O machista feminista

yurivieira

Fonte: Textos do Yuri Vieira

Tempos atrás participei de um encontro literário na Casa Mário de Andrade, em São Paulo, onde, ao longo de uma semana, debati com outros autores as perspectivas da literatura brasileira neste novo milênio. Foi lá que, entre outros, conheci pessoalmente Elisa Andrade Buzzo, Luis Eduardo Matta, Miguel Sanches Neto, André de Leones, Fabrício Carpinejar e Antonio Prata, com quem, na última noite, dividi uma carona oferecida pela esposa de Julio Daio Borges, organizador do evento. Embora o encontro tenha sido muito interessante — principalmente porque pela primeira vez eu participava de algo do gênero enquanto escritor convidado, e não como leitor —, este relato nada tem a ver com o evento em si, com os demais colegas ali presentes ou sequer com literatura — ao menos não diretamente. O fato é que, justamente no dia em que Daniela Rede, minha bela e auto-proclamada assessora de imprensa, não pôde comparecer, fui abordado ao final do debate daquela noite por um sujeito de ar simultaneamente astuto e simpático.

— Li seu livro — revelou ele, após apertar-me a mão e me cumprimentar pelas intervenções daquela noite.

— ¿Foste tu? — repliquei, sorrindo.

Ele riu: — Escritores brasileiros estão sempre achando que não são lidos.

— Deve ser por causa do xerox das faculdades e dos ebooks piratas — retruquei. — O que o bolso não vê, o coração não sente.

Alto, metido num elegante paletó escuro feito sob medida, em lustrosos sapatos Oxford, exibindo um reluzente Cartier dourado no pulso, óculos de Clark Kent, o cachecol posto à la “forca”, tal como agora se usa — em vez de à la “estrangulamento”, se é que me entendem —, esse cara bem vestido parecia um desses freqüentadores de vernissages que vemos em filmes alemães ou franceses. Com isso, quero dizer que se tratava de alguém que, a despeito de sua aparência de intelectual, também tinha um quê de empresário de sucesso, e nitidamente atraía a atenção feminina circundante. No fundo, ele parecia alguém montado para a ocasião — ou seja, se aquela fosse uma reunião de navegadores, ele teria aparecido em trajes de marinheiro de revista de moda.

— Também acompanho seu blog — tornou ele.

— ¿Você? Pensei que apenas um punhado de universitários lia meu blog.

— Bom, fiquei sabendo desses debates por causa dele.

O sujeito, que se apresentou como Nathan, após tratar por alto de alguns temas sobre os quais eu havia escrito naquela semana, talvez para me provar que realmente era meu leitor, ofereceu-me uma carona até a Vila Madalena, onde residia o amigo com quem eu estava hospedado, e também me perguntou se eu não queria aproveitar os bares da região para beber alguma coisa. ¿Carona e drinques ofertados por alguém que comprou meu livro? Claro que aceitei.

— ¿Sua mulher não veio com você hoje? — perguntou quando nos dirigimos à porta da frente.

— Não, não veio. E ela, infelizmente, não é minha mulher.

— Uma linda garota. Eu a vi aqui ontem à noite.

Saímos da Casa. Ele tinha um desses Jeeps Cherokee blindados, uma mania entre os endinheirados paranóicos de São Paulo, pois, apesar de pesados e de beberem feito loucos, em nosso restrito mercado eram os mais indicados para sobreviver à guerrilha urbana de todos os dias. Lá dentro, no banco de trás, muitos livros empilhados.

— Você por acaso não é um editor… ¿ou é?

— Não, não. — E vendo meu desapontamento involuntário: — Não precisa fazer essa cara. Você logo logo terá um bom editor. Basta esquecer um pouco os contos e escrever um romance.

— Ou arranjar um agente literário — acrescentei.

— Um agente, não! Uma agente — e Nathan sorriu.

Quando ainda percorríamos a avenida Pacaembu, ele começou a entrar no assunto que realmente lhe interessava:
— ¿Yuri, você já trabalhou como ghost-writer?

— Não e, sinceramente, nunca tive interesse. Gosto de assumir o que escrevo. Prefiro publicar algo ruim com meu nome do que publicar uma obra prima anonimamente. Coisas do ego.

— Entendo. Mas você não se importaria de aconselhar quem nunca escreveu um livro, ¿não é?

— Claro que não. Mas já o aviso que não tenho essa experiência toda. No primeiro dia do Encontro, eu até me senti bastante inseguro a certa altura da minha palestra: quando me perguntaram qual era o meu “método” de trabalho, percebi que nunca havia pensado nisso. Fiquei um tempo mudo, gaguejei e então respondi que fazia tudo de forma completamente espontânea. Só no dia seguinte, ao relembrar o processo de escrita desse primeiro livro, de como planejara e executara cada conto, é que percebi que tenho, sim, um método.

Ele estava pensativo, concentrado na direção. Havia um forte nevoeiro sobre a cidade. Momentos depois, tornou a falar e o assunto voltou-se para o trânsito, que não estava causando problemas àquela hora da noite, mas que infernizava o dia a dia paulistano. “A coisa mais inteligente a se fazer é morar perto do trabalho”, repetia ele. E assim, quinze ou vinte minutos depois de sair da Casa Mário de Andrade, chegamos à Vila Madalena. Pensei que iríamos a um pub — Nathan tinha cara de freqüentador de pubs — mas ele escolheu um boteco bastante comum da rua Aspicuelta cujo nome não estava visível em parte alguma. Escolhemos uma mesa à calçada e nos sentamos. Além de nós, havia apenas uma mesa próxima com outros três sujeitos engravatados e, numa outra mais ao fundo, dentro do bar, umas três jovens acompanhando um casal. Ele sugeriu que, de início, pedíssemos cachaça — enquanto eu ainda supunha o pub, imaginara-nos a bebericar uísques — e eu aceitei.

— Pois é… — começou ele, após virar o primeiro copinho. — Na verdade, não estou planejando uma ficção. Eu quero é escrever um ensaio.

— Então é ainda mais fácil — respondi. — Escolha um assunto do qual não consiga se livrar, estude-o bem e fale sinceramente sobre ele.

— Sim, eu já imaginei que seria assim. E por isso trouxe comigo todos aqueles livros que estavam no meu escritório. Vou viajar amanhã e quero continuar estudando.

— ¿E o que quer saber de mim?

Ele sorriu, um tanto embaraçado: — Para ser bem sincero com você, meu caro, apesar de gostar da maneira como escreve, do seu humor, do seu estilo, eu dificilmente concordo com pontos importantes do seu pensamento. Eu queria justamente conhecê-lo para expor minhas idéias e descobrir qual seria a melhor forma de abordá-las. Você sabe: pretendo ser convincente! Quero saber se há ou não algum furo nos meus argumentos. Para tanto, nada melhor do que uma pessoa que, além de inteligente, tenha também uma visão de mundo completamente oposta à minha. Ninguém tem olhos na nuca, ¿não é verdade?

Em vez de fazer uma piada com semelhante observação — pensei em lhe perguntar que tipo de furo os olhos da nuca poderiam ver, mas não o fiz — segui adiante: — ¿E em quais pontos pensamos diferentemente?

— Em vários, mas esses pontos podem ser resumidos num só: enquanto você possui uma âncora moral, eu não tenho nenhuma. Na verdade, eu já fui um amoral, mas, hoje, não tenho dúvidas de que sou um imoral.

— Entendo. Para ser honesto, também já fui um amoral. Mas um imoral… bem, talvez tenha sido num momento ou noutro… Mas não mais. Odeio aquelas dores de consciência.

— Sim, sim. Li várias coisas em que você deixa isso bastante claro. Por isso sei que poderá me entender sem preconceitos.

— Certo. ¿Mas seu livro vai tratar de quê? ¿De ética?

— Não exatamente. É o seguinte: quero provar o quão vantajoso o feminismo é para machistas como eu.

Eu, que acabara de virar minha primeira cachaça, comecei a sorrir largamente: — Isso parece divertido. ¿Mas é sério?

Ele assumiu uma expressão grave: — É. É muito sério.

— Desculpe por minha reação. É que a idéia me pareceu interessante.

— E é.

— Mas — tornei, franzindo o cenho — ¿o que você quis dizer com “machistas como eu”? ¿No seu modo de ver, o feminismo só é bom para alguns tipos de machistas?

— Precisamente. O feminismo só é bom para machistas da elite econômica que…

— Machistas ricos.

— Isso. Mas que também sejam amorais, ou imorais, e niilistas. E pouco importa se esses ricos são capitalistas ou dirigentes socialistas. A princípio, o feminismo é benéfico para “machos alfas” em geral. ¿Entende? Para homens que sabem se impor e vencer. Contudo, no longo prazo, o “macho alfa” sem dinheiro, sem poder, e principalmente se for moralista, vai se ferrar tanto quanto os demais pobres.

— Então já me ferrei também.

Ele sorriu e me encarou significativamente: — Esqueça a moral e escreva seu romance, meu caro!

— De imediato — retruquei, ignorando seu comentário — não vejo em que sentido o feminismo poderia ser positivo para um machista.

— Para um machista como eu. Machistas tacanhos e pobres se dão muito mal com o feminismo.

— Sim, eu entendi. Só não entendi por que o feminismo seria bom para esse primeiro tipo de machista.

— Você deve usar o verbo no presente e não no futuro do pretérito. O feminismo já é bom para homens como eu. Aliás, é útil há mais de um século.

— ¿Posso saber, apenas para ter uma idéia do seu status, o que você faz para viver?

— Sou empreiteiro. Construo edifícios de apartamentos, hotéis, shopping centers, estradas e aeroportos em toda a América do Sul e em alguns países da África. Também faço alguns servicinhos para o governo, claro. E sou consultor para algumas fundações humanitárias e ambientalistas importantes.

— Entendi. Mas, por favor, prossiga.

Nathan se aprumou na cadeira, desfez o nó do cachecol, fez sinal para o garçom trazer a garrafa de cachaça e, tornando a me encarar, respirou fundo: — Em primeiro lugar, preciso esclarecer que o feminismo é completamente anti-natural. E, entenda, não quero dizer com isso que ele seja meramente artificial. O feminismo não é apenas uma invenção humana: é uma invenção que atenta contra a natureza humana. Não é um produto cultural: é um produto anti-cultural. Ele age sobre a civilização como um ácido corruptor.

— ¿E vocês, machistas das altas esferas, não são humanos? ¿Não são prejudicados?

Ele riu: — Calma, você irá me entender. Sou um niilista, ¿lembra?

— Ah, é verdade.

— Deixe-me explicar melhor… — e, pensativo, parecia consultar notas guardadas na memória. — Por exemplo: você é um defensor do armamento civil, ¿não é?

— Sim, para auto-defesa. Apenas os cidadãos armados são realmente livres, pois, em último caso, podem defender-se até mesmo de seus governos. É por isso que nunca veremos uma ditadura na Suíça e é por isso que Hitler desarmou os judeus antes de mandá-los para os campos de extermínio.

— Ou seja, as armas não são boas ou más em si mesmas.

— Não, depende de quem as tem em mãos.

— Para homens como eu, o feminismo é uma arma desse tipo. Para os demais homens, é uma arma perversa em si mesma.

Sorri: — Por favor, desenvolva o raciocínio.

Ele sorriu de volta: — Vou desenvolver. Peço apenas que tenha paciência. Não sou tão bom com as palavras quanto você, sem falar que ainda estou tentando articular alguns pontos específicos.

— Isto aqui é um brainstorm para seu livro então.

— ¿Brainstorm? Ah, sim — e acendeu um cigarro, dourando o rosto com a chama do isqueiro. — Mais ou menos isso. Mas eu não preciso de novas idéias ou de me convencer de nada. Já fui convencido pelos fatos. Preciso apenas descobrir como expressar essas idéias e em que ordem colocá-las no papel… Enfim, preciso estabelecer uma hierarquia entre elas. Creio que atingirei meu objetivo com o mero ato de expô-las a alguém que saiba ouvir.

— Certo, Nathan. Prossiga então.

Em silêncio, pensativo, meu interlocutor deu uma profunda tragada no cigarro e ficou a observar as volutas da fumaça expelida. Virou outro copinho e, ao fim de quase um minuto, retomou o fio da meada: — Por si só, o feminismo jamais alcançaria todo o planeta porque sua vitória significaria a derrocada da humanidade.

— E exatamente por essa razão, você, um crente do nada, quer promovê-lo.

— Quero lhe dar um empurrãozinho! Porque, na verdade, o feminismo que me interessa é aquele feminismo diluído, aquela ideologia aguada propagada pelas revistas femininas, pelos blogs de garotas modernetes, pelos programas de TV, pelas novelas da Globo, pelos filmes, pela literatura vulgar e assim por diante. O feminismo radical, tal como o machismo folclórico, tacanho, é ridículo, caricato e destrói a si mesmo. Sozinho, jamais destruiria a civilização. É apenas uma ponta de lança que, por contraste, torna o feminismo açucarado mais palatável. Qualquer mulher que sinta alguma atração natural por um homem é incapaz de levar uma feminista radical cem por cento a sério.

— ¿E qual é a diferença entre esses feminismos? — perguntei, virando em seguida mais uma cachaça.

— É apenas uma diferença de intensidade, claro. Mas a questão é que o “feminismo fraco” — vou chamá-lo assim — é mais efetivo que o “feminismo forte”. Água mole em pedra dura…— e sorriu. — E é difícil distingui-lo da mera manifestação da justiça.

— ¿Da justiça?

— Sim, da justiça. Não me refiro aos tribunais, às leis, mas ao conceito de justiça. Porque é verdade que, num mundo normal, a mulher merece, sim, possuir direitos, ter a liberdade de escolher com quem viver, a liberdade de ir e vir, a liberdade de reunião e de decidir o que fazer da própria vida. Isso é apenas uma constatação justa. Para entender o valor disso, basta olhar como algumas sociedades islâmicas são capazes de exagerar para o lado oposto: nelas, as mulheres são praticamente propriedades dos homens, o que, para um ocidental, é deprimente de se ver.

— ¿E como distinguir o “feminismo fraco” dessa justiça?

— Numa sociedade justa, as mulheres continuariam sendo femininas. E, quando digo femininas, não me refiro apenas à aparência, ou seja, ao vestuário, à maquiagem, aos trejeitos, etc. Nada disso. Todas essas coisas são apenas a ponta do iceberg da verdadeira feminilidade.

— ¿Que é…?

— ¿A verdadeira feminilidade?

— Sim.

— Bem… É uma maneira espontânea e natural de pensar, de agir, de ver o mundo, enfim, uma maneira de ser e de compreender sua posição em relação à vida e a seu oposto, o modo masculino de viver. Uma mulher verdadeiramente feminina não compete com os homens.

— Espere, Nathan, deixe eu entender uma coisa: ¿por acaso você está tentando me dizer que as mulheres realmente femininas devem ser submissas ao homem?

— Sim e não.

Fiz um sinal para o garçom: apesar do frio, não queria mais cachaça, que ele me trouxesse uma cerveja. — Se eu continuar bebendo isso aí — disse ao empreiteiro ensaísta — não vou entender absolutamente nada dessas suas sutilezas.

— Vou explicar esse “sim e não”.

— Ótimo.

Ele deu outra profunda tragada no cigarro: — Num mundo sadio, a mulher não deve ser submissa no sentido de ser menos valiosa ou menos importante que o homem. E também não quero dizer que ela tenha de ser obediente, subalterna. Nada disso. Aliás, vou voltar a esse ponto — e pigarreou. — Ela deve, sim, ser submissa no sentido em que (permita-me usar metáforas extraídas da minha profissão) no mesmo sentido em que um pilar é submisso a uma viga. ¿Compreende?

— Não sou muito bom de engenharia. Abandonei o curso no segundo ano.

Ele riu: — Uma viga é um elemento da estrutura, disposto na horizontal, que transfere o peso que recebe da edificação para o pilar, o qual se posiciona, na vertical, logo abaixo: o pilar é portanto sub-misso à viga.

— Então o homem deve fingir que sustenta as coisas mas acaba é transferindo a carga pra mulher.

— Não, Yuri, ele não finge: ele sustenta as coisas e as eleva com a ajuda da mulher, que faz a conexão com o chão.

— E, segundo sua analogia, ¿o que seria esse chão?

— O chão é a realidade. A mulher é mais realista do que o homem. Ela tem de ser. É ela quem engravida, quem realmente garante a manutenção da espécie. Ela tem a pulsão instintiva de proteger a prole.

O garçom trouxe a cerveja e mais dois copos, mas Nathan quis continuar bebericando sua cachaça.

— Não sei se consigo visualizar como essa relação entre viga e pilar se dá na prática — observei.

— Minha atual secretária, uma bela garota que irei demitir em breve, pois sei que parou de tomar anticoncepcional… — e ele, com ar cafajeste, me piscou um olho — enfim, minha secretária me disse algo que expressa bem a idéia: segundo ela, “na relação entre os sexos, o homem é a cabeça, mas a mulher é o pescoço: é ela quem decide para onde apontar a cabeça”.

— Hum.

— E isso quer dizer que o homem é dominado basicamente pelo Entendimento e a mulher, pela Vontade. O Entendimento dirige, a Vontade impulsiona. Basta você imaginar um veleiro: as velas são a mulher; o leme é o homem.

— Estou vendo que esse seu livro terá mais de quinhentas páginas…

Ele riu: — Acho que não.

— ¿Você quer dizer com isso que o homem é mais inteligente do que a mulher e ela, simplesmente mais voluntariosa?

— Não, não é tão simples e esquemático assim. A realidade não é uma máquina. Uma mulher pode ser muito mais inteligente do que seu marido, do que seus irmãos e assim por diante. Mas o centro da alma feminina sempre será a Vontade, pois é sua Vontade quem cria. O homem só consegue criar mediante o Entendimento, que é o centro da sua alma. Basta você visualizar aquele símbolo do taoísmo: digamos que o Yin represente a Vontade, com a presença secundária do Yang, e o Yang represente o Entendimento, com a presença secundária do Yin. E ambos os aspectos só funcionam realmente em conjunto, com o casal formado.

— Polêmico isso aí.

— Eu sei. Muita gente sabe dessas coisas instintivamente, mas, como vivemos numa época politicamente correta, quase ninguém tem coragem de tocar no assunto. Eu tenho.

— Polêmico e improvável. ¿Como comprovar algo tão subjetivo?

— Se você disser que isso é improvável, poderá dizer que todas as teorias da psicologia também o são.

— É verdade. E talvez o sejam — repliquei, completando meu copo de cerveja.

— Mas boa parte delas realmente explica, ou melhor, realmente descreve inúmeros comportamentos humanos.

— Não negarei isso.

— Apenas para você visualizar melhor o conceito: ¿quem você acha que teve a idéia, durante o Pleistoceno, de esfregar duas pedras para conseguir faíscas?

Eu ri: — ¿Como posso saber de uma coisa dessas?! Ninguém pode.

— Bom, eu sei: foi o homem. ¿E você sabe o quanto ele insistiu para finalmente tornar a idéia um sucesso?

— Não — respondi, achando aquele papo hipotético uma perda de tempo.

— Nem duas semanas. Simplesmente porque ele desistiu! Depois de tentar em vão colocar fogo em alguns tipos de materiais (capim seco, gravetos, folhas, etc.), ele concluiu que a idéia era inviável. Então, a mulher dele, que havia entendido o princípio, continuou insistindo, até perceber que os ninhos de passarinho eram o combustível ideal! A primeira fogueira deste mundo foi acesa por uma mulher! Foi assim que o ser humano aprendeu a dominar o fogo: graças à idéia do homem e à força de vontade da mulher.

Nathan apagou a bituca do cigarro e me encarou: — Há um vídeo interessante no YouTube. ¿Lembra do Borat?

— Claro. Aliás, Sacha Baron Cohen nasceu onze dias antes de mim.

— Boa safra a daquele ano, ¿não?

Eu ri: — Meio maluca, talvez.

— Então… — tornou ele. — Antes daquele longa-metragem do Borat, Cohen tinha um programa de TV na Inglaterra. Há um vídeo em que ele entrevista estudantes e professores da Universidade de Cambridge. Todos realmente acreditam que ele é um repórter do Cazaquistão e, por isso, não têm vergonha de falar o que realmente pensam, afinal, tudo aquilo será supostamente veiculado num país distante. Então Borat diz a um venerável e simpático professor, já idoso, o seguinte: “Estive andando por aí e vi muitas mulheres. ¿Por que elas estão na universidade?” E o professor: “Ora, porque elas também são inteligentes”. Borat devolve: “No Cazaquistão, quando vemos uma mulher com um livro na mão, dizemos: ‘Olha um cavalo com uma sela!’”. Ambos caem na gargalhada, mas o professor observa com toda sinceridade: “Bem, a questão é que metade do mundo é constituída por mulheres. Elas têm tanta habilidade e tanta inteligência quanto o homem. Mas a diferença é que elas não têm a mente criativa”. E Borat, colocando lenha na fogueira, diz: “No Cazaquistão, dizemos que encontrar uma mulher com cérebro é como encontrar um cavalo com asas”.

— Puts — exclamei, olhando em torno. — Se a gente estivesse num bar mais movimentado, já estaria apanhando.

— É possível.

— E, sinceramente, você está generalizando tanto quanto o Borat. Mas com uma grande diferença: você não está fazendo piada!

— Não é piada e, sim, é claro que estou generalizando. Não sou ingênuo, sempre haverá exceções. Mas sugerir, como as feministas fazem, que há mais homens entre os gênios da música, da literatura, do cinema, das artes e das ciências, apenas por causa da “opressão do patriarcado”, é de uma ingenuidade sem tamanho… — e sorriu, abrindo os braços. — Aliás, mesmo esses gênios estão deixando de existir na intensidade e na quantidade de outrora: porque as mulheres estão deixando de apoiá-los e estão tentando se tornar “exceções”, que, repito, existem. Mas a exceção nunca é a regra! Isso é tão óbvio. Se até entre os homens a genialidade é rara, uma exceção, imagine então entre as mulheres! Ora, para realizar uma obra de vulto, elas precisam ir contra a própria natureza! Mas não, o feminismo não aceita isso, ele afirma que elas não apenas podem mas que devem ser magníficas, deslumbrantes, incríveis, enfim: geniais! Sim, atualmente, elas mesmas querem ser as “gênias criadoras”. E, graças a isso, elas levam adiante suas próprias idéias furadas com a maior força de vontade. Contudo, não há melhor definição de gênio que a dada pelo amigo Spengler: “Gênio é a força fecundante do varão que ilumina toda uma época”. Percebe? Do varão, do homem. Genialidade não é o mesmo que talento ou o mesmo que habilidade. Talento e habilidade as mulheres podem possuir tanto quanto os homens; mas genialidade, não. Claro, certamente nenhum homem jamais entenderá e interpretará a literatura de James Joyce ou a música de Chopin tão bem quanto uma mulher. Elas são exímias na arte de ser fecundadas! São mulheres! Elas são capazes de ir tão longe quanto esses gênios! Mas precisam segui-los, não chegariam, aonde eles chegaram, sozinhas. A não ser, repito, que neguem sua feminilidade! Essa escritora que o mediador do seu debate disse ter morado com você, por exemplo…

— Eu é que morei com ela. Hilda Hilst. Fui secretário dela. A criatividade dela, aliás, não tinha limites.

— ¿Ela era uma mulher feminina?

