos os pecados. Assim é dito na Carta aos Romanos: “Não acontece com o dom o mesmo que com a falta; pois, o julgamento de um só pecado terminou em condenação, enquanto a graça aplicada a numerosos pecados terminou em justificação” (5, 15-16).

Quanto maior é o pecado, com tanto maior razão Cristo veio para apagá-lo. Ora, algo se diz maior de duas maneiras: ou intensivamente, e assim é maior a brancura que é mais intensa. E desse modo o pecado atual é maior do que o original, porque participa mais da natureza do voluntário, como já foi dito na II Parte. De outra maneira, algo é dito maior extensivamente: como maior é a brancura que está numa superfície mais ampla. E desse modo o pecado original, pelo qual todo o gênero humano é atingido, é maior do que qualquer pecado atual próprio de uma pessoa singular. Sob esse aspecto, Cristo veio principalmente para apagar o pecado original: porque “o bem do povo é mais divino do que o de um só”, como se diz no livro I da Ética. Leia mais deste post

Tomás responde: Os homens são combatidos pelos demônios?

Juan_Manuel_Blanes_Demonio_mundo_y_carneJuan Manuel Blanes (1830-1901), “Demônio, Mundo e Carne” (1886)

Parece que os homens não são combatidos pelos demônios:

  1. Com efeito, os anjos, enviados por Deus, são delegados à guarda dos homens. Ora, os demônios não são enviados por Deus, pois sua intenção é perder as almas, enquanto a de Deus é salvá-las. Logo, os demônios não são delegados para combater os homens.
  2. Além disso, não é justa a condição de luta em que o fraco é exposto à guerra contra o forte, o incauto contra o astuto. Ora, os homens são fracos e incautos, enquanto os demônios são fortes e astutos. Logo, Deus, autor de toda justiça, não pode permitir que os homens sejam combatidos pelos demônios.
  3. Ademais, para o exercício dos homens, basta a luta da carne e do mundo. Ora, Deus permite que seus eleitos sejam combatidos para que se exercitem. Logo, não parece necessário que sejam combatidos pelos demônios.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz o Apóstolo na Carta aos Efésios: “Não é contra a carne e o sangue que lutamos, mas contra os Principados e Potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, os espíritos do mal que estão nos céus” (6, 12).

tomas_respondoA respeito dos combates dos demônios é preciso considerar duas coisas: o combate em si mesmo e sua ordem. O combate em si mesmo procede da maldade dos demônios, que por inveja se esforçam para impedir o progresso dos homens e por soberba usurpam a semelhança do poder divino, delegando determinados ministros para combater os homens, assim como os anjos servem a Deus em determinadas funções em prol da salvação dos homens. Todavia, a ordem desses combates é de Deus, que sabe usar com ordem dos males, ordenando-os para o bem. Quanto aos anjos, provêm de Deus, como de seu primeiro autor, tanto a guarda em si mesma como a ordem da guarda. Leia mais deste post

Tomás responde: O demônio, vencido por alguém, desiste de combatê-lo por isso?

Mihály Zichy_O_triunfo_do_genio_da_destruicaoMihály Zichy (1827-1906), O triunfo do gênio da destruição (1878)

Parece que o demônio, vencido por alguém, não desiste de combate-lo por isso:

  1. Com efeito, Cristo venceu seu tentador de modo muitíssimo eficaz. Ora, depois o combateu, incitando os judeus a que o matassem. Logo, não é verdade que, uma vez vencido, o demônio cesse de combater.
  2. Além disso, infligir uma pena a quem sucumbe no combate é incitá-lo para que lute mais fortemente. Ora, isso não condiz com a misericórdia de Deus. Logo, os demônios vencidos não desistem de combater.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz o Evangelho: “Então o diabo o deixou” (Mt 4, 11), isto é, a Cristo que o vencera.

tomas_respondoAlguns dizem que o demônio vencido não pode mais em seguida tentar homem algum, nem para o mesmo pecado, nem para outro. Outros dizem que pode tentar outros homens, mas não o mesmo. Essa opinião parece mais provável, se se entende que não pode até certo tempo. Por isso se diz no Evangelho de Lucas: “Acabada toda tentação, o diabo afastou-se dele até certo tempo” (4, 13). São duas as razões disso: primeiro, a clemência de Deus, porque, como diz Crisóstomo ao comentar Mateus, “o diabo não tenta o homem tanto quanto ele quer, mas quanto Deus lho permite. Se, portanto, Deus lhe permite tentar por um pouco, ele em seguida o afasta, por causa da fraqueza de nossa natureza”. Segundo, a astúcia do diabo. Por isso, Ambrósio, ao comentar Lucas, diz: “O diabo tem receio de insistir, porque evita ser vencido com frequência”. Que ele volte às vezes ao mesmo de quem se afastou resulta claramente do que diz o Evangelho de Mateus: “Vou tornar à minha morada de onde saí”.

Pelo que foi dito, está clara a resposta às objeções.

Suma Teológica I, q.114, a.5

Sexo no paraíso?

Adão_e_Eva_DürerParece que no estado de inocência não teria havido geração pela união carnal:

  1. Com efeito, como diz Damasceno, o primeiro homem estava no Paraíso terrestre “como um anjo”. Ora, no futuro estado da ressurreição, quando os homens serão semelhantes aos anjos, “nem casam, nem serão casados”, como se diz no Evangelho de Mateus (22, 30). Logo, nem no paraíso teria havido geração pela união carnal.
  2. Além disso, os primeiros seres humanos foram criados em idade adulta. Por conseguinte, se para eles a geração tivesse ocorrido antes do pecado pela união carnal, teria havido entre eles união carnal mesmo no Paraíso. Ora, a Escritura mostra que isso é falso.
  3. Ademais, na união carnal o homem se torna ao máximo semelhante aos animais, por causa da veemência do prazer, razão por que se faz o elogio da continência, pela qual os homens se abstêm de tais prazeres. Ora, o homem é comparado aos animais por causa do pecado, segundo o Salmo 48: “O homem não conheceu qual era sua dignidade, pareceu-se com os animais irracionais e se tornou igual a eles” (v.21). Logo, não teria havido união carnal do homem e da mulher antes do pecado.
  4. Ademais, no estado de inocência não teria havido nenhuma corrupção. Ora, pela união carnal há a corrupção da integridade virginal. Logo, não teria havido a união carnal no estado de inocência.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, antes do pecado Deus criou o homem e a mulher, como está dito no Gênesis. Ora, nada existe sem razão nas obras de Deus. Por conseguinte, mesmo se o homem não tivesse pecado, teria havido união carnal, para a qual está ordenada a distinção dos sexos.

Além disso, no Gênesis está escrito que a mulher foi feita para ajudar o homem. Essa ajuda não é destinada a nada mais que à geração, que se faz pela união carnal, pois para qualquer outra atividade o homem podia encontrar ajuda mais adaptada em outro homem e não na mulher. Por conseguinte, no estado de inocência a geração teria sido pela união carnal.

tomas_respondoAlguns entre os antigos doutores, considerando a fealdade na concupiscência que se constata, em nosso estado atual, na união carnal, afirmaram que no estado de inocência a geração não teria ocorrido pela união dos sexos. Assim Gregório de Nissa diz que no paraíso o gênero humano se teria multiplicado de outra maneira, como se multiplicaram os anjos, sem comércio carnal, por obra da potência divina. Diz que Deus tinha criado o homem e a mulher antes do pecado pensando na maneira de geração que deveria ocorrer depois do pecado, que Deus conhecia de antemão.

Mas isso não se diz de modo razoável. Com efeito, as coisas naturais ao homem não lhe são nem retiradas, nem concedidas pelo pecado. Ora, é claro que era natural ao homem, pela vida animal que tinha mesmo antes do pecado, como dito acima, gerar por união carnal, como é natural aos outros animais perfeitos. Manifestam isso os membros naturais destinados a esse uso. Portanto, não se pode dizer que antes do pecado esses membros naturais não teriam tido seu uso como os outros membros. Leia mais deste post

Tomás responde: Deus teria se encarnado, mesmo se o homem não tivesse pecado?

Caravaggio_Adoracao_PastoresCaravaggio, Adoração dos Pastores

Parece que se o homem não tivesse pecado, mesmo assim Deus teria se encarnado:

  1. Com efeito, se a causa permanece, também permanece o efeito. Ora, como Agostinho diz, “muitas outras coisas devem ser pensadas da encarnação de Cristo”, além da libertação do pecado, da qual se falou. Logo, mesmo que o homem não tivesse pecado, Deus teria e encarnado.
  2. Além disso, é próprio da onipotência do poder divino levar à perfeição suas obras e manifestar-se por algum efeito infinito. Mas nenhuma simples criatura pode ser chamada de efeito infinito sendo finita por essência. Com efeito, somente na obra da encarnação parece sobretudo manifestar-se o efeito do poder divino, na medida em que realidades infinitamente distantes se unem, pelo fato de homem ser Deus. Nessa obra o universo também atinge sua máxima perfeição no sentido de que a última das criaturas, o homem, se une ao primeiro princípio, a saber, Deus. Logo, mesmo que o homem não tivesse pecado Deus teria se encarnado.
  3. Ademais, pelo pecado a natureza humana não se tornou mais capaz de receber a graça. Ora, depois do pecado tornou-se capaz da graça da união, que é a maior de todas. Portanto, mesmo que o homem não pecasse, a natureza humana teria sido capaz dessa graça. E Deus não teria tirado da natureza humana um bem do qual era capaz. Logo, mesmo que o homem não tivesse pecado Deus se teria encarnado.
  4. Ademais, a predestinação de Deus é eterna. Ora, na Carta aos Romanos (1,4), se diz de Cristo que foi “estabelecido Filho de Deus com poder”. Logo, mesmo antes do pecado era necessário que o Filho de Deus se encarnasse para que fosse cumprida a predestinação de Deus.
  5. Ademais, o mistério da encarnação foi revelado ao primeiro homem, o que é evidente por ter ele dito: “Eis, desta vez, o osso dos meus ossos, etc….,” (Gn 2, 23) o que o Apóstolo, na Carta aos Efésios, chama “o grande sacramento no Cristo e na Igreja” (5, 32). Ora, o homem não podia conhecer com antecedência sua queda, nem o anjo, como o demonstra Agostinho. Logo, mesmo que o homem não pecasse Deus teria se encarnado.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, comentando o que diz o Evangelho de Lucas: “Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (19, 10), diz Agostinho, “se o homem não pecasse o Filho do Homem não teria vindo”. E onde se lê na primeira Carta a Timóteo: “Cristo veio a esse mundo para salvar os pecadores” (1, 15), a Glosa diz: “Não houve outra causa para a vinda do Cristo Senhor senão para salvar os pecadores. Tira as doenças, tira as feridas, e não há necessidade de remédio”.

tomas_respondoSobre essa questão há diversidade de opiniões. Alguns dizem que, mesmo que o homem não pecasse o Filho de Deus teria se encarnado. Outros afirmam o contrário, e é com essa opinião que convém concordar. Tudo o que provém somente da vontade de Deus, acima de qualquer direito da criatura, só o conhecemos pelo ensinamento da Sagrada Escritura, pela qual nos é dada a conhecer a vontade divina. Como porém na Sagrada Escritura o motivo da encarnação sempre é posto no pecado do primeiro homem, é mais correto dizer que a obra da encarnação foi ordenada por Deus para remédio do pecado, de sorte que, não havendo pecado, não haveria encarnação. No entanto, o poder de Deus não está limitado a essa condição: mesmo que não houvesse pecado, Deus poderia encarnar-se.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que: Leia mais deste post

Tomás responde: Era necessário que o Verbo de Deus se encarnasse para a restauração do gênero humano?

Gerard_van_Honthorst_Adoracao_Pastores

Parece que não era necessário que o Verbo de Deus se encarnasse para a restauração do gênero humano:

  1. Com efeito, o Verbo de Deus, sendo perfeitamente Deus, como foi visto na I Parte, não recebeu pela encarnação nenhum acréscimo a seu poder. Portanto, se o Verbo de Deus encarnado restaurou a natureza humana, poderia tê-la restaurado sem se encarnar.
  2. Além disso, para restaurar a natureza humana, decaída pelo pecado, não era necessário senão que o homem desse uma satisfação pelo pecado. Pois Deus não deve pedir ao homem mais do que ele pode fazer; e como é mais inclinado à misericórdia do que à punição, assim como responsabiliza o homem pelo ato do pecado, assim para apagar o pecado basta que lhe impute o ato contrário. Portanto, a encarnação do Verbo de Deus não era necessária para a restauração do gênero humano.
  3. Ademais, o principal para a salvação do homem é que reverencie a Deus; por isso, diz o profeta Malaquias: “Se sou o Senhor, onde está o respeito que me é devido? Se sou o Pai, onde está a honra que me é devida?” Ora, os homens têm mais reverência de Deus quando o consideram elevado sobre todas as coisas e distante do conhecimento humano; donde, está dito no Salmo 112: “O Senhor domina sobre todas as nações e sua glória está acima dos céus”; e acrescenta: “Quem é como o Senhor nosso Deus?”, o que faz parte da reverência. Logo, não convinha à salvação dos homens que Deus se tornasse semelhante a nós assumindo um corpo.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o que livra a raça humana da perdição é necessário para a salvação humana. Ora, tal é o mistério da encarnação divina, diz o Evangelho de João (3, 16): “Deus, com efeito, amou tanto o mundo que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça mas tenha a vida eterna.” Portanto, a encarnação de Deus foi necessária para a salvação humana.

tomas_respondoPara obter determinado fim, algo é necessário de duas maneiras: ou porque sem ele algo não pode existir, por exemplo, o alimento é necessário para a conservação da vida humana; ou porque com ele se chega ao fim de modo melhor e mais conveniente, por exemplo, o cavalo é necessário para viajar. Do primeiro modo, a encarnação de Deus não foi necessária para a restauração da natureza humana; por sua virtude onipotente Deus poderia restaurar a natureza humana de muitas outras maneiras. Mas, do segundo modo, era necessário que Deus se encarnasse para a restauração da natureza humana. Por isso, diz Agostinho: “Mostremos que a Deus, a cujo poder tudo está submetido, não faltou outro modo possível: mas que não havia outro modo mais conveniente para curar nossa miséria”.

O mesmo pode ser considerado sob o aspecto de nosso progresso no bem.

  1. Quanto à , que se torna mais certa se acreditarmos no próprio Deus que fala. Por isso, diz Agostinho: “Para que o homem caminhasse para a verdade com mais confiança, a própria Verdade, o Filho de Deus, tendo assumido a natureza humana, instituiu e fundou a fé”.
  2. Quanto à esperança, que assim se eleva ao máximo. Por isso, diz Agostinho: “Nada foi tão necessário para levantar nossa esperança do que nos ser mostrado o quanto Deus nos ama. E que indício mais manifesto disso do que se ter o Filho de Deus dignado associar-se à nossa natureza?”
  3. Quanto à caridade, que é assim mais despertada. Por isso, Agostinho diz: “Que maior razão houve da vinda do Senhor do que mostrar seu amor por nós?” E acrescenta: “Se éramos preguiçosos para amar, ao menos agora não o sejamos para retribuir o amor”.
  4. Quanto ao agir retamente, no que se fez nosso exemplo. Por isso, diz Agostinho num sermão sobre a Natividade do Senhor: “O homem, que podia ser visto, não devia ser seguido; Deus, que não podia ser visto, devia ser seguido. Portanto, para que fosse mostrado ao homem, para que fosse visto pelo homem e por ele seguido, Deus se fez homem”.
  5. Quanto à participação plena na divindade, que é a verdadeira bem-aventurança do homem e o fim da vida humana. E isso nos foi trazido pela humanidade de Cristo: com efeito, diz Agostinho em outro sermão sobre a Natividade do Senhor: “Deus se fez homem para que o homem fosse feito Deus”.

Do mesmo modo, a encarnação foi útil para afastar o mal. Leia mais deste post

Tomás responde: Foi conveniente que Deus se encarnasse?

Ticiano_Kirschen-MadonnaTiciano, Kirschen-Madonna (em alemão), cerca de 1516-1518, Kunsthistorisches Museum

Parece que não foi conveniente que Deus se encarnasse:

  1. Com efeito, sendo Deus eternamente a própria essência da bondade, o melhor é que ele seja assim como foi eternamente. Ora, Deus, desde toda a eternidade, foi sem nenhuma carne. Logo, é muito conveniente que ele não esteja unido à carne. Logo, não foi conveniente que Deus se encarnasse.
  2. Além disso, é inconveniente que se unam coisas que distam entre si infinitamente: assim como seria uma união inconveniente se alguém desenhasse uma imagem na qual, como disse Horácio, “uma cerviz de asno se unisse a uma cabeça humana”. Ora, Deus e o corpo distam infinitamente entre si, sendo Deus simplíssimo e o corpo, sobretudo o humano, composto. Logo, não foi conveniente que Deus se unisse à carne humana.
  3. Ademais, o corpo dista do espírito supremo como a malícia da suma bondade. Ora, seria totalmente inconveniente que Deus, que é a suma bondade, se unisse à malícia. Portanto, não foi conveniente que o espírito supremo incriado assumisse um corpo.
  4. Ademais, o que está acima das grandes coisas não convém que esteja contido numa coisa mínima; e que se volte para coisas pequenas aquele a quem compete o cuidado das coisas maiores. Ora, todo o universo não é bastante para conter a Deus, que tem cuidado do mundo todo. Logo, parece não convir “que se oculte sob o corpozinho de uma criança a vagir aquele diante do qual o universo é tido como pequeno; e que tanto tempo se ausente aquele Rei de seu trono e o governo de todo o mundo seja transferido para um pequeno corpo”, como Volusiano escreve a Agostinho.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, parece muito conveniente que as coisas invisíveis de Deus se manifestem pelas visíveis: para isso foi feito o mundo, como se vê pelo dito do Apóstolo na Carta aos Romanos (1,20): “Suas perfeições invisíveis… tornam-se visíveis para a inteligência em suas obras”. Ora, como Damasceno diz: pelo mistério da encarnação “mostram-se juntamente a bondade, a sabedoria, a justiça e o poder de Deus ou a virtude: a bondade, porque não desprezou a fraqueza de sua própria obra; a justiça, porque não faz vitorioso outro tirano nem liberta o homem do medo da morte pela violência; a sabedoria, porque encontra a solução mais bela para o problema mais difícil; o poder infinito, enfim, ou a virtude, porque nada há maior do que Deus fazer-se homem”. Logo, foi conveniente que Deus se encanasse.

tomas_respondoO que convém a cada coisa é o que lhe cabe segundo a razão de sua própria natureza; assim como ao homem convém raciocinar, pois isso lhe convém enquanto é racional segundo sua natureza. Ora, a natureza própria de Deus é a bondade, como Dionísio deixa claro. Logo, tudo o que pertence à razão do bem convém a Deus. Ora, pertence à razão do bem comunicar-se aos outros, como também deixa claro Dionísio. Donde é próprio da razão do sumo bem comunicar-se à criatura do modo mais excelente. O que é feito em grau sumo quando “une a si a natureza criada, de modo que resulte uma pessoa de três princípios, o Verbo, a alma e a carne”, como diz Agostinho. Logo, é claro que foi conveniente Deus se encarnar.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que: Leia mais deste post

Tomás responde: A morte e outras deficiências corporais são efeitos do pecado?

Parece que a morte e outras deficiências corporais não são efeitos do pecado:

  1. Com efeito, se a causa for igual, o efeito também será igual. Ora, estas deficiências não existem igualmente em todos, são mais abundantes em alguns, enquanto que o pecado original é igual em todos. É dele que estas deficiências parecem ser principalmente efeito. Portanto, elas não são efeitos do pecado.
  2. Além disso, removida a causa remove-se o efeito. Ora, removido todo pecado pelo batismo ou pela penitência não se removem tais efeitos. Logo eles não são efeitos do pecado.
  3. Ademais, há mais razão de culpa no pecado atual do que no pecado original. Ora, o pecado atual não muda em deficiências a natureza do corpo. Logo, muito menos o pecado original. Assim, a morte e outras deficiências do corpo não são efeitos do pecado.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o Apóstolo diz: “Por um só homem o pecado entrou neste mundo, e pelo pecado a morte”.

tomas_respondoUma coisa é causa de outra de duas maneiras: por si, ou por acidente. Ela é por si causa de uma outra quando é em virtude de sua natureza ou de sua forma que ela produz o efeito, donde se segue que o efeito é procurado por si pela causa. Portanto, como a morte e as tais deficiências estão fora da intenção do pecador, é claro que o pecado não é por si a causa dessas deficiências.

Acidentalmente uma coisa é causa de uma outra se ela remove o obstáculo. “Quem arranca a coluna, diz o livro VIII da Física, acidentalmente remove a pedra sobreposta”. É desta maneira que o pecado do primeiro pai é causa da morte e de todas as deficiências na natureza humana. Eis como: o pecado do primeiro pai suprimiu a justiça original, pela qual não somente as potências inferiores da alma estavam contidas sob a razão sem qualquer desordem, mas todo o corpo estava contido sob a alma sem nenhuma deficiência, como foi dito na I parte. Uma vez suprimida esta justiça original pelo pecado do primeiro pai, assim como a natureza humana foi ferida, quanto à alma, pela desordem das potências, assim também se tornou corruptível pela desordem do mesmo corpo. Leia mais deste post

Escolas católicas???

Sao_Joao_Batista_de_la_SalleEm 15 de maio de 1950, São João Batista de la Salle foi declarado patrono dos educadores pelo papa Pio XII

A esta altura, parece que a maioria que desembolsa as mensalidades nas escolas católicas é capaz de pautar os rumos dos nossos educadores, e os exames públicos unificados como o ENEM são capazes de nos dirigir ideologicamente para longe da reta razão e da sã doutrina católica

Por Paulo Vasconcelos Jacobina

Brasília, 15 de Outubro de 2015 (ZENIT.org)

Dois incidentes na educação dos meus filhos, ocorridos esta semana, merecem registro, porque evidenciam o tipo de insegurança a que estamos submetidos, nós, pais católicos com filhos matriculados em escolas católicas. Trata-se não somente do fato de que é muito difícil ser coerentemente cristão num mundo tão invadido por ideologias profundamente pagãs; vai mais além. Chega até o fato de que parecemos viver uma época em que mesmo quem se declara institucionalmente cristão, e se anuncia como educador católico, já não está mais seguro, e é incapaz de demonstrar publicamente, que vê os critérios católicos, as propostas católicas para o desenvolvimento humano como, de fato, verdadeiros e adequados. Ou que é viável, economicamente, academicamente e existencialmente, defendê-los.

Com isto, declaramos, nós católicos que temos responsabilidade com a educação de jovens (pais, professores, catequistas e sacerdotes) nossa rendição ao mundo do relativismo, que, na verdade, é o mundo do pensamento único, em que aquele que não concorda com o discurso academicamente hegemônico é tachado de “fóbico” e destroçado mediante táticas de propaganda e desmoralização pública. Já não vemos o Catecismo como seriamente defensável, ou a Bíblia (devidamente lida pelos olhos da Tradição e do Magistério) como uma proposta viável de desenvolvimento humano. A esta altura, a maioria pagã que desembolsa as mensalidades nas nossas escolas católicas é capaz de pautar os rumos dos nossos educadores, e os exames públicos unificados, como o ENEM, são capazes de nos dirigir ideologicamente de uma forma tão eficaz que o mero exercício de propor uma abordagem diversa daquela considerada “correta” pela pauta acadêmica contemporânea faz com que um pai se sinta como obsoleto, ultrapassado ou mesmo como verdadeiro obstáculo anacrônico no caminho do sucesso acadêmico dos filhos e da viabilidade financeira das escolas. Nem sequer se trata de exigir a coerência entre apresentar-se como educador católico e agir catolicamente – trata-se de nem sequer ser considerado quanto à possibilidade de promover um debate sério sobre estas questões que inclua as posições católicas dentre as consideráveis.

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Agora em português

Com meus agradecimentos ao amigo Zé Cláudio, que fez a tradução do texto em espanhol.

“Conceda um prazer a si mesmo”: os cinco remédios de Santo Tomás de Aquino contra a tristeza

Cerveja

Carlo de Marchi, vigário da região da região Centro-Sul da Itália, recompilou estas ideias de Santo Tomás em linguagem informal em um congresso em Florença.

Cada um de nós já atravessou dias tristes, dias nos quais não se consegue superar um certo peso interior que contamina o ânimo e dificulta as relações com os demais.

Existe algum truque para superar o mau humor e recuperar o sorriso? Santo Tomás de Aquino propõe cinco remédios de surpreendente eficácia contra a tristeza:

1. O primeiro remédio é conceder um prazer a si mesmo.

É como se o famoso teólogo tivesse intuído já há sete séculos a ideia, tão difundida hoje, de que o chocolate é antidepressivo. Talvez pareça uma ideia materialista, mas é evidente que uma jornada cheia de amarguras pode terminar bem com uma boa cerveja.

Que algo assim seja contrário ao Evangelho é dificilmente demonstrável: sabemos que o Senhor participava com gosto em banquetes e festas, e tanto antes como depois da Ressurreição desfrutou com gosto das coisas belas da vida.

Inclusive, um Salmo afirma que o vinho alegra o coração do home (apesar de que é preciso esclarecer que a Bíblia condena claramente as bebedeiras desregradas).

2. O segundo remédio é o pranto.

Muitas vezes, um momento de melancolia é mais duro se não se consegue encontrar uma via de escape, e parece como se a amargura se acumulasse até impedir de levar a cabo a menor tarefa. O pranto é uma linguagem, um modo de expressar e desfazer o nó de uma dor que às vezes nos pode asfixiar. Também Jesus chorou.

O Papa Francisco assinala que “certas realidades da vida se veem somente com olhos que tenham sido limpos pelas lágrimas. Convido a cada um de vocês a perguntar-se: eu aprendi a chorar?”

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Tomás responde: A estultice se opõe à sabedoria?

tomas_respondoA palavra stultitia (estultice) parece vir de stupor (estupor). Por isso Isidoro disse: “O estulto é aquele que, por estupor, não se mexe”. A estultice difere da fatuidade, como se diz no mesmo lugar, por comportar um embotamento do coração e obscurecimento dos sentidos, enquanto a fatuidade implica uma total privação de sentido espiritual. Por isso, é exato opor a estultice à sabedoria. “Com efeito, diz Isidoro, ‘sábio’ (sapiens) vem de sabor (sapor) porque, assim como o gosto é capaz de distinguir o sabor dos alimentos, assim também o sábio é capaz de discernir as realidades e as causas”. Por isso, é claro que a estultice se opõe à sabedoria como a eu contrário, enquanto a fatuidade se lhe opõe como sua pura negação. O fátuo é desprovido do sentido do julgamento; o estulto tem este sentido mas embotado, enquanto o sábio o tem sutil e penetrante.

Suma Teológica II-II Q46 A1

Momento patriótico

Dilma_vento

Não se preocupem os que acompanham este blog, ele continua sério. Apenas descontraindo um pouco.

Tomás responde: É permitido no comércio vender algo mais caro do que se comprou?

Santo_OmobonoSanto Omobono, padroeiro dos comerciantes

Parece que no comércio não é permitido vender algo mais caro do que se comprou:

  1. Com efeito, Crisóstomo declara: “Todo aquele que compra uma coisa, para revendê-la inteira e tal e qual a adquiriu, com o fito de obter lucro, é um daqueles vendilhões, expulsos do templo”. E comentando as palavras da Escritura: “Porque não sei escrever”, ou, segundo outra versão: “porque ignoro o comércio”. Cassiodoro diz o mesmo: “Que é o comércio, senão comprar mais barato e vender mais caro?”. E acrescenta: “Tais comerciantes, o Senhor os expulsou do templo”. Ora, ninguém é expulso do templo a não ser por algum pecado. Logo, tal comércio é pecado.
  2. Além disso, é contra a justiça vender algo mais caro ou comprá-lo mais barato do que vale, como já ficou elucidado. Ora, o comerciante que vende um objeto mais caro do que comprou, necessariamente ou o comprou mais barato ou o vende mais caro do que vale. Logo, não há como evitar o pecado.
  3. Ademais, Jerônimo escreve: “Do clérigo comerciante, que de pobre virou rico, de plebeu se fez nobre, foge como de uma peste”. Ora, a prática do comércio não teria sido proibida aos clérigos se não fosse pecado. Logo, no comércio, comprar mais barato e vender mais caro é pecado.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, comentando o texto do Salmo: “porque não sei escrever…” (70,15) Agostinho declara: “O negociante, na sua avidez de ganhar, blasfema quando perde, mente nos preços e perjura. Mas esses são vícios do homem, não da profissão, que se pode exercer sem eles”. Logo, negociar não é em si mesmo ilícito.

[Nota: A resposta começa lembrando a posição aristotélica: concebido em si mesmo, o negócio possui alguma coisa de “malsão” (quandam turpitudinem habet, que nosso texto traduz com mais elegância: “possui algo de vergonhoso”), pois não se relaciona a um fim honesto e necessário (= produção, transformação ou melhoria dos bens). Mas, em seguida, essa doutrina aristotélica é ultrapassada pela consideração do lucro como um objetivo, indiferente em si, mas capaz de subordinar-se às finalidades mais necessárias: ao bem da família, à utilidade social ou como uma recompensa do trabalho despendido. Uma tal justificação do comércio lucrativo vai no sentido dos títulos de legitimação da propriedade propostos em II-II, q.66, a.2. O interesse particular, a busca do lucro são aceitos, reconhecidos até como indispensáveis à produção dos bens necessários; mas, ao mesmo tempo, exige-se que não sejam “fins últimos”, que subordinem-se aos objetivos da justiça e da solidariedade, para não incorrer nos vícios da acumulação de riquezas e da avareza. As posições aqui ilustradas parecem resultar de uma atenção do teólogo ao desenvolvimento comercial de seu tempo, e à prática das pessoas honestas que se dedicam cada vez mais, em boa consciência, aos ofícios lucrativos.]

tomas_respondoÉ próprio dos negociantes praticar a comutação dos bens. Ora, como explica o Filósofo, há duas sortes de comutações. Uma, como que natural e necessária, em que se troca uma coisa por outra, ou uma coisa por dinheiro, para satisfazer às necessidades da vida. Esse tipo de comutações não é próprio dos negociantes, mas dos chefes da casa ou da cidade, os quais devem prover a família ou a população, das coisas necessárias à vida. Outra espécie de comutação é a de dinheiro, ou de quaisquer objetos por dinheiro, não pelas necessidades da vida, mas em vista do lucro E tal é o negócio que pertence propriamente aos negociantes. Segundo o Filósofo, a primeira espécie de troca é louvável, pois está a serviço de uma necessidade natural. A segunda, porém, é reprovada com justiça, porque, de si mesma, fomenta a cobiça do lucro, que não conhece limite, mas tende ao infinito. Por isso, o comércio encarado em si mesmo, possui algo vergonhoso, pois, por sua natureza, não visa nenhum fim honesto ou necessário. Leia mais deste post

Tomás responde: Devem-se suportar os insultos proferidos contra si?

RP-P-1896-A-19368-2221James, bispo de Nische, hostilizado por três meninas, Caspar Luyken, Christoph Weigel, 1704

 Parece que não se devem suportar os insultos proferidos contra si:

  1. Com efeito, quem suporta os insultos encoraja a audácia do injuriante. Ora, isso não deve ser feito. Logo, em vez de suportar, é melhor revidar os insultos.
  2. Além disso, deve-se amar a si mesmo mais que a outrem. Ora, não se deve deixar insultar a outrem; como se diz no livro dos Provérbios: “Quem impõe silêncio ao insensato aplaca as cóleras” (26, 10). Logo, não se devem suportar os insultos feitos a si mesmo.
  3. Ademais, ninguém tem o direito de se vingar a si mesmo, conforme está dito na Carta aos Hebreus: “A mim a vingança! Sou eu que retribuirei”. Ora, é uma vingança não resistir aos insultos, pois Crisóstomo declara: “Se queres vingar-te, guarda o silêncio, e lhe darás assim um golpe fatal”. Logo, não se deve guardar silêncio e aguentar os dizeres insultuosos, mas, antes, dar-lhes réplica.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, está escrito no Salmo: “Os que buscam minha desgraça, espalham mentiras;” E a seguir: “Sou como um mudo que não abre a boca” (37, 13-14).

tomas_respondoA paciência é necessária para suportar tanto as ações quanto as palavras que nos ofendem. Mas, os preceitos que recomendam a paciência contra as ofensas visam estabelecer uma disposição habitual da alma. O mandamento do Sermão sobre a Montanha: “Se alguém te esbofetear na face direita oferece-lhe também a outra”, é assim comentado por Agostinho: “Deve-se estar preparado para praticá-lo, se necessário. Mas não se está obrigado a agir assim efetivamente, pois o próprio Senhor não o fez. Quando recebeu uma bofetada, perguntou: Por que me feres?” É o que se lê no Evangelho de João. De igual maneira, no que toca às palavras injuriosas proferidas contra nós, devemos ter o ânimo preparado para suportar as ofensas, se for conveniente. Mas em certos casos devemos repelir os insultos, sobretudo por duas razões. Leia mais deste post

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