Tomás explica: Embora estejam acima da razão, não é leviano crer nas verdades da fé

Gustave Doré (1832-1883), A Mutilação de Maomé
 
Enquanto a olhá-lo eu, fixamente, estaco,
fitando-me, co’ as mãos rasga-se o peito,
e diz: “Agora vê como me achaco;
 
vê como Maomé está desfeito,
vê em frente Ali, e dele ouve os gemidos,
co’ o rosto de um só golpe contrafeito.
 
E os outros todos, que vês reunidos,
semeadores de escândalo e heresia
em vida, aqui por isso são fendidos.

 Divina Comédia, Inferno, Canto XXVIII 

1. Aqueles que aceitam pela fé as verdades que estão fora da experiência humana não crêem levianamente, como aqueles que, segundo são Pedro, seguem fábulas engenhosas (2 Pe 1, 16).

2. Os segredos da sabedoria divina, ela mesma – que conhece tudo perfeitamente – dignou-se revelar aos homens, mostrando-lhes a sua presença, a verdade da sua doutrina, e inspirando-os, com testemunhos condizentes. Ademais, para confirmar as verdades que excedem o conhecimento natural, realizou ações visíveis que superam a capacidade de toda a natureza, como sejam a cura de doenças, ressurreição dos mortos e maravilhosas mudanças nos corpos celestes. Mais maravilhoso ainda é, inspirando as mentes humanas, ter feito que homens ignorantes e rudes, enriquecidos pelos dons do Espírito Santo, adquirissem instantaneamente tão elevada sabedoria e eloquência

Depois de termos considerado tais fatos, acrescente-se agora, para confirmação da eficácia dos mesmos, que uma enorme multidão de homens, não só os rudes como também os sábios, a correu para a fé cristã. Assim o fizeram, não premidos pela violência das armas, nem pela promessa de prazer, mas também – o que é maravilhoso – sofrendo a perseguição dos tiranos. Além disso, na fé cristã, são expostas as virtudes que excedem todo o intelecto humano, os prazeres são reprimidos e se ensina o desprezo das coisas do mundo. Ora, terem os espíritos humanos concordado com tudo isto é ainda maior milagre e claro efeito da inspiração divina.

Essas coisas não aconteceram de improviso ou por acaso, mas por disposição divina, porque focou evidenciado que elas se realizaram mais tarde, porquanto Deus as havia predito pelos Leia mais deste post

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Tomás explica: Porque as verdades inacessíveis à investigação da razão foram convenientemente propostas aos homens para a fé

Michelangelo (1475-1564), O profeta Ezequiel (1510), Capela Sistina

1.  Pareceu a alguns que não se devia propor aos homens como de fé as verdades que a razão não é capaz de descobrir, visto que a sabedoria divina providencia para cada coisa o que lhe cabe, segundo a natureza das coisas. Por tal, deve-se provar que foi necessário ter-se proposto ao homem, como de fé divina, também as verdades que excedem a capacidade da razão.

2. Nenhum desejo ou cuidado se dirige para uma coisa se esta não for previamente conhecida. Ora, os homens estão ordenados pela providência divina para um bem mais elevado que o capaz de ser experimentado pela fragilidade humana da presente vida, como após se verá. Devido a isso, foi conveniente que a mente fosse atraída para algo mais alto que o atingido no presente pela nossa razão, de modo que esta aprendesse a desejar algo que excedesse totalmente o estado da presente vida, e se esforçasse para procura-lo.

Isto pertence propriamente à religião cristã, que promete de modo especial os bens espirituais e eternos. Daí o serem propostos por ela muitos bens que excedem a percepção humana. A lei antiga, que prometia bens temporais, propôs umas poucas verdades que excedem o conhecimento da razão humana.

Também os filósofos, com este intento, procuraram mostrar que há bens mais valiosos que os sensíveis, a fim de levarem os homens, desde os prazeres sensíveis, para a honestidade. Ora, com o gozo destes bens mais valiosos deleitam-se muito mais suavemente os que praticam as virtudes, tanto da vida ativa quanto contemplativa.

3. Foi também necessário terem sido tais verdades propostas à fé dos homens, para que estes tivessem um conhecimento mais veraz de Deus. Com efeito, só conhecemos verdadeiramente Deus quando Leia mais deste post

Tomás explica: A intenção do autor nesta obra (Suma contra os gentios)

Ingobertus (cerca de 880), Rei Salomão em seu trono

1. Entre os estudos humanos, o da sabedoria é o mais perfeito, o mais sublime, o mais útil e o mais alegre.

O mais perfeito, porque enquanto o homem entrega-se ao estudo da sabedoria já vai participando, de algum modo, da verdadeira beatitude. Por isso, diz o sábio: Feliz o homem que permanece na sabedoria (Eclo 14,22).

O mais sublime, porque por ele o homem aproxima-se o mais possível da semelhança de Deus, o qual fez todas as coisas sabiamente (Sl 103,24). E porque a semelhança é causa do amor, o estudo da sabedoria nos une de modo precípuo a Deus, pela amizade. Por esta razão se diz no livro da Sabedoria: A sabedoria é um tesouro infinito para os homens, que, ao usarem dele, fazem-se participantes da amizade de Deus (Sb 7,14).

O mais útil, porque pela própria sabedoria chega-se ao reino da imortalidade, conforme se lê no mesmo livro: O desejo da sabedoria conduz ao reino eterno (Sb 6,21).

O mais alegre, finalmente, porque está também escrito neste livro: a sua companhia não é amarga, nem enfadonha é sua convivência, mas alegre e cheia de gáudio (Sb 8,16).

2. Confiando na piedade divina para prosseguir neste ofício de sábio, embora isto exceda nossas forças, temos por firme propósito manifestar, na medida do possível, a verdade que a fé católica professa, eliminando os erros contrários a ela. Por isso, sirvo-me aqui das palavras de Hilário: Estou consciente de que o principal ofício da minha vida é referente a Leia mais deste post

Fragmentos – Espírito Santo: amor, amizade, comunhão e perdão

 

Dado que o Espírito Santo procede por modo de amor, do amor pelo qual Deus ama …, e do fato de que amando Deus nós nos assemelhamos a esse amor, dizemos que o Espírito Santo nos é dado por Deus. Por isso o Apóstolo afirma: “O amor de Deus foi espalhado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5, 5).

Suma contra os gentios IV 21, n. 3575

 

Por toda a parte onde há obra de Deus, deus deve aí se encontrar a título de autor. Dado que a caridade pela qual amamos Deus se encontra em nós pelo Espírito Santo, é necessário que o Espírito Santo permaneça em nós tão longamente enquanto temos a caridade. Por isso o Apóstolo perguntava (1Cor 3, 16): “Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito Santo habita em vós?” Dado que é pelo Espírito Santo que nos tornamos amigos de Deus e que o ser amado, em sua qualidade justamente de ser amado, está presente naquele que o ama, é necessário que o Pai e o Filho habitem também em nós pelo Espírito Santo. É o que diz o Senhor em São João (14, 23): “Viremos a ele e faremos nele nossa morada”; e ainda (1Jo 3, 16): “Sabemos que ele permanece em nós graças ao Espírito que ele nos deu”.

Suma contra os gentios 20, n. 3576

 

É manifesto que Deus ama no mais alto grau aqueles que ele fez seus amigos pelo Espírito Santo; somente um tão grande amor podia conferir um tal bem. … Ora, uma vez que todo ser amado habita naquele que o ama, é necessário que pelo Espírito Santo não somente Leia mais deste post

Fragmentos: A providência e a criatura racional

Quando algum todo não é o último fim, mas se ordena para um fim ulterior, o fim da parte não é o todo, mas outra coisa. O conjunto das criaturas ao qual é referido o homem como a parte ao todo não é o último fim, mas se ordena para Deus, como para seu último fim. Por isso, o bem que representa o universo não é o último fim do homem, mas o próprio Deus.

(Suma Teológica I-II, q.2 a.8)

É manifesto que a divina providência se estende a todas as coisas. Deve-se, entretanto, observar que, entre todas as outras criaturas, existe um regime providencial particular para as criaturas intelectuais e racionais. Elas ultrapassam as outras tanto pela perfeição de sua natureza quanto pela dignidade de seu fim.

Pela perfeição de sua natureza, porque apenas a criatura racional tem o domínio de seus atos, determinando-se ela mesma à sua operação própria, enquanto as outras criaturas são muito mais movidas do que se movem a si mesmas … Pela dignidade de seu fim, porque apenas a criatura intelectual chega a alcançar o fim último do universo por sua operação, conhecendo e amando Deus; enquanto as outras criaturas não podem chegar a esse fim último a não ser por uma certa semelhança participada.

(Suma contra gentios III, 111 n. 2.855)

Apenas a criatura racional é conduzida por Deus em sua atividade, referindo-se não somente à espécie, mas ainda ao indivíduo … A criatura racional depende da divina Providência como governada e digna de atenção por ela mesma e não somente em vista da espécie.

(Suma contra gentios III, 113)

As criaturas menos nobres existem para as mais nobres; por exemplo, as criaturas inferiores ao homem existem para Leia mais deste post

Fragmentos: A amizade com Deus

O que é próprio, por excelência, da amizade é viver na intimidade de seu amigo. Ora, a amizade do homem com Deus se realiza na contemplação de Deus, segundo o apóstolo dizia aos Filipenses (3, 20): “Nossa cidade se encontra nos céus”. Se é o Espírito Santo que nos torna amigos de Deus, é normal que seja ele que nos constitua contemplativos de Deus. Por isso o Apóstolo diz ainda (2Cor 3, 18): “Quanto a nós todos que contemplamos a glória de Deus com o rosto descoberto, seremos transformados de claridade em claridade nesta mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor”.

É próprio da amizade alegrar-se com a presença de seu amigo, encontrar sua alegria em sua palavra e em seus gestos, procurar nele o conforto em todas as inquietações; também nos momentos de tristeza procuramos refúgio e consolação sobretudo perto dos amigos. Ora, acaba-se de dizer, é o Espírito Santo que nos constitui amigos de Deus e o faz habitar em nós e nós nele; é pois normal que seja pelo Espírito Santo que nos venha a alegria de Deus e a consolação diante de todas as adversidades e assaltos do mundo. O Salmo (50, 14) diz: “Dá-me a alegria de tua salvação e que teu Espírito generoso me confirme”. São Paulo (Rm 14, 17) afirma que “o Reino de Deus é justiça, paz e alegria no Espírito Santo” … e o Senhor fala do Espírito Santo como sendo o “Paráclito”, isto é, o Consolador (Jo 14, 26).

Outra propriedade da amizade é concordar sua vontade com a de seu amigo. Ora, a vontade de Deus nos é manifestada por seus mandamentos. Cabe, pois, ao amor que temos por Deus o cumprimento dos seus mandamentos: “se me amais, guardai meus mandamentos” (Jo 14, 15). Uma vez que é o Espírito Santo que nos faz de Deus, é ele ainda que nos impele, por assim dizer, a cumprir os mandamentos de Deus, segundo a palavra do Apóstolo (Rm 8, 14): “São filhos de Deus aqueles que são movidos pelo Espírito de Deus”.

Deve-se observar que os filhos de Deus não são movidos pelo Espírito Santo como os escravos, mas como homens livres. Se o homem livre é “aquele que é senhor de si mesmo” (Aristóteles), nós fazemos livremente o que realizamos por nós mesmos, isto é, por nossa vontade. O que faríamos contra nossa vontade não seria livremente, mas servilmente executado. O Espírito Santo, ao fazer de nós amigos de Deus, nos inclina a agir de tal modo que nossa ação seja voluntária. Filhos de Deus que somos, o Espírito Santo nos concede agir livremente, por amor, e não servilmente, por temos. É o que diz o apóstolo (Rm 8, 15): “Não é um espírito de servidão que recebestes, para viver de novo no temor, mas o Espírito de adoção dos filhos”.

(Suma contra os gentios IV 22, n. 3585-3588)

 

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Fragmentos: O Espírito que cria, move e governa

O amor pelo qual Deus ama sua própria bondade é a causa da criação das coisas… Ora, o Espírito Santo procede por modo de amor, do amor pelo qual Deus ama a si mesmo. O Espírito Santo é, portanto, o princípio da criação das coisas. É o que diz o Salmo (103, 30): “Envia teu Espírito, e elas serão criadas”.

O Espírito Santo procede por modo de amor, e o amor é dotado de certa força de impulsão e de movimento. É preciso, pois, atribuir como próprio ao Espírito Santo o movimento que Deus comunica às coisas. Santo Agostinho quer que se veja nas “águas” a matéria primeira sobre a qual o Espírito do Senhor se diz planar, não como sujeito, mas como princípio de movimento.

[Com efeito,] o governo das coisas por Deus deve se entender como certa moção segundo a qual Deus dirige e põe em movimento todos os seres em direção a seus fins próprios. Se, pois, o impulso e o movimento são, em razão do amor, fato do Espírito Santo, convém (convenienter) atribuir-lhe o governo e o desenvolvimento dos seres. Por isso se diz no Livro de Jó (33, 4): “É, o Espírito me fez”, e no Salmo (142, 10): “Teu Espírito bom me conduz sobre uma terra unida”. E, uma vez que governar sujeitos é o ato próprio de um senhor, convém (convenienter) atribuir a Senhoria ao Espírito Santo. “O Espírito é Senhor”, diz o Apóstolo (2Cor 3, 17); e igualmente o Símbolo: “o Espírito Santo é Senhor”.