— Nossa, extremamente feminina. Aliás, ela continuava sedutora mesmo sendo idosa. Seu jeito de falar, de nos olhar, de movimentar as mãos e até mesmo de segurar o cigarro, tudo era envolvente. E espontâneo! Uma mulher saída dum filme noir.

Ele acendeu outro cigarro: — Bom, você está me descrevendo apenas a ponta do iceberg da feminilidade. Em geral, uma mulher criativa precisa ter uma força masculina própria para se expressar e se impor e, via de regra, quando consegue manifestar uma tal força, acaba perdendo uma boa dose de seus atrativos femininos. Ela acaba afastando os homens. A não ser que ela seja uma artesã, porque, ao seguir uma tradição artística qualquer, as mulheres podem ser simultaneamente bastante criativas e femininas. Contudo, nesse caso, não há inovação, há apenas a adaptação de uma tradição a uma visão ou habilidade pessoal, uma criação pela Vontade. A Vontade se guia pelo querer, e o querer pelo amor: quer-se aquilo que se ama. As mulheres amam uma tradição, uma escola estética, e então a seguem. Sozinhas, elas não farão nenhuma revolução estética, porque esta depende da força criativa do intelecto. Por isso, a maioria dessas mulheres intelectualmente criativas ou não é casada, ou é casada com homens feminis (homens-pilares, digamos), ou então é lésbica.

Eu, que já ia erguendo o copo de cerveja, depositei-o novamente na mesa: — Agora que você disse isso, me lembrei de uma coisa sobre a Hilda.

— Diga.

— Ela me contou que, após se casar e se mudar para sua fazenda, vivia brigando com Dante Casarini, marido dela à época, pois, segundo ele mesmo já me confirmou, quando ela estava escrevendo, suas feições assumiam um aspecto masculino e até sua voz soava mais grave. Isso o incomodava muito, principalmente quando ele sentia tesão no meio do dia e resolvia interromper o trabalho dela. Hilda, irritada, lhe dizia: “Dante, vá comer a empregada e não me encha o saco!”. E o engraçado é que, depois de várias respostas semelhantes, ele realmente foi comer a empregada. Em pouco tempo o casamento acabou.

— Pois é, taí um fato comum. Para o homem, num caso assim, a mulher se torna basicamente um amigo ou um parceiro — como era Simone de Beauvoir para Sartre. Isso, claro, quando ela não se torna uma rival! Imagino que ela nem tenha tido filhos.

— ¿Quem? ¿A Hilda? Não, não teve.

— Pois é. No final das contas, mesmo amando uma mulher intelectualmente criativa, o sujeito, para se sentir completo, acaba é procurando mulheres mais femininas. Mesmo que ele próprio ache isso uma idiotice, mesmo que racionalmente ele saiba que sua companheira intelectualizada é mais, digamos, interessante do que uma meramente feminina, ele não consegue evitar! É instintivo, é da natureza do masculino buscar o feminino — e, dando uma tragada no cigarro, Nathan olhou para cima, meditando. A neblina e o frio pareciam mais intensos agora. As ruas já não estavam tão movimentadas. — Quanto à mulher — prosseguiu ele —, de fato ela até pode ter a mente criativa: contanto, repito, que sacrifique sua feminilidade natural no altar desse tipo de criatividade, tal como o fez sua amiga. Ora, a mulher nasceu para criar o que você, Yuri, certamente crê ser o bem mais precioso: outro ser humano! Para um moralista, para um conservador, ¿o que é um livro quando comparado a um ser humano? Nada! Mas não, em vez de observar com condescendência essas criações mentais dos homens, tão inferiores se cotejadas com uma nova alma, agora as mulheres querem é criar dentro do âmbito masculino! Abandonam o ato mágico e sagrado de se tornar um portal para a vida e abraçam as invencionices dos homens. Já o coitado do homem, que é incapaz de gerar um filho, ¿não pode nem compor uma sinfonia sossegado? ¿Ele tem de ouvir da própria esposa algo como “meu trabalho no escritório é tão importante quanto o seu”? E ela então ainda tem o desplante de tecer elogios ao chefe, um sujeito pretensioso que não passa de um burocrata, quando, sem se dar conta, ela tem em casa um gênio da música necessitado de ajuda feminina para desabrochar… Que tremenda sacanagem!

— ¿Você, por acaso, seria contra uma mulher tornar-se presidente de uma empresa ou mesmo presidente da República?

— Não interessa se sou contra ou a favor. O que interessa é que, se uma mulher for culta, isto é, se ela beber da fonte da Cultura, da História, da Filosofia, enfim, do pensamento humano mais elevado, previamente criado, aprofundado e expandido por homens já mortos, ela será muito melhor que um presidente homem inculto ou meramente dotado de um ridículo diploma de universidade brasileira. Margaret Thatcher foi Margaret Thatcher porque estava sobre ombros de gigantes! Eu já disse: as mulheres são mais capazes de reconhecer um gênio do que qualquer outro homem! Porra, a primeira mulher a acender o fogo notou a genialidade da idéia quando o próprio inventor duvidara dela! Em geral, os homens é que invejam aqueles que são melhores do que ele. As mulheres não, elas os reconhecem, compreendem e os amam! O amor é a fonte da Vontade. Este, aliás, foi um dos argumentos que o coitado do Nietzsche usou contra o cristianismo: que era fraco, que se tratava duma religião feminina! Tudo porque, no início, quem mais amava, compreendia e seguia Jesus eram as mulheres! Ora, elas são inteligentíssimas! Só não espere novidades intelectuais da parte delas. As novidades que lhes interessam são as notícias, os últimos acontecimentos, as fofocas, ou seja: coisas já ocorridas. Como o Evangelho, por exemplo — e Nathan sorriu cinicamente.

Comecei a tamborilar a mesa: — Tá, tudo isso é muito interessante. Mas que ninguém nos ouça! Porque este papo, nesta nossa época politicamente correta, pode até nos levar à cadeia. E eu sou apenas seu ouvinte!

Ele riu enquanto batia a cinza do cigarro.

— Agora… — continuei — você tem de reconhecer que nada do que falou até o momento apóia sua defesa do feminismo. Muito pelo contrário: sua posição é muito próxima à de Chesterton, que era católico e já criticava o feminismo nos anos 1920!

Nathan, a cachaça em riste, alargou um sorriso e me encarou com olhos penetrantes: — Sou niilista, imoral, mas não sou idiota! Eu estudo muito. Aliás, ¿você já leu as Epístolas de Paulo com atenção?

— Já li, mas duvido que tenha prestado atenção às mesmas coisas que você.

— Bem, o caso é que o apóstolo Paulo descreve com perfeição o maior defeito do homem e o maior defeito da mulher.

— ¿E quais seriam?

— O maior defeito do homem é o egoísmo; o da mulher, o orgulho. O egoísmo é o Yang do ego, e o orgulho, o Yin. ¿Percebe? — movi a cabeça afirmativamente e ele continuou: — ¿E qual é a profilaxia recomendada? ¿Qual o remédio sugerido por Paulo? Que o homem seja capaz de literalmente dar sua vida para proteger a esposa e que esta seja capaz de submeter seu ego ao ego do marido. Em outras palavras: o Entendimento, que busca a Verdade, sabe que deve proteger o Amor, que é a essência da Vontade. Ora, o Amor é mais valioso que a Verdade! Mas o Amor, que é cego, deve deixar-se guiar pelo Entendimento sempre que houver um impasse. ¿Percebe?

— Mais ou menos.

— Trocando em miúdos: quando houver risco de vida, é a vida da mulher que deve ser poupada, ao passo que o homem deve se sacrificar por ela, tal como num navio que afunda, ou tal como aqueles namorados que, num tiroteio dentro duma sala de cinema nos EUA, pereceram ao proteger suas namoradas com seus próprios corpos.

— Não discordo.

— Já a mulher, sempre que o casal estiver em desacordo com alguma questão importante, quando todos os argumentos estiverem na mesa e mesmo assim ainda houver um impasse, ela deve confiar na decisão do marido, pois é dele o voto de Minerva. Muitas vezes, a decisão dele não será outra senão seguir o conselho dela. Pois realmente há uma intuição feminina. Todos os antigos generais consultavam oráculos. A mulher, por ser mais intuitiva, mais sensitiva, é o oráculo do homem. Mas é ele quem tem de bater o martelo. Ora, para ela isso deveria ser um alívio, não uma humilhação. Ele está pegando para si a responsabilidade de um possível fracasso. Mas, ao longo das últimas décadas, as feministas estão conseguindo destruir até mesmo a intuição feminina. Elas a estão substituindo por raciocínios rasos e conselhos toscos, desses que encontramos nas revistas e blogs femininos: “a fila anda”, “cavalheirismo é machismo disfarçado”, “não olhe para trás, esqueça seu ex-namorado”, “a diferença de gênero é uma imposição social”, “primeiro a carreira, depois seu homem”, “nem toda mulher se realiza com a maternidade”, “meu corpo, minhas regras”, “mantenha o queixo erguido, jamais se submeta” e assim por diante. Um monte de bobagens pseudo inteligentes emitidas por universitárias que não entendem absolutamente nada das almas masculina e feminina. ¿Por que a mulher não poderia aceitar a sanção masculina? Se o homem seria capaz de entregar a própria vida por ela, ¿por que ela não poderia vez ou outra deixar o orgulho de lado e sacrificar a vaidade do seu próprio intelecto? É assim que um casal sadio funciona e foi este o erro de Eva: tomar decisões importantes sem consultar Adão! E o feminismo pretende justamente destruir essa dinâmica, ele quer não apenas exaltar o orgulho da mulher, mas também torná-la egoísta como um homem imaturo, o que, para a mulher, significa: torná-la infértil. Elas até já saem por aí tendo sexo casual, como se não fossem as mais prejudicadas no caso de uma gravidez indesejada ou de alguma doença estranha. Elas querem fazer sexo como se fossem animais machos. ¿E como os homens respondem a tudo isso? Sendo ainda mais egoístas! E o pior: muitas vezes eles se tornam tão orgulhosos quanto meninas adolescentes, tornam-se femininos!… — e sorriu. — Você me olha com essa cara de espanto, Yuri, mas o caso é que eu sei com o que uma sociedade sã se parece. A metafísica está por trás de tudo, até da ciência. E contra uma premissa metafísica verdadeira não há física que dê jeito. Mesmo que eu não concorde com as justificativas dadas, principalmente pelos devotos do Pai Celestial, o importante é que reconheço a existência de uma natureza humana e sei que ela se vinga daqueles que se voltam contra ela.

— Que é justamente o que você pretende fazer: voltar-se contra a natureza humana…

Ele riu, moveu as sobrancelhas expressivamente — como quem diz “pois é” — e então, inclinando a cabeça para trás, jogou a cachaça inteira na garganta.

— Claro que você irá me explicar o porquê disso…

— Sim — disse ele, fazendo uma careta de satisfação e estalando a língua. — Eu costumo vir aqui por causa da cachaça. O pai do Ronaldo, o dono do bar, tem uma destilaria lá perto de Santa Bárbara d’Oeste.

Eu sorri, fazendo cara de “hum, que interessante”, mas estava mesmo era esperando o desdobrar do assunto principal. Enquanto Nathan, em silêncio, ainda apreciava o sabor da cachaça, um dos homens da mesa ao lado levantou-se e veio até nós:
— Com licença, meu caro — disse, dirigindo-se a Nathan. — ¿Será que você poderia me arranjar um cigarro? Acabou a bateria do meu cigarro eletrônico e o bar já não tem cigarros para vender.

— Claro — respondeu o empreiteiro, estendendo a carteira com um cigarro já à mostra. O homem o pegou, acendeu-o, agradeceu e voltou à sua mesa. O estranho é que, enquanto acendia o cigarro com o isqueiro que Nathan lhe oferecera, o sujeito me deu uma estranha piscadela. Observando-o de volta à sua mesa, pensei: ¿será que sou o único sujeito deste boteco — boteco! — que não está vestindo terno e gravata?

— Olha — recomeçou Nathan, interrompendo-me o pensamento —, você citou Chesterton. Li dois livros dele.

— O que é impressionante, já que ele era católico e você, niilista.

— Fato. Mas é que a gente aprende muito ao estudar alguém com pensamento diametralmente oposto ao nosso.

— Você acaba de resumir minha vida acadêmica…

Ele sorriu e fez sinal para o garçom trazer uma garrafa de cachaça de outra qualidade: — Enfim, eu sei algumas coisas sobre as sufragistas que Chesterton não sabia. Lembra, ¿né? As sufragistas, ao exigir o direito de voto para as mulheres, tornaram-se o primeiro movimento feminista.

— Sim, eu me lembro. E, segundo Chesterton — continuei — uma mulher que exija o direito de voto tem de estar mesmo com a cabeça fora do lugar: ¿para que exigir o direito de participar de coisas tão nojentas quanto as ações do Estado? Votar num Primeiro Ministro que pode ajudar a aprovar a pena de morte, ou uma Declaração de Guerra, apenas sujaria de sangue as mãos das mulheres, que deveriam permanecer imaculadas.

— Bem machista, ¿não? — observou Nathan.

Rimos.

— Mas ele tinha ótimos argumentos — eu disse. — Para ele, as mulheres deveriam ter mais privilégios, e não mais direitos.

— Exato. Assim seria, se seguíssemos a natureza humana. Mas…

— Mas, ainda segundo Chesterton, quando os homens voltavam bêbados da “casa pública”, isto é, dos pubs, para suas “casas privadas”, desculpavam-se com as mulheres pelo atraso afirmando que estavam a tratar de coisas muito importantes lá dentro, muito mais importantes do que os assuntos do lar. Conversa fiada, claro, pois estavam apenas tagarelando com outros homens. Mas elas acreditaram neles!! E então quiseram sair de casa e participar da vida pública — principalmente a do pub!

Nathan riu: — Devo concordar, Chesterton é sempre muito engraçado.

— Muitíssimo engraçado. Pena que você, apesar de concordar com as observações dele, não concorda com seus princípios e com a manutenção desses princípios. Ele vivia combatendo o niilismo.

— E eu vivo defendendo o niilismo.

— Já notei, embora você ainda não o tenha feito. E você tampouco me disse por que apóia algo que vai contra a natureza humana.

— Sim, mas preciso dizer primeiro o que sei sobre as sufragistas que Chesterton não sabia.

— Ah, é. ¿E o que seria?

— Os primeiros movimentos sufragistas, e mais tarde os movimentos feministas em geral, foram financiados por grandes corporações e por dinastias bilionárias, como a dos Rockefeller por exemplo. Tudo não passou de engenharia social.

— ¿Como assim? ¿Com qual intenção?

— Ora, a todo direito corresponde naturalmente um dever, uma obrigação. Se as mulheres ganharam o direito de votar (e é engraçado chamar a essa obrigação de direito), obviamente ganharam também a obrigação, ou o direito, de participar mais ativamente da vida pública.

— ¿E o que há de errado nisso?

— O pré-requisito básico para participar da vida pública na sociedade, é conseguir um emprego, é trabalhar fora de casa. E aí está a genialidade desses engenheiros sociais: com a entrada das mulheres no mercado de trabalho, a oferta de mão-de-obra simplesmente dobrou! Se antes dez famílias forneciam dez cabeças para o trabalho, agora fornecem vinte cabeças. E você deve conhecer as leis do mercado, que são espontâneas: quando há um aumento da oferta de um produto ou serviço, cai o valor do mesmo. Ora, a competição torna-se mais acirrada: se alguém não quiser fazer um serviço por um valor X, algum outro o fará, porque agora há gente de sobra. Se antes eu não conseguia contratar um operário por 100 reais (porque ele tinha a escassez de mão-de-obra a seu favor, como um trunfo, como um meio de chantagem: “faço eu ou ninguém mais o fará!”), agora posso simplesmente contratar duas pessoas por 50 reais. ¿Percebe? O dobro da mão de obra pelo mesmo valor! Essa briga das mulheres contra a desigualdade dos salários é recente: no início, elas não se importavam de receber menos, afinal de contas, antes não recebiam salário algum! Alguma coisa é melhor do que nada, ¿não é? E qualquer valor amealhado iria supostamente contribuir com as finanças do lar.

— ¿Supostamente?

— Sim, claro! Vou repetir: se antes o marido recebia 100 reais, agora ambos recebem 50 cada! Ou seja, continuam tendo em conjunto o mesmo rendimento, mas fornecendo ao mercado uma cabeça a mais! Sem falar que, agora, o governo cobra impostos de ambos! ¿Quem ganhou com isso? ¿Os homens? ¿As mulheres? ¿As crianças? ¿As famílias? Claro que não: apenas o Estado e os metacapitalistas!

— Eita… ¿Metacapitalistas?

— Sim, gente que já deixou de ser meramente capitalista. Gente que se tornou tão rica que agora, enquanto patrocina o socialismo estatista para os demais, outorga a si mesma a prerrogativa de manter a riqueza somente para si. Todo socialismo sempre teve um financiador. E para esses metacapitalistas, que são anti-livre mercado, que odeiam competidores e inovadores que os ameacem, nada melhor do que impor a competição apenas para quem está abaixo deles: o velho e bom “dividir para reinar”. E é por isso que metacapitalistas vivem se metendo em política, vivem patrocinando governantes que adoram controlar a economia. Eu mesmo sou um metacapitalista.

— ¿Então você não está apenas especulando? ¿Como na história do fogo?

— Não. Nem na história do fogo nem agora. Há, por exemplo, testemunhas que ouviram Rockefeller Jr. e Nelson Rockefeller vangloriarem-se de suas estratégias. Eles patrocinavam até mesmo revistas feministas! Hoje patrocinam ONGs, fundações e institutos. O objetivo sempre foi o de tornar terrível, aos olhos de todas as mulheres, a opção legítima de ser uma mãe e uma dona de casa. E eles conseguiram convencer todo mundo! Os homens nem notaram que seus salários caíram por conta disso. Mas entenda. Não foi algo que ocorreu da noite para o dia: o equilíbrio salarial se deu aos poucos, ao longo de décadas. Sem ter a menor noção disso, gerações inteiras passaram a receber, em valores atualizados, a metade do salário que seus avôs recebiam décadas atrás. Hoje em dia, quer queira, quer não, toda mulher tem de trabalhar fora! Ou a família terá de viver com o salário defasado do marido… Maquiavélico, ¿não?

Reabasteci meu copo. Tomei mais um gole de cerveja. Nathan me observava, um ar irônico estampado no rosto.

— ¿É por isso — perguntei — que você apóia o “feminismo fraco”? ¿Apenas para pagar menores salários aos seus funcionários?

— Não, nem penso mais nisso. Essa idéia de a mulher trabalhar fora de casa (porque a mulher sempre trabalhou, ¿não é?), já faz parte do senso comum há décadas. Os politicamente corretos vivem dizendo que o patriarcalismo é uma maldade, uma forma de opressão. Dizem até mesmo que não existe mais! Bom, é quase verdade: os únicos patriarcas existentes são os metacapitalistas! Famílias enormes! Dinastias poderosas, todas super patriarcais. E também matriarcais, porque o patriarcalismo projetado no mundo só funciona quando associado a um matriarcalismo em ação dentro de casa. Porra, quase toda dona de casa sempre foi uma empreendedora! ¿Você acha que as mulheres dos Rockefeller, dos Rothschild, dessas famílias nobres européias e assim por diante acham chato não ter um emprego? ¿Você acha que elas são dondoquinhas passivas? Tadinhas, tanto dinheiro, tantos palácios para cuidar…

Eu sorri.

— ¿Lembra o que diz o caipira daquele filme “A Marvada Carne”? — indagou Nathan.

— Não, não me lembro das falas.

— Ele diz que teve “uma filha mulher para mandar na casa, e um filho homem para mandar no mundo”. Isto já foi senso comum! Quando o homem não tem uma mulher para manter a casa ativa, não consegue ser ativo no mundo. Se o homem não tem uma mulher para materializar sua idéia de acender uma fogueira, ele morre de frio. As coisas são assim mesmo quando a mulher não participa ativamente do trabalho dele. Sem a presença da grande força de Vontade da mulher, o homem mal consegue sentir sua pequena vontade. É a mulher quem inspira o homem. ¿Você já viu uma foto da mulher do Chesterton? É óbvio que aquela mulher enérgica devia virar-se para ele e dizer: “Vai e escreve, my dear! Está na hora! Tenho tanto orgulho de você”. E é por isso que Chesterton ainda está ativo na mente de tanta gente…

— Ok. Mas me lembro que há até mesmo uma Rockefeller super reconhecida, uma profissional proeminente… Li num jornal. Infelizmente não me lembro o nome dela.

Ele fez um muxoxo:
— Exceções sempre existirão! É da natureza. Se você ler a “História da Província de Santa Cruz”, de Pero de Magalhães Gândavo, primeiro livro de história sobre o Brasil, verá que as tribos indígenas da época do Descobrimento já tinham mulheres que preferiam ser caçadoras e guerreiras. Ou seja: mulheres que se comportavam de forma masculina. Algumas até mesmo escolhiam uma esposa…

— Eita.

— ¿E sabe o que os índios achavam disso? Achavam graça, mas não as impediam, não as incomodavam. “Já que querem viver assim, ¿quem sou eu para dizer não?”, deviam pensar. Afinal, as demais mulheres também achavam esses casos irrelevantes e, ao contrário das masculinizadas, preferiam manter seu status feminino tradicional. Ora, uma tribo é como um exemplar das antigas famílias: estas não se constituíam meramente de pai, mãe e dois filhos. A verdadeira família tradicional é formada por dezenas e dezenas de pessoas em constante contato diário: avós, tios-avós, tios, primos, pais, irmãos, agregados e assim por diante. Uma dona de casa, antigamente, jamais se sentia só! A tal família nuclear, raquítica, pequenina, também é uma invenção de engenheiros sociais. Com a solidão da mulher dentro de casa, as bravatas feministas ganharam ressonância. A família nuclear de pai, mãe, dois filhos e cachorro foi inventada por publicitários.

Ele continuava acendendo um cigarro no outro. E virando cachaça sobre cachaça. Quanto a mim, eu estava me sentindo incomodado por ouvir tantas confirmações da visão tradicional da família sendo explicitadas por alguém que se dizia niilista, por alguém que era contra essa visão. Resolvi provocá-lo:
— Estou começando a achar que, em vez de niilista, você é islâmico.

Nathan coçou o queixo, sorridente e pensativo.

— Você é bastante sagaz, Yuri — disse ele. — Para ser sincero, eu não me incomodarei nada quando o mundo inteiro se tornar um Califado. Porque esse é o futuro do mundo. Será um grande passo para o caos geral. Ora, o próprio Lúcifer, quando se rebelou, era um muçulmano avant la lettre.

Eu, que estava no meio de um gole de cerveja, engasguei ruidosamente. Coloquei a mão sobre a boca e tossi durante alguns segundos, enquanto solicitava com a outra mão que ele falasse mais baixo. O sacana do empreiteiro ficou ali, rindo da minha cara.

— Fala baixo — eu disse finalmente. — Os islâmicos podem ser mais perigosos do que as feministas.

— O feminismo ocidental é uma excelente arma para o Islã — replicou com cinismo satisfeito.

— Que seja! Isso eu posso até entender. Pimenta nos olhos do outro e tal… Mas esse papo de Lúcifer ser islâmico… Pelo amor de Deus! ¿De onde saiu isso?

Ele se aprumou na cadeira, cruzou as pernas e fez sinal para o garçom me trazer outra cerveja. Então olhou dentro dos meus olhos:
— Yuri, meu caro… Uma vez consegui ser convidado para assistir a uma aula de Religião Comparada na universidade inglesa de Essex. Eu pretendia me inteirar sobre o nível do conhecimento que atualmente vendem por aí. A certa altura, o professor, um scholar super respeitado, disse que a principal diferença entre o islamismo e o cristianismo é que, enquanto o primeiro assevera que Deus seja uma só pessoa, isto é, Alá, o cristianismo afirma que Deus seja três pessoas, a saber, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

— Ué. ¿E não está correto?

— Absolutamente não! O verdadeiro muçulmano não crê que Alá seja de forma alguma uma pessoa! Alá significa “A Divindade”. Para o cristianismo, há um único Deus, isto é, uma única Deidade que atua na Criação como três distintas personalidades. Ora, ¿que tipo de relacionamento você tem com uma outra pessoa? Um relacionamento pessoal! Simples, ¿não? Isto significa que, no cristianismo, você pode se sentar ali no meio-fio a qualquer momento e falar com Deus. Ao menos foi o que Jesus nos ensinou. Mas não é assim no islamismo! Você não pode se sentar no meio-fio para falar com Alá! Ele não é uma pessoa disposta a aceitar sua presente situação: “ah, o coitado está tão mal que precisa falar Comigo agora mesmo e Eu, Alá, não Me incomodo se ele está sentado na rua feito um cão”. Não! Alá não vai se alegrar com sua conversa mental fora de hora, fora de lugar, fora da adoração coletiva, enfim, fora do rito! Ele não vai sequer lhe dar atenção! O islamismo é um religião social, você precisa entrar em sincronia com os demais fiéis. Quando A Divindade é invocada, todos devem cair de joelhos, a cabeça voltada para Meca, e rezar o que têm de rezar! É a Divindade! ¿Quem é você para ousar falar com Alá com tanta familiaridade, com tanta informalidade, como se Ele fosse… seu Pai?! ¿Percebe?

— Sim, mas… ¿e Lúcifer? ¿Onde entra nessa história?

— Calma, já vou lhe dizer… A questão é que, para um ateu, essa diferença entre islamismo e cristianismo é um nada! Mas, para um espírito religioso, é uma diferença gigantesca! Isto muda tudo: se Deus é Pai, somos todos irmãos, mesmo os que O negam, e por isso ama-se até mesmo os inimigos; por outro lado, se Ele não é Pai, então apenas os fiéis merecem ser amados e preservados a todo custo. Já os infiéis… — e fez um gesto indicando uma degola. — ¿Compreende?

— ¿E Lúcifer…? — insisti, esvaziando a primeira garrafa em meu copo e completando o conteúdo com a nova garrafa.

— Lúcifer abjurou a Trindade. Deixou de acreditar nas personalidades divinas. Ele deixou de acreditar que Jesus fosse Filho de Deus. Ele já não cria no Pai! Ora, raciocinou o então governante do Sistema de Mundos, quem não é uma pessoa não pode ter filhos! É por essa mesmíssima razão que os muçulmanos ficam horrorizados quando alguém diz que o “profeta” Jesus é Filho de Deus. Lúcifer chegou à mesma idéia milhares de anos antes. E veja só: ele era um anjo, um espírito! E depois de ver seus planos serem subestimados ou vetados tantas vezes, depois de tantas negativas ao seu pedido de encontrar-se pessoalmente com o Pai, ele passou a acreditar que, na verdade, ninguém poderia se encontrar ou se comunicar diretamente com Deus, que tudo aquilo só podia mesmo ser uma farsa, porque, veio a concluir, Deus há de ser absolutamente transcendente à Criação, ao Cosmos. Para Lúcifer, Deus seria intocável! Deus jamais poderia se sentar para dividir o pão e o vinho com você… E, não podendo fazê-lo, ¿quem seria Ele então? Simples: A Divindade!

— E você, claro, não crê no mesmo que ele, já que se diz niilista.

— Eu já acreditei na personalidade do Pai, depois passei a crer apenas n’A Divindade e hoje não creio mais nessas besteiras.

— Mas você fala como se Lúcifer existisse.

Ele bateu o copinho vazio na mesa:
— Mas ele existe! E está preso! Jesus também existe: e está no comando!

Pasmado, fiz uma tremenda careta, aquela conversa estava me incomodando:
— Mas isso é… Você está se contradizendo!

— Ué, ¿por quê? No fundo, meu caro Yuri, tudo não passa de Guerra nas Estrelas! Juro! George Lucas, em certo sentido, está mais certo do que todos os teólogos que já pisaram na Terra. Houve uma guerra no Céu, meu chapa. Lúcifer, Gabriel, Jesus… não passam de espíritos de outras esferas… Se vierem até aqui agora, em visita, discretamente, apenas médiuns poderão vê-los…

Eu me endireitei na cadeira, virei o copo de cerveja e, em seguida, apesar da garrafa ainda cheia, cobri meu copo vazio com o descanso de copo. Para mim, já havia bebido mais que o suficiente.

— Ok, Nathan. Vamos deixar essa conversa doida de lado e me fale mais do seu livro. ¿Já sabe quais idéias são mais importantes?

Ele sorriu:
— Creio que sim. Pode não parecer, mas só por lhe falar dessas coisas já enxergo meu ensaio com maior clareza.

— E imagino que a idéia central a ser exposta será a destruição do Ocidente.

— Não, não, não, não… — censurou-me, movendo negativamente a cabeça. — Se eu disser isso, ninguém irá aceitar meus argumentos.

— Uê, ¿mas então…?

— Eu quero fomentar o “feminismo fraco”, não quero combatê-lo. Quero apresentá-lo como um progresso para a humanidade. Quero escrever uma apologia, não uma crítica.

— E isso ajudará a destruir o Ocidente.

— Sim, é o principal objetivo.

— Então o livro será mentiroso do começo ao fim. Dará os meios mas não revelará os verdadeiros fins.

— Exato! Um cavalo de Tróia.

— Nathan, me desculpe, mas você é completamente louco.

Ele deu uma gargalhada:

— Já me disseram isso várias vezes. Você nem imagina…

— E obviamente você sabe que não quero ajudá-lo em nada, ¿não é? E por favor, não me cite de maneira alguma! Acho melhor, inclusive, você esquecer que me conheceu.

— Ah, nem precisa me dizer isso. Já conheci tanta, tanta, tanta gente ao longo da vida que, em menos de um mês, já terei me esquecido de você. Mas não estou certo do contrário… — e sorriu com impudência. Creio que já estava pra lá de bêbado.

— Ok. Então você é um cara inesquecível.

— Sim, eles não param de falar a meu respeito! É um saco.

Ele estava deixando a conversa cada vez mais bizarra. Não era uma simples conversa de cachaceiro. Talvez ele fosse um esquizofrênico, o que, claro, trazia à baila muitos riscos. Decidi, pois, que seria uma boa idéia concluir aquela palestra o mais pronto. Ele porém, provavelmente intuindo minha intenção, fez um simpático sinal com a mão, como que pedindo desculpas.

— Yuri, eu sei que você é uma pessoa ocupada. Na verdade, ninguém é mais ocupado do que um escritor! Escritores ficam maquinando o tempo inteiro, o pensamento correndo a mil. A imaginação de vocês é uma onça! Não lhes dá trégua. Enfim, você não precisa se preocupar. Eu já vou deixá-lo em paz. Gostaria apenas de tratar de mais alguns pontos e, então, estaremos terminados.

Emiti um suspiro involuntário, o que, devo dizer, nunca foi do meu feitio. Não me sinto nada à vontade no papel de antipático, mesmo diante de um maluco.

— Beleza, Nathan. Mas se você for discorrer sobre o niilismo, seja breve, é um tema que já me acompanhou tempo demais.

— Fique tranqüilo. Já estou concluindo.

— Ok. Manda bala então — concordei, resignado.

Ele meteu os dedos na carteira de cigarro e notou que estava vazia. Assoviou para o garçom e a agitou no ar, solicitando mais uma. Pelo jeito, ele havia se esquecido do que nos dissera o homem da mesa ao lado minutos atrás: o bar já não tinha cigarros para vender. Contudo, para minha surpresa, Ronaldo, o proprietário, veio pessoalmente trazer outra carteira de Marlboro. Esse fato me causou tanta estranheza que procurei o filador de cigarros da mesa ao lado. Quando encontrou meu olhar, nosso vizinho sorriu e levantou o copo me saudando. Seus dois companheiros pareciam tão confusos e curiosos quanto eu.

— ¿Estão bem servidos? — perguntou Ronaldo.

— Sim, es…

— Sim, sim, Ronaldo, muito obrigado — cortou-o Nathan, dispensado-o com um gesto indelicado. E virando-se rapidamente para mim: — ¿O que há para se fazer nesta vida quando não acreditamos em mais nada, Yuri?

— Viver como um simples animal, imagino.

— Exato. E a parte mais interessante da vida animal, ao menos segundo meu gosto, é o sexo. Há quem prefira comida, bebida, sombra e água fresca, ou então lutas, esportes, adrenalina… Eu prefiro sexo. E, sendo você muito jovem, não imagina o quão difícil já foi variar de parceiras sexuais neste mundo. Quero dizer: quando já se está cansado do profissionalismo das prostitutas, claro — e me deu uma daquelas piscadinhas inconvenientes. — Aliás, a garota de programa dos nossos dias é a epítome do feminismo fraco! Uma mulher independente que trabalha fora e que vive de parecer feminina. A feminilidade dessas garotas é totalmente falsa! São fêmeas profissionais! É a mulher mais independente da alma do homem! Só lhes interessa seus corpos e seu dinheiro, claro. Parece até que estou descrevendo uma modelo, mas as modelos, quando fazem sucesso, obviamente não precisam ir tão longe nessa aventura. Mas as garotas de programa, quando tomam gosto, sentem-se tão poderosas quanto uma super modelo! Até alguns transexuais, invejando esse pseudo-poder, tornam-se travestis de programa; o que é uma bobagem, pois homens homossexuais são homens, ponto! E são potencialmente tão criativos quanto qualquer outro homem. Mas tanto as garotas de programa quanto os travestis, ao permanecerem nessa vida, mal imaginam o que virá depois… Certos estilos de vida semeiam vírus mentais que se manifestam tardiamente na consciência… Às vezes apenas nos minutos que antecedem a morte… É duro, meu caro… Sem falar que, no futuro, mais da metade da humanidade será literalmente constituída de filhos-da-puta! — e então, inclinando-se na minha direção, sussurrou: — Meu livro seria um verdadeiro sucesso se todas as mulheres que o lerem se tornarem em seguida, em um momento ou outro de sua vida, garotas de programa! A prostituição geral e irrestrita será a morte do amor! A morte da família!

— Ai, ai… — suspirei. — Esse papo é de uma escrotidão tremenda, Nathan. Você até poderia me entreter caso eu tivesse uns quatorze ou quinze anos de idade e ainda fosse um virgem com a cabeça cheia de revistas Playboy, Status, Hustler… Mas… por favor… Parece até aquela música do Capital Inicial: “O mundo vai acabar e ela só quer dançar, dançar, dançar…”. No seu caso, o mundo vai acabar e você só quer trepar.

Ele não se mostrou nem um pouco ofendido pela minha observação. Limitou-se a jogar novamente a cabeça para trás e a dar uma longa tragada no cigarro enquanto mirava o turvo céu de São Paulo. Conforme falávamos, a neblina ia e vinha.

— Yuri — disse, ainda olhando para cima — ¿você já assistiu a um documentário do Spike Lee sobre comediantes negros?

— Acho que se chama “Os Reis da Comédia”.

