Chesterton e o “casamento gay”

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Um dos temas prementes na época de Chesterton era o “controle de natalidade”. Ele não fazia objeção apenas à ideia, mas ao próprio termo, porque significava o oposto do que queria dizer. Não significava nem natalidade, nem controle. Posso supor que ele teria as mesmas objeções contra o “casamento gay”. Não só a ideia, como também o nome está errado: o “casamento gay” não é gay, no sentido original do termo, nem é casamento.

Chesterton era sempre sensato em seus pronunciamentos e profecias porque entendia que qualquer coisa que atacasse a família era ruim para a sociedade. Foi por isso que ele falou contra a eugenia e a contracepção, contra o divórcio e o “amor livre” (outro termo que ele rejeitava por sua falsidade), mas também contra a escravidão assalariada e a educação estatal compulsória, com mães contratando outras pessoas para fazer o que elas foram designadas para fazer por si mesmas. É seguro dizer que Chesterton se levantou contra toda moda e tendência que hoje nos aflige porque cada uma dessas modas e tendências minava a família. Um Estado intervencionista (Big Government) tenta substituir a autoridade da família, e um Mercado dominador (Big Business) tenta substituir a sua autonomia. Há uma constante pressão comercial e cultural sobre o pai, a mãe e os filhos. Eles são minimizados, marginalizados e, sim, ridicularizados. Mas, como diz Chesterton, “esse triângulo de truísmos — pai, mãe e filho — não pode ser destruído; só se destroem as civilizações que o desprezam”.

A legalização das uniões homossexuais não é nem o último nem o pior ataque à família, mas tem um valor impressivo, apesar do processo de dessensibilização em que nos colocaram as indústrias de informação e entretenimento ao longo dos últimos anos. Quem tenta protestar contra a normalização do anormal é recebido “ou com ataques ou com o silêncio” — assim como Chesterton, quando ele tentou argumentar contra as novas filosofias promovidas pela maior parte dos jornais de sua época. Em 1926, ele alertou: “A próxima grande heresia será um ataque à moralidade, especialmente à moral sexual”. Seu aviso passou desapercebido, enquanto a moral sexual decaía progressivamente. Mas vamos nos lembrar que tudo começou com o controle da natalidade, que é uma tentativa de viver o sexo por ele mesmo, transformando um ato de amor em um ato de egoísmo. A promoção e a aceitação do sexo sem vida, estéril e egoísta evoluiu, logicamente, para a homossexualidade.

Chesterton mostra que o problema da homossexualidade como inimiga da civilização é bem antigo. Em O Homem Eterno, ele descreve que o culto à natureza e a “simples mitologia” produziram uma perversão entre os gregos. “Da mesma forma que eles se tornaram inaturais adorando a natureza, assim eles de fato se tornaram efeminados adorando o homem”. Qualquer jovem, ele diz, “que teve a sorte de crescer de modo sensato e simples” sente um repúdio natural pela homossexualidade porque “ela não é verdadeira nem para a natureza humana, nem para o senso comum”. Ele argumenta que, se tentarmos agir indiferentemente em relação a ela, estaremos nos enganando a nós mesmos. É “a ilusão da familiaridade” quando “uma perversão se torna uma convenção”.

Em Hereges, Chesterton quase faz uma profecia sobre o abuso da palavra “gay”. Ele escreve sobre a “poderosa e infeliz filosofia de Oscar Wilde”, “a religião do carpe diem“. Carpe diem significa “aproveite o dia”, faça o que quiser, sem pensar nas consequências, viva apenas pelo momento. “No entanto, a religião do carpe diem não é a religião das pessoas felizes, mas a das absolutamente infelizes”. Há um desespero bem como um infortúnio ligado a isso. Quando o sexo é apenas um prazer momentâneo, quando não oferece nada além de si mesmo, ele não traz nenhuma satisfação. É literalmente sem vida. E, como Chesterton escreve em seu livro São Francisco de Assis,“no momento em que o sexo deixa de ser um servo, ele se torna um tirano”. Essa é talvez a mais profunda análise do problema dos homossexuais: eles são escravos do sexo. Estão tentando “perverter o futuro e desfazer o passado”. Eles precisam ser libertados.

O pecado tem consequências. Ainda assim, Chesterton sempre sustenta que devemos condenar o pecado, não o pecador. E ninguém mostra mais compaixão pelos decaídos do que ele. Sobre Oscar Wilde, que ele chama de “o chefe dos decadentes”, Chesterton diz que ele cometeu um “erro monstruoso”, mas também sofreu monstruosamente por isso, indo para uma terrível prisão, onde ele foi esquecido por todas as pessoas que antes tinham brindado a sua rebeldia impulsiva. “A vida dele foi completa, naquele sentido inspirador em que a minha vida e a sua são incompletas, já que nós ainda não pagamos por nossos pecados. Nesse sentido, podemos chamar a vida dele de perfeita, assim como falamos de uma equação perfeita, que é neutralizada. De um lado, nós temos o saudável horror ao mal; de outro, o saudável horror à punição”.

Chesterton se referia ao comportamento homossexual de Wilde como um pecado “altamente civilizado”, por ser uma das piores aflições entre as classes ricas e ilustradas. Era um pecado ao qual Chesterton nunca havia sido tentado, e ele diz que não é uma grande virtude nunca termos cometido um pecado ao qual não fomos tentados. Outra razão pela qual devemos tratar nossos irmãos e irmãs homossexuais com compaixão. Nós conhecemos nossos próprios pecados e fraquezas o suficiente. Fílon de Alexandria dizia: “Seja gentil, pois todos à sua volta estão lutando uma batalha terrível”.

Compaixão, contudo, não significa jamais compromisso com o mal. Chesterton ressalta aquele equilíbrio pelo qual nossa verdade não deve ser desprovida de piedade, nem a nossa compaixão deve ser separada da verdade. A homossexualidade é uma desordem. É contrária à ordem. Os atos homossexuais são pecaminosos, ou seja, são contrários à ordem de Deus. Eles jamais poderão ser normais. Pior ainda, jamais sequer poderão ser vividos normalmente. Como diz o grande detetive Padre Brown: “Os homens até podem se manter em um nível razoável de bondade, mas ninguém jamais foi capaz de permanecer em um nível de maldade. Essa estrada conduz ao fundo do abismo”.

O matrimônio é entre um homem e uma mulher. Essa é a ordem. E a Igreja Católica ensina que essa é uma ordem sacramental, com implicações divinas. O mundo tem feito uma sátira do casamento que agora culminou com as uniões homossexuais. Mas foram os homens e as mulheres heterossexuais que pavimentaram o caminho para essa decadência. O divórcio, que é algo anormal, é agora tratado como normal. A contracepção, outra coisa anormal, é agora tratada como normal. O aborto ainda não é normal, ainda que seja legal. Legalizar o “casamento” homossexual não o tornará normal, só vai aumentar ainda mais a confusão dos tempos e a decadência da nossa civilização. Mas a profecia de Chesterton permanece: não seremos capazes de destruir a família. Ao desprezá-la, o que vamos fazer é simplesmente destruir-nos a nós mesmos.

Fonte: Crisis Magazine | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

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CRISTO RESSUSCITOU!

Ressurreicao

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Os números de 2015

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

O Museu do Louvre, em Paris, é visitado todos os anos por 8.5 milhões de pessoas. Este blog foi visitado cerca de 170.000 vezes em 2015. Se fosse o Louvre, eram precisos 7 dias para todas essas pessoas o visitarem.

Clique aqui para ver o relatório completo

Chestertoninas: O homem das cavernas

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Esse aposento secreto de rocha, ao ser iluminado depois de sua longa noite de séculos incontáveis, revelou em suas paredes enormes e alastrados contornos feitos dom argila de várias cores; e, quando os visitantes acompanharam suas linhas, reconheceram, através daquele vasto vão de séculos, o movimento e o gesto de uma mão humana. Eram desenhos ou pinturas de animais; e foram desenhados ou pintados não apenas por um homem, mas por um artista. Apesar de todas as limitações possíveis, eles exibiam o amor pelo traço grande e curvo ou longo e ondulado que qualquer um que já desenhou ou tentou desenhar há de reconhecer; e a respeito desse traço nenhum artista aceitará ser contestado por nenhum cientista. Os desenhos mostravam o espírito experimental e aventureiro do artista, o espírito que em vez de evitar, tenta o que é difícil; como no ponto onde o desenhista havia representado o movimento da rena ao virar completamente a cabeça para farejar a própria cauda, ação bastante comum no cavalo. Mas há muitos modernos pintores de animais para quem representar essa cena seria uma tarefa bastante difícil. Nesse e em outros vinte detalhes fica claro que o artista havia observado os animais com certo interesse e presumivelmente com certo prazer. Nesse sentido pareceria que ele não era apenas um artista, mas também um naturalista; o tipo de naturalista que é realmente natural.

Sendo assim, nem é preciso observar, a não ser de passagem, que não há absolutamente nada na atmosfera das cavernas que sugira a atmosfera sombria e pessimista das cavernas dos ventos dos jornais, vociferando e soprando ao nosso redor com inúmeros ecos a respeito do homem das cavernas. Na medida em que algum caráter humano pode ser sugerido por esses traços, esse caráter humano é muito humano e até mesmo humanitário. Certamente não se trata do ideal de um caráter desumano, como a abstração invocada na ciência popular. Quando romancistas educadores e psicólogos de todos os tipos falam do homem das cavernas, eles nunca o imaginam em conexão com coisa alguma que de fato está na caverna. Quando o realista de romances de sexo escreve “Rubras faíscas dançavam no cérebro de Dagmar Pinto; ele sentia o espírito do homem das cavernas crescendo dentro dele”, os leitores do romancista se sentiriam muito decepcionados se Dagmar apenas sumisse e fosse desenhar enormes vacas na parede da sala de visitas. Quando o psicanalista escreve a um paciente “Os instintos submersos do homem das cavernas sem dúvida estão estimulando você a satisfazer um impulso violento”, ele não está se referindo ao impulso de pintar uma aquarela; ou de fazer estudos introspectivos sobre como o gado mexe a cabeça quando está pastando. No entanto, nós temos provas de que o homem das cavernas de fato fazia essas coisas meigas e inocentes; e não temos o menor sinal de evidência de que ele praticasse alguma dessas atividades violentas e ferozes. Em outras palavras, o homem das cavernas tal e qual ele nos é comumente apresentado é apenas um mito, ou melhor, mera confusão; pois um mito tem no mínimo um esquema imaginativo de verdade. Toda essa maneira atual de falar é simplesmente uma confusão e um mal-entendido, que não se funda em nenhuma espécie de evidência científica e é apreciado apenas como desculpa para um estado de espírito anarquista que é muito moderno. Se algum cavalheiro quer bater numa mulher, ele sem dúvida pode ser um grosseirão sem denegrir o caráter do homem das cavernas, acerca do qual não sabemos quase nada a não ser o que se consegue deduzir de algumas inofensivas e agradáveis pinturas numa parede.

G. K. Chesterton, O Homem Eterno

Chestertoninas: Evolução

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A maioria das modernas histórias da humanidade começa com a palavra evolução, e com muita exposição bastante prolixa da evolução, em grande parte pelo mesmo motivo operante nesse caso. Há algo lento e reconfortante e gradual envolvendo essa palavra e mesmo essa ideia. Na realidade, não se trata, com respeito a essas coisas primárias, de uma palavra muito prática ou de uma ideia muito proveitosa. Ninguém se aproxima nem sequer um centímetro disso mediante a explicação de como alguma coisa poderia se transformar em alguma outra coisa. É de fato muito mais lógico começar dizendo “No começo Deus criou o céu e a terra”, mesmo que se só se queira dizer “No começo algum poder inimaginável começou algum processo inimaginável”. Pois Deus é por natureza um nome misterioso, e ninguém jamais supôs que o homem pudesse imaginar como o mundo foi criado e muito menos que ele pudesse criar um mundo. Mas de fato a evolução é erroneamente tomada como uma explicação. Ela tem o condão fatal de deixar em muitas mentes a impressão de que elas a entendem e entendem todo o resto; da mesma forma que muitos alimentam a falsa impressão de que leram A origem das espécies.

