Cientista japonesa é punida por mostrar que não há necessidade de utilização de células-tronco embrionárias

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A jovem cientista japonesa Haruko Obokata chorou ao defender, nesta quarta-feira (9), a existência das células STAP, em sua primeira aparição ante as câmeras desde que foi acusada de irregularidades em sua pesquisa sobre essa descoberta potencialmente revolucionária.

As células STAP (cuja sigla, em inglês, se refere ao método de Aquisição de Pluripotência Desencadeada por Estímulo) têm características parecidas com as células-tronco embrionárias. Por ter a capacidade de se transformar em diversos tecidos do corpo humano, as aplicações terapêuticas desse tipo de célula são intensamente estudadas na atualidade.

“Talvez tenha ultrapassado minha competência ao assinar um artigo na revista ‘Nature’”, admitiu a cientista, que dirige uma unidade de pesquisas no instituto público japonês Riken.

No entanto, apesar de reconhecer os erros na forma em que seus trabalhos foram apresentados na publicação britânica no final de janeiro, Obokata rejeitou as acusações de falsificação e imitação.

 Com lágrimas nos olhos, Haruko Obokata fala à imprensa japonesa nesta quarta-feira (9)  (Foto: AFP Photo/Jiji Press)Com lágrimas nos olhos, Haruko Obokata fala à
imprensa japonesa nesta quarta-feira (9)
(Foto: AFP Photo/Jiji Press)

“O fenômeno das células STAP é uma realidade que eu verifiquei em mais de 200 oportunidades”, assegurou. “Fiz essas pesquisas para que algum dia as STAP sejam úteis para alguém. Eu fiz experiências todos os dias”, insistiu.

Esta foi a primeira vez que a cientista se manifestou diretamente para os meios de comunicação desde que explodiu a polêmica. Obokata, suposta criadora das promissoras células pluripotentes denominadas STAP, foi acusada no início do mês de de irregularidades e ameaçada com punições.

Em janeiro, ela publicou, em duas partes, na revista científica britânica “Nature” uma tese que apresenta um método de criação de células pluripotentes a partir de células maduras.

Se, antes, se acreditava que essa conversão só era possível por meio de complexos processos de manipulação genética do núcleo celular, a pesquisa concluiu que a simples exposição dessas células a fatores ambientais específicos, como um pH mais ácido, é capaz de converter uma célula madura em um tipo de célula pluripotente.

Os trabalhos de Obokata eram considerados muito promissores para a medicina regenerativa por terem conseguido despertar o caráter pluripotente das células através de um processo relativamente simples.

“Ao misturar imagens procedentes de experiências diferentes e utilizar dados anteriores, a professora Obokata atuou de uma forma que não pode ser permitida”, afirmou o comitê de investigação de seu trabalho depois de detalhar os problemas detectados nos resultados da pesquisa desta mulher de 30 anos em um ambiente científico dominado por homens maduros.

“Isto não pode ser explicado apenas por sua imaturidade”, acrescentou. “A atuação de Obokata e a forma desleixada como geriu seus dados nos levam a crer que carece não apenas de ética, mas também de humildade e integridade”, ressaltou.

“Mas, levando em consideração a pobreza das notas de seu laboratório, é absolutamente evidente que vai ser muito difícil para outra pessoa seguir e entender seus experimentos, o que representa um sério obstáculo para uma troca saudável de informações”, destacou o comitê.

“Se forem confirmadas as irregularidades destacadas pelo comitê investigador depois de eventuais procedimentos de apelação, eu recomendarei que a publicação seja retirada. Então serão adotadas sanções firmes, mas justas, em conformidade com as recomendações de uma comissão disciplinar”, advertiu na semana passada o presidente do Riken, o prêmio Nobel Ryoji Noyori.

Fonte: http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2014/04/cientista-japonesa-acusada-de-fraude-chora-ao-defender-pesquisa.html

Chesterton, a bebida e a felicidade

Giotto_Bodas_CanaGiotto di Bondone (1267-1337), As Bodas de Caná

UMA NOVA MORALIDADE veio ao nosso encontro com certa violência e se relaciona ao problema da bebida alcoólica. Os entusiastas do assunto variam desde o homem que é posto para fora dos pubs ingleses às 00h30 até a dama que ataca os balcões dos bares com um machado. Em tais discussões, quase sempre sentimos que uma postura moderada e bastante sábia é dizer que o vinho, ou coisas do tipo, devem ser ingeridos como remédio. Atrevo-me a discordar disso com particular veemência. A forma genuinamente perigosa e imoral de tomar vinho é tomá-lo como remédio. E por esta razão: se alguém bebe vinho por prazer, está tentando obter algo excepcional, algo que não espera a qualquer hora do dia, algo que, a menos que seja um tanto louco, não tentará obter a qualquer hora do dia. Mas se alguém bebe vinho para ter saúde, está tentando obter algo natural; ou seja, algo sem o que não consegue viver; algo sem o que dificilmente passará sem consumir. Pode ser que aquele que não tenha visto o êxtase de ficar extático não fique seduzido; é mais fascinante vislumbrar o êxtase de estar normal. Se houvesse um ungüento mágico, e o mostrássemos a um homem forte e lhe disséssemos: “Isto te permitirá saltar do Monumento”,145 sem dúvida saltaria, mas não ficaria saltando durante o dia todo para alegrar o centro da cidade. Mas se mostrássemos o ungüento a um cego e lhe disséssemos, “Isto te permitirá recobrar a visão”, essa pessoa ficaria fortemente tentada. Ser-lhe-ia difícil não esfregá-lo nos olhos quando ouvisse o galopar de um nobre cavalo ou o cantar de pássaros ao alvorecer. É fácil não permitir que alguém tenha prazeres; difícil é negar a aquisição da normalidade. Por isso, e todos os médicos sabem, é sempre perigoso dar bebida alcoólica aos doentes mesmo quando precisam. Inútil dizer que não considero que dar bebida alcoólica como estimulante a um doente seja necessariamente injustificado. Mas considero o dar bebidas alcoólicas a pessoas saudáveis como divertimento um uso apropriado e muito mais coerente com a saúde.

A regra sadia nessa questão parece ser a mesma de muitas outras regras saudáveis – um paradoxo. Beba por estar feliz, mas nunca por se sentir extremamente infeliz. Nunca beba quando estiver infeliz por não ter uma bebida, ou irá parecer um triste alcoólatra caído na calçada. Mas beba quando, mesmo sem a bebida, estaria feliz, e isso o tornará parecido com um risonho camponês italiano. Nunca beba por precisar disso, pois tal ato racional é o caminho para a morte e o inferno. Mas beba por não precisar disso, pois beber irracionalmente é a antiga fonte de saúde do mundo.

Por mais de trinta anos o vulto e a glória de uma grande figura oriental têm sido impostos à literatura inglesa. A tradução de Fitzgerald dos Rubáiyát de Omar Khayyām146 concentrou, com imorredoura comoção, todo o sombrio e desnorteado hedonismo de nossa época. Seria simplesmente inútil falar do esplendor literário da obra; poucos são os livros dos homens que conseguiram combinar tão bem a alegre combatividade de um epigrama com a vaga tristeza de uma canção. Mas, sobre a influência filosófica, ética e religiosa, que é tão grande quanto o esplendor, gostaria de dar uma palavra, e tal palavra, confesso, é de uma hostilidade intransigente. Há muitas coisas que podem ser ditas contra o espírito do Rubáiyát, e contra sua enorme influência. Mas uma acusação se destaca das demais de forma nefasta – uma verdadeira desgraça para a obra, uma calamidade genuína para todos. Tal acusação seria o golpe terrível que o grande poema desferiu na sociabilidade e na alegria da vida. Alguém já chamou Omar de “o vetusto persa jubilosamente triste”.147 Triste é; mas não jubiloso, em nenhum dos sentidos da palavra. Tem sido um inimigo da alegria pior que os puritanos. Saiba mais

Poema à Virgem, de José de Anchieta

Anchieta Poema Virgem

Quadro pintado pelo artista Benedito Calixto retrata o jesuíta José de Anchieta escrevendo o “Poema à Virgem” enquanto era refém de indígenas no litoral brasileiro

Minha alma, por que tu te abandonas ao profundo sono?

Por que no pesado sono, tão fundo ressonas?

Não te move à aflição dessa Mãe toda em pranto,

Que a morte tão cruel do FILHO chora tanto?

 

E cujas entranhas sofre e se consome de dor,

Ao ver, ali presente, as chagas que ELE padece?

Em qualquer parte que olha, vê JESUS,

Apresentando aos teus olhos cheios de sangue.

 

Olha como está prostrado diante da Face do PAI,

Todo o suor de sangue do seu corpo se esvai.

Olha a multidão se comporta como ELE se ladrão fosse,

Pisam-NO e amarram as mãos presas ao pescoço.

 

Olha, diante de Anás, como um cruel soldado

O esbofeteia forte, com punho bem cerrado.

Vê como diante Caifás, em humildes meneios,

Aguenta mil opróbrios, socos e escarros feios.

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São José de Anchieta, rogai por nós!

Dom Orani

Reflexões do Cardeal Dom Orani João Tempesta, O. Cist., Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

Por Card. Dom Orani Tempesta, O.Cist.

RIO DE JANEIRO, 02 de Abril de 2014 (Zenit.org) – No dia 2 abril, o apóstolo do Brasil será canonizado! Um homem de Deus que soube acolher o chamado vocacional e viver nos inícios do Brasil protagonizando a fundação de colégios, cidades, entre as quais a do Rio de Janeiro. O Papa Francisco nos dá esse belo presente!

São dias de alegria indizível estes em que, de corações agradecidos, vivemos a canonização do Beato José de Anchieta (1534-1597), sacerdote jesuíta que, tanto no campo material quanto no espiritual, muito trabalhou pelo Brasil e, por esta razão, recebeu com carinho e justiça o codinome de “Apóstolo do Brasil”.

Antes de penetrarmos diretamente na vida desse grande homem de Deus, atentemo-nos para o rico significado catequético do momento em que estamos celebrando: uma canonização. Daí a questão: qual é, na Igreja, o real significado dos verbos beatificar e canonizar?

Beatificar é celebrar, em Roma ou fora dela, um ato solene no qual o Papa, pessoalmente ou através de um legado seu, declara que o (a) Servo(a) de Deus pode ser venerado(a) como Bem-Aventurado(a) ou Beato(a) por meio de uma festa em lugares delimitados como, por exemplo, as cidades em que viveu, atuou, morreu.

Canonizar é a ação pela qual o Papa declara que o(a) Bem-Aventurado(a) é Santo(a) ao inscrevê-lo no cânon (catálogo) dos santos, por isso se fala em canonização, termo utilizado pela primeira vez no século XII, em uma carta de Udalrico, Bispo de Constança, ao Papa Calixto II (1119-1124).

Tanto a beatificação quanto a canonização são funções reservadas ao Santo Padre – especialmente, de modo formal, a partir do século XII, com o Papa Alexandre III (1159-1181) –, embora as cerimônias correspondentes possam ser oficiadas por um delegado papal. Requer-se, para se declarar que alguém é beato(a) ou santo(a), a comprovação das virtudes heróicas do(a) candidato(a) nesta vida, de modo que ele(ela) mereça, por graça divina, gozar, atualmente, da visão de Deus face a face no céu. De lá, pode ser invocado oficialmente para interceder por nós e nos servir de modelo enquanto caminhamos nesta Terra rumo à Pátria definitiva.

Via de regra, são exigidos dois milagres – geralmente de recuperação completa da saúde –, como sinais comprobatórios da santidade do(a) Servo(a) de Deus em questão: um para a beatificação e outro para a canonização. Todavia, pode acontecer – como é o caso de Anchieta – o que chamamos de “canonização equipolente ou equivalente” e, para que ela ocorra, devem ser preenchidos três requisitos básicos: 1) a prova do culto antigo ao candidato a santo; 2) o atestado histórico incontestável da fé católica e das virtudes do candidato; 3)  a fama ininterrupta de milagres intermediados pelo candidato.

Isto posto, resta-nos regozijarmos, enquanto católicos e brasileiros, pela inscrição do nosso querido José de Anchieta no catálogo dos Santos por determinação do Santo Padre, o Papa Francisco, 34 anos depois de ser declarado Beato pelo Papa João Paulo II, em 22 de junho de 1980, ainda que o processo de beatificação tenha sido iniciado no já distante século XVII.

José de Anchieta nasceu em São Cristóvão, Tenerife, uma das ilhas espanholas do Arquipélago das Canárias, em 19 de março de 1534, dia dedicado, no calendário litúrgico, a São José, patrono da Igreja. Daí o seu nome de Batismo ser José de Anchieta.

Após estudar no famoso Colégio de Artes de Coimbra, ingressou, aos 17 anos, na Companhia de Jesus, dos Jesuítas, Ordem fundada por Santo Inácio de Loyola, em 1539 e aprovada pelo Papa Paulo III, em 1540. Recebeu aí boa formação em filologia e literatura e, sobretudo, aprendeu que vivemos neste mundo para “conhecer, amar e servir a Deus e, mediante isso, salvar nossa alma”. Aqui, tudo o que fizermos deve ser “Para a maior glória de Deus”.

Contudo, tão logo se fizera jesuíta foi provado com uma grave doença ósteo-articular, com fraqueza e dores em todo o corpo, durante dois anos, razão pela qual os superiores, após ouvirem os médicos, decidiram enviá-lo ao Brasil na esperança de que o bom clima da terra lhe fizesse bem. Era a ação providencial de Deus em sua vida e na dos brasileiros, daqueles e dos nossos tempos.

Chegou à Bahia de Todos os Santos, Salvador, em 13 de julho de 1553, com apenas 19 anos de idade, como irmão jesuíta, com um único objetivo: salvar almas para Cristo. De lá, deveria ir, junto com o Pe. Manuel da Nóbrega, seu superior, para a Capitania de São Vicente, litoral de São Paulo, a fim de catequizar indígenas e colonos. Como a viagem era também por mar, um fato inesperado aconteceu: no Sul da Bahia uma forte tempestade surpreendeu as duas embarcações e o barco em que estava Anchieta acabou ficando encalhado nos recifes.

Enquanto o veículo de viagem era consertado, conta-se que Anchieta, consciente de que depois da vinda de Cristo “o tempo se fez breve” (1Cor 7,29), foi à procura dos silvícolas da região e começou a lhes falar de Deus. Em uma dessas caminhadas, levaram-no até uma indiazinha que, doente, se encontrava em seus últimos dias nesta Terra. O padre a instruiu na fé e a batizou, dando-lhe o nome de Cecília. Era o primeiro sacramento que “o Apóstolo do Brasil” ministrava em seu tão vasto território de missão.

Chegando, finalmente, a São Vicente, Anchieta não parava um só instante: fazia contato com os habitantes do lugar para falar-lhes de Deus e, ao mesmo tempo, plantar as bases de uma vida mais digna e justa para todos. Não se limitou, porém, apenas à região praiana, mas, ao contrário, subiu a Serra do Mar, chegou ao Planalto de Piratininga e, no dia 25 de janeiro de 1554, festa da Conversão de São Paulo Apóstolo, participou da fundação do colégio da vila de São Paulo de Piratininga, onde também lecionou. Ao lado do colégio, construiu-se uma capela na qual foi celebrada a primeira Missa, em 25 de agosto daquele mesmo ano. Estava, assim, nascendo o núcleo da cidade que, com o passar dos anos, se tornaria uma das maiores metrópoles do mundo: São Paulo.

Foi superior da Capitania de São Vicente e também provincial dos jesuítas por 10 anos, ou seja, de1577 a1587. Logo aprendeu a língua tupi, falada pelos indígenas, e elaborou a primeira gramática tupi-guarani, traduzida para o alemão e o latim. Nosso santo criou, desse modo, uma língua-geral, que foi usada no Brasil até 1750, ano em que foi imposta a língua portuguesa. Compôs músicas, versos, danças e teatros em linguagem indígena. É chamado o “pai do teatro brasileiro” e grande nome da cultura nacional. Dentre seus dez livros está o que leva o título de “Poemas à Virgem Maria”, cuja maior parte foi redigida nas areias de Iperoig (hoje Ubatuba, SP), no período em que ficou refém dos índios tamoios. Escrevia em português, espanhol, latim e tupi-guarani.

Parecia arder em Anchieta as palavras de São Paulo, o Apóstolo das gentes: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho” (1Cor 9,16). Daí ele valorizar a espontaneidade dos silvícolas que buscavam conhecer e praticar a fé católica, segundo se depreende das correspondências que o religioso mantinha com seus superiores na Europa. Em carta ao Padre Diogo Laínes, geral dos jesuítas, datada de 1565, Anchieta, ainda refém dos índios em Iperoig, relata que todas as manhãs, Pindobuçu, o chefe da tribo, ia visitá-lo para perguntar coisas sobre Deus. O religioso lhe mostrava, então, imagens de uma Bíblia ilustrada que possuía e isso causava muita admiração no índio que, na manhã seguinte, voltava para aprender mais (cf. Cartas. São Paulo: P.H.A Viotti, 1984, p. 222, vol. 6 das Obras Completas). Ao se referir aos tupis de São Paulo, o religioso jesuíta diz que eles “voluntariamente (…) vivem como cristãos, correspondendo plenamente ao esforço de seus catequistas” (Cartas, Jes. III, 316-317).

Nota-se, por esses dados, que poderíamos multiplicar o quanto Anchieta, agora nosso santo, viveu o ardor missionário que motivava os religiosos europeus a rumarem para as Américas, segundo se lê, com muita clareza, nesta constatação: “A única conversão que os evangelizadores pretendiam (e, em boa parte, conseguiram) era a conversão no plano sobrenatural: aceitação interna, sustentada pela graça de Deus, da fé na revelação divina, seguida da mudança de vida no intuito de ajustá-la aos preceitos divinos, como preparação para a vida eterna. Esta foi a suprema missão que Cristo confiou à sua Igreja: ‘Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a todas as criaturas. Quem crer e for batizado será salvo, quem não crer, será condenado’ (Mc 16,15s)” (João E. M. Terra. Catequese de índios e negros no Brasil colonial. Aparecida: Santuário, 2000, p. 38).

Esse ideal voltado ao sobrenatural não fez, no entanto, de Anchieta um alienado das coisas deste mundo. Ele bem parecia antever aquilo que, cerca de 410 anos depois, o Concílio Vaticano II (1962-65) ressaltaria na Gaudium et Spes: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para comunicá-la a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história.” (n. 1). Daí, em 1555, por ocasião das invasões francesas ao Rio de Janeiro, ele esteve ao lado de Estácio de Sá, então governador, ajudando a conscientizar o povo de que não deviam aceitar os intrusos, pois eles planejavam dividir nossa gente.

Segundo o Postulador da causa, Padre César Augusto dos Santos, SJ: “Em 1º de novembro de 1566, Mem de Sá, o visitador, padre Inácio de Azevedo, o provincial, padre Luís da Grã, o segundo bispo do Brasil, Dom Pedro Leitão, José de Anchieta e outros jesuítas partem para o Rio de Janeiro, chegando à cidade no dia 19 de janeiro de 1567. Eles partiram na armada enviada pelo rei de Portugal, comandada pelo capitão Cristóvão de Barros. Imediatamente no dia seguinte à sua chegada, Mem de Sá, confiante na intercessão do padroeiro da cidade, São Sebastião, cuja festa litúrgica era naquele dia, desfechou um assalto ao forte que estava no atual Outeiro da Glória, o forte de Ibiraguaçu-mirim. Conta Anchieta, em sua “Informação do Brasil e suas Capitanias”, que depois de destruir dois fortes, Ibiraguaçu-mirim, na foz do rio da Carioca e Paranapucuí, na Ilha de Maracajá, atual Ilha do Governador, Mem de Sá mudou a cidade para o Morro de São Januário, depois chamado Morro do Castelo, de onde se tinha uma visão privilegiada da entrada da barra. No início do século 20, o morro foi demolido e o local ficou conhecido como Castelo ou Esplanada do Castelo. No ataque a Ibiraguaçu-mirim, Estácio de Sá, verdadeiro baluarte durante os dois anos da cidade, foi mortalmente ferido, vindo a falecer no dia 20 de fevereiro. Anchieta, que o acompanhou muito de perto, assim escreveu sobre esse capitão: “tão amigo de Deus, tão manso e afável, que nunca descansa de noite e de dia, acudindo a uns e a outros, sendo o primeiro nos trabalhos…”  

Contudo, como já vimos nesta reflexão, o que mais se destacava em Anchieta era o seu zeloso sacerdócio ministerial. Queria ele consumir-se como a chama de uma vela para o bem de todos, ministrando os Sacramentos, lecionando – aos índios pequenos ensinava latim e aos jesuítas europeus dava aulas de tupi – ajudando na edificação de vilas onde o povo pudesse viver dignamente. Morreu com 63 anos, no povoado que ele mesmo havia ajudado a edificar em 1569, Iritiba (hoje Anchieta, ES), na Capitania do Espírito Santo. Era o dia 9 de junho de 1597.

A partir daí, muitas pessoas passaram a recorrer ao “Apóstolo do Brasil” a fim de que ele intercedesse junto a Deus por elas. Nasceram disso muitos relatos de graças alcançadas pela intercessão de Anchieta entre nós, especialmente no campo da restituição da saúde, bem como a narração de fatos lendários e pitorescos como este: “Durante a vida do Pe. Anchieta (1534-1597), um barqueiro garantia a quantos quisessem ouvir. A barca em que viajava o Pe. Anchieta afundou. O padre ficou retido no fundo pela barca virada. E o barqueiro, até uma hora depois, viu o Pe. Anchieta tranquilamente lendo seu breviário lá, embaixo da água. Quando o retiraram, nem o padre, nem o livro haviam se molhado” (Oscar G. Quevedo. Milagres, a ciência confirma a fé. S. Paulo: Loyola, 2000, p. 296).

Não importa debater aqui se tal fato ocorreu ou não, o que nos interessa é frisar o quanto o povo tinha Anchieta na conta de santo. Tão santo que Deus como que o “plastificara” contra os acidentes naturais… Contudo, importa frisar que a santidade nem sempre vem acompanhada de grandes portentos. Ela pode ser fruto de uma vida simples, escondida em Cristo, mas que faz, cotidianamente, a vontade do Pai. Mais: a narrativa nos traz uma lição: ainda que debaixo das águas do mar da vida que querem nos afogar, não percamos a serenidade, seguremos firmes nas mãos de Deus e sigamos adiante, certos de que Ele não chama ninguém à mediocridade, mas, sim, a ser santo como Ele mesmo é santo (cf. Lv 19,2; Mt 5,48).

Para atingir esta tão ousada meta é que, agora, pedimos confiantes: São José de Anchieta, Apóstolo do Brasil, rogai por nós!

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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Canonização de Anchieta adiada

A canonização do beato José de Anchieta, conhecido como Padre Anchieta, que estava inicialmente marcada para esta quarta-feira (2), foi adiada para esta quinta-feira (3), segundo a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

“Informamos que a assinatura do Decreto de canonização do missionário padre José de Anchieta foi transferida para esta quinta-feira, 3 de abril, por volta do meio-dia (horário de Roma).”

A CNBB havia divulgado anteriormente que o Papa Francisco assinaria um decreto nesta quarta-feira, no qual proclamaria santo o jesuíta, que viveu no Brasil no século 16. A Arquidiocese de São Paulo preparou uma série de atividades para celebrar o dia.

De acordo com o Vaticano, para esta quinta-feira está marcado um encontro entre o pontífice e o cardeal Angelo Amato, prefeito da Congregação das Causas dos Santos, responsável por todos os processos de beatificação e canonização existentes na Santa Sé.

Canonização do padre José de Anchieta

jose anchieta canonização

O Papa Francisco o declarará santo por meio da firma de um decreto. Todos os sinos tocarão na arquidiocese de São Paulo e em Tenerife em sinal de júbilo

 

BRASíLIA, 01 de Abril de 2014 (Zenit.org) – Amanha, quarta-feira, 2 de abril de 2014o Papa Francisco vai proclamar santo o Padre José de Anchieta, Apóstolo do Brasil.

A canonização será feita por meio de um decreto que o Santo Padre vai assinar durante audiência com o Cardeal Ângelo Amato, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos – departamento da Cúria Romana que acompanha os processos de Beatificação e Canonização.

Para celebrar a Canonização do Padre Anchieta, o Cardeal Odilo Scherer solicitou aos padres da Arquidiocese de São Paulo que toquem os sinos de suas igrejas no próprio dia 2, às 14h, durante 5 minutos. Na Catedral da Sé e no Pateo do Collegio (local em que o Padre Anchieta, com outros missionários jesuítas, iniciou a vila que se transformaria na maior capital do país), além do toque dos sinos, serão expostos dois banners grandes com a imagem do novo santo.

Segue a progração da Canonização do Padre José de Anchieta

2 de abril – Dia da Canonização do Padre Anchieta

14h – Repicar dos sinos em todas as igrejas da Arquidiocese de São Paulo, durante 5 minutos

14h30 – Entrevista coletiva à imprensa com o Cardeal Scherer (Pateo do Collegio)

18h – Celebração de louvor e ação de graças, presidida pelo Cardeal Scherer (Catedral da Sé)

19h30 – Celebração de louvor e ação de graças, presidida pelo Cardeal Scherer (Pateo do Collegio)

6 de abril

9h30 – concentração no Pateo do Collegio, com orações, cantos e apresentação de trecho de musical sobre a biografia do Padre Anchieta

10h15 – Saída da procissão, com a relíquia do Padre Anchieta, em direção à Catedral da Sé

11h – Missa solene em ação de graças pela Canonização, na Catedral da Sé, presidida pelo Cardeal Scherer e com presença do Prefeito e do Governador de São Paulo

24 de abril

18h (horário de Roma) – missa em ação de graças pela Canonização, na Igreja de Santo Inácio de Loyola, em Roma, presidida pelo Papa Francisco

Sobre a Canonização

Não foi reconhecido oficialmente o 2º milagre para que o Padre Anchieta fosse canonizado conforme as regras ordinárias. Neste caso, o Santo Padre usou de um dispositivo chamado “Canonizzazione Equipollente” (Canonização equivalente), em que o Papa, após atestar que o candidato responde a alguns requisitos, estende seu culto à Igreja no mundo todo (enquanto o culto do Beato é limitado aos locais em que ele atuou).

Para que a Canonização do Padre Anchieta fosse possível, os responsáveis pelo Processo – um deles o brasileiro padre Cesar Augusto dos Santos, vice-postulador da Causa de Anchieta – escreveram um relatório em que se procura demonstrar que o Padre Anchieta preenche os três requisitos exigidos para esse tipo de canonização:

- Culto antigo;

- Testemunho confiável ao longo da história em relação às suas virtudes;

- Fama ininterrupta de graças

Ou seja, mesmo sem um milagre oficialmente reconhecido, Padre Anchieta conta com uma lista grande de pessoas que testemunham graças atribuídas à sua intercessão. Mesmo sem ter condições de reconhecer tais relatos como milagres (uma vez que faltam atestados médicos, por exemplo), a Igreja tem grande atenção e carinho por esses relatos e os levou em consideração para canonizar o Apóstolo do Brasil.

Padre José de Anchieta

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Nos primeiros dias de abril deste ano, o papa Francisco proclamará “santo” o padre José de Anchieta, um missionário que marcou profundamente o Brasil nos seus inícios.

 Anchieta nasceu em San Cristobal de la Laguna (Canárias), em 19.03.1534; seu pai, Juan López de Anchieta, vinha de importante família basca, onde foi opositor político de Carlos V. Juan López, encontrando refúgio nas Canárias para escapar das perseguições sofridas; a mãe foi Mencía Díaz de Calvijo e Llerena, natural das Canárias.

José foi enviado para estudar em Coimbra quando tinha 14 ou 15 anos de idade; durante seus estudos de filosofia na universidade de Coimbra, teve contato com os jesuítas, apenas fundados como Ordem religiosa; em 1º de maio de 1551, José entrou na Companhia de Jesus. Enquanto na comunidade local eram lidas as cartas dos primeiros missionários jesuítas no Oriente, entre os quais, S.Francisco Xavier, nasceu em Anchieta o desejo de também seguir o mesmo caminho missionário; mas foi enviado ao Brasil pelo próprio Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus; em Salvador, de fato, já estavam em ação, o padre. Manuel da Nóbrega e alguns companheiros.

Partiu de Lisboa em 8 de maio de 1553 e desembarcou em Salvador no dia 13 de julho seguinte, ainda noviço e com apenas 19 anos de idade. Após um breve período de adaptação, acompanhou o Padre Nóbrega para a nova missão de Piratininga, onde chegaram em 24 de janeiro de 1554; no dia seguinte, festa litúrgica da Conversão do apóstolo São Paulo, foi celebrada a primeira missa nesta missão, que recebeu o nome de São Paulo, em homenagem ao Apóstolo-missionário. Esta data é reconhecida oficialmente como marco histórico da fundação da cidade de São Paulo.

Anchieta desempenhou ali um intenso trabalho no colégio, o primeiro dos jesuítas na América; ensinou a língua portuguesa aos filhos de índios e portugueses; mas também estudou a língua dos indígenas e compôs a primeira gramática da língua tupi; no mesmo idioma dos índios escreveu um catecismo, várias peças de teatro e hinos; compôs poemas e escreveu obras em português, latim e tupi e guarani. Saiba mais

Chesterton e a democracia

Chesterton

Traduzido do inglês por Pedro G. Menezes

Do ensaio “Sobre o industrialismo” da obra “All I Survey”;
o ensaio original foi publicado como coluna no Illustrated London News em 16 de julho de 1932.
 

Está cada dia mais evidente que aqueles dentre nós, que se agarram a credos e dogmas esfarelados e defendem as tradições moribundas da Idade das Trevas, logo defenderão sozinhos o mais obviamente decadente dentre todos esses antigos dogmas: a ideia chamada Democracia. Não levou nem uma geração, nem mesmo minha própria geração, para derrubá-la do topo do sucesso, ou suposto sucesso, rumo a um profundo fracasso, ou renomado fracasso. Ao final do século dezenove, milhões de pessoas aceitavam a democracia sem saberem por quê. Ao final do século vinte, milhões de pessoas provavelmente rejeitarão a democracia, também sem saberem por quê. Nesta linha reta, estritamente lógica e inabalável, a mente do homem avança pelo grande caminho do progresso.

De qualquer modo, neste momento a democracia está sendo não apenas abusada, mas abusada muito injustamente. Os homens acusam o sufrágio universal simplesmente porque não são esclarecidos o suficiente para acusar o pecado original. Há um teste simples para determinar se os males políticos comuns tem origem no pecado original, um teste que nenhum ou pouquíssimos desses descontentes modernos fazem: definir qualquer tipo de afirmação moral para algum tipo de sistema político. A essência da democracia é muito simples e, como disse Jefferson, auto-evidente. Se dez homens naufragaram juntos numa ilha deserta, a comunidade consiste nesses dez homens, o bem-estar deles é o objeto social, e normalmente a vontade deles é a lei social. Se eles não tem uma reivindicação natural para governarem a si mesmos, qual deles terá a reivindicação natural para governar os outros? Dizer que o mais inteligente ou o mais corajoso deve governar é invocar uma questão moral. Se seus talentos são usados para a comunidade, ao planejar viagens ou destilar água, então ele é servo da comunidade, e ela é, neste sentido, seu soberano. Se seus talentos são usados contra a comunidade, roubando rum ou envenenando a água, por que a comunidade deveria se submeter a ele? E há chance de que ela o fará? Em um caso simples como este, todos podem ver o fundamento popular da coisa e a vantagem do governo por consenso. O problema com a democracia é que ela, nos tempos modernos, nunca tem a ver com um caso tão simples. Em outras palavras, o problema da democracia é que não é democracia. São certas coisas artificiais e antidemocráticas que de fato tem adentrado no mundo moderno para frustrar e destruir a democracia.

Modernidade não é democracia; maquinaria não é democracia; a submissão de tudo à troca e ao comércio não é democracia. Capitalismo não é democracia — é, por tendência e sabor, e admitidamente, bem contrário à democracia. Plutocracia, por definição, não é democracia. Mas todas essas coisas modernas entraram forçadas no mundo mais ou menos no momento, ou logo após ele, em que grandes idealistas como Rousseau e Jefferson pensavam sobre o ideal democrático da democracia. Pode-se dizer que o ideal era muito idealista para vingar. Mas não se pode dizer que o ideal que fracassou fosse o mesmo das realidades que vingaram. Uma coisa é dizer que um tolo entrou na selva e foi devorado por feras selvagens; outra é dizer que o tolo sobreviveu como a única fera selvagem. Na prática, a democracia tinha tudo contra ela, e isso, em teoria, talvez seja algo contra a democracia. Pode-se argumentar que a vida humana está contra ela. Mas é certo que a vida moderna, em qualquer dimensão, está contra ela. O mundo industrial e científico dos últimos cem anos é um lugar muito mais inadequado para a experiência do autogoverno do que aquele encontrado nas antigas condições da vida agrária ou nômade. A vida senhorial do feudo não era uma democracia, mas poderia se transformar em uma democracia muito mais facilmente. A vida camponesa posterior na França e na Suíça foi, de fato, transformada em democracia com facilidade. Porém, é terrivelmente difícil transformar aquilo que chamamos de democracia industrial moderna em uma democracia.

É por isso que hoje muitos homens passaram a dizer que o ideal democrático afastou-se do espírito moderno. Concordo plenamente, e obviamente prefiro o ideal democrático, que ao menos é um ideal e, portanto, uma ideia, ao espírito moderno, o qual é simplesmente moderno e, portanto, já está ficando velho. Percebo que os excêntricos, que podem ser chamados educadamente de idealistas, já se apressam a descartar este ideal. Um conhecido pacifista, com quem debati em jornais radicais na minha época radical e que depois tornou-se um modelo de republicano da nova república, apareceu outro dia para dizer: “a voz do povo é geralmente a voz de Satanás”. A verdade é que esses liberais nunca acreditaram de verdade no governo popular, não mais do que qualquer coisa popular, como os pubs ou a loteria de Dublin. Eles não acreditaram na democracia que invocaram contra reis e padres. Mas eu acreditei nela, e ainda acredito nela, embora prefira invocá-la contra arrogantes e modistas. Eu ainda acredito que ela seria o tipo de governo mais humano, se pudesse ser experimentada numa época mais humana.

Infelizmente, o humanitarismo tem sido a marca de uma época desumana. E por desumanidade não me refiro à mera crueldade, mas à situação em que até mesmo a crueldade deixa de ser humana. Refiro-me à situação na qual o homem rico, ao invés de enforcar seis ou sete inimigos que ele odeia, simplesmente permite que mendiguem e morram de fome seis ou sete mil pessoas que ele não odeia e nunca viu, porque elas vivem no outro lado do mundo. Refiro-me à situação na qual o empregado do homem rico, ao invés de preparar com animação um veneno raro e original para os Borgias ou esculpir um punhal ricamente ornamentado para os propósitos políticos dos Médici, trabalha com monotonia em uma fábrica apertando um pequeno parafuso, que vai se encaixar numa placa que ele nunca verá, a qual será uma peça de uma arma que ele nunca verá, que será usada numa batalha que ele nunca verá, uma luta que ele conhece muito menos do que o vassalo da Renascença conhecia sobre os propósitos do veneno e do punhal. Em resumo, o problema do industrialismo é a falta de direção; o fato de que nada é direto, que todos os caminhos são tortuosos mesmo quando deviam ser retos. No mais indireto dos sistemas, tentamos encaixar a mais direta das ideias. A democracia, um ideal excessivamente simples, foi levianamente aplicada a uma sociedade complexa ao ponto da loucura. Não é surpresa que esta visão tenha-se desvanecido nesse ambiente. Pessoalmente gosto da visão, mas o mundo contém os mais variados tipos; e há seres humanos, perambulando calmamente à luz do dia, que parecem realmente gostar desse ambiente.

Fonte: Sociedade Chesterton Brasil

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Religión: leer, elegir, ligar

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Cuando Tomás de Aquino aborda la cuestión de la religión, comienza notando las tres posibles etimologías del término. En primer lugar, religión es una palabra derivada de “re-leer”. La persona religiosa continuamente lee lo concerniente a Dios. Santo Tomás dice que “a estas materias hay que darles muchas vueltas en nuestro interior”, y cita el libro de los Proverbios: “en todos tus caminos piensa en Él”. Efectivamente, por mucho que busquemos y pensemos, nunca acabamos de entender la maravilla y la grandeza del misterio de Dios. Más aún, al que busca y ama al Dios que en Jesucristo se revela, le ocurre una extraña sensación: parece que cuanto más le conoce y más se acerca a él, más ganas siente de conocerle. Es un conocimiento que se retroalimenta y que cada vez tiene más hambre. Por este motivo, la persona religiosa nunca se cansa de leer; al contrario, cuanto más lee, más ganas tiene de seguir. ¿Qué es lo que lee? Lee su historia y la historia de la humanidad como conducida por la mano de Dios, en todo descubre la huella de lo divino, por todas partes encuentra signos de su presencia.

 En segundo lugar, religión podría provenir de re-elegir. La persona religiosa continuamente está eligiendo a Dios. Si no lo hacemos, corremos el riesgo de perderle. Son muchas las seducciones que quieren alejarnos de él. Por eso, la mujer y el varón religiosos están siempre optando por Dios. Al hacerlo, Dios se les presenta como una continua novedad, pues con él nunca se acaba. Y con él siempre hay nuevas cosas que descubrir. Por otra parte, optar por Dios supone estar muy atento a todo aquello que puede apartarnos de él. Para la persona religiosa Dios es la opción fundamental de vida, a la que se subordina cualquier otro deseo. Hacia Dios debe tender sin cesar nuestra elección porque él es la meta y el sentido de nuestra vida.

 Finalmente, el de Aquino conoce una tercera etimología. Religión procede de re-ligar. Por medio de los actos religiosos nos unimos con Dios, lo temporal se une con el Eterno, lo criatura con su Creador. “Pues a Él es a quién principalmente debemos ligarnos como a principio indeficiente”, dice santo Tomás. Dicho de otra manera: unidos a Dios vivimos unidos a la fuente de la vida, a la suma felicidad, al amor más pleno, al que nunca falla y todo lo sostiene, pues es el origen, el fundamento y la plenitud de Dios lo que existe. Por eso, pretender desligarse de Él es pretender lo imposible, es vivir en la más absurda de las contradicciones. Lejos de Dios solo hay nada y vacío. Lejos de Dios no hay vida.

 En suma, la religión, la unión con Dios, es una clave para leer la historia y los acontecimientos, para vivir adecuadamente, eligiendo lo mejor, y para conocer el sentido de todo lo que existe.

Summa Theologica

Summa-Peter SchöfferSumma Theologiæ, Pars secunda, prima pars. (copy by Peter Schöffer, 1471)

The Summa Theologiæ (written 1265–1274 and also known as the Summa Theologica or simply the Summa) is the best-known work of Thomas Aquinas (c.1225–1274). Although unfinished, the Summa is “one of the classics of the history of philosophy and one of the most influential works of Western literature.”[1] It is intended as an instructional guide for moderate theologians, and a compendium of all of the main theological teachings of the Catholic Church. It presents the reasoning for almost all points of Christian theology in the West. TheSumma’s topics follow a cycle: theexistence of God; Creation, Man; Man’s purposeChrist; the Sacraments; and back to God.

Among non-scholars the Summa is perhaps most famous for its five arguments for the existence of God known as the “five ways” (Latin: quinque viae). The five ways occupy one and a half pages of the Summa’s approximately three thousand five hundred pages.

Throughout the Summa Aquinas citesChristianMuslimHebrew, and Pagansources including but not limited to Christian Sacred Scripture, AristotleAugustine of HippoAvicennaAverroesAl-Ghazali,BoethiusJohn of DamascusPaul the ApostleDionysius the Areopagite,MaimonidesAnselm, Plato, Cicero, andEriugena.

