Chesterton, a bebida e a felicidade

Giotto_Bodas_CanaGiotto di Bondone (1267-1337), As Bodas de Caná

UMA NOVA MORALIDADE veio ao nosso encontro com certa violência e se relaciona ao problema da bebida alcoólica. Os entusiastas do assunto variam desde o homem que é posto para fora dos pubs ingleses às 00h30 até a dama que ataca os balcões dos bares com um machado. Em tais discussões, quase sempre sentimos que uma postura moderada e bastante sábia é dizer que o vinho, ou coisas do tipo, devem ser ingeridos como remédio. Atrevo-me a discordar disso com particular veemência. A forma genuinamente perigosa e imoral de tomar vinho é tomá-lo como remédio. E por esta razão: se alguém bebe vinho por prazer, está tentando obter algo excepcional, algo que não espera a qualquer hora do dia, algo que, a menos que seja um tanto louco, não tentará obter a qualquer hora do dia. Mas se alguém bebe vinho para ter saúde, está tentando obter algo natural; ou seja, algo sem o que não consegue viver; algo sem o que dificilmente passará sem consumir. Pode ser que aquele que não tenha visto o êxtase de ficar extático não fique seduzido; é mais fascinante vislumbrar o êxtase de estar normal. Se houvesse um ungüento mágico, e o mostrássemos a um homem forte e lhe disséssemos: “Isto te permitirá saltar do Monumento”,145 sem dúvida saltaria, mas não ficaria saltando durante o dia todo para alegrar o centro da cidade. Mas se mostrássemos o ungüento a um cego e lhe disséssemos, “Isto te permitirá recobrar a visão”, essa pessoa ficaria fortemente tentada. Ser-lhe-ia difícil não esfregá-lo nos olhos quando ouvisse o galopar de um nobre cavalo ou o cantar de pássaros ao alvorecer. É fácil não permitir que alguém tenha prazeres; difícil é negar a aquisição da normalidade. Por isso, e todos os médicos sabem, é sempre perigoso dar bebida alcoólica aos doentes mesmo quando precisam. Inútil dizer que não considero que dar bebida alcoólica como estimulante a um doente seja necessariamente injustificado. Mas considero o dar bebidas alcoólicas a pessoas saudáveis como divertimento um uso apropriado e muito mais coerente com a saúde.

A regra sadia nessa questão parece ser a mesma de muitas outras regras saudáveis – um paradoxo. Beba por estar feliz, mas nunca por se sentir extremamente infeliz. Nunca beba quando estiver infeliz por não ter uma bebida, ou irá parecer um triste alcoólatra caído na calçada. Mas beba quando, mesmo sem a bebida, estaria feliz, e isso o tornará parecido com um risonho camponês italiano. Nunca beba por precisar disso, pois tal ato racional é o caminho para a morte e o inferno. Mas beba por não precisar disso, pois beber irracionalmente é a antiga fonte de saúde do mundo.

Por mais de trinta anos o vulto e a glória de uma grande figura oriental têm sido impostos à literatura inglesa. A tradução de Fitzgerald dos Rubáiyát de Omar Khayyām146 concentrou, com imorredoura comoção, todo o sombrio e desnorteado hedonismo de nossa época. Seria simplesmente inútil falar do esplendor literário da obra; poucos são os livros dos homens que conseguiram combinar tão bem a alegre combatividade de um epigrama com a vaga tristeza de uma canção. Mas, sobre a influência filosófica, ética e religiosa, que é tão grande quanto o esplendor, gostaria de dar uma palavra, e tal palavra, confesso, é de uma hostilidade intransigente. Há muitas coisas que podem ser ditas contra o espírito do Rubáiyát, e contra sua enorme influência. Mas uma acusação se destaca das demais de forma nefasta – uma verdadeira desgraça para a obra, uma calamidade genuína para todos. Tal acusação seria o golpe terrível que o grande poema desferiu na sociabilidade e na alegria da vida. Alguém já chamou Omar de “o vetusto persa jubilosamente triste”.147 Triste é; mas não jubiloso, em nenhum dos sentidos da palavra. Tem sido um inimigo da alegria pior que os puritanos. Leia mais deste post

Chesterton e a democracia

Chesterton

Traduzido do inglês por Pedro G. Menezes

Do ensaio “Sobre o industrialismo” da obra “All I Survey”;
o ensaio original foi publicado como coluna no Illustrated London News em 16 de julho de 1932.
 