Mas essa noção de algo suave e lento, como a subida de uma encosta, constitui grande parte da ilusão. É absurdo assim como ilusório, pois a lentidão nada tem a ver com o caso. Um acontecimento não é nem um pouco intrinsecamente mais inteligível ou ininteligível devido ao ritmo em que se desenrola. Para uma pessoa que não acredita em milagres, um milagre lento seria exatamente tão inacreditável quanto um rápido. É possível que a bruxa grega tenha transformado marinheiros em porcos com um toque de vara de condão. Mas ver um general da marinha de nosso círculo de conhecidos parecendo-se cada dia mais com um suíno, até acabar com quatro pés de porco e um rabinho enrolado, já seria motivo de preocupação. Poderia sim ser uma experiência mais misteriosa capaz de causar arrepios. É possível que o bruxo medieval tenha voado pelos ares saltando de uma torre; mas com certeza um cavalheiro idoso caminhando pelos ares, num passeio tranquilo e despreocupado, aparentemente ainda exigiria alguma explicação. No entanto, perpassa todo o tratamento racionalista da história essa ideia curiosa e confusa de que a dificuldade é evitada, ou até mesmo o mistério é eliminado, pela consideração da simples protelação ou de algo que retarde o processo das coisas. Haverá mais a dizer sobre exemplos particulares em outras partes do livro; a questão aqui é a falsa atmosfera de facilidade e despreocupação conferida pela mera sugestão de ir devagar;  tipo de conforto que se pode dar a uma nervosa senhora de idade viajando de carro pela primeira vez.

G. K.Chesterton, O Homem Eterno

“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1, 14)

Obi-Wan_Aquino

FELIZ E SANTO NATAL A TODOS!

Tomás responde: A alma de Cristo foi sujeita à paixão?

James_Tissot_Jesus_chorouJames Tissot (1836-1902), Jesus Chorou (entre 1886-1894)

Parece que a alma de Cristo não foi sujeita à paixão:

  1. Com efeito, não se padece senão por ação do mais forte, pois o agente pode mais que o paciente, como ensinam Agostinho e Aristóteles. Ora, nenhuma criatura foi mais forte do que a alma de Cristo. Logo, a alma de Cristo não pôde padecer por parte de criatura alguma. Desta sorte, não esteve sujeita à paixão, pois se não podia sofrer por nenhuma causa, seria inútil nela a potência de padecer.
  2. Além disso, diz Túlio que as paixões da alma são “como enfermidades”. Ora, na alma de Cristo não houve qualquer enfermidade, pois a enfermidade da alma vem do pecado, conforme o Salmo 40: “Sara a minha alma porque pequei contra ti”. Logo, em Cristo não existiram paixões da alma.
  3. Ademais, parece que as paixões da alma são a mesma coisa que a inclinação ao pecado. Assim o Apóstolo, na Carta aos Romanos, as chama “paixões pecaminosas”. Ora, em Cristo não houve inclinação ao pecado, como antes foi dito. Logo, parece que nele não existiram as paixões da alma e, portanto, a alma de Cristo não foi sujeita à paixão.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, no Salmo 87, se diz da pessoa de Cristo: “Minha alma está repleta de males”, não de pecados, mas de males humanos, ou seja, “dores”, como a Glosa explica. Portanto, a alma de Cristo esteve sujeita à paixão.

tomas_respondoDe duas maneiras pode ser sujeita a paixões a alma unida ao corpo: ou pela paixão corporal ou pela paixão na própria alma. Sofre pela paixão corporal, por uma lesão no corpo. Com efeito, sendo a alma forma do corpo, segue-se que é um só o existir da alma e do corpo. Assim, conturbado o corpo por alguma paixão corporal, é necessário que a alma seja também conturbada por acidente, ou seja, quanto ao existir que possui no corpo. Portanto, como o corpo de Cristo foi sujeito a paixões e mortal, também sua alma necessariamente foi sujeita a paixões dessa maneira.

Diz-se que a alma sofre pela paixão na própria alma pela operação que é ou própria dela ou que é dela mais principalmente que do corpo. Embora se diga que a alma sofra algo segundo o entender e o sentir, no entanto, como na II Parte foi dito, chamam-se propriissimamente paixões da alma as afecções do apetite sensitivo, que existiram em Cristo, como tudo o mais que pertence à natureza do homem. Assim diz Agostinho: “O Senhor se dignou viver na forma de servo e humanamente disso se serviu, quando o julgou conveniente. Pois onde era verdadeiro o corpo do homem e verdadeira a alma do homem, o afeto humano não era falso”.

No entanto, deve-se saber que essas paixões existiram em Cristo de maneira diferente do que em nós quanto a três aspectos:

  1. Quanto ao objeto. Em nós essas paixões muitas vezes tendem a coisas ilícitas, o que não acontecia em Cristo.
  2. Quanto ao princípio. Em nós essas paixões antecedem frequentemente o juízo da razão; em Cristo, porém, todos os movimentos do apetite sensitivo eram orientados segundo a disposição da razão. Por isso diz Agostinho: “Esses movimentos, pela graça de uma disposição certíssima, Cristo acolheu quando quis na alma humana, assim como se fez homem quando quis”.
  3. Quanto ao efeito. Em nós esses movimentos algumas vezes não se detêm no apetite sensitivo, mas arrastam consigo a razão. Mas isso não sucedeu em Cristo, pois os movimentos que convinham naturalmente à carne humana de tal modo permaneciam, segundo sua disposição, no apetite sensitivo, que a razão não era, de maneira alguma, impedida de fazer o que era conveniente. Eis por que diz Jerônimo: “O Senhor nosso, para provar a verdade do homem que assumira, verdadeiramente se entristeceu; no entanto, como a paixão não dominava seu ânimo, se diz por uma paixão incoativa: ‘começou a entristecer-se’”, de modo que se entenda uma paixão perfeita quando é dominada pelo ânimo, isto é, pela razão; paixão incoativa quando começa no apetite sensitivo, mas não se estende além dele.

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Tomás responde: Deus se encarnou mais para remédio dos pecados atuais do que para remédio do pecado original?