The Summa is a more structured and expanded version of Aquinas’s earlier Summa contra Gentiles, though these works were written for different purposes, the Summa Theologiæ to explain the Christian faith to beginning theology students, and the Summa contra Gentiles to explain the Christian faith and defend it in hostile situations, with arguments adapted to the intended circumstances of its use, each article refuting a certain belief of a specific heresy.[2]

Aquinas conceived the Summa specifically as a work suited to beginning students: “Because a doctor of catholic truth ought not only to teach the proficient, but to him pertains also to instruct beginners. as the Apostle says in 1 Corinthians 3: 1-2, as to infants in Christ, I gave you milk to drink, not meat, our proposed intention in this work is to convey those things that pertain to the Christian religion, in a way that is fitting to the instruction of beginners.”[3]

It was while teaching at the Santa Sabinastudium provinciale, the forerunner of theSanta Maria sopra Minerva studium generaleand College of Saint Thomas which in the 20th century would become the Pontifical University of Saint Thomas Aquinas,Angelicum, that Aquinas began to compose the Summa. He completed the Prima Pars in its entirety and circulated it in Italy before departing to take up his second regency as professor at the University of Paris (1269–1272).[4]

Structure

The Summa is composed of three major parts, each of which deals with a major subsection of Christian theology.

  • First Part (in Latin, Prima Pars): God’s existence and nature; the creation of the world; angels; the nature of man
  • Second Part:
  • First part of the Second Part (Prima Secundae, often abbreviated Part I-II): general principles of morality (including a theory of law)
  • Second part of the Second Part (Secunda Secundae, or Part II-II): morality in particular, including individual virtues and vices
  • Third Part (Tertia Pars): the person and work of Christ, who is the way of man to God; the sacraments; the end of the world. Aquinas left this part unfinished.[5]

Each part contains several questions, each of which revolves around a more specific subtopic; one such question is “Of Christ’s Manner of Life.”[6] Each question contains several articles phrased as interrogative statements dealing with specific issues, such as “Whether Christ should have led a life of poverty in this world?”[7]The Summa has a standard format for each article.

  • A series of objections to the (yet to be stated) conclusion are given; one such objection, for example, is that “Christ should have embraced the most eligible form of life…which is a mean between riches and poverty.”[7]
  • A short counter-statement, beginning with Saiba mais

Os admiráveis testemunhos dos mártires do Caminho Neocatecumenal no genocídio de Ruanda

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XX Aniversário de um massacre que deixou um milhão de mortos

Este ano de 2014 cumprem-se 20 anos de um dos acontecimentos mais horríveis da história recente. No Ruanda produzia-se um autêntico genocídio no qual cerca de um milhão de pessoas foram assassinadas brutalmente em apenas três meses no intento de extermínio dos tutsi por parte dos hutus. Crê-se que neste curto período de tempo conseguiram aniquilar 85% dos tutsis deste país.

 Este terrível acontecimento causou um sofrimento extra à Igreja Católica, pois o Ruanda era considerado um dos países mais cristãos de toda a África. O genocí- dio no qual participou uma parte da sociedade civil deixou em evidência os escassos cimentos da fé de um país no qual alguns sacerdotes e religiosas foram inclusive condenados por participar nos massacres. Mesmo João Paulo II reconhecia esta triste realidade em 1996 quando dizia que “todos os membros da Igreja que pecaram durante o genocídio” tinham que “ter a valentia de aceitar as consequências dos actos que cometeram contra Deus e contra o seu pró- ximo”.

 O sangue dos mártires da Igreja

Sem dúvida, também houve um comportamento heróico da Igreja e agora Ruanda está banhado pelo sangre dos mártires. A sua fidelidade ao Evangelho fez que três bispos, uma centena de sacerdotes e até 117 religiosos e religio- sas fossem assassinados.

Além disso, milhares de leigos foram assassinados das maneiras mais horríveis por serem cristãos e negarem-se a actuar contra a vontade de Deus. É o caso dos mártires do Caminho Neocatecumenal. Centenas de irmãos desta reali- dade eclesial foram assassinados por negar-se a matar outros, por protegerem tutsis e por formar parte de comunidades nas quais os tutsis, os hutus e os twa se amavam e conviviam.

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Um relato sobre as mortes dos irmãos

A revista Communio recolhia em 1995 o testemunho destes mártires. Enrico Zabeo, um sacerdote italiano responsável do Caminho Neocatecumenal no Ruanda, relatava numa carta enviada em 1994 à sua paróquia em Roma a sua ex- periência durante essas semanas e o firme testemunho de fé dos irmãos ruan- deses e como muito tinham morrido rezando pelos seus verdugos.

O padre Zabeo conseguiu escapar para as colinas junto com o espanhol Ignacio Moreno e a francesa Jeanne Watrelot, responsáveis desta realidade no Ruanda, e assim salvar a vida ainda que Saiba mais

Por que ler Tomás de Aquino hoje?

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Um lançamento da Editora Ecclesiae – a tradução, pela primeira vez no Brasil, da parte das Quaestiones disputatae dedicada ao “poder de Deus” – recoloca uma pergunta que muitos hesitam em fazer: por que ler Tomás de Aquino hoje?

Uma questão pertinente para alguém que, como eu, não é filósofo e, muito menos, leitor assíduo de Aquino. Por que eu deveria perder meu tempo com um padre dominicano que viveu no longínquo século XIII?

Para responder, não recorro à Wikipédia, mas às lembranças que guardo das poucas leituras que fiz, há três décadas no mínimo. O que ficou, para mim, do Aquinate?

A limpidez do raciocínio, sem dúvida. Limpidez que chegou a produzir vertigens no jovem viciado no estudo de marxistas e estruturalistas. Tive de readequar minha mente ao que, percebi com dificuldade, é a argumentação racional per se, isto é, o verdadeiro método para apreender a realidade, analisá-la, estabelecer distinções e elaborar respostas às perguntas fundamentais que se colocam quando me interrogo sobre o sentido da vida. 

Essa sincera busca da verdade, uma sinceridade que se contrapõe ao mundo ideológico, incansável em seu trabalho de tentar nos convencer de que certos temas, quase sempre de ordem metafísica, são cartas definitivamente fora do baralho, foi o que me conquistou.

Lembro-me de uma pequena história contada por meu professor de Filosofia: Tomás de Aquino rezava na capela quando vê um amigo morto, que teria sido autorizado a visitá-lo apenas para se despedir. O anseio do Doutor Angélico pela verdade é tão grande, que ele não se interessa pela emoção da despedida, mas começa a interrogar seu amigo sobre as características da visão beatífica que ele, provavelmente, já alcançara.

Verdade ou não, a história revela um pouco desse homem que, livre e maduro o suficiente para interrogar um morto com naturalidade, ergueu um monumento filosófico cujo objetivo é conciliar fé e razão, imergindo os princípios aristotélicos no inesgotável oceano do cristianismo.

Um homem desse tipo, que dedicou sua vida à tarefa mais honrosa e também mais ingrata – a de buscar a verdade –, abdicando de toda vaidade, de todo orgulho, merece de nós pelo menos algumas horas de leitura.

Fonte: Rodrigo Gurgel

Breve história do tomismo

PapaLeaoXIIIPapa Leão XIII

A controvérsia sobre o aristotelismo não acabou com o trabalho de Tomás de Aquino, muito menos com a sua morte. Em 1270, enquanto Santo Tomás ainda estava vivo, Stephen Tempier, o bispo de Paris, havia condenado várias proposições associadas ao averroísmo, embora entre elas não houvesse qualquer tese defendida pelo Aquinate. Depois de sua morte, contudo, em 1277, Tempier condenou 219 proposições, algumas das quais eram claramente encontradas em Santo Tomás. Isso levou Santo Alberto Magno à Paris para defender seu ex-aluno, ao mesmo tempo em que outros dominicanos também se lançaram à tarefa de defender a doutrina de seu irmão da Ordem dos Pregadores. Na verdade, o estudo de Santo Tomás tornar-se-ia obrigatório dentro da Ordem. A defesa dominicana e a consolidação do ensinamento de Santo Tomás, que começaram logo após a sua morte, às vezes são tomadas pelos historiadores como início do primeiro dos três períodos na história do tomismo. Que ela foi uma empreitada bem-sucedida torna-se evidente pelos fatos de Tomás de Aquino ser declarado santo pelo Papa João XXII em 1323 e de dois anos depois, em 1325, as condenações de Tempier de 1277 terem sido revogadas pelo seu sucessor.