— Talvez. O título não importa. O interessante é que, nas apresentações de stand up comedy dos sujeitos, eles criticam, satirizam e detonam os negros, arrancando gargalhadas homéricas da platéia que, como vemos, é constituída quase que inteiramente de negros.

— ¿E…?

— E que, se os comediantes fossem brancos e contassem as mesmas piadas, seriam tachados de racistas e apedrejados ali mesmo no palco. ¿Percebe?

— ¿O quê?

— Que a época atual é tão hipócrita e tão propensa a se ofender, que só aceita as críticas feitas por membros do próprio grupo criticado. Ou ainda: uma crítica, hoje em dia, só é ouvida por todo mundo quando emitida por alguém que pertença ao próprio grupo alvo. O mais cômico é que está ficando assim com todas as ditas minorias, sejam elas minorias religiosas, sexuais, políticas, gordos, anões, pobres, etc.

— Não discordo.

— ¿Você já leu algum livro da Camille Paglia?

— Não, apenas alguns artigos. Gosto dela. Vi um livro dela no seu carro.

— Ela é mulher, lésbica, feminista e vive criticando as mulheres modernas, o movimento gay e o feminismo. Em geral, faz as mesmas acusações feitas desde sempre pelos conservadores, como quando ela diz que, no final das contas, uma mulher bem-sucedida numa profissão jamais será tão feliz e realizada quanto a mulher que simplesmente preferiu ter muitos filhos. Mas a mídia chique só passa a dar atenção a essas declarações quando feitas por alguém do tipo dela!

— Sim, entendo o que quer dizer. Aliás, ela concordaria com muito do que você falou sobre a natureza das mulheres.

— Verdade, mas ela jamais estimularia o “feminismo fraco”, porque sabe que, com o fim do Ocidente, o mundo iria tornar-se islâmico, o que, para uma mulher, seria um péssimo negócio. Ela não é idiota. Mesmo sendo atéia, sabe que o Ocidente vive sobre as fundações erguidas pelo cristianismo. E, como já falei antes, o cristianismo é tão vantajoso para a mulher que elas foram as primeiras a agarrá-lo com unhas e dentes.

— A crítica do Nietzsche.

— Isso. Mas, ao contrário do que afirmou Nietzsche, elas não se agarraram a Jesus porque o cristianismo parecia tão fraco quanto elas, mas, sim, porque Ele, Jesus, era forte, masculino, influente, poderoso e… cheio de amor. Toda mulher, não importa o quão inteligente seja, sempre se sentirá atraída por um homem que seja uma viga, por um homem sob quem ela queira colocar-se… — e sorriu, malicioso. — Aliás, isso até me lembra de quando conheci a signorina Ciccone, no início dos anos 1990, e a mantive literalmente na coleira, em minha Villa italiana, perto de Nápoles, por quase uma semana… “Venha vestida de Bettie Page submissa”, eu lhe dissera. Ah, essa Madonna: tão poderosa, mas tão necessitada de obedecer a alguém mais forte…

— Ai ai ai!! — soltei, arregalando os olhos. — ¿Você tá falando da cantora? ¿A Madonna?!

— Sim. Mas essa história não vem ao caso — e soltou uma longa baforada. — O que importa é que nenhuma civilização sobrevive sem religião — prosseguiu, concentrado. — Uma civilização, aliás, nasce da religião. A plebe só apreende os princípios morais básicos necessários para a boa convivência através de uma fé comum. E isto porque os rituais transmitem valores e significados mediante símbolos, que não são assimilados pela mente, mas, sim, vivenciados pelo coração ou, como dizem os psicólogos, pela afetividade. O coração nunca esquece nada. Qualquer idiota que esteja disposto, mesmo não sabendo explicar mais tarde o que se passou, sai moralmente enriquecido de um ritual cristão. De nada adianta dar aulas de filosofia ou de moral e cívica na escola. Não serve para nada! Essas aulas só alimentam intelectuais, que são uma parcela ínfima da população mundial. Os ateus globalistas, esses metacapitalistas metidos a sabichões, não entendem que, sem uma religião revelada, teremos apenas a barbárie, a guerra de todos contra todos. E, na minha humilde e niilista opinião, é ótimo que eles não entendam! Aliás, num estado de barbárie, a igualdade artificial da mulher, mantida com tanto custo, cai por terra: para o bem ou para o mal, elas ficam nas mãos dos homens! Se elas estão colocando as asinhas de fora, é porque estão protegidas pela muralha cristã da Cultura Ocidental. Do lado de fora desse castelo, reina o caos, o desrespeito e a violência. Ora, as mulheres têm um buraco no qual os bárbaros entrarão à força! E o Ocidente não é imortal, ele exige cuidados. Sim, meu caro, a guerra pode ser um retorno à mais selvagem natureza. E não me refiro somente à guerra entre nações, mas também a uma guerra que pode ocorrer no seio do povo, nas nossas ruas, uma guerra civil entre vizinhos, bairros, favelas e cidades.

— Já estamos quase chegando a isso…

Ele sorriu:

— Estamos. E tudo graças à desagregação das famílias tradicionais e aos preconceitos espalhados contra a religião. Não é culpa apenas dos políticos — e voltou a me piscar um olho. — Uma sociedade com famílias grandes e fortes, e com valores religiosos consistentes, necessita de pouco Estado para dar certo. Já o contrário…

Eu, cansado, quis me espreguiçar, mas reprimi o impulso. A verdade é que eu ainda estava curioso:
— O que eu mais gostaria de entender — comecei, medindo as palavras — é por que você, que tem uma visão tão clara dos fatos, não é capaz de seguir o exemplo da Camille Paglia e apoiar o Ocidente! ¿E daí que você não aceita os pressupostos da nossa civilização? ¿Destruir o Ocidente por quê? Poxa, você tem negócios a zelar, esse apoio seria pelo menos uma atitude pragmática. Não é possível que sua única intenção seja transar casualmente com mulheres liberadinhas, ou então dominá-las…

— Vou lhe explicar a razão — retrucou, com ar extremamente grave. — E é por isso que falei dos comediantes negros e da Camille Paglia, dessa mania que as pessoas têm de só ouvir o contraditório de quem, assim crêem, deveria estar apoiando “a própria turma”. — E então me encarou em silêncio por alguns instantes, um ar sombrio no rosto.

— Caramba, Nathan, já está muito tarde para fazer suspense. Estou hospedado na casa de amigos. Você podia ser mais direto, né.

— Tá certo, tá certo. Bom, primeiro vou resumir o que me interessa sobre as mulheres e depois me justificarei indo direto ao ponto, ¿ok?

— Ok.

— Digamos que a síntese do que está por trás do meu livro é o seguinte: as mulheres são essencialmente diferentes dos homens e, caso queiram vencê-los criativamente, terão de abrir mão totalmente da sua feminilidade. Se quiserem simplesmente ser melhores do que a maioria medíocre dos homens, e parecerem gênios diante dessa maioria, tudo isso sem abrir mão da sua alma feminina, basta imitarem os maiores gênios do sexo masculino que as antecederam, porque, desculpem-me, podem tirar o cavalinho da chuva, inovação intelectual é coisa de homem.

— Essa é a tal verdade que você vai esconder.

— Isso. Perceba que não avisarei que, no fim, caso abram mão da feminilidade, irão sentir-se insatisfeitas, vazias, irrealizadas e cheias de impulsos suicidas, como uma Virginia Woolf.

— Há mais escritores que se suicidaram do que escritoras.

— Uê, mas simplesmente porque há mais escritores homens.

— Certo, certo — murmurei. Eu já queria sair correndo dali.

— Na parte mais visível da obra, atacarei as “feministas fortes”, defenderei apenas os aspectos epidérmicos da feminilidade, levando em seguida a leitora a engolir o “feminismo fraco”, o qual supostamente as tornaria equivalentes ao homem em todos os aspectos, incluindo o sexual. Essa última parte é muito importante, pois, quando o homem sente que a mulher vê o sexo da mesma forma que ele, perde totalmente a confiança nas mulheres, torna-se um paranóico e um egoísta. Enfim, a intenção é fazê-las realmente crer que são idênticas aos homens. Ou melhor, fazê-las crer que…

— Tudo isso já é velho, Nathan! — repliquei, impaciente. — Super batido. Existem milhões de livros assim.

— Calma, Yuri. Há mais: elas já podem até mesmo acreditar que são melhores! Sim, pois, além do acesso ao mundo masculino, elas não apenas podem manter as armas da feminilidade (quero dizer, a sedução visual, a intuição, a capacidade de dividir a atenção entre vários atos simultâneos, o cuidado extremado de quem não pode deixar a fogueira apagar e, claro, as mil e umas chantagens emocionais inerentes ao seu sexo), mas podem usar também, adquiridas mais recentemente, as armas da lei, num claro (cá entre nós) desequilíbrio da justiça. Não há maneira melhor de oprimir um homem do que divorciando-se dele ou então acusando-o de assédio sexual ou de preconceito de gênero.

— Isso também não é novidade.

— Sim, mas é preciso convencê-las de que esses meios são legítimos e, graças a eles, podem combater os novos reacionários que andam arregaçando as manguinhas. Tipos como você — e ele riu com descaro. — Mas entenda que o principal chamariz da obra não será seu conteúdo, mas, sim, o fato de ter sido escrito por um homem dominador, um empresário de sucesso e um Don Juan convicto, um típico machista. ¿Percebe?

Aquele “percebe?” já estava me dando nos nervos.

— Percebo, Nathan, percebo. ¿E o que tem a ver os comediantes negros e a Camille Paglia? ¿Você por acaso vai criticar o machismo nesse livro?

— É o seguinte: não se trata simplesmente de que, sendo eu mesmo um machista, eu possa ser ouvido enquanto crítico do machismo. Isso é apenas a superfície. Porra, criticar o machismo é muito fácil. Na verdade, eu tenho legitimidade é para atacar as bases do cristianismo e, por conseguinte, as do Ocidente. ¿E por quê? Ora, porque ajudei a fomentá-lo! Sim, estou arrependido e agora quero colocar tudo abaixo. Minha ação é de longo-prazo. Como sempre tem sido, devo dizer. Já que você não entende as razões do meu niilismo, repito: já fui fiel ao fictício Deus-Pai, depois segui Lúcifer em sua rebelião, passando também a crer apenas n’A Divindade, e, mais tarde, depois que perdemos o contato, finalmente me entreguei ao niilismo.

— Depois que perdeu o contato… ¿com quem?

— Com Lúcifer.

Pronto, e lá vamos nós, pensei comigo. A esquizofrenia já estava se manifestando mais uma vez.

— Já faz quase duzentos mil anos que não nos falamos. Ou seja, desde que deixei de ser oficialmente o Príncipe deste planeta.

— Aham — e senti meu pé direito apontar involuntariamente para a rua.

— Logo — prosseguia Nathan, entusiasmado — se pretendo continuar com minhas ações contra a Cristandade, em especial, e a humanidade planetária, em geral, é porque sinto que preciso a todo custo me vingar dos imperialistas cósmicos que nos destituíram do poder.

— Sei.

— Você diz que minha abordagem sobre o feminismo é a coisa mais batida do mundo. ¿E eu não sei disso? ¿Quem você acha que sugeriu a Rockefeller a idéia de promover o feminismo? ¿Para quem trabalhavam os engenheiros sociais que tiveram essa idéia?

Pareceu-me mais seguro fingir que embarcava naquela sinistra badtrip:
— ¿Trabalhavam para você?

— Exato! ¿Quem você acha que era o bibliotecário que trazia aqueles livros cheios de dados ultrapassados para que Karl Marx, na biblioteca do Museu Britânico, chegasse às conclusões erradas?

— ¿Você?