Schnorr_von_Carolsfeld_Adao_Eva_ExpulsosJulius Schnorr von Carolsfeld (1794–1872), Adão e Eva expulsos do Paraíso (1851-1860)

Parece que Deus se encarnou mais para remédio dos pecados atuais do que pra remédio do pecado original:

  1. Com efeito, quanto mais é grave um pecado, tanto mais se opõe à salvação humana, para a qual Deus se encarnou. Ora, o pecado atual é mais grave do que o pecado original; pois, como Agostinho diz, ao pecado original se deve um castigo mínimo. Logo, a encarnação de Cristo ordena-se principalmente a apagar os pecados atuais.
  2. Além disso, ao pecado original não se deve a pena dos sentidos, mas somente a pena do dano, como acima foi estabelecido. Ora, Cristo veio sofrer a pena dos sentidos na cruz para satisfação dos pecados, mas não a pena do dano, pois não sofreu nenhuma diminuição da visão e fruição divinas. Logo, veio sobretudo para apagar o pecado atual mais do que o original.
  3. Ademais, diz Crisóstomo: “Este é o sentimento do servo fiel, a saber, considerar como concedidos somente a si os benefícios de seu senhor que são concedidos a todos. Como se falasse apenas de si, escreve Paulo aos Gálatas: ‘Amou-me e se entregou por mim’ (2, 20)”. Ora, os nossos próprios pecados são pecados atuais e, com efeito, o pecado original é um pecado comum. Logo, devemos sentir de tal modo que julguemos ter ele vindo por causa dos pecados atuais.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o Evangelho de João diz: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (1, 29).

tomas_respondoÉ certo que Cristo veio a esse mundo não só para apagar o pecado transmitido originalmente aos apóstolos, mas também para apagar todos os pecados que depois foram acrescentados. Não que todos efetivamente sejam apagados, em razão da deficiência dos homens que não aderem a Cristo, conforme o que diz o Evangelho de João: “A luz veio ao mundo e os homens preferiram as trevas à luz” (3, 19), mas porque ele realizou o que foi suficiente para apagar todos os pecados. Assim é dito na Carta aos Romanos: “Não acontece com o dom o mesmo que com a falta; pois, o julgamento de um só pecado terminou em condenação, enquanto a graça aplicada a numerosos pecados terminou em justificação” (5, 15-16).

Quanto maior é o pecado, com tanto maior razão Cristo veio para apagá-lo. Ora, algo se diz maior de duas maneiras: ou intensivamente, e assim é maior a brancura que é mais intensa. E desse modo o pecado atual é maior do que o original, porque participa mais da natureza do voluntário, como já foi dito na II Parte. De outra maneira, algo é dito maior extensivamente: como maior é a brancura que está numa superfície mais ampla. E desse modo o pecado original, pelo qual todo o gênero humano é atingido, é maior do que qualquer pecado atual próprio de uma pessoa singular. Sob esse aspecto, Cristo veio principalmente para apagar o pecado original: porque “o bem do povo é mais divino do que o de um só”, como se diz no livro I da Ética. Leia mais deste post

Torneio de combate medieval

Combate Medieval, anúncio, agosto 2015, Argentina

Foi-se o tempo em que a máxima desqualificação de algo consistia em dizer que era “medieval”. Essa visualização mudou 180º.

Por isso, escritores e ativistas que ficaram esclerosados no antigo padrão protagonizam engraçados episódios.

Foi o que aconteceu com a jovem jornalista argentina Diana Fernández Irusta, de “La Nación”, galardoada com o Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha.

Certo dia a jornalista, que estava tratando do joelho e andava com dificuldade, foi gentilmente auxiliada por uma nova vizinha do prédio em que mora. É Cecília, uma jovem professora de música e cantora, mãe de três filhos, que lhe deu apoio durante o tratamento. Diana ficou com uma alta imagem de Cecília.

Combate Medieval2Um dia o filho pequeno de Diana, que é fascinado por castelos e heróis, tanto insistiu em ir ver uma das feiras medievais que estão acontecendo em Buenos Aires, que a mãe decidiu levá-lo, imaginando encontrar uma encenação para crianças.

Sua surpresa foi total: nada de festinha, mas um evento que se destacava pelo nível cultural.

E enquanto ela girava pelas ruas da cidade medieval erigida para a ocasião, foi dar com Cecília, sua amável vizinha, ataviada com um belo vestido palaciano e ensinando às moças passos de uma dança medieval.

Cecilia lhe contou todos os livros que tinha lido. Ela sabia bem o que estava fazendo. Diana custou a acreditar, mas ainda não tinha se dado conta de tudo.

Os alto-falantes anunciaram o momento da batalha. Diana estava convencida de que assistiria a uma coreografia com espadas e escudos de plástico e levou seu filho. Leia mais deste post

Tomás responde: Os homens são combatidos pelos demônios?

Juan_Manuel_Blanes_Demonio_mundo_y_carneJuan Manuel Blanes (1830-1901), “Demônio, Mundo e Carne” (1886)

Parece que os homens não são combatidos pelos demônios:

  1. Com efeito, os anjos, enviados por Deus, são delegados à guarda dos homens. Ora, os demônios não são enviados por Deus, pois sua intenção é perder as almas, enquanto a de Deus é salvá-las. Logo, os demônios não são delegados para combater os homens.
  2. Além disso, não é justa a condição de luta em que o fraco é exposto à guerra contra o forte, o incauto contra o astuto. Ora, os homens são fracos e incautos, enquanto os demônios são fortes e astutos. Logo, Deus, autor de toda justiça, não pode permitir que os homens sejam combatidos pelos demônios.
  3. Ademais, para o exercício dos homens, basta a luta da carne e do mundo. Ora, Deus permite que seus eleitos sejam combatidos para que se exercitem. Logo, não parece necessário que sejam combatidos pelos demônios.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz o Apóstolo na Carta aos Efésios: “Não é contra a carne e o sangue que lutamos, mas contra os Principados e Potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, os espíritos do mal que estão nos céus” (6, 12).

tomas_respondoA respeito dos combates dos demônios é preciso considerar duas coisas: o combate em si mesmo e sua ordem. O combate em si mesmo procede da maldade dos demônios, que por inveja se esforçam para impedir o progresso dos homens e por soberba usurpam a semelhança do poder divino, delegando determinados ministros para combater os homens, assim como os anjos servem a Deus em determinadas funções em prol da salvação dos homens. Todavia, a ordem desses combates é de Deus, que sabe usar com ordem dos males, ordenando-os para o bem. Quanto aos anjos, provêm de Deus, como de seu primeiro autor, tanto a guarda em si mesma como a ordem da guarda. Leia mais deste post

Tomás responde: O demônio, vencido por alguém, desiste de combatê-lo por isso?

Mihály Zichy_O_triunfo_do_genio_da_destruicaoMihály Zichy (1827-1906), O triunfo do gênio da destruição (1878)

Parece que o demônio, vencido por alguém, não desiste de combate-lo por isso:

  1. Com efeito, Cristo venceu seu tentador de modo muitíssimo eficaz. Ora, depois o combateu, incitando os judeus a que o matassem. Logo, não é verdade que, uma vez vencido, o demônio cesse de combater.
  2. Além disso, infligir uma pena a quem sucumbe no combate é incitá-lo para que lute mais fortemente. Ora, isso não condiz com a misericórdia de Deus. Logo, os demônios vencidos não desistem de combater.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz o Evangelho: “Então o diabo o deixou” (Mt 4, 11), isto é, a Cristo que o vencera.

tomas_respondoAlguns dizem que o demônio vencido não pode mais em seguida tentar homem algum, nem para o mesmo pecado, nem para outro. Outros dizem que pode tentar outros homens, mas não o mesmo. Essa opinião parece mais provável, se se entende que não pode até certo tempo. Por isso se diz no Evangelho de Lucas: “Acabada toda tentação, o diabo afastou-se dele até certo tempo” (4, 13). São duas as razões disso: primeiro, a clemência de Deus, porque, como diz Crisóstomo ao comentar Mateus, “o diabo não tenta o homem tanto quanto ele quer, mas quanto Deus lho permite. Se, portanto, Deus lhe permite tentar por um pouco, ele em seguida o afasta, por causa da fraqueza de nossa natureza”. Segundo, a astúcia do diabo. Por isso, Ambrósio, ao comentar Lucas, diz: “O diabo tem receio de insistir, porque evita ser vencido com frequência”. Que ele volte às vezes ao mesmo de quem se afastou resulta claramente do que diz o Evangelho de Mateus: “Vou tornar à minha morada de onde saí”.

Pelo que foi dito, está clara a resposta às objeções.

Suma Teológica I, q.114, a.5

Sexo no paraíso?

Adão_e_Eva_DürerParece que no estado de inocência não teria havido geração pela união carnal:

  1. Com efeito, como diz Damasceno, o primeiro homem estava no Paraíso terrestre “como um anjo”. Ora, no futuro estado da ressurreição, quando os homens serão semelhantes aos anjos, “nem casam, nem serão casados”, como se diz no Evangelho de Mateus (22, 30). Logo, nem no paraíso teria havido geração pela união carnal.
  2. Além disso, os primeiros seres humanos foram criados em idade adulta. Por conseguinte, se para eles a geração tivesse ocorrido antes do pecado pela união carnal, teria havido entre eles união carnal mesmo no Paraíso. Ora, a Escritura mostra que isso é falso.
  3. Ademais, na união carnal o homem se torna ao máximo semelhante aos animais, por causa da veemência do prazer, razão por que se faz o elogio da continência, pela qual os homens se abstêm de tais prazeres. Ora, o homem é comparado aos animais por causa do pecado, segundo o Salmo 48: “O homem não conheceu qual era sua dignidade, pareceu-se com os animais irracionais e se tornou igual a eles” (v.21). Logo, não teria havido união carnal do homem e da mulher antes do pecado.
  4. Ademais, no estado de inocência não teria havido nenhuma corrupção. Ora, pela união carnal há a corrupção da integridade virginal. Logo, não teria havido a união carnal no estado de inocência.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, antes do pecado Deus criou o homem e a mulher, como está dito no Gênesis. Ora, nada existe sem razão nas obras de Deus. Por conseguinte, mesmo se o homem não tivesse pecado, teria havido união carnal, para a qual está ordenada a distinção dos sexos.

Além disso, no Gênesis está escrito que a mulher foi feita para ajudar o homem. Essa ajuda não é destinada a nada mais que à geração, que se faz pela união carnal, pois para qualquer outra atividade o homem podia encontrar ajuda mais adaptada em outro homem e não na mulher. Por conseguinte, no estado de inocência a geração teria sido pela união carnal.

tomas_respondoAlguns entre os antigos doutores, considerando a fealdade na concupiscência que se constata, em nosso estado atual, na união carnal, afirmaram que no estado de inocência a geração não teria ocorrido pela união dos sexos. Assim Gregório de Nissa diz que no paraíso o gênero humano se teria multiplicado de outra maneira, como se multiplicaram os anjos, sem comércio carnal, por obra da potência divina. Diz que Deus tinha criado o homem e a mulher antes do pecado pensando na maneira de geração que deveria ocorrer depois do pecado, que Deus conhecia de antemão.

Mas isso não se diz de modo razoável. Com efeito, as coisas naturais ao homem não lhe são nem retiradas, nem concedidas pelo pecado. Ora, é claro que era natural ao homem, pela vida animal que tinha mesmo antes do pecado, como dito acima, gerar por união carnal, como é natural aos outros animais perfeitos. Manifestam isso os membros naturais destinados a esse uso. Portanto, não se pode dizer que antes do pecado esses membros naturais não teriam tido seu uso como os outros membros. Leia mais deste post

Tomás responde: Deus teria se encarnado, mesmo se o homem não tivesse pecado?

