Tomás responde: A alma de Cristo foi sujeita à paixão?

James_Tissot_Jesus_chorouJames Tissot (1836-1902), Jesus Chorou (entre 1886-1894)

Parece que a alma de Cristo não foi sujeita à paixão:

  1. Com efeito, não se padece senão por ação do mais forte, pois o agente pode mais que o paciente, como ensinam Agostinho e Aristóteles. Ora, nenhuma criatura foi mais forte do que a alma de Cristo. Logo, a alma de Cristo não pôde padecer por parte de criatura alguma. Desta sorte, não esteve sujeita à paixão, pois se não podia sofrer por nenhuma causa, seria inútil nela a potência de padecer.
  2. Além disso, diz Túlio que as paixões da alma são “como enfermidades”. Ora, na alma de Cristo não houve qualquer enfermidade, pois a enfermidade da alma vem do pecado, conforme o Salmo 40: “Sara a minha alma porque pequei contra ti”. Logo, em Cristo não existiram paixões da alma.
  3. Ademais, parece que as paixões da alma são a mesma coisa que a inclinação ao pecado. Assim o Apóstolo, na Carta aos Romanos, as chama “paixões pecaminosas”. Ora, em Cristo não houve inclinação ao pecado, como antes foi dito. Logo, parece que nele não existiram as paixões da alma e, portanto, a alma de Cristo não foi sujeita à paixão.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, no Salmo 87, se diz da pessoa de Cristo: “Minha alma está repleta de males”, não de pecados, mas de males humanos, ou seja, “dores”, como a Glosa explica. Portanto, a alma de Cristo esteve sujeita à paixão.

tomas_respondoDe duas maneiras pode ser sujeita a paixões a alma unida ao corpo: ou pela paixão corporal ou pela paixão na própria alma. Sofre pela paixão corporal, por uma lesão no corpo. Com efeito, sendo a alma forma do corpo, segue-se que é um só o existir da alma e do corpo. Assim, conturbado o corpo por alguma paixão corporal, é necessário que a alma seja também conturbada por acidente, ou seja, quanto ao existir que possui no corpo. Portanto, como o corpo de Cristo foi sujeito a paixões e mortal, também sua alma necessariamente foi sujeita a paixões dessa maneira.

Diz-se que a alma sofre pela paixão na própria alma pela operação que é ou própria dela ou que é dela mais principalmente que do corpo. Embora se diga que a alma sofra algo segundo o entender e o sentir, no entanto, como na II Parte foi dito, chamam-se propriissimamente paixões da alma as afecções do apetite sensitivo, que existiram em Cristo, como tudo o mais que pertence à natureza do homem. Assim diz Agostinho: “O Senhor se dignou viver na forma de servo e humanamente disso se serviu, quando o julgou conveniente. Pois onde era verdadeiro o corpo do homem e verdadeira a alma do homem, o afeto humano não era falso”.

No entanto, deve-se saber que essas paixões existiram em Cristo de maneira diferente do que em nós quanto a três aspectos:

  1. Quanto ao objeto. Em nós essas paixões muitas vezes tendem a coisas ilícitas, o que não acontecia em Cristo.
  2. Quanto ao princípio. Em nós essas paixões antecedem frequentemente o juízo da razão; em Cristo, porém, todos os movimentos do apetite sensitivo eram orientados segundo a disposição da razão. Por isso diz Agostinho: “Esses movimentos, pela graça de uma disposição certíssima, Cristo acolheu quando quis na alma humana, assim como se fez homem quando quis”.
  3. Quanto ao efeito. Em nós esses movimentos algumas vezes não se detêm no apetite sensitivo, mas arrastam consigo a razão. Mas isso não sucedeu em Cristo, pois os movimentos que convinham naturalmente à carne humana de tal modo permaneciam, segundo sua disposição, no apetite sensitivo, que a razão não era, de maneira alguma, impedida de fazer o que era conveniente. Eis por que diz Jerônimo: “O Senhor nosso, para provar a verdade do homem que assumira, verdadeiramente se entristeceu; no entanto, como a paixão não dominava seu ânimo, se diz por uma paixão incoativa: ‘começou a entristecer-se’”, de modo que se entenda uma paixão perfeita quando é dominada pelo ânimo, isto é, pela razão; paixão incoativa quando começa no apetite sensitivo, mas não se estende além dele.

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Tomás responde: Cristo morreu por obediência?

Fra Angelico, O Crucificado e São Domingos (1437-1446), Museu São Marcos, Florença

Parece que Cristo não morreu por obediência:

1. Com efeito, a obediência se refere a uma ordem. Ora, não se lê que houvesse ordens para Cristo sofrer. Logo, não sofreu por obediência.

2. Além disso, diz-se que é feito por obediência o que alguém faz por necessidade de uma ordem. Ora, Cristo sofreu não por necessidade, mas por vontade própria. Logo, não sofreu por obediência.

3. Ademais, o amor é uma virtude de maior excelência que a obediência. Ora, diz a Carta aos Efésios que Cristo sofreu por amor: “Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós” (5,2). Logo, deve-se atribuir a paixão de Cristo mais ao amor que à obediência.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz a Carta aos Filipenses: “Ele se fez obediente ao Pai até a morte” (2,8).

Foi muito conveniente ter Cristo sofrido por obediência. Primeiro, porque isso era conveniente para a justificação humana, como diz a Carta aos Romanos: “Assim como, pela desobediência de um só homem, a multidão se tornou pecadora, assim também, pela obediência de um só, a multidão se tornará justa” (5,19).

Segundo, isso foi conveniente para reconciliar o homem com Deus, como diz a Carta aos Romanos: “Fomos reconciliados com ele pela morte de seu Filho” (5,10), porquanto a própria morte de Cristo foi um sacrifício muito agradável a Deus, conforme a Carta aos Efésios: “E se entregou a si mesmo a Deus por nós em oblação e vítima, como perfume de agradável odor” (5,2). Ora, a obediência é preferível a todos os sacrifícios, como diz o livro dos Reis: “É melhor a obediência que os sacrifícios” (1Re 15,22). Portanto, foi conveniente que o sacrifício da paixão e morte de Cristo procedesse da obediência.

Terceiro, foi conveniente à vitória pela qual Cristo triunfou sobre a morte e o autor dela, pois o soldado não pode vencer se Leia mais deste post

Eli, eli, lamá sabactani

Tintoretto, 1565

Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos.

Eu te ordeno: Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos.

Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro de vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida. Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso. Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paríso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti.

De uma antiga Homilia no grande Sábado Santo, séc. IV

Tomás responde: A dor da paixão de Cristo foi maior que todas as outras dores?

Giotto di Bondone, A Lamentação, Capella degli Scrovegni, 1304-1306

Leia também: Tomás responde: Cristo deveria sofrer na cruz?

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Como se disse acima, ao tratarmos das deficiências assumidas por Cristo (q. 15, a. 5, 6), deve-se dizer que ele suportou uma autêntica dor; tanto sensível, causada por algo que fere o corpo, como interior, causada pela percepção do que é nocivo e que é chamada de tristeza. