Chestertoninas: Sobre credos e dogmas

Em verdade, isto ilustra vivamente a estupidez provinciana dos que fazem objeção ao que eles chamam “credos e dogmas”. Foi precisamente o credo e o dogma o que salvou a saúde moral do mundo. Essas pessoas propõem, em geral, uma religião alternativa de intuição e de sentimento. Se na era realmente das trevas tivesse havido uma religião de sentimento, teria sido de sentimento negro e suicida. Foi o credo rígido que resistiu ao ímpeto desse sentimento suicida. Os críticos do ascetismo têm talvez razão quando supõem que muitos eremitas ocidentais se sentiam muito semelhantes a faquires orientais. Mas o que não podiam era pensar como faquires orientais, por serem católicos ortodoxos. E só o dogma manteve o seu pensamento em contato com um pensamento mais saudável e humano. Não podiam negar que um Deus bom criara um mundo normal e natural; e não podiam dizer que o demônio fizera o mundo, porque não eram maniqueus.

Milhares de entusiastas do celibato, na era da grande corrida para o deserto ou para o claustro, poderiam ter chamado pecado ao casamento, se considerassem somente os seus ideais individuais, à moda moderna, e os seus sentimentos imediatos a respeito do casamento. Felizmente, tinham de aceitar a autoridade da Igreja, que definira não ser pecado o casamento. Uma religião moderna e emotiva poderia, em um momento, ter transformado o Catolicismo no maniqueísmo. Mas, ainda que o sentimento religioso tornasse os homens loucos, lá estava a teologia para os curar.

Neste sentido é que surge Santo Tomás como o grande teólogo ortodoxo, que recordou aos homens a doutrina da criação, quando muitos deles se inclinavam ainda para o pessimismo e a destruição. É ridículo que os críticos do medievalismo citem uma centena de frases medievais, que parecem tocadas de simples pessimismo, sem no entanto compreender o fato central: que os homens medievais não se importavam com ser antigos ou modernos e não aceitavam a autoridade de uma disposição por ela ser melancólica, mas importavam-se muitíssimo com a ortodoxia, que não é uma disposição ou inclinação.

G. K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Igreja, ortodoxia

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