Tomás responde: A negligência pode ser pecado mortal?

Gerard_Seghers_O_paciente_JóGerard Seghers (1591-1651), O Paciente Jó

Parece que a negligência não pode ser pecado mortal:

1. Com efeito, sobre o texto de Jó: “Tenho medo de minhas ações” (9, 28), a Glosa de Gregório diz que “um menor amor a Deus favorece a negligência”. Ora, onde há pecado mortal, o amor de Deus desaparece totalmente. Logo, a negligência não é um pecado mortal.

2. Além disso, sobre o texto do Eclesiástico: “Purifica-te de tua negligência com pouca penitência” (7, 34), se lê na Glosa: “Ainda que a oferenda seja pequena, expia a negligência de muitos pecados”. Ora, isso não sucederia se a negligência fosse pecado mortal. Logo, a negligência não é um pecado mortal.

3. Ademais, na lei estavam prescritos sacrifícios para expiar os pecados mortais, como está no Levítico. Ora, não foi prescrito nenhum sacrifício para expiar a negligência. Logo, a negligência não é um pecado mortal.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o livro dos Provérbios diz: “Quem negligencia a vida encontrará a morte”.

Tomas_RespondoComo já foi esclarecido, a negligência procede de certo relaxamento da vontade, o que impede que a razão seja solicitada a comandar o que deve ou na forma que deve. Por isso, a negligência pode ser pecado mortal por dois motivos: primeiro, por parte daquilo que é omitido por negligência. Se aquilo que se omite, seja ato, seja circunstância, é necessário par a salvação, a negligência será pecado mortal. Segundo, por parte da causa da negligência. Com efeito, se a vontade a respeito das coisas de Deus está relaxada a ponto de abandonar totalmente o amor de Deus, tal negligência é pecado mortal. Isto se dá, sobretudo, quando a negligência procede do desprezo. De outro modo, se a negligência consistir na omissão de um ato ou circunstância não necessários para a salvação, e isso não proceder do desprezo, mas da falta de fervor, que é impedido, às vezes, por um pecado venial, a negligência não é pecado mortal, mas venial.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. Um menor amor de Deus pode ser tomado em dois sentidos: primeiro, por falta de fervor na caridade, e, assim, tem-se a negligência que é um pecado venial. Segundo, por falta da própria caridade, como quando se diz que é menor o amor de Deus daquele que o ama somente com amor natural. E, então, tem-se a negligência que é pecado mortal.

2. A “oblação pequena feita com ânimo humilde e puro”, como está dito na passagem citada, não somente expia os peados veniais, mas, também os pecados mortais.

3. Quando a negligência consiste na omissão do que é necessário para a salvação, vem a ser, então, outro gênero de pecado mais manifesto. Pois, os pecados que consistem em atos interiores são mais ocultos. Essa é a razão pela qual a lei não prescrevia para eles determinados sacrifícios. A oferenda de sacrifícios era, com efeito, uma confissão pública de pecado, o que não se deve fazer por um pecado oculto.

Suma Teológica II-II, q.54, a.3

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