Chestertoninas: Saúde e cuidado

O erro de toda essa discussão médica está exatamente no fato de associar a idéia de saúde com a de cuidado. Qual a relação entre saúde e cuidado? Saúde tem relação com a falta de cuidado. Em casos especiais e anormais é necessário ter cuidado. Quando estamos particularmente doentes pode ser necessário tomar cuidados para recuperar a saúde. Mas, mesmo nesse caso, apenas estamos tentando ser saudáveis para sermos descuidados. Caso sejamos médicos, falaremos com homens excepcionalmente doentes, e estes devem ser aconselhados a tomarem certos cuidados. Mas, quando somos sociólogos, nos dirigimos aos homens normais, nos dirigimos à humanidade. E a humanidade deve ser aconselhada a ser imprudente, pois todas as funções fundamentais de um homem saudável devem ser, certamente, desempenhadas com prazer e pelo prazer. Por certo não devem ser desempenhadas com precaução ou por precaução. Um homem deve comer por ter um bom apetite a satisfazer e, certamente, não por ter um corpo para sustentar. Um homem deve se exercitar não porque seja muito gordo, mas porque ama floretes, cavalos ou montanhas, e os ama pelo que são. Um homem deve se casar porque se apaixonou e, decididamente, não porque o mundo precisa ser povoado. A comida verdadeiramente renovará os tecidos do corpo, uma vez que a pessoa não pense em seus tecidos. O exercício fará alguém realmente entrar em forma, contanto que a pessoa pense em algo mais. E o casamento terá alguma chance de produzir uma geração saudável generosa se tiver origem num entusiasmo natural e generoso. A primeira lei da saúde é que Leia mais deste post

Chestertoninas: Sobre saúde, eficiência e mediocridade

 

“Quando tudo um povo enfraquece e se torna ineficiente, esse povo começa a falar de eficiência. Assim, também, quando o corpo de um homem começa a fraquejar, ele, pela primeira vez, começa a falar de saúde. Organismos vigorosos não falam de seus processos, mas de seus objetivos. Não há melhor prova da eficiência física de um homem do que a animação ao falar sobre uma viagem ao fim do mundo. E não há melhor prova de eficiência prática de uma nação do que a constante menção a uma viagem ao fim do mundo, uma viagem ao dia do juízo e à nova Jerusalém. E não há sinal mais claro de uma saúde debilitada do que a tendência a buscar elevados e extravagantes ideais. É no primeiro vigor da infância que tentamos alcançar a lua. Nenhum  homem enérgico das eras fortes entenderia o que queremos dizer com “trabalhar para eficiência”. Hildebrand [nome do Papa São Gregório VII, um dos maiores pontífices que a Igreja conheceu e que esteve no trono de Pedro de 1073 a 1085] teria dito que não estava empregando seus esforços para ser eficiente, mas pela Igreja Católica. Danton teria dito que não estava labutando para ser eficiente, mas pela liberdade, igualdade e fraternidade. Mesmo se o ideal de tais homens fosse o ideal de empurrar alguém escada abaixo, eles pensariam na finalidade como homens e não no processo como paralíticos. Não diriam, “Ao elevar minha perna, podereis notar que utilizando os músculos da coxa e da panturrilha, que estão em excelente forma…”. O sentimento deles foi bem diferente. Estavam tomados pela bela visão de um homem estatelado ao término dos degraus que, neste êxtase, o restante se seguia num segundo. Na prática, o hábito de generalizar e idealizar não significa, de forma alguma, fraqueza. O tempo das grandes teorias foi o tempo dos grandes resultados. Numa época de sentimentalismo e de palavras elegantes, ao final do século XVIII, os homens eram realmente robustos e eficientes. Os sentimentalistas conquistaram Napoleão. Os cínicos não conseguiram pegar De Wet [Christin Rudolph de Wet (1854-1922), político sul-africano e general bôer na Guerra dos Bôeres]. Há cem anos, nossos assuntos, fossem para o bem ou para o mal, eram tratados triunfantemente por retóricos. Agora, nossos assuntos são irremediavelmente desorganizados por homens fortes e silenciosos. E assim como o repúdio das grandes palavras e das grandes visões nos trouxe uma raça de anões na política, trouxe também uma raça de anões nas artes. Nossos políticos modernos tentam desfrutar dos méritos de César e do super-homem e alegam que são muito práticos para serem puros e muito patrióticos para serem morais. Mas o resultado de tudo isso é ter um medíocre como Ministro da Fazenda. Nossos novos filósofos artísticos exigem a mesma licença moral, clamam por uma liberdade para devastar céus e terras com sua energia; mas o resultado disso é um medíocre como poeta laureado [no caso, Alfred Austin (1835-1913)]. Não digo que não haja homens mais fortes que estes, mas será que alguém dirá que há homens mais fortes do que os de outrora, dominados pela filosofia e impregnados pela religião? Se a servidão é melhor que a liberdade, isso é uma questão a ser discutida. Mas que a servidão dos antigos fez mais que a nossa liberdade será difícil negar.”

G. K. Chesterton, Hereges

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