As vantagens de ter uma perna

Chesterton

UM AMIGO MEU, que estava visitando uma pobre mulher enlutada e procurava alguma frase de consolo que não fosse insolente nem fraca, disse, enfim: “Acredito que é possível atravessar essas grandes penas e sair delas melhor do que se entrou. O que desgasta são as pequenas preocupações”. “É bem verdade”, respondeu a velha senhora com ênfase, “e eu sei bem disso, considerando que tive uma dezena delas.” É, talvez, neste sentido que é profundamente verdadeiro que as pequenas preocupações são as mais desgastantes. Em seu significado mais vago, embora a expressão contenha uma verdade, contém também algumas possibilidades de auto-engano e erro. As pessoas que têm tanto grandes quanto pequenos problemas têm o direito de dizer que consideram piores os pequenos, e é indubitavelmente verdade que as costas que estão vergadas sob fardos incríveis conseguem sentir um leve aumento sob eles: um gigante sustentando a terra e toda a sua criação animal poderia achar que o gafanhoto é um fardo a mais. Mas temo que a máxima de que as menores preocupações são as piores seja às vezes usada e abusada pelas pessoas porque elas não têm senão as menores de todas as penas. A dama pode desculpar a si mesma por irritar-se com uma pétala de rosa amassada refletindo sobre a extraordinária dignidade com que ela usaria a coroa de espinhos – se fosse preciso. O cavalheiro pode permitir-se maldizer o jantar e imaginar que se portaria muito melhor se fosse mera questão de passar fome. Não é preciso negar que o gafanhoto no ombro de um homem é um fardo; mas não precisamos respeitar excessivamente o cavalheiro que está sempre dizendo que preferiria carregar um elefante quando sabe que não há elefantes no país. Podemos admitir que uma palha pode quebrar as costas de um camelo, mas gostamos de saber que é realmente a última palha e não a primeira. Admito que aqueles que sofrem grandes males têm um direito real de queixar-se, desde que se queixem sobre outra coisa. É um fato singular que, se são pessoas sãs, quase sempre queixam-se mesmo sobre outras coisas. Falar de forma racional sobre os próprios problemas reais é a forma mais rápida de


perder a cabeça. Mas pessoas com grandes problemas falam sobre os pequenos, e o homem que reclama da pétala de rosa amassada tem com freqüência sua carne cheia de espinhos. Porém, se um homem tem habitualmente uma vida diária muito clara e feliz, então acho que temos o direito de pedir-lhe que não transforme tocas de toupeira em montanhas. Não nego que as toupeiras possam às vezes ser importantes. Pequenos aborrecimentos têm em si esta maldade, de que podem ser mais abruptos porque são mais invisíveis; não projetam sombras diante de si, não têm atmosfera. Ninguém nunca teve uma premonição mística de que iria tropeçar no genuflexório. William III morreu por tropeçar em uma toca de toupeira; não creio que com todas as suas diversas habilidades ele conseguisse tropeçar em uma montanha. Mas, levando tudo isso em consideração, repito que podemos pedir a um homem feliz (não William III) que suporte o que é pura inconveniência, e até que faça dela parte de sua felicidade. Não me refiro aqui à dor objetiva ou à pobreza objetiva. Refiro-me àquelas inúmeras limitações acidentais que estão sempre cruzando nosso caminho – mau tempo, confinamento a esta ou aquela casa ou aposento, desencontros, esperas em estações de trem, extravios de correspondência, deparar-se com a falta de pontualidade quando quereríamos pontualidade, ou, o que é pior, encontrar pontualidade onde não a queríamos. É sobre os prazeres poéticos que podem ser tirados de todas estas coisas que eu canto – canto com confiança, pois recentemente experimentei os prazeres poéticos que surgem de ter de sentar-se em uma cadeira por causa de uma torção no pé, sendo a única alternativa ficar em uma só perna como uma cegonha – uma cegonha é uma imagem poética: portanto, adotei-a avidamente. Para apreciar qualquer coisa, devemos sempre isolá-la, mesmo se a coisa em si simboliza algo diferente do isolamento. Se desejamos ver o que uma casa é, deve tratar-se de uma casa em alguma paisagem desabitada. Se quisermos representar o que um homem realmente é, devemos representar um homem sozinho em um deserto ou em alto-mar. Enquanto é uma figura solitária, significa tudo o que a humanidade é; enquanto for solitário, significa a sociedade humana; enquanto for solitário, significa sociabilidade e camaradagem. Acrescente-se outra personagem e a imagem torna-se menos humana – e não mais. Um é companhia, dois é nenhum. Se você deseja simbolizar a construção humana, desenhe uma torre escura no horizonte; se deseja simbolizar a luz, que não haja estrelas no céu. De fato, durante todo esse período estranhamente iluminado ao qual chamamos dia há apenas uma estrela no céu – uma grande e ardente estrela que chamamos sol. Um sol é esplêndido; seis sóis seria apenas vulgar. Uma Torre de Giotto é sublime; uma fileira de Torres de Giotto seria apenas como uma fileira de postes brancos. A poesia da arte está em contemplar a torre solitária; a poesia da natureza em contemplar a árvore solitária; a poesia do amor em seguir a mulher solitária; a poesia da religião em adorar a estrela solitária. E assim, na
mesma pensativa lucidez, percebo que a poesia de toda a anatomia humana está em ficar sobre uma perna. Para expressar uma completa e perfeita “pernice”, a perna deve ficar em um sublime isolamento, como a torre no deserto. Como Ibsen diz tão bem, a perna mais forte é aquela que é mais solitária. Esta perna solitária sobre a qual repouso tem toda a simplicidade de uma coluna dórica. Os estudantes de arquitetura contam-nos que o único uso legítimo de uma coluna é suportar peso. Esta minha coluna preenche sua legítima função. Ela suporta peso. Sendo de consistência animal e orgânica, poderá até mesmo aperfeiçoar-se por esse processo, e, durante estes poucos dias em que estou equilibrado de forma desigual, o desamparo ou deslocamento de uma perna poderá ser compensado pela espantosa força e pela beleza clássica da outra. Mrs. Mountstuart Jenkinson, da novela de Mr. George Meredith, poderia passar a qualquer momento e, ao ver-me em minha atitude de cegonha, exclamar, com a mesma admiração e uma exatidão mais literal: “Ele tem uma perna.” Notem como esta famosa frase literária apóia meu argumento sobre esse isolamento de qualquer coisa admirável. Mrs Mountsuart Jenkinson, desejando ilustrar de forma clara e perfeita a graça humana, disse que Sir Willoughby Patterne tinha uma perna. Ela delicadamente passou por alto e omitiu o desajeitado e ofensivo fato de que ele na verdade tinha duas. Duas pernas seriam supérfluas e irrelevantes, um reflexo e uma confusão. Duas pernas teriam confundido Mrs Mountstuart Jenkinson como dois Monumentos em Londres. Que já tendo uma perna boa ele tivesse outra – isso seria o mesmo que usar vãs repetições como fazem os gentios. Ela ficaria tão desconcertada quanto se ele fosse uma centopéia. Todo pessimismo tem um otimismo secreto como seu objeto. Toda desistência da vida, toda negação de prazer, toda escuridão, toda austeridade, toda desolação tem como real objetivo esta separação de algo que possa assim ser pungente e perfeitamente aproveitado. Sinto-me grato pela leve torção que introduziu esta misteriosa e fascinante divisão entre um dos meus pés e o outro. O caminho para amar qualquer coisa é dar-se conta de que ela poderia ser perdida. Em um dos meus pés posso sentir quão forte e esplêndido é um pé; no outro posso perceber quão diferente ele poderia ter sido. A moral disto é totalmente entusiasmante. Este mundo e todos os nossos poderes nele são muito mais terríveis e belos do que até mesmo nós sabemos, até que algum acidente no-lo recorde. Se você deseja perceber aquela felicidade sem limites, limite-se mesmo que apenas por um momento. Se deseja perceber quão tímida e maravilhosamente você foi criado à imagem de Deus, fique de pé sobre uma só perna. Se quer dar-se conta da esplêndida visão de todas as coisas visíveis – pisque um olho.

G. K. Chesterton, Tremendas Trivialidades

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