Caravaggio_Adoracao_PastoresCaravaggio, Adoração dos Pastores

Parece que se o homem não tivesse pecado, mesmo assim Deus teria se encarnado:

  1. Com efeito, se a causa permanece, também permanece o efeito. Ora, como Agostinho diz, “muitas outras coisas devem ser pensadas da encarnação de Cristo”, além da libertação do pecado, da qual se falou. Logo, mesmo que o homem não tivesse pecado, Deus teria e encarnado.
  2. Além disso, é próprio da onipotência do poder divino levar à perfeição suas obras e manifestar-se por algum efeito infinito. Mas nenhuma simples criatura pode ser chamada de efeito infinito sendo finita por essência. Com efeito, somente na obra da encarnação parece sobretudo manifestar-se o efeito do poder divino, na medida em que realidades infinitamente distantes se unem, pelo fato de homem ser Deus. Nessa obra o universo também atinge sua máxima perfeição no sentido de que a última das criaturas, o homem, se une ao primeiro princípio, a saber, Deus. Logo, mesmo que o homem não tivesse pecado Deus teria se encarnado.
  3. Ademais, pelo pecado a natureza humana não se tornou mais capaz de receber a graça. Ora, depois do pecado tornou-se capaz da graça da união, que é a maior de todas. Portanto, mesmo que o homem não pecasse, a natureza humana teria sido capaz dessa graça. E Deus não teria tirado da natureza humana um bem do qual era capaz. Logo, mesmo que o homem não tivesse pecado Deus se teria encarnado.
  4. Ademais, a predestinação de Deus é eterna. Ora, na Carta aos Romanos (1,4), se diz de Cristo que foi “estabelecido Filho de Deus com poder”. Logo, mesmo antes do pecado era necessário que o Filho de Deus se encarnasse para que fosse cumprida a predestinação de Deus.
  5. Ademais, o mistério da encarnação foi revelado ao primeiro homem, o que é evidente por ter ele dito: “Eis, desta vez, o osso dos meus ossos, etc….,” (Gn 2, 23) o que o Apóstolo, na Carta aos Efésios, chama “o grande sacramento no Cristo e na Igreja” (5, 32). Ora, o homem não podia conhecer com antecedência sua queda, nem o anjo, como o demonstra Agostinho. Logo, mesmo que o homem não pecasse Deus teria se encarnado.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, comentando o que diz o Evangelho de Lucas: “Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (19, 10), diz Agostinho, “se o homem não pecasse o Filho do Homem não teria vindo”. E onde se lê na primeira Carta a Timóteo: “Cristo veio a esse mundo para salvar os pecadores” (1, 15), a Glosa diz: “Não houve outra causa para a vinda do Cristo Senhor senão para salvar os pecadores. Tira as doenças, tira as feridas, e não há necessidade de remédio”.

tomas_respondoSobre essa questão há diversidade de opiniões. Alguns dizem que, mesmo que o homem não pecasse o Filho de Deus teria se encarnado. Outros afirmam o contrário, e é com essa opinião que convém concordar. Tudo o que provém somente da vontade de Deus, acima de qualquer direito da criatura, só o conhecemos pelo ensinamento da Sagrada Escritura, pela qual nos é dada a conhecer a vontade divina. Como porém na Sagrada Escritura o motivo da encarnação sempre é posto no pecado do primeiro homem, é mais correto dizer que a obra da encarnação foi ordenada por Deus para remédio do pecado, de sorte que, não havendo pecado, não haveria encarnação. No entanto, o poder de Deus não está limitado a essa condição: mesmo que não houvesse pecado, Deus poderia encarnar-se.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que: Leia mais deste post

Tomás responde: Era necessário que o Verbo de Deus se encarnasse para a restauração do gênero humano?

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Parece que não era necessário que o Verbo de Deus se encarnasse para a restauração do gênero humano:

  1. Com efeito, o Verbo de Deus, sendo perfeitamente Deus, como foi visto na I Parte, não recebeu pela encarnação nenhum acréscimo a seu poder. Portanto, se o Verbo de Deus encarnado restaurou a natureza humana, poderia tê-la restaurado sem se encarnar.
  2. Além disso, para restaurar a natureza humana, decaída pelo pecado, não era necessário senão que o homem desse uma satisfação pelo pecado. Pois Deus não deve pedir ao homem mais do que ele pode fazer; e como é mais inclinado à misericórdia do que à punição, assim como responsabiliza o homem pelo ato do pecado, assim para apagar o pecado basta que lhe impute o ato contrário. Portanto, a encarnação do Verbo de Deus não era necessária para a restauração do gênero humano.
  3. Ademais, o principal para a salvação do homem é que reverencie a Deus; por isso, diz o profeta Malaquias: “Se sou o Senhor, onde está o respeito que me é devido? Se sou o Pai, onde está a honra que me é devida?” Ora, os homens têm mais reverência de Deus quando o consideram elevado sobre todas as coisas e distante do conhecimento humano; donde, está dito no Salmo 112: “O Senhor domina sobre todas as nações e sua glória está acima dos céus”; e acrescenta: “Quem é como o Senhor nosso Deus?”, o que faz parte da reverência. Logo, não convinha à salvação dos homens que Deus se tornasse semelhante a nós assumindo um corpo.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o que livra a raça humana da perdição é necessário para a salvação humana. Ora, tal é o mistério da encarnação divina, diz o Evangelho de João (3, 16): “Deus, com efeito, amou tanto o mundo que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça mas tenha a vida eterna.” Portanto, a encarnação de Deus foi necessária para a salvação humana.

tomas_respondoPara obter determinado fim, algo é necessário de duas maneiras: ou porque sem ele algo não pode existir, por exemplo, o alimento é necessário para a conservação da vida humana; ou porque com ele se chega ao fim de modo melhor e mais conveniente, por exemplo, o cavalo é necessário para viajar. Do primeiro modo, a encarnação de Deus não foi necessária para a restauração da natureza humana; por sua virtude onipotente Deus poderia restaurar a natureza humana de muitas outras maneiras. Mas, do segundo modo, era necessário que Deus se encarnasse para a restauração da natureza humana. Por isso, diz Agostinho: “Mostremos que a Deus, a cujo poder tudo está submetido, não faltou outro modo possível: mas que não havia outro modo mais conveniente para curar nossa miséria”.

O mesmo pode ser considerado sob o aspecto de nosso progresso no bem.

  1. Quanto à , que se torna mais certa se acreditarmos no próprio Deus que fala. Por isso, diz Agostinho: “Para que o homem caminhasse para a verdade com mais confiança, a própria Verdade, o Filho de Deus, tendo assumido a natureza humana, instituiu e fundou a fé”.
  2. Quanto à esperança, que assim se eleva ao máximo. Por isso, diz Agostinho: “Nada foi tão necessário para levantar nossa esperança do que nos ser mostrado o quanto Deus nos ama. E que indício mais manifesto disso do que se ter o Filho de Deus dignado associar-se à nossa natureza?”
  3. Quanto à caridade, que é assim mais despertada. Por isso, Agostinho diz: “Que maior razão houve da vinda do Senhor do que mostrar seu amor por nós?” E acrescenta: “Se éramos preguiçosos para amar, ao menos agora não o sejamos para retribuir o amor”.
  4. Quanto ao agir retamente, no que se fez nosso exemplo. Por isso, diz Agostinho num sermão sobre a Natividade do Senhor: “O homem, que podia ser visto, não devia ser seguido; Deus, que não podia ser visto, devia ser seguido. Portanto, para que fosse mostrado ao homem, para que fosse visto pelo homem e por ele seguido, Deus se fez homem”.
  5. Quanto à participação plena na divindade, que é a verdadeira bem-aventurança do homem e o fim da vida humana. E isso nos foi trazido pela humanidade de Cristo: com efeito, diz Agostinho em outro sermão sobre a Natividade do Senhor: “Deus se fez homem para que o homem fosse feito Deus”.

Do mesmo modo, a encarnação foi útil para afastar o mal. Leia mais deste post

Tomás responde: Foi conveniente que Deus se encarnasse?

Ticiano_Kirschen-MadonnaTiciano, Kirschen-Madonna (em alemão), cerca de 1516-1518, Kunsthistorisches Museum

Parece que não foi conveniente que Deus se encarnasse:

  1. Com efeito, sendo Deus eternamente a própria essência da bondade, o melhor é que ele seja assim como foi eternamente. Ora, Deus, desde toda a eternidade, foi sem nenhuma carne. Logo, é muito conveniente que ele não esteja unido à carne. Logo, não foi conveniente que Deus se encarnasse.
  2. Além disso, é inconveniente que se unam coisas que distam entre si infinitamente: assim como seria uma união inconveniente se alguém desenhasse uma imagem na qual, como disse Horácio, “uma cerviz de asno se unisse a uma cabeça humana”. Ora, Deus e o corpo distam infinitamente entre si, sendo Deus simplíssimo e o corpo, sobretudo o humano, composto. Logo, não foi conveniente que Deus se unisse à carne humana.
  3. Ademais, o corpo dista do espírito supremo como a malícia da suma bondade. Ora, seria totalmente inconveniente que Deus, que é a suma bondade, se unisse à malícia. Portanto, não foi conveniente que o espírito supremo incriado assumisse um corpo.
  4. Ademais, o que está acima das grandes coisas não convém que esteja contido numa coisa mínima; e que se volte para coisas pequenas aquele a quem compete o cuidado das coisas maiores. Ora, todo o universo não é bastante para conter a Deus, que tem cuidado do mundo todo. Logo, parece não convir “que se oculte sob o corpozinho de uma criança a vagir aquele diante do qual o universo é tido como pequeno; e que tanto tempo se ausente aquele Rei de seu trono e o governo de todo o mundo seja transferido para um pequeno corpo”, como Volusiano escreve a Agostinho.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, parece muito conveniente que as coisas invisíveis de Deus se manifestem pelas visíveis: para isso foi feito o mundo, como se vê pelo dito do Apóstolo na Carta aos Romanos (1,20): “Suas perfeições invisíveis… tornam-se visíveis para a inteligência em suas obras”. Ora, como Damasceno diz: pelo mistério da encarnação “mostram-se juntamente a bondade, a sabedoria, a justiça e o poder de Deus ou a virtude: a bondade, porque não desprezou a fraqueza de sua própria obra; a justiça, porque não faz vitorioso outro tirano nem liberta o homem do medo da morte pela violência; a sabedoria, porque encontra a solução mais bela para o problema mais difícil; o poder infinito, enfim, ou a virtude, porque nada há maior do que Deus fazer-se homem”. Logo, foi conveniente que Deus se encanasse.

tomas_respondoO que convém a cada coisa é o que lhe cabe segundo a razão de sua própria natureza; assim como ao homem convém raciocinar, pois isso lhe convém enquanto é racional segundo sua natureza. Ora, a natureza própria de Deus é a bondade, como Dionísio deixa claro. Logo, tudo o que pertence à razão do bem convém a Deus. Ora, pertence à razão do bem comunicar-se aos outros, como também deixa claro Dionísio. Donde é próprio da razão do sumo bem comunicar-se à criatura do modo mais excelente. O que é feito em grau sumo quando “une a si a natureza criada, de modo que resulte uma pessoa de três princípios, o Verbo, a alma e a carne”, como diz Agostinho. Logo, é claro que foi conveniente Deus se encarnar.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que: Leia mais deste post

Tomás responde: A morte e outras deficiências corporais são efeitos do pecado?

Parece que a morte e outras deficiências corporais não são efeitos do pecado:

  1. Com efeito, se a causa for igual, o efeito também será igual. Ora, estas deficiências não existem igualmente em todos, são mais abundantes em alguns, enquanto que o pecado original é igual em todos. É dele que estas deficiências parecem ser principalmente efeito. Portanto, elas não são efeitos do pecado.
  2. Além disso, removida a causa remove-se o efeito. Ora, removido todo pecado pelo batismo ou pela penitência não se removem tais efeitos. Logo eles não são efeitos do pecado.
  3. Ademais, há mais razão de culpa no pecado atual do que no pecado original. Ora, o pecado atual não muda em deficiências a natureza do corpo. Logo, muito menos o pecado original. Assim, a morte e outras deficiências do corpo não são efeitos do pecado.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o Apóstolo diz: “Por um só homem o pecado entrou neste mundo, e pelo pecado a morte”.

tomas_respondoUma coisa é causa de outra de duas maneiras: por si, ou por acidente. Ela é por si causa de uma outra quando é em virtude de sua natureza ou de sua forma que ela produz o efeito, donde se segue que o efeito é procurado por si pela causa. Portanto, como a morte e as tais deficiências estão fora da intenção do pecador, é claro que o pecado não é por si a causa dessas deficiências.

Acidentalmente uma coisa é causa de uma outra se ela remove o obstáculo. “Quem arranca a coluna, diz o livro VIII da Física, acidentalmente remove a pedra sobreposta”. É desta maneira que o pecado do primeiro pai é causa da morte e de todas as deficiências na natureza humana. Eis como: o pecado do primeiro pai suprimiu a justiça original, pela qual não somente as potências inferiores da alma estavam contidas sob a razão sem qualquer desordem, mas todo o corpo estava contido sob a alma sem nenhuma deficiência, como foi dito na I parte. Uma vez suprimida esta justiça original pelo pecado do primeiro pai, assim como a natureza humana foi ferida, quanto à alma, pela desordem das potências, assim também se tornou corruptível pela desordem do mesmo corpo. Leia mais deste post

Escolas católicas???