É sobretudo o movimento que manifesta a vida… Se pois, em razão do amor, o impulso e o movimento pertencem ao Espírito Santo, convém atribuir-lhe a vida. “É o Espírito que dá a vida”, diz são João (6, 64); o mesmo Ezequiel (37, 6): “Eu vos darei o Espírito e vivereis”. E no Credo confessamos o Espírito “que dá a vida”. O que, aliás, é conforme ao próprio nome de Espírito (Spiritus = sopro): é o sopro vital espalhado desde o começo em todos os membros que assegura a vida corporal dos seres vivos.

(Suma contra os gentios 20, n. 3570-3574)

 

 

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Plus movent exempla quam verba

Palma il Giovane (Jacopo Palma)(1548-1628), Lava-Pés

O fato de que Cristo representa o modelo absoluto da vida cristã basta evidentemente para explicar a insistência de Tomás nesse ponto. Compreenderemos melhor suas razões se voltarmos à leitura de sua meditação sobre o lava-pés. Como um verdadeiro mestre espiritual, Tomás não teme insistir no aspecto prático:

[Jesus Cristo] disse: Fiz isso para vos dar o exemplo, e por isso deveis lavar-vos os pés uns aos outros, porque era isso que eu tinha em vista agindo assim. Com efeito, no agir dos homens, os exemplos são mais eficazes que as palavras (plus movent exempla quam verba). O homem age e escolhe segundo o que lhe parece bom; por isso, pelo fato mesmo de que ele escolheu isso ou aquilo mostra que isso lhe parece bom, muito antes de dizer que era preciso escolhê-lo. Segue-se daí que se diz uma coisa e se faz outra. O que se faz persuade os outros muito mais do que aquilo que se diz. Por isso é da mais alta necessidade unir o exemplo à palavra.

Mas o exemplo de um homem, simplesmente homem, não bastava para a imitação de todo o gênero humano, seja porque a razão humana é incapaz de conceber o todo [da v ida ou do bem], seja porque se engana na consideração das coisas em si mesmas. Por isso nos foi dado o exemplo do Filho de Deus que não se pode enganar e que é mais do que suficiente em todos os domínios. Se santo Agostinho assegura que “o orgulho não pode ser curado a não ser pela humildade divina”, acontece o mesmo com a avareza e os outros vícios.

Refletindo bem sobre isso, era sumamente “conveniente” que o Filho de Deus nos fosse dado como exemplo de todas as virtudes. Ele é, com efeito, a Arte do Pai e portanto, assim como foi o exemplar primeiro da criação, é também o exemplar primeiro da santidade (1Pd 2, 21): “Cristo sofreu por vós, deixando-vos um exemplo a fim de que caminheis em seus vestígios” … .

 

Plus movent exempla quam verba. O tom foi dado. Essa fórmula da Lectura super Ioannem, Tomás a conhece desde muito tempo, uma vez que se pode lê-la entre os motivos da encarnação recolhidos em Contra gentiles e ele a retoma textualmente na Suma Teológica com um apelo significativo à experiência comum. Trata-se, sem dúvida, de um Leia mais deste post

Download: Suma Contra os Gentios

“Escrita por Santo Tomás de Aquino nos últimos anos de sua vida, Suma Contra os Gentios (SCG) condensa o acabamento final da Teologia e da Filosofia do genial pensador e admirável santo. Das obras publicadas pelo Angélico em vista de uma exposição completa da Teologia, foi a única que conseguiu chegar a termo. A SCG e a Suma Teológica foram sempre consideradas as suas mais importantes publicações, devido ao valor teológico e filosófico que as enriquece. No entanto, é inegável que, sob o aspecto filosófico, a SCG prevalece àquela, pois apresenta de modo exaustivo e perfeito as teses fundamentais da Filosofia própia de Santo Tomás, que já haviam sido sinteticamente formuladas no seu não menos precioso opúsculo De Ente et Essentia, escrito quando ainda jovem.
A SCG foi escrita a pedido de seu confrade, missionário entre os mussulmanos vencidos em Castela, canonista de fama, são Raimundo de Penaforte. Assim sendo, a SCG já traz um grande valor apologético, ensinando aí Tomás que mais se deve enfrentar os de outras religiões pelo confronto inteligente das idéias do que pela luta violenta das armas. Muito se prestará a nossa obra como subsídio para o ecumenismo, cujos princípios já se delineiam na mesma: ‘O modo segundo o qual santo Tomás apresenta o que há de comum entre a doutrina católica e a dos gentios e, depois, questiona esta com argumentos exclusivamente racionais’.”
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Introdução à Suma Contra os Gentios, de D. Odilon Moura OSB
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