Está cada dia mais evidente que aqueles dentre nós, que se agarram a credos e dogmas esfarelados e defendem as tradições moribundas da Idade das Trevas, logo defenderão sozinhos o mais obviamente decadente dentre todos esses antigos dogmas: a ideia chamada Democracia. Não levou nem uma geração, nem mesmo minha própria geração, para derrubá-la do topo do sucesso, ou suposto sucesso, rumo a um profundo fracasso, ou renomado fracasso. Ao final do século dezenove, milhões de pessoas aceitavam a democracia sem saberem por quê. Ao final do século vinte, milhões de pessoas provavelmente rejeitarão a democracia, também sem saberem por quê. Nesta linha reta, estritamente lógica e inabalável, a mente do homem avança pelo grande caminho do progresso.

De qualquer modo, neste momento a democracia está sendo não apenas abusada, mas abusada muito injustamente. Os homens acusam o sufrágio universal simplesmente porque não são esclarecidos o suficiente para acusar o pecado original. Há um teste simples para determinar se os males políticos comuns tem origem no pecado original, um teste que nenhum ou pouquíssimos desses descontentes modernos fazem: definir qualquer tipo de afirmação moral para algum tipo de sistema político. A essência da democracia é muito simples e, como disse Jefferson, auto-evidente. Se dez homens naufragaram juntos numa ilha deserta, a comunidade consiste nesses dez homens, o bem-estar deles é o objeto social, e normalmente a vontade deles é a lei social. Se eles não tem uma reivindicação natural para governarem a si mesmos, qual deles terá a reivindicação natural para governar os outros? Dizer que o mais inteligente ou o mais corajoso deve governar é invocar uma questão moral. Se seus talentos são usados para a comunidade, ao planejar viagens ou destilar água, então ele é servo da comunidade, e ela é, neste sentido, seu soberano. Se seus talentos são usados contra a comunidade, roubando rum ou envenenando a água, por que a comunidade deveria se submeter a ele? E há chance de que ela o fará? Em um caso simples como este, todos podem ver o fundamento popular da coisa e a vantagem do governo por consenso. O problema com a democracia é que ela, nos tempos modernos, nunca tem a ver com um caso tão simples. Em outras palavras, o problema da democracia é que não é democracia. São certas coisas artificiais e antidemocráticas que de fato tem adentrado no mundo moderno para frustrar e destruir a democracia.

Modernidade não é democracia; maquinaria não é democracia; a submissão de tudo à troca e ao comércio não é democracia. Capitalismo não é democracia — é, por tendência e sabor, e admitidamente, bem contrário à democracia. Plutocracia, por definição, não é democracia. Mas todas essas coisas modernas entraram forçadas no mundo mais ou menos no momento, ou logo após ele, em que grandes idealistas como Rousseau e Jefferson pensavam sobre o ideal democrático da democracia. Pode-se dizer que o ideal era muito idealista para vingar. Mas não se pode dizer que o ideal que fracassou fosse o mesmo das realidades que vingaram. Uma coisa é dizer que um tolo entrou na selva e foi devorado por feras selvagens; outra é dizer que o tolo sobreviveu como a única fera selvagem. Na prática, a democracia tinha tudo contra ela, e isso, em teoria, talvez seja algo contra a democracia. Pode-se argumentar que a vida humana está contra ela. Mas é certo que a vida moderna, em qualquer dimensão, está contra ela. O mundo industrial e científico dos últimos cem anos é um lugar muito mais inadequado para a experiência do autogoverno do que aquele encontrado nas antigas condições da vida agrária ou nômade. A vida senhorial do feudo não era uma democracia, mas poderia se transformar em uma democracia muito mais facilmente. A vida camponesa posterior na França e na Suíça foi, de fato, transformada em democracia com facilidade. Porém, é terrivelmente difícil transformar aquilo que chamamos de democracia industrial moderna em uma democracia.

É por isso que hoje muitos homens passaram a dizer que o ideal democrático afastou-se do espírito moderno. Concordo plenamente, e obviamente prefiro o ideal democrático, que ao menos é um ideal e, portanto, uma ideia, ao espírito moderno, o qual é simplesmente moderno e, portanto, já está ficando velho. Percebo que os excêntricos, que podem ser chamados educadamente de idealistas, já se apressam a descartar este ideal. Um conhecido pacifista, com quem debati em jornais radicais na minha época radical e que depois tornou-se um modelo de republicano da nova república, apareceu outro dia para dizer: “a voz do povo é geralmente a voz de Satanás”. A verdade é que esses liberais nunca acreditaram de verdade no governo popular, não mais do que qualquer coisa popular, como os pubs ou a loteria de Dublin. Eles não acreditaram na democracia que invocaram contra reis e padres. Mas eu acreditei nela, e ainda acredito nela, embora prefira invocá-la contra arrogantes e modistas. Eu ainda acredito que ela seria o tipo de governo mais humano, se pudesse ser experimentada numa época mais humana.

Infelizmente, o humanitarismo tem sido a marca de uma época desumana. E por desumanidade não me refiro à mera crueldade, mas à situação em que até mesmo a crueldade deixa de ser humana. Refiro-me à situação na qual o homem rico, ao invés de enforcar seis ou sete inimigos que ele odeia, simplesmente permite que mendiguem e morram de fome seis ou sete mil pessoas que ele não odeia e nunca viu, porque elas vivem no outro lado do mundo. Refiro-me à situação na qual o empregado do homem rico, ao invés de preparar com animação um veneno raro e original para os Borgias ou esculpir um punhal ricamente ornamentado para os propósitos políticos dos Médici, trabalha com monotonia em uma fábrica apertando um pequeno parafuso, que vai se encaixar numa placa que ele nunca verá, a qual será uma peça de uma arma que ele nunca verá, que será usada numa batalha que ele nunca verá, uma luta que ele conhece muito menos do que o vassalo da Renascença conhecia sobre os propósitos do veneno e do punhal. Em resumo, o problema do industrialismo é a falta de direção; o fato de que nada é direto, que todos os caminhos são tortuosos mesmo quando deviam ser retos. No mais indireto dos sistemas, tentamos encaixar a mais direta das ideias. A democracia, um ideal excessivamente simples, foi levianamente aplicada a uma sociedade complexa ao ponto da loucura. Não é surpresa que esta visão tenha-se desvanecido nesse ambiente. Pessoalmente gosto da visão, mas o mundo contém os mais variados tipos; e há seres humanos, perambulando calmamente à luz do dia, que parecem realmente gostar desse ambiente.

Fonte: Sociedade Chesterton Brasil

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Santo Tomás de Aquino, por Chesterton

Artigo de G. K. Chesterton, publicado originalmente na revista The Spectator, em 27 de fevereiro de 1932, antes do autor lançar seu livro sobre Santo Tomás de Aquino.

Tradução: Rafael Carneiro Rocha

A dificuldade de falar sobre Santo Tomás de Aquino neste breve artigo é selecionar qual aspecto de sua mente multifacetada seria melhor para sugerir a dimensão ou a escala dela. Por causa do seu corpo opulento que carregava seu igualmente maciço cérebro, ele era chamado de “O boi”. É assim: qualquer tentativa de reduzir tamanha inteligência para um artigo de tablóide se parece com todas as piadas possíveis sobre um boi numa xícara de chá. Ele foi um dos dois ou três gigantes; um dos dois ou três maiores homens que já viveram; e eu não ficaria surpreso se ele realmente fosse, independentemente da santidade, o maior deles. Outra maneira de considerar Santo Tomás de Aquino com outros gigantes é assumir que a proporção varia de acordo com o que os outros homens são comparáveis ou não a ele. Não teremos uma escala de grandiosidade até constatar que poucas criaturas históricas poderiam rivalizar com o santo.

Assim, para começar, poderemos situá-lo no contexto da vida ordinária de seu tempo e narrar suas aventuras no meio dos contemporâneos dele. Sozinho, ele lançou uma luz sobre a história, a despeito da luz que lançara sobre a filosofia. Nascido em berço de ouro, não muito distante de Nápoles, quando este filho de um grande nobre de Aquino revelou seu desejo de se tornar monge, pareceria, de acordo com aquela época, que tudo seria facilitado para ele. Uma figura influente poderia ser admirada, com decoro, na hoje antiga rotina dos beneditinos; como o filho mais novo de um escudeiro teria se tornado um pároco daquelas redondezas. Mas o mundo de então havia sido pisoteado em todos os seus caminhos por uma revolução religiosa. Quando o jovem Tomás insistiu em se tornar um dominicano – um frade vagante e pedinte – seus irmãos se utilizaram de táticas como perseguição, sequestro e silêncio no cárcere. Era como se o filho de um latifundiário se tornasse um cigano ou um comunista. Contudo, ele conseguiu se tornar frade e o discípulo preferido do grande Santo Alberto Magno (1). Em seguida, se estabeleceu em Paris, onde foi um proeminente defensor das ordens mendicantes (2) que surgiam em Sorbonne e onde quer que fosse. Adiante, ele se encontrou no cerne da controvérsia sobre Averróis (3) e Aristóteles, que refletiu na reconciliação entre a fé cristã e a filosofia pagã. Mesmo em sua vida social, as preocupações de espírito lhe ocupavam muito. Homem grande, corpulento, manso e bem-humorado, às vezes era dado a transes. Durante um jantar com São Luís (4), o rei francês, Santo Tomás ensimesmou-se de tal forma que, subitamente, bateu na mesa com o punho e bradou: “Isto vai liquidar os maniqueus!” O rei, com a fineza irônica e inocente, pediu para um serviçal anotar o raciocínio de Santo Tomás, para que as palavras não fossem esquecidas.