— Eu mesmo. Entre uma pesquisa e outra, costumávamos debater rapidamente algumas idéias. Ele fingia não me levar muito em consideração, mas vi seus olhos brilhando diversas vezes ao ouvir minhas pequenas e bem calculadas observações. Também consegui lhe empurrar algumas obras de ocultismo bem interessantes… — seus olhos brilhavam de orgulho. — A verdade é que foi muito mais fácil influenciar Marx do que atuar nos bastidores para levar Henrique VIII a conhecer Ana Bolena, o que, como se sabe, causou muitos problemas aos católicos britânicos…

— Imagino que seja por isso que você, apesar de parecer no máximo uns cinco anos mais velho do que eu, tenha me dito que sou “muito jovem”…

— Claro. Você é apenas uma criança.

— E você deve ser um imortal do filme “Highlander”, né. Espero que não corte minha cabeça. Juro que não faço parte desse time. Se “só pode haver um”, você já deve ser esse “um”.

Nathan sorriu: — Estou acostumado com essas boutades. Até Nero zoou comigo. Hitler zoou comigo. Em seguida você me perguntará se, para manter a juventude, sugo o sangue de jovens donzelas.

— Verdade. Essa seria minha próxima pergunta.

Seu sorriso se desvaneceu lentamente e ele nada disse. Limitou-se a acender outro cigarro e a me observar com ar petulante. Pela primeira vez, senti que seu olhar traía a frieza de um psicopata. Aquilo me perturbou. Se antes ele parecia apenas querer me sacanear, agora parecia realmente convicto do que falava. Um arrepio me percorreu dos pés à cabeça. Quando dei por mim, eu já estava meio encolhido na cadeira, o tronco arqueado, as mãos ocultas sob as coxas. Então retirei-as e cruzei os braços, fingindo que meu calafrio não era mais que frio. De fato, como boa cúmplice, a temperatura caíra ainda mais e o cruzamento da Aspicuelta com a rua Girassol, logo adiante, havia desaparecido na neblina. Ao notar meu desconforto, Nathan voltou à carga:
— Yuri, você nem parece o sujeito que gravou aquela entrevista com a padeira que afirma ser a mestra Pórtia.

— ¿Como você sabe disso? Eu ainda não a publiquei.

— Sou bem informado, meu caro! — e, notando meu pasmo, deu uma gostosa risada.

— ¿Por acaso você andou conversando com alguém antes de me abordar lá na Casa Mário de Andrade?

— Não seja paranóico! — acrescentou, descruzando as pernas. — Eu simplesmente li essa informação no seu blog. Você pode não ter publicado a entrevista, mas avisou que ia até Alto Paraíso para gravá-la.

— Bom, acho que podemos pedir a conta, ¿não é?

— Claro — e imediatamente fez um gesto para o garçom, solicitando a conta. Depois virou-se novamente para mim. — E agora vou direto ao ponto: o mundo como o conhecemos irá acabar, meu caro. Bem, ao menos se meu projeto pessoal continuar funcionando tão bem. Primeiro será o fim da Cultura Ocidental e, mesmo que os globalistas ateus a vençam, ou mesmo a Rússia e seu tosco eurasianismo, serão substituídos mais tarde pelos islâmicos. O eurasianismo não se preocupa realmente com a fé ortodoxa. Para ele, essa fé é um meio de chegar ao poder, e não um fim em si mesma. Nenhum eurasiano, nenhum ateu ou agnóstico tem a convicção, a força e a coragem de um homem de verdadeira fé. O estatismo dos globalistas e dos russos não é nada perante a idéia de um Califado. E o islamismo, por incrível que pareça, será uma fé muito mais fácil de se destruir que o cristianismo, pois, quando o deus de uma religião não é pessoal, o ser humano tratará naturalmente de lhe atribuir as mais diferentes personalidades. Voltaremos ao politeísmo! É sempre assim. ¿E por quê? Ora bolas, porque o ser humano é uma pessoa, não sabe se relacionar com seres inteligentes de outra forma, a não ser pessoalmente. A Divindade pode ser verdadeira, mas sem uma personalidade que A expresse e represente, o homem torna-se isolado, como se estivesse preso num inferno hermeticamente fechado. Logo haverá os mais diversos grupos lutando entre si, cada um utilizando um atributo divino diferente para definir a personalidade de Alá. De certa maneira, esse conflito já ocorre, mas devido a questiúnculas relacionadas a personalidades humanas que supostamente herdaram o Califado de Maomé, tal como as disputas entre xiitas e sunitas. Trata-se, enfim, da mesma dinâmica: a ausência das personalidades divinas causando conflitos pessoais. E o melhor é que nenhum dos grupos islâmicos terá o efeito benéfico da personalidade do Deus cristão, nenhuma das personalidades de Alá será o Pai. A não ser que se assuma como Cristianismo! — e sorriu. — Falo dessas coisas não como o crente que fui, mas como o geômetra que, não podendo provar a veracidade dos Postulados de Euclides, sabe que a geometria entraria em colapso sem eles. As pessoas não se dão conta, mas elas vivem uma guerra santa dentro de seus corações. E Cristo a está perdendo! Quando vier o Califado, as mulheres serão nossas escravas, nossas kajiras, e os homens fracos e pobres, nossos escravos. Eu estou me lixando para o que Michael pensa sobre isso, estou me lixando para suas providências. Sou niilista apenas porque sei que estou condenado, sei que voltarei ao Nada. A sentença para os Rebeldes é a segunda morte, isto é, a morte da alma. Não poderei abandonar este planeta com vida. Minha alma será extinta, eu sei disso. Mas, até lá, vou deitar e rolar: vou continuar colocando as mulheres contra os homens, os homens contra Deus Pai e o Oriente contra o Ocidente. Este mundo, no futuro, será uma bagunça ainda maior. ¿Você acha que as coisas já estão muito ruins?

— Bem… Parecem ruins, mas não sei se já foram ou não piores…

— Uma das coisas mais divertidas — continuou, ignorando-me — é observar a chegada dos islâmicos aos Mundos das Mansões, que vocês cristãos costumam dividir em Inferno e Purgatório. Na verdade, está mais para purgatório… Enfim, ficam todos assombrados quando descobrem que Cristo é o Senhor! O sofrimento moral que atinge os jihadistas então, é infinitas vezes maior que a dor que causaram na Terra aos ditos “infiéis” — e Nathan deu uma gargalhada insana. — É uma pena que o ateísmo não possa vencê-los. Meu prêmio de consolação será então atrasar a vida espiritual do planeta levando-o a essa religião que consegue transformar um conceito muito bem acabado — A Divindade — numa situação disfuncional: a ausência da Trindade, a ausência das deidades que conectam o homem à Divindade Transcendente. Como se humanos fossem capazes de se relacionar com não-pessoas… — e me piscou novamente. — Eu adoro mentiras embaladas no papel de presente da verdade. Como não terei uma vida futura fora deste planeta, para mim pouco importa o que é realmente verdade e o que é mentira. Eu me contento em atrapalhar e desvirtuar o conceito que funcionaria melhor. E o Cristianismo, palavra de honra de um neo-niilista, é a melhor, a mais funcional e a mais benéfica de todas as religiões que conheci. Embora já não acredite na concretude Dele, o conceito de Pai Celestial é o único capaz de apresentar um Deus de paz aos homens.

O garçom trouxe a conta e Nathan rapidamente sacou um enorme maço de notas do bolso, pagando a conta em dinheiro vivo — um comportamento estranho para alguém que se diz um empreiteiro rico. Ou, por outro lado, talvez não. Essa gente anda sempre de mãos dadas com governos corruptos, tais como o nosso, e por isso sempre passa adiante dinheiro não contabilizado.

— Então, amigo escritor, ¿quer uma carona?

— Não, obrigado — respondi. — Só preciso subir dois quarteirões da rua Harmonia, aí ao lado. O amigo com quem estou hospedado mora ali.

— Tudo bem. Eu compreendo. Espero que, apesar dos pesares, não se chateie comigo. Você me ajudou muito. De fato, tenho todas as idéias bem hierarquizadas agora. Apreciei muito sua atenção e suas considerações.

Dei um sorriso amarelo: — Eu é que lhe agradeço pela carona, pela bebida e por confiar nos meus ouvidos.

Ele, pois, que já estava de pé, apertou-me a mão com energia, voltou a enrolar o cachecol no pescoço, sorriu com inesperada simpatia e, voltando-me as costas, caminhou a passos largos até o Jeep estacionado logo na esquina. Aquele epílogo da nossa conversa me deixara tão alquebrado, que mal conseguia pensar em me levantar. Era óbvio que se tratava ou de um louco surtado ou de um ator de pegadinha. Fiquei ali a observá-lo enquanto entrava no carro. ¿De onde tirara aquelas informações malucas e improváveis, tais como a da invenção do fogo? Aquilo era simplesmente uma enorme, conforme costuma sentenciar minha mãe, uma enorme “enfiação de peido no cordão”, isto é, um esforço de imaginação inútil. Eu ia pensando nessas coisas, tentando gravar na memória alguns pontos mais singulares daquele discurso, quando aconteceu: assim que Nathan deu a partida, o carro explodiu!! O clarão, o barulho e o deslocamento de ar foram tão fortes que me derrubou ao chão. Os companheiros da mesa ao lado — apenas nossas mesas estavam na calçada — também se estatelaram no concreto, as pernas para cima, os olhos arregalados, os dentes arreganhados. Garrafas e copos se quebraram. Atordoados, levamos alguns segundos para nos sentar ao chão, verificando se nossos corpos estavam intactos, se alguém estava ou não ferido. Meu ouvido zumbia. Os fregueses da única mesa ocupada dentro do bar saíram para ver o que havia ocorrido. Ronaldo viera até a porta.

— ¿O que foi isso?!

— O carro… o carro do Nathan… explodiu!! — e, ao terminar de balbuciar essas palavras, finalmente compreendi: os terroristas islâmicos certamente já conheciam as declarações malucas daquele machista feminista, mormente as que se referiam às alegadas crenças pessoais de Lúcifer! É claro que haviam decidido dar cabo daquele estranho sujeito. Mas… ¿em São Paulo? Eis um acontecimento inédito! No entanto, para minha surpresa, Ronaldo apenas comentou:

— Ah, ele sempre faz isso — e, como quem havia recebido a notícia de um gol num jogo que não lhe interessava, voltou para dentro do bar.

— Mas… ¿como assim? — berrei, sem obter resposta. — Precisamos socorrer o homem!

O engravatado que nos havia pedido um cigarro minutos antes, após bater a poeira da roupa, aproximou-se: — Você está bem, meu caro?

— Estou. Acho que estou.

— Não caia na pegadinha desse sujeito. É um mentiroso contumaz.

— ¿A quem se refere? ¿Ao Ronaldo, o dono do bar?

— Claro que não. Eu me refiro ao seu companheiro de copo.

— ¿Você o conhece?

— ¿Quem nunca ouviu falar dele? — e sorriu de modo enigmático. — Mas permita que eu me apresente: sou o doutor João Pinto Grande, advogado.

— Ah, tá bom! E isto aqui é o programa Topa Tudo por Dinheiro, do Sílvio Santos, né. Já entendi tudo, Ivo Holanda — e colocando uma cadeira de pé, voltei a me sentar. Precisava organizar as idéias.

— Estou acostumado com essa reação — retrucou o outro, sorrindo. — Esses são meus amigos, o doutor Roberto Smera, advogado de Santos, e o senhor Alexandre Ferreira, de Petrópolis.

Os dois homens, tão espantados quanto eu, me estenderam as mãos em cumprimento e eu as apertei mecanicamente, ainda sem saber se aquilo tudo fazia ou não parte de algum obscuro plano. Tudo indicava que alguém tentava me pregar uma peça.

— Bom, não ligo pro seu nome — eu disse. — ¿Mas por que o dono do bar não se importou com a explosão? Nathan está morto!