Sao_Joao_Batista_de_la_SalleEm 15 de maio de 1950, São João Batista de la Salle foi declarado patrono dos educadores pelo papa Pio XII

A esta altura, parece que a maioria que desembolsa as mensalidades nas escolas católicas é capaz de pautar os rumos dos nossos educadores, e os exames públicos unificados como o ENEM são capazes de nos dirigir ideologicamente para longe da reta razão e da sã doutrina católica

Por Paulo Vasconcelos Jacobina

Brasília, 15 de Outubro de 2015 (ZENIT.org)

Dois incidentes na educação dos meus filhos, ocorridos esta semana, merecem registro, porque evidenciam o tipo de insegurança a que estamos submetidos, nós, pais católicos com filhos matriculados em escolas católicas. Trata-se não somente do fato de que é muito difícil ser coerentemente cristão num mundo tão invadido por ideologias profundamente pagãs; vai mais além. Chega até o fato de que parecemos viver uma época em que mesmo quem se declara institucionalmente cristão, e se anuncia como educador católico, já não está mais seguro, e é incapaz de demonstrar publicamente, que vê os critérios católicos, as propostas católicas para o desenvolvimento humano como, de fato, verdadeiros e adequados. Ou que é viável, economicamente, academicamente e existencialmente, defendê-los.

Com isto, declaramos, nós católicos que temos responsabilidade com a educação de jovens (pais, professores, catequistas e sacerdotes) nossa rendição ao mundo do relativismo, que, na verdade, é o mundo do pensamento único, em que aquele que não concorda com o discurso academicamente hegemônico é tachado de “fóbico” e destroçado mediante táticas de propaganda e desmoralização pública. Já não vemos o Catecismo como seriamente defensável, ou a Bíblia (devidamente lida pelos olhos da Tradição e do Magistério) como uma proposta viável de desenvolvimento humano. A esta altura, a maioria pagã que desembolsa as mensalidades nas nossas escolas católicas é capaz de pautar os rumos dos nossos educadores, e os exames públicos unificados, como o ENEM, são capazes de nos dirigir ideologicamente de uma forma tão eficaz que o mero exercício de propor uma abordagem diversa daquela considerada “correta” pela pauta acadêmica contemporânea faz com que um pai se sinta como obsoleto, ultrapassado ou mesmo como verdadeiro obstáculo anacrônico no caminho do sucesso acadêmico dos filhos e da viabilidade financeira das escolas. Nem sequer se trata de exigir a coerência entre apresentar-se como educador católico e agir catolicamente – trata-se de nem sequer ser considerado quanto à possibilidade de promover um debate sério sobre estas questões que inclua as posições católicas dentre as consideráveis.

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Agora em português

Com meus agradecimentos ao amigo Zé Cláudio, que fez a tradução do texto em espanhol.

“Conceda um prazer a si mesmo”: os cinco remédios de Santo Tomás de Aquino contra a tristeza

Cerveja

Carlo de Marchi, vigário da região da região Centro-Sul da Itália, recompilou estas ideias de Santo Tomás em linguagem informal em um congresso em Florença.

Cada um de nós já atravessou dias tristes, dias nos quais não se consegue superar um certo peso interior que contamina o ânimo e dificulta as relações com os demais.

Existe algum truque para superar o mau humor e recuperar o sorriso? Santo Tomás de Aquino propõe cinco remédios de surpreendente eficácia contra a tristeza:

1. O primeiro remédio é conceder um prazer a si mesmo.

É como se o famoso teólogo tivesse intuído já há sete séculos a ideia, tão difundida hoje, de que o chocolate é antidepressivo. Talvez pareça uma ideia materialista, mas é evidente que uma jornada cheia de amarguras pode terminar bem com uma boa cerveja.

Que algo assim seja contrário ao Evangelho é dificilmente demonstrável: sabemos que o Senhor participava com gosto em banquetes e festas, e tanto antes como depois da Ressurreição desfrutou com gosto das coisas belas da vida.

Inclusive, um Salmo afirma que o vinho alegra o coração do home (apesar de que é preciso esclarecer que a Bíblia condena claramente as bebedeiras desregradas).

2. O segundo remédio é o pranto.

Muitas vezes, um momento de melancolia é mais duro se não se consegue encontrar uma via de escape, e parece como se a amargura se acumulasse até impedir de levar a cabo a menor tarefa. O pranto é uma linguagem, um modo de expressar e desfazer o nó de uma dor que às vezes nos pode asfixiar. Também Jesus chorou.

O Papa Francisco assinala que “certas realidades da vida se veem somente com olhos que tenham sido limpos pelas lágrimas. Convido a cada um de vocês a perguntar-se: eu aprendi a chorar?”

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Tomás responde: A estultice se opõe à sabedoria?

tomas_respondoA palavra stultitia (estultice) parece vir de stupor (estupor). Por isso Isidoro disse: “O estulto é aquele que, por estupor, não se mexe”. A estultice difere da fatuidade, como se diz no mesmo lugar, por comportar um embotamento do coração e obscurecimento dos sentidos, enquanto a fatuidade implica uma total privação de sentido espiritual. Por isso, é exato opor a estultice à sabedoria. “Com efeito, diz Isidoro, ‘sábio’ (sapiens) vem de sabor (sapor) porque, assim como o gosto é capaz de distinguir o sabor dos alimentos, assim também o sábio é capaz de discernir as realidades e as causas”. Por isso, é claro que a estultice se opõe à sabedoria como a eu contrário, enquanto a fatuidade se lhe opõe como sua pura negação. O fátuo é desprovido do sentido do julgamento; o estulto tem este sentido mas embotado, enquanto o sábio o tem sutil e penetrante.

Suma Teológica II-II Q46 A1

Momento patriótico

Dilma_vento

Não se preocupem os que acompanham este blog, ele continua sério. Apenas descontraindo um pouco.

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