Então, ele poderia ser comparado com santos e teólogos mais místicos do que dogmáticos. Como homem sensato, Santo Tomás era místico privadamente e, em público, um filósofo. Tudo bem que ele tinha “experiência religiosa”; mas ele não pedia, à maneira moderna, que outras pessoas racionalizassem sua Leia mais deste post

Stanford Nutting interroga Chesterton

 

 

Debate Chesterton X Clarence Darrow legendado

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Veja também o debate Chesterton X Blatchford e os vídeos “Religião hoje”, “Religião no mundo moderno” e “Autores hoje” CLICANDO AQUI.

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O “profeta” Chesterton em “O homem que foi quinta-feira”

ATENÇÃO: QUALQUER SEMELHANÇA COM A REALIDADE DE HOJE É MERA COINCI… OPS… QUERO DIZER… É MERO CHESTERTON!

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Chestertoninas: O tomismo, casamento da consciência com a realidade

“Em outros termos, a essência do senso comum tomista é que dois agentes estão trabalhando – a realidade e a consciência dela – e que do seu encontro resulta uma espécie de casamento. Em verdade, é um casamento verdadeiro, porque é fecundo, sendo esta a única filosofia existente hoje no mundo realmente fecunda. Produz resultados práticos, precisamente porque é a combinação de um espírito aventuroso com um fato estranho. O Sr. Maritain serviu-se de admirável metáfora ao dizer que o fato externo fecunda a inteligência interna, assim como a abelha fecunda a flor. Seja como for, é sobre esse casamento, ou como queiram chamar-lhe, que se baseia todo o sistema de Santo Tomás: Deus fez o homem para que pudesse entrar em contato com a realidade, e o que Deus juntou ninguém o separe.”

G. K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Igreja, Teologia, Filosofia

Chestertoninas: O darwinismo e a “mãe natureza”

O darwinismo pode ser usado para dar suporte a duas moralidades insensatas, mas nunca poderá ser usado para dar suporte a uma única moralidade sã. O parentesco e a competição entre todas as criaturas vivas podem ser usados com motivo para sermos insanamente cruéis ou insanamente sentimentais, mas não para um amor sadio pelos animais. Na base evolucionista podemos ser desumanos ou absurdamente humanos, mas não podemos ser humanos. O fato de nós e o tigre sermos um só pode ser uma razão para sermos compassivos para com o tigre. Ou pode ser uma razão para sermos tão cruéis como o tigre. Podemos ensinar um tigre a imitar-nos, mas não podemos, com muito mais rapidez, imitar o tigre. No entanto, em nenhum dos casos a evolução nos dirá como tratar um tigre racionalmente, isto é, admirar-lhe as listas e evitar-lhes as garras.

Se desejamos tratar um tigre racionalmente, teremos de voltar ao jardim do Éden. Continua a vir-me à mente uma lembrança obstinada: apenas o sobrenatural tem uma visão sã da Natureza. A essência de todo o panteísmo, do evolucionismo e da moderna religião cósmica está, realmente, nesta afirmação: a Natureza é nossa mãe. Infelizmente, se olharmos a Natureza como mãe, descobriremos que ela é uma madrasta. A questão principal do Cristianismo era esta: a Natureza não é nossa mãe; a Natureza é nossa irmã. Podemos orgulhar-nos da sua beleza, pois temos o mesmo pai; mas ela não tem nenhuma autoridade sobre nós; temos de admirá-la, mas não imitá-la. Isto dá ao prazer tipicamente cristão, na Terra, um estranho toque de leveza que quase chega à frivolidade. A Natureza foi uma mãe severa para os adoradores de Isis e Cibele; a Natureza foi uma mãe severa para Wordsworth ou para Emerson. Mas a Natureza não é severa para S. Francisco de Assis ou para George Herbert. Para S. Francisco de Assis, a Natureza é uma irmã, uma irmã mais nova: pequena e que gosta de dançar, de quem rimos e a quem também amamos.