Da mesma maneira que os dominicanos em geral haviam defendido Santo Tomás, os membros da ordem franciscana estavam entre os seus mais ferozes críticos. A rivalidade entre as duas ordens se tornariam ainda mais amarga com a influência dos pensadores franciscanos João Duns Scoto (1266-1308) e Guilherme de Ockham (1287-1347). Scoto e Ockham tendiam para o voluntarismo, que enfatiza a vontade de Deus sobre o Seu intelecto e, portanto, tornava Suas ações mais impenetráveis para nossa compreensão racional do que o são na visão de Santo Tomás. Ockham é notoriamente associado ao nominalismo, que nega a existência dos universais. Do ponto de vista tomista, essas doutrinas ameaçavam minar a inteligibilidade do mundo e os fundamentos racionais da ética e do nosso conhecimento de Deus. As posições do Aquinate foram habilmente defendidas pelas teses similares de João Capreolo (1380-1444), que ficou conhecido comoPrinceps Thomistarum, ou Primeiro dos Tomistas.

O segundo período na história do tomismo tem seu início às vezes datado aproximadamente na época da Saiba mais

28 de janeiro – Santo Tomás de Aquino, presbítero e Doutor da Igreja

TOMAS AQUINO

Memória

 Nasceu por volta do ano 1225, da família dos Condes de Aquino. Estudou primeiramente no mosteiro de Monte Cassino e depois em Nápoles. Ingressou na Ordem dos Frades Pregadores e completou os estudos em Paris e em Colônia, tendo tido como professor Santo Alberto Magno. Escreveu muitas obras de grande erudição, e, como professor, lecionou disciplinas filosóficas e teológicas, o que lhe valeu grande reputação. Morreu nas proximidades de Terracina, a 7 de março de 1274. Sua memória é celebrada a 28 de janeiro, data em que seu corpo foi trasladado para Toulouse (França), em 1369.

Ofício das Leituras

Segunda leitura

Das Conferências de Santo Tomás de Aquino, presbítero

(Colatio 6 super Credo in Deum)              (Séc.XIII)

 Na cruz não falta nenhum exemplo de virtude

Que necessidade havia para que o Filho de Deus sofresse por nós? Uma necessidade grande e, por assim dizer, dupla: para ser remédio contra o pecado e para exemplo do que devemos praticar.

Foi em primeiro lugar um remédio, porque na paixão de Cristo encontramos remédio contra todos os males que nos sobrevêm por causa dos nossos pecados.

Mas não é menor a utilidade em relação ao exemplo. Na verdade, a paixão de Cristo é suficiente para orientar nossa vida inteira. Quem quiser viver na perfeição, nada mais tema fazer do que desprezar aquilo que Cristo desprezou na cruz e desejar o que ele desejou. Na cruz, pois, não falta nenhum exemplo de virtude.

Se procuras um exemplo de caridade: Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos (Jo 15,13). Assim fez Cristo na cruz. E se ele deu sua vida por nós, não devemos considerar penoso qualquer mal que tenhamos de sofrer por causa dele.

Se procuras um exemplo de paciência, encontras na cruz o mais excelente! Podemos reconhecer uma grande paciência em duas circunstâncias: quando alguém suporta com serenidade grandes sofrimentos, ou quando pode evitar os sofrimentos e não os evita. Ora, Cristo suportou na cruz grandes sofrimentos, e com grande serenidade, porque atormentado, não ameaçava (1Pd 2,23); foi levado como ovelha ao matadouro e não abriu a boca (cf. Is 53,7; At 8,32).

É grande, portanto, a paciência de Cristo na cruz. Corramos com paciência ao combate que nos é proposto, com os olhos fixos em Jesus, que em nós começa e completa a obra da fé. Em vista da alegria que lhe foi proposta, suportou a cruz, não se importando com a infâmia (cf. Hb 12,1-2).

Se procuras um exemplo de humildade, contempla o crucificado: Deus quis ser julgado sob Pôncio Pilatos e morrer.

Se procuras um exemplo de obediência, segue aquele que se fez obediente ao Pai até à morte: Como pela desobediência de um só homem, isto é, de Adão, a humanidade toda foi estabelecida numa condição de pecado, assim também pela obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça (Rm 5,19).

Se procuras um exemplo de desprezo pelas coisas da terra, segue aquele que é Rei dos reis e Senhor dos senhores, no qual estão encerrados todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2,3), e que na cruz está despojado de suas vestes, escarnecido, cuspido, espancado, coroado de espinhos e, por fim, tendo vinagre e fel como bebida para matar a sede.

Não te preocupes com as vestes e riquezas, porque repartiram entre si as minhas vestes (Jo 19,24); nem com honras, porque fui ultrajado e flagelado; nem com a dignidade, porque tecendo uma coroa de espinhos, puseram-na em minha cabeça (cf. Mc 15,17); nem com os prazeres, porque em minha sede ofereceram-me vinagre (Sl 68,22).

 

Responsório             Sb 7,7-8; 9,17

 R. Pedi e foi-me dada inteligência,

roguei e recebi sabedoria.

* Aos tronos e ao poder a preferi;

a ela comparadas, as riquezas

perderam para mim todo o valor.

V. Quem pode conhecer vossos desígnios

se vós não lhe doais sabedoria,

enviando, das alturas celestiais,

o vosso Santo Espírito, Senhor? * Aos tronos. 

 

Oração

Ó Deus, que tornastes Santo Tomás de Aquino um modelo admirável, pela procura da santidade e amor à ciência sagrada, dai-nos compreender seus ensinamentos e seguir seus exemplos. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

Tomás em quadrinhos

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Tomás responde: Existe um preceito de dar esmolas?

Bartolomé_Esteban_Perez_Murillo_St._Thomas_of_Villanueva_Distributing_AlmsBartolomé Esteban Murillo (1617-1682), São Tomás de Villanueva distribuindo esmolas

Parece que não existe um preceito de dar esmolas:

1. Com efeito, os conselhos são diferentes dos preceitos. Ora, dar esmolas é um preceito, segundo o livro de Daniel (4, 24): “Ó rei, aceita meu conselho: redime teus pecados com esmolas”. Logo, dar esmolas não é um preceito.

2. Além disso, a cada qual é lícito usar ou conservar os seus bens. Ora, conservando-os, não se pratica a esmola. Logo, é lícito não dar esmola e, portanto, ela não é um preceito.

3. Ademais, tudo o que cai sob um preceito, por um certo tempo obriga sob pena de pecado mortal, porque os preceitos afirmativos obrigam por um tempo determinado. Portanto, se dar esmola fosse um preceito, poder-se-ia determinar um tempo durante o qual pecaria mortalmente quem não a desse. Ora, não parece que seja o caso, pois sempre se pode pensar que provavelmente um indigente poderá ser socorrido de outra maneira, e que o dinheiro da esmola poderia ser-nos necessário, no presente ou no futuro. Logo, parece que dar esmola não é um preceito.

4. Ademais, todos os preceitos se reduzem aos do Decálogo; entre eles nada concerne à esmola. Logo, dar esmola não é um dos preceitos.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, ninguém é condenado ao castigo eterno por omissão de uma obra que não é preceito. Ora, alguns deverão sofrer esta pena, porque não praticaram a esmola, como se vê no Evangelho de Mateus (25, 41). Portanto, dar esmola é um preceito.

Tomas_RespondoComo o amor ao próximo é um preceito, é necessário que tudo o que é indispensável para guarda-lo caia também sob o preceito. Ora, em virtude desse amor, não somente devemos querer o bem ao nosso próximo, mas inclusive realiza-lo: “Não amemos com palavras nem com a língua, mas com ações e em verdade”, diz a primeira Carta de João (3, 18). Para querer e operar o bem em relação ao próximo é preciso socorrê-lo nas necessidades, a saber, dando-lhe esmolas. Logo, dar esmola é um preceito.

Mas, como os preceitos tratam de atos de virtude, dar esmola será obrigatório na medida em que este ato for necessário para a virtude, isto é, enquanto a reta razão o exige. Ora, isso implica duas ordens de considerações, relativamente ao que dá e ao que recebe a esmola. Do lado do doador, deve-se levar em conta que Saiba mais

Deus e o índio de Mackenzie

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Reproduzimos a seguir as palavras de Grouard, citadas por Foulquié, expressivas e de grandes sugestões. Pertencem ao livro “Souvenirs de mes soixant ans d’apostolat”:

« Um índio de Mackenzie disse-me um dia:

— Padre, antes de te ter visto, eu sabia que Deus existe.

— Como o sabias? Creio que fui o primeiro a te falar de Deus.