O doutor Pinto Grande sorriu: — ¿E o senhor por acaso está vendo algum destroço? ¿Restou alguma coisa do carro? ¿Um pedaço de lata que seja? ¿Onde está o fogo? ¿Onde está a fumaça?

Aquelas indagações causaram-me tão grande sobressalto que, levantando-me de um pulo, cheguei a correr até a esquina: precisava ver melhor, aquela neblina poderia estar ocultando algum vestígio do incidente. Uma vez lá, não sabia o que fazer com meu espanto: de fato não havia absolutamente nada de anormal! Não havia um mísero caco de vidro! ¿O que teria acontecido? Pasmo, voltei ao bar: aquele sujeito parecia ter as respostas.

— Ué! ¿Cadê o… doutor Pinto? — indaguei.

— O Pinto Grande foi mijar — respondeu um sorridente doutor Smera, o que arrancou uma gargalhada do tal Alexandre Ferreira.

Ao menos uma tal declaração serviu para retirar das minhas costas parte do peso daquela exótica situação, pois tampouco pude evitar uma risada:
— ¿O nome dele é esse mesmo?

— É sim — respondeu Smera. — Fomos colegas de faculdade. Ele já sofreu muito bullying por conta disso. Hoje, já não se importa nem um pouco.

Ficamos os três ali, meio constrangidos, aguardando o retorno do doutor Pinto. Alexandre chegou apenas a me perguntar se eu prestara atenção ao carro do Nathan, se era um carro de verdade mesmo ou um desses objetos de cena de ilusionistas. Respondi que era, sim, um carro, pois viéramos da Casa Mário de Andrade nele.

— Que sinistro! — exclamou.

Assim que o advogado de nome esdrúxulo retornou do banheiro, disse:
— Desculpe a demora. Vocês talvez já o saibam: quando é grande, precisamos de intermináveis chacoalhadas, do contrario fica um restinho ali que depois molhará a cueca.

Smera e Alexandre deram uma gostosa risada, mas eu, malgrado seu explícito beneplácito, ainda não me sentia à vontade para zombar do nome daquele sujeito bem debaixo do seu nariz.

— Por favor, doutor, preciso ir embora. ¿Poderia me dizer o que afinal você sabe sobre o Nathan? Ele me falou coisas estranhíssimas…

— Bem — começou ele, puxando uma cadeira para sentar-se, ao que foi imitado pelos companheiros —, em primeiro lugar, preciso lhe pedir desculpas, senhor…?

— Yuri.

— Isso, Yuri. Preciso lhe pedir desculpas pois de fato permaneci atento à sua conversa quase todo o tempo. Não pude evitá-lo! Vocês trataram de temas que me são caros.
— Tudo bem, doutor. Isso até me poupa de explicar o porquê de a coisa toda me parecer tão assustadora.

— Bem, meu caro, a intenção dele é esta! Assustá-lo! Ora, comecemos pelo nome: Nathan! É óbvio que ele pretende que você deduza daí que se trata de um disfarce para o nome Satã. Com você chegando a essa conclusão por si só, ele estará lhe concedendo a vaidade de um achado impressionante! Mas Satã nunca foi Príncipe do planeta Terra, na verdade, não passava de um ajudante de ordens de Lúcifer.

— Ah, por favor, doutor! ¿O senhor também?

— Calma, rapaz, estou apenas especulando. Talvez ele não tenha pensado em nada disso. Talvez ele esteja utilizando esse nome por nenhuma razão significativa e seja realmente o ex-Príncipe Planetário.

Todos nós franzimos o cenho ao mesmo tempo, encarando o doutor Pinto Grande com grande perplexidade.

— ¿Você está de brincadeira, né, João? — indagou Smera, com um sorriso cheio de suspicácia.

— Ora, ¿por que não? Embora algumas coisas sejam pouco prováveis, tudo é possível. E aliás, ¿sabe por que me aproximei de vocês dois e pedi um cigarro?

— ¿Por quê?

— Porque já tinha visto aquele rosto em algum lugar antes. Levei alguns minutos para reconhecê-lo. Me diga, senhor Yuri, se bem entendi por parte da sua conversa, você é um escritor. ¿Estou certo?

— Sim.

— Pois então. Vi uma foto desse sujeito sentado num café da Irlanda com o escritor francês Michel Houellebecq. ¿Você o conhece? ¿Já o leu?

— De nome, claro. Li apenas o livro “Partículas Elementares’. Ele é muito bom… ¿Mas tem certeza de que era o Nathan nessa foto?

— Certeza absoluta, sou um bom fisionomista. Mas… enfim. A questão é que, um ano depois do artigo que trazia essa foto ser publicado, Houellebecq lançou seu livro “Submissão”, aquele que descreve a vida de um professor universitário numa França convertida ao Islã. ¿Não acha uma coincidência curiosa?

— ¿Mas onde o senhor viu essa foto?

— Num blog literário. Encontrei por acaso, não sei dizer o nome, pois não é um site que freqüento. O curioso é que eu estava procurando por informações sobre Caligástia…

Eu já estava ficando irritado: — ¿E quem, em nome de Deus, é Caligástia, doutor Pinto?

— O Príncipe Planetário rebelde! — exclamou, como quem diz uma obviedade. — Mas o estranho é que, apesar de essa página ter surgido entre os primeiros resultados da busca, não havia uma única menção sequer a esse nome ao longo do texto.

Eu me levantei: — Os senhores me desculpem, mas já estou cansado dessa brincadeira, preciso ir agora.

— Tenha calma, seu Yuri. Sente-se, por favor… Vamos, por favor… Isso. Deixe-me explicar como vejo o fato. Minha Navalha de Occam não sai por aí afirmando que a explicação mais biruta é que é a correta. Só estou tentando lhe dizer o seguinte: esse sujeito certamente é rico, certamente está tentando manipular as pessoas e — atenção — está tentando manipular pessoas influentes! O senhor não há de ser nenhum Houellebecq, do contrário já teríamos ouvido falar de você… Não quero ofendê-lo com isso.

— Não me ofendeu.

— Mas, enfim, ele deve ter percebido algum potencial no seu trabalho e agora está tentando enfiar minhocas na sua cabeça. ¿Estará ele preparando o terreno para o islamismo? O senhor há de convir que o romance do senhor Houellebecq não faz críticas aos muçulmanos.

— Não sei dizer. Ainda não o li.

— Bom, eu estou lhe dizendo: o romance “Submissão” não ataca o Islã. Do contrário, Houellebecq já estaria vivendo numa caverna.

Todos sorriram, mas aquela asserção era tão verdadeira que nenhum sorriso se converteu em risada.

— Tampouco estou dizendo que esse Nathan seja o diabo. Mas atenção: nada é mais útil ao diabo do que a crença de que ele não existe!

— ¿Quem é ele então, doutor? — perguntou Alexandre.

Doutor Pinto Grande retirou o cigarro eletrônico do bolso do paletó, arrancou uma espessa nuvem de vapor dele e, após pensar por alguns segundos, disse: — ¿Vocês já ouviram falar de Li Hongzhi?

— Não — responderam em uníssono os dois amigos do doutor. Quanto a mim, já ouvira falar do sujeito, um suposto restaurador do budismo original, líder da seita Falun Gong, perseguida pelo governo comunista chinês. Mas preferi não dizer nada.

— Acontece que, em um de seus livros, o senhor Hongzhi afirma que o famoso ilusionista David Copperfield não usa nenhum truque para realizar seus shows de mágica. Segundo o mestre budista, Copperfield é um verdadeiro alquimista, capaz de manipular a matéria como bem entender.

Agora não consegui ficar calado: — ¿E o senhor está tentando nos dizer que Nathan é um verdadeiro alquimista?

— Não. Estou apenas dizendo que ninguém precisa ser Jesus para nos dar a impressão de que realiza milagres. Ele próprio nos deu tal aviso e, por isso, não se sentia muito à vontade atraindo as pessoas com aquilo que poderia ser visto como mera prestidigitação. Qualquer Simão Mago pode nos enganar neste ponto. ¿David Copperfield é apenas um ilusionista que faz uso de maquinismos e de geringonças eletrônicas? ¿Ou é realmente um alquimista? Não sei, mas, se ele não entender bulufas de alquimia, ainda assim enganou até mesmo a um respeitado líder budista.

— O senhor fala, fala, fala e não chega a lugar algum, doutor — retruquei. — Tudo indica que está mais perdido do que eu.

— Meu caro Yuri, meu único intuito é repetir o que já lhe disse: cuidado com as mentiras desse homem! Não as espalhe por aí. Não se deixe impressionar apenas porque ele fez o próprio carro desaparecer num passe de mágica. David Copperfield já fez desaparecer até um avião! Já atravessou a Muralha da China! Já se teletransportou do continente até o Havaí! Nada disso significa que devemos dar atenção às suas concepções religiosas ou políticas. A Cristandade não está perdida.

— ¿E como vou saber quais daquelas informações são mentiras e quais não? Tudo bem, aquele papo sobre quem produziu fogo pela primeira vez e, ainda mais absurda, aquela conversa fiada sobre a crença de Lúcifer ser semelhante à dos Muçulmanos, claro, são bobagens, mas e…

— Não, não, Yuri — atalhou-me o doutor Pinto Grande. — Essas informações são verídicas.

Nós três voltamos a olhá-lo com pasmo, mudos.

— Eu me refiro — prosseguiu o doutor, impassível — a essas insinuações sobre a identidade dele. ¿É um empreiteiro? Duvido muito. ¿O diabo? Bom, ele deve ter enrolado a Madonna e o Houellebecq com as mesmas pistas falsas. Se bem que Houellebecq, se lhe deu ouvidos, assim o fez porque gostou das histórias que ouviu. Esse autor francês não é um homem fácil de ser enganado. Aliás, outra grande mentira, claro, é esse papo de que Nathan esteja escrevendo um livro.

— ¿Então são essas as únicas mentiras? ¿Que Nathan esteja escrevendo um ensaio e que ele seja um empreiteiro e o diabo?

— O diabo não é alguém, meu caro. O diabo é um papel que todos nós corremos o risco de interpretar, daí a necessidade de orar e de vigiar. Lúcifer, Satã, Caligástia e todos os demais demônios não eram senão anjos ou seres semelhantes a anjos. Quando se rebelaram contra Cristo, assumiram o papel do diabo, o papel do inimigo. No final das contas, tornar-se um diabo é como tornar-se mentalmente doente, mas com a pior das doenças: a doença da rebelião obstinada contra Deus. É a Loucura Cósmica. Esse Nathan falou muitas verdades, mas a enlameou em muitas mentiras. Tenha cuidado. Siga o conselho de São Paulo: fique apenas com o que é bom.

— João, nós precisamos ir — disse o doutor Smera, olhando a hora no celular.

Doutor Pinto sorriu: — É verdade, me desculpe, Roberto. Eu me entusiasmo mais do que devia com esses assuntos — e olhando para mim: — Meu caríssimo Yuri, preciso deixar meus amigos em seus respectivos hotéis. Viajam logo pela manhã. Não preciso dizer que foi um prazer conhecê-lo. Veja, guarde meu cartão. E, quando tiver algum tempo livre, passe lá no meu escritório. Tenho boas histórias para lhe contar. Não sou um escritor, não ousaria sê-lo. Mas acho que você poderia fazer um bom uso delas.

Os três se levantaram, apertaram minha mão — o doutor Pinto Grande me deu mais uma daquelas piscadelas irônicas — e saíram em direção ao Cemitério São Paulo, desaparecendo no nevoeiro. Eu, meio cambaleante, a cabeça cheia de minhocas fantásticas, saí pela Aspicuelta em direção à rua Harmonia. Iria chegar no apartamento do amigo Rodrigo Fiume e ele que me desculpasse, porque pretendia encher de água quente aquela convidativa banheira e passar toda a madrugada em banho-maria. Precisava cozinhar as estranhas impressões daquela noite.

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