G. K. Chesterton, Ortodoxia

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Igreja, Teologia, Filosofia

Chestertoninas: O pecado original e a estupidez socialista

O Sr Wells, contudo, não está bem certo da estreiteza do panorama científico para ver que há coisas que realmente não devem ser científicas. Ainda é um pouco afetado pela grande falácia científica; ou seja, pelo hábito de não partir da alma humana, que é a primeira coisa que um homem aprende, mas partir de coisas tais como protoplasma, que é uma das últimas a ser aprendida. Um dos defeitos de seu esplêndido equipamento mental é não considerar suficientemente as coisas dos homens. Em sua nova utopia diz, por exemplo, que um dos pontos principais da utopia será o descrédito do pecado original. Se tivesse começado com a alma humana – isto é, se tivesse começado consigo mesmo – teria descoberto que o pecado original é uma das primeiras coisas em que acreditamos. Teria descoberto, em suma, que a permanente possibilidade de egoísmo surge do simples fato de se ter um ‘eu’, e não deriva de quaisquer acidentes na educação ou de maus-tratos. E a fraqueza de todas as utopias é esta: tomam a maior dificuldade do homem e a supõem superável e, então, fazem uma descrição elaborada da superação das menores dificuldades. Primeiro, presumem que nenhum homem desejará mais do que seu quinhão e, então, são muito engenhosos ao explicar se a entrega de tal parte será feita por automóvel ou por avião.

G. K. Chesterton, Hereges

O progresso

Ambrosius Holbein, xilogravura de uma edição de Utopia de 1518

O exemplo do discurso geral sobre “progresso” é, de fato, extremo. Como enunciado nos dias de hoje, o “progresso” é simplesmente um comparativo do qual não determinamos o superlativo. Opomos cada ideal de religião, patriotismo, beleza, prazer sensual ao ideal alternativo do progresso – isto é, contrapomos cada proposta de conseguir algo do que conhecemos, com a proposta alternativa de obter muito mais daquilo que ninguém conhece. O progresso, devidamente compreendido, tem, de fato, um significado muito digno e legítimo. Mas, se usado em contraposição a ideais morais definidos, se torna absurdo. Assim, mesmo não sendo verdade que  o ideal de progresso deva ser confrontado com a finalidade ética ou religiosa, o inverso é verdadeiro. Ninguém pode usar a palavra “progresso” a menos que tenha um credo definido e um rígido código moral. Ninguém pode ser progressista sem ser doutrinário. Quase poderia dizer que ninguém pode ser progressista sem ser infalível – de qualquer forma, sem acreditar em certa infalibilidade. Pois o progresso, pelo próprio nome, indica uma direção; e no momento que temos a mais ínfima dúvida sobre qual direção tomar, ficamos, da mesma forma, em dúvida sobre o progresso. Talvez, desde o começo do mundo, nunca tenha havido um período com menos direito de usar a palavra “progresso” do que o nosso. No católico século XII, no filosófico século XVIII, a direção pode ter sido boa ou ruim, os homens podem ter discordado mais ou menos a respeito do quanto progrediram, e em qual direção, mas, no geral, concordavam a respeito da direção tomada, e conseqüentemente, tinham a genuína sensação de progresso. Todavia, discordamos exatamente sobre a Leia mais deste post

Chestertoninas: O monge e o poste

[Essa vai como presente ao querido amigo José Carlos, um nada gracioso ogro-dwarf das terras d’além mar que, apesar da idade já avançada, ainda não teve a felicidade de ser apresentado ao Sr. Chesterton]

“Suponhamos que surja em uma rua grande comoção a respeito de alguma coisa, digamos, um poste de iluminação a gás, que muitas pessoas influentes desejam derrubar. Um monge de batina cinza, que é o espírito da Idade Média, começa a fazer algumas considerações sobre o assunto, dizendo à maneira árida da Escolástica: “Consideremos primeiro, meus irmãos, o valor da luz. Se a luz for em si mesma boa…”. Nesta altura, o monge é, compreensivelmente, derrubado. Todo mundo corre para o poste e o põe abaixo em dez minutos, cumprimentando-se mutuamente pela praticidade nada medieval. Mas, com o passar do tempo, as coisas não funcionam tão facilmente. Alguns derrubaram o poste porque queriam a luz elétrica; outros, porque queriam o ferro do poste; alguns mais, porque queriam a escuridão, pois seus objetivos eram maus. Alguns se interessavam pouco pelo poste, outros, muito; alguns agiram porque queriam destruir os equipamentos municipais. Outros porque queriam destruir alguma coisa. Então, aos poucos e inevitavelmente, hoje, amanhã, ou depois de amanhã, voltam a perceber que o monge, afinal, estava certo, e que tudo depende de qual é a filosofia da luz. Mas o que poderíamos ter discutido sob a lâmpada a gás, agora devemos discutir no escuro.”