— Na verdade — retrucou — antes de ti, ninguém me havia falado nele, e contudo, eu sabia que há um Deus. Um dia, quando tinha catorze ou quinze anos, fui à caça com o meu arco e minhas flechas. Conhecia os bosques, os rios, os lagos por onde havia passado, buscando matar alguma caça. Nesse dia, no verão, cheguei à borda de um lago cercado de belas árvores. Patos desciam sobre a água, o sol brilhava no céu sem nuvens; lá longe, montanhas elevavam-se, em variadas alturas. Detendo-me, contemplei tudo isso com um imenso prazer. Subitamente, a idéia me veio: “Quem fez tudo isso? Não fomos nós, nem tampouco os ingleses, pois são homens semelhantes a nós. É preciso que haja alguém mais forte que todos os homens que tenha feito isso”. Vês — acrescentou o índio — eu sabia que essas florestas, esses lagos, esse sol, não haviam sido feitos por si sós. Eu não podia explicar-me mais corretamente. Mas, quando tu nos ensinaste: “Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra”, eu compreendi logo e disse a mim mesmo: “Ei-lo; eu sabia que ele existia”.»

Trecho de “O Homem Perante o Infinito (Teologia)”, de Mário Ferreira dos Santos.

Fonte: Blog do Yuri

As três árvores

Josefa_Obidos_natividadeJosefa de Óbidos (1630-1684), Natividade

Era uma vez, no topo de uma montanha, três arvorezinhas que estavam juntas e sonhavam sobre o que chegariam a ser quando crescessem.

A primeira arvorezinha olhou para as estrelas e disse: “Eu quero guardar tesouros, quero estar repleta de ouro e pedras preciosas. Serei o baú de tesouros mais bonito do mundo”.

A segunda arvorezinha olhou para um pequeno arroio realizando seu caminho rumo ao mar, e disse: “Eu quero viajar por águas temíveis e levar reis poderosos sobre mim. Serei o barco mais importante do mundo”.

A terceira arvorezinha olhou para o vale que estava abaixo da montanha e viu homens e mulheres trabalhando em um povoado: “Eu não quero sair nunca de cima da montanha. Quero crescer tão alto que quando os habitantes do povoado pararem para me contemplar, eles levantarão seu olhar para o céu e pensarão em Deus. Serei a árvore mais alta do mundo”.

Os anos se passaram… Choveu, brilhou o sol, e as três arvorezinhas ficaram grandes.
Um dia, três lenhadores subiram ao topo da montanha.

O primeiro lenhador olhou para a primeira árvore e disse: “Que árvore bonita!”, e com uma machadada a primeira árvore caiu.

“Agora me transformarão em um baú bonito, que deverá conter tesouros maravilhosos”, disse a primeira árvore.

O segundo lenhador olhou para a segunda árvore e disse: “Esta árvore é bem forte, é perfeita para mim. E com uma machadada, a segunda árvore caiu.

“Agora deverei navegar por águas temíveis”, pensou a segunda árvore. “Serei um barco importante, para reis temidos e poderosos”.

A terceira árvore sentiu seu coração sofrer quando o último lenhador olhou para ela. A árvore se manteve firme e alta e apontando ferozmente para o céu. Mas o lenhador nem sequer olhou para cima, e disse: “Qualquer árvore é boa para mim”. E com uma machadada, a terceira árvore caiu.

A primeira árvore se emocionou quando o lenhador a levou para uma carpintaria, mas o carpinteiro a transformou em um cocho para animais. Aquela árvore bonita não foi Saiba mais

Aspectos do pensamento jurídico de Santo Tomás de Aquino

Friesach_Igreja_Dominicana_Tomas_AquinoIgreja Dominicana em Friesach, Áustria, altar principal, Tomás de Aquino

Por Victor Emanuel Vilela Barbuy

Como assinala o Professor Mário Curtis Giordani, embora não tendo sido um jurista nem tido a formação que caberia a um jurista, Santo Tomás foi um filósofo do Direito, ocupando mesmo “lugar de relevo na História da Filosofia do Direito”. Nós outros, por nossa vez, afirmamos não só que o Angélico Doutor ocupa lugar de destaque na história do pensamento jusfilosófico, mas que representa o maior dentre todos os filósofos do Direito, posto que nenhum outro teólogo, filósofo ou jusfilósofo jamais formulou tão magnífica doutrina a respeito da Justiça, da Lei, do Direito Natural e do Direito Positivo quanto o Príncipe dos Doutores da Igreja.

O pensamento jusnaturalista clássico, ou tradicional, que se assenta na tradição constituída pelos filósofos da Hélade, pelos jurisconsultos romanos e pelos teólogos e canonistas da Cristandade, tem o seu inegável apogeu na obra do Aquinate, tão ou mais viva e necessária hoje do que na Europa da décima terceira centúria.

O Direito Natural, que tem seu fundamento metafísico último em Deus, o Sumo Bem, Princípio e Fim de todas as coisas, repousa em um critério objetivo de justiça, se constituindo em um conjunto de normas inatas na natureza humana, pelas quais o homem se dirige, com o objetivo de agir retamente. Como preleciona o Professor Alexandre Corrêa, a razão conhece os preceitos do Direito Natural, intuitivamente, sendo ele, neste sentido, racional. Porém, consoante faz salientar o eminente jurista, filósofo e jusfilósofo patrício, depende o Direito Natural, “no travejamento dos seus princípios, dos dados que ministra a experiência e, como tal, é experimental”.

O Direito Natural se divide em duas partes, uma universal e imutável e a outra variável. A primeira parte diz respeito aos primeiros princípios da Lei Natural, isto é, aos denominados princípios sinderéticos, ou seja, apreendidos pela Sindérese, expressão que designa o hábito intelectual dos primeiros princípios de ordem prática. Tais princípios podem ser reduzidos ao princípio segundo o qual devemos fazer o bem e evitar o mal. Já a segunda parte atina aos Saiba mais

Sto. Tomás, a vaca voadora e nós, por Olavo de Carvalho

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Sto. Tomás, a vaca voadora e nós

OLAVO DE CARVALHO (1)

Caderno de Cultura do IDEAS – Instituto de Estudos e Ações Sociais – da UniverCidade. Ano I, número I, Outubro de 2001.

A Antônio Donato Rosa e Júlio Fleichman.

Nenhum historiador profissional do mundo aceita hoje em dia a lenda setecentista que deprecia a Idade Média como “Idade das Trevas”, mas ela continua firmemente arraigada no credo universitário brasileiro e é repassada de geração em geração por sociopatas militantes e analfabetos funcionais aos quais um abuso de linguagem confere o estatuto de intelectuais acadêmicos.

Só isso já bastaria para ilustrar a imensidão do abismo mental que se alarga dia a dia entre as nações cultas e aquelas onde a negligência ou cumplicidade dos governantes permitiu que as instituições de ensino fossem monopolizadas por propagandistas e demagogos a serviço de grosseiras ambições de poder.

O discurso de depreciação da Idade Média foi criado por beletristas e agitadores do século XVIII como expediente de ocasião para a propaganda anti-religiosa, destinada a minar as bases morais e ideológicas da monarquia. Malgrado a imensa penetração que obteve na mitologia popular, graças ao respaldo de toda sorte de organizações políticas e sociedades pseudo-iniciáticas, o fato é que ela jamais existiu como teoria histórica aceitável nos meios científicos e hoje subsiste apenas em círculos de ativistas semiletrados do Terceiro Mundo, à margem das correntes vivas do pensamento mundial.

No Brasil ou na Zâmbia, “medieval” ainda pode ser usado como termo pejorativo nas polêmicas da mídia, mas quem quer que se deixe impressionar por isso mostra que é escravo de uma atmosfera mental provinciana, sem a mínima abertura para o horizonte maior da cultura universal.

Em contrapartida, não há estudioso sério que hoje possa contestar a afirmação de Schelling, segundo a qual a transição da filosofia medieval para a atmosfera moderna inaugurada por Descartes assinala a queda do pensamento filosófico para um nível pueril. (2)

Essa queda revela-se da maneira mais escandalosa na simples perda da técnica filosófica cujo domínio distingue o filósofo do beletrista e do ideólogo.

A longa prática da disputatio nas universidades havia dotado os intelectuais europeus de uma Saiba mais

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