G. K. Chesterton, Hereges, Ed. Ecclesiae

Tomás de Aquino, Santo Tomás, filosofia, Igreja

Chestertoninas: A criança, a relva e o ente

“Quando uma criança olha por uma janela e vê alguma coisa, por exemplo um canteiro verde do jardim, que vê ela ou fica ela a conhecer neste momento? Ou melhor, vê ela alguma coisa? Em volta desta questão gira toda a espécie de jogos infantis de filosofia negativa. Um brilhante cientista vitoriano deliciar-se-ia com declarar que a criança não vê relva nenhuma, mas unicamente uma espécie de névoa verde refletida no frágil espelho do olho humano. Essa amostra de racionalismo me impressionou sempre como irracional quase até à demência. Se ele não tem certeza da existência da relva que vê através do vidro de uma janela, como pode ter certeza da existência da retina, que vê através do vidro de um microscópio? Se a vista engana em um caso, por que é que não pode seguir a enganar?

Homens de outra escola respondem que a relva é uma simples impressão de verde no espírito, e que a criança não pode ter certeza senão do espírito. Declaram que ela só pode ser consciente da sua consciência, que é a única coisa de que a criança não tem consciência absolutamente nenhuma. Neste sentido, seria muito mais verdadeiro dizer que há relva e não há criança do que dizer que há uma criança consciente mas não há erva. Santo Tomás de Aquino, intervindo de súbito nesta questão infantil, diz que a criança Leia mais deste post

Chestertoninas: A bondade da criação

A frase “Deus olhou para todas as coisas e viu que eram boas” encerra um sentido sutil, que o pessimista popular não pode entender ou tem demasiada pressa em contestar. É a tese de que não há coisas más, mas somente mau uso das coisas. Ou, se o preferirem, não há coisas más, mas somente maus pensamentos e, em especial, más intenções. Em verdade, só os calvinistas podem crer que o inferno esteja pavimentado com boas intenções. É exatamente esta a única coisa com que não pode estar pavimentado. É possível, todavia, ter más intenções quanto a coisas boas; e coisas boas, como o mundo e a carne, têm sido de fato deturpadas por uma intenção má chamada demônio. Mas não é ele que pode fazer más as coisas; estas estão exatamente como no primeiro dia da criação. Só o trabalho do céu foi material: a fabricação de um mundo material. O trabalho do inferno é puramente espiritual.

G. K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino

Tomás de Aquino, Santo Tomás, filosofia, teologia

Chestertoninas: Filósofos, realeza e santidade

“No velho provérbio pagão – que desejava reis filósofos ou filósofos reis – havia certa inexatidão com respeito a um mistério que apenas o Cristianismo podia revelar. Porque, conquanto seja possível a um rei querer muito ser santo, não é possível a um santo querer muito ser rei. Um homem de bem dificilmente sonhará sempre com vir a ser grande monarca, mas é tal a liberdade da Igreja, que não pode impedir até um grande monarca de sonhar a vir a ser homem de bem.”

G. K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino, Ed. LTr

 

Tomás de Aquino, Santo Tomás

A revolução aristotélica

Luca della Robbia (1400-1481), Platão e Aristóteles (1437-1439), Florença

O que tornou a revolução aristotélica profundamente revolucionária foi o fato de ser religiosa. E é este um ponto tão fundamental, que julguei conveniente apresentá-lo nas primeiras páginas deste livro – que a revolta foi em grande parte uma revolta dos elementos mais cristãos da Cristandade. Santo Tomás, exatamente como São Francisco, sentiu no subconsciente que a massa da sua gente ia deixando a sólida doutrina e disciplina católica, gasta lentamente durante mais de mil anos de rotina, e que a fé precisava ser apresentada a uma nova luz e vista por ângulo diverso. Não tinha outro motivo senão o de desejar torná-la popular para a salvação do povo. De maneira geral, é verdade que por algum tempo ela fora demasiado platônica para ser popular. Precisava ele de algo como o toque sagaz e familiar de Aristóteles, para transformá-la de novo em religião de senso comum. Tanto o motivo como o método se manifestam na controvérsia de Tomás de Aquino com os agostinianos.

Antes de tudo, devemos recordar que a influência grega continuou a se fazer sentir desde o Império Grego, ou ao menos desde o mesmo centro do Império Romano, situado agora na cidade grega de Bizâncio e já não em Roma. Tal influência era bizantina em todos os sentidos, no bom e no mau. Como a arte bizantina, era severa, matemática e um tanto terrível; como a etiqueta bizantina, era oriental e ligeiramente decadente. Devemos ao saber do Sr. C. Dawson muita luz sobre o modo como Bizâncio lentamente se cristalizou numa espécie de teocracia asiática, mais semelhante à do sagrado imperador da China. Mas até as pessoas incultas podem ver a diferença no modo como o Cristianismo oriental simplificava tudo: no modo, por exemplo, como reduzia as imagens a ícones que melhor se poderiam chamar figurinos do que verdadeiros quadros com variedade e arte; e isso fez decidida e destrutiva guerra às estátuas.

Vemos, assim, esta coisa estranha: o Oriente era a terra da cruz, e o Ocidente a terra do crucifixo. Os gregos estavam-se desumanizando por um símbolo radiante, enquanto os godos se iam humanizando por um instrumento de tortura. Só o Ocidente fez Leia mais deste post

Chestertoninas: Tomás e Aristóteles

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“Aristóteles descrevera o homem magnânimo, que é grande e que sabe que o é. Mas Aristóteles nunca teria recuperado a sua grandeza aos olhos do mundo se não fosse o milagre que criou o mais magnânimo dos homens: um homem que é grande, e que sabe que é pequeno.”

 

G.K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino, Ed. LTr

Tomás de Aquino, Santo Tomás


Natal

Gerard van Honthorst, Adoração dos Pastores, 1622

Essa é a trindade de verdades reveladas simbolizadas aqui pelos três tipos nas antigas histórias do Natal: os pastores, os reis e o outro rei que declarou guerra contra as crianças. Não é simplesmente verdadeiro dizer que outras religiões e filosofias são, sob esses aspectos, suas rivais. Não é verdadeiro dizer que alguma delas reúna essas características; não é verdadeiro dizer que alguma delas pretenda reuni-las. O budismo pode professar ser igualmente místico; mas não professa ser igualmente militar. O islamismo professa ser igualmente militar; mas não professa ser igualmente metafísico e sutil. O confucionismo pode professar que satisfaz a necessidade que têm os filósofos de ordem e razão; mas não professa satisfazer a necessidade que os místicos têm do milagre, do sacramento e da consagração de coisas concretas. Há muitas evidências dessa presença de um espírito ao mesmo tempo universal e único. Uma delas servirá neste ponto, aquela que é o assunto deste capítulo: nenhuma outra história, nenhuma lenda pagã, ou anedota filosófica, ou evento histórico de fato nos afeta com aquela impressão peculiar e até pungente produzida em nós pela palavra Belém. Nenhum outro nascimento de um deus, nenhuma outra infância de um sábio nos parece ser o Natal nem algo parecido com o Natal. Ou é demasiado frio ou demasiado frívolo, ou demasiado formal e clássico, ou demasiado simples e selvagem, ou demasiado oculto e complicado. Ninguém dentre nós, sejam quais forem nossas opiniões, jamais iria buscar uma cena dessas com a sensação de estar indo para casa. Poderíamos admirá-la por ela ser poética, ou por ser filosófica, ou por muitas outras coisas isoladas; mas não por ela ser o que é. A verdade é que há um caráter muito peculiar e individual envolvendo o fascínio que essa história exerce sobre a natureza humana; em sua substância psicológica ela não é nada parecida com uma lenda ou com a biografia de um grande homem. No exato sentido comum, ela não dirige nossa mente para a grandeza: para aquelas amplificações e exageros de seres humanos transformados em deuses e heróis, mesmo pelas espécies mais sadias de veneração dos heróis. Ela não opera exatamente para fora, com intrepidez, visando as maravilhas que se podem encontrar nos confins da terra. Ela é antes algo que nos surpreende pelas costas, desde a parte oculta e pessoal de nosso ser; como aquilo que às vezes nos pega desprevenidos na emoção de pequenos objetos ou nas atitudes piedosas de gente pobre. É mais propriamente como se alguém tivesse descoberto um quarto interno no recesso mais íntimo de sua própria casa, de cuja existência nunca se suspeitara, e houvesse visto uma luz provindo lá de dentro. É como se alguém houvesse encontrado algo no fundo do seu coração que o cooptasse para o bem. Não é algo feito daquilo que o mundo chamaria de materiais resistentes; ou melhor, é algo feito de materiais cuja resistência reside naquela leveza alada com que eles nos tocam de leve e vão embora. É tudo aquilo dentro de nós que não passa de uma breve ternura e que ali se torna eterno; tudo aquilo não significa mais que um enternecimento momentâneo que de alguma estranha maneira se transforma em fortalecimento e repouso; é a palavra perdida e o discurso interrompido que se tornam positivos e são suspensos intactos, à medida que os estranhos reis desaparecem num país distante e nas montanhas já não se ouvem os pés dos pastores; e permanecem apenas a noite e a caverna com pregas sobre pregas cobrindo algo mais humano que a humanidade.

 

G. K. Chesterton, O Homem Eterno, Mundo Cristão, 1ª edição, 2010

Consertando o mundo com Chesterton

Entrevista com o padre Ian Boyd, especialista no escritor católico

MECOSTA, segunda-feira, 20 de setembro de 2010 (ZENIT.org) – Este ano celebra-se o centenário da publicação de uma coletânea de ensaios do popular escritor G. K. Chesterton, intitulada “O que está mal no mundo” (baixar o livro, em espanhol, .doc ou .pdf, na página de downloads).

O presidente do Instituto Chesterton pela Fé e a Cultura, da Universidade Seton Hall, em Nova Jersey, padre Ian Boyd, falou com ZENIT sobre as advertências de Chesterton e o caráter profético de sua obra.

ZENIT: Que faz o Instituto Chesterton?

Padre Boyd: O instituto foi fundado durante o centenário do nascimento de Chesterton, em 1974, para responder a uma sugestão de T. S. Eliot na ocasião da morte de Chesterton, que disse que nós deveríamos continuar fazendo hoje o que Chesterton iniciou. A ideia básica do instituto é, através das publicações e conferências, continuar hoje o trabalho comunitário de Chesterton.

ZENIT: A cem anos da publicação do livro referido de Chesterton, o texto ainda contém elementos que se podem aplicar hoje?

Padre Boyd: Em todos os escritos de Chesterton há um caráter profético. Ele foi uma importante figura de seu tempo, especialmente na época anterior à Primeira Guerra Mundial. Converteu-se em um autor clássico de seu tempo.

Chesterton viu que seus contemporâneos eram como ovelhas sem pastor, enganadas por falsos pastores. Penso que Chesterton viu sua missão como realmente apostólica, porque muitos não se dão conta do tesouro que têm em sua fé cristã.

A obra “O que está mal no mundo” tem algo a dizer ao mundo de hoje por um motivo: contém uma teologia social. Chesterton e seus amigos anglicanos, muito antes de que se tornasse católico, estavam preocupados em Leia mais deste post

Os enigmas do Evangelho

Giotto di Bondone(1266-1337), Cristo ante Caifás, Capela Scrovegni, Pádua

O que sentiríamos ante o primeiro sussurro de certa sugestão sobre certo homem? Com certeza não nos cabe censurar ninguém que julgasse esse primeiro sussurro desvairado como algo simplesmente ímpio ou insano. Pelo contrário, tropeçar nessa pedra de escândalo é o primeiro passo. A incredulidade nua e crua é um atributo muito mais leal a essa verdade que uma metafísica modernista que a explicasse simplesmente como uma questão de grau. Melhor seria rasgar nossas vestes emitindo um alto brado contra a blasfêmia, como fez Caifás no julgamento, ou tomar o homem por um maníaco possuído por demônios, como fizeram os parentes e a multidão, em vez de insistir em discussões estúpidas sobre pequenos detalhes de panteísmo na presença de uma reivindicação tão catastrófica. Há mais sabedoria que se identifica com a surpresa de qualquer pessoa simples, repleta da sensibilidade da simplicidade, capaz de esperar que a relva secasse e os pássaros caíssem mortos da altura de seus vôos, quando um aprendiz de carpinteiro em sua lenta caminhada dissesse calmamente, quase por acaso, como quem está atento a alguma outra coisa: “Antes que Abraão existisse, eu sou”.


Por G. K. Chesterton

Para entender a natureza deste capítulo é preciso recorrer à natureza deste livro. A argumentação escolhida como espinha dorsal do livro é aquele tipo de argumentação denominado reductio ad absurdum. Ela sugere que os resultados da aceitação da tese do racionalismo são mais irracionais que os nossos; mas para provar isso precisamos aceitar aquela tese. Assim, na primeira seção muitas vezes tratei o homem simplesmente como um animal para mostrar que o resultado disso era mais impossível do que se ele fosse tratado como um anjo. No mesmo sentido em que foi preciso tratar o homem simplesmente como um animal, é preciso tratar a Cristo simplesmente como homem. Devo suspender minhas próprias crenças, que são muito mais positivas e assim, partir da pressuposição de que essa limitação de fato existe, até mesmo para jogá-la por terra, para imaginar o que aconteceria com um homem que realmente lesse a história de Cristo como a história do homem; e até mesmo como a história de um homem de quem ele nunca tinha ouvido falar. E pretendo ressaltar que uma leitura realmente imparcial dessa espécie no mínimo provocaria, mesmo que não fosse imediatamente à fé, um espanto para o qual não haveria nenhuma solução a não ser Leia mais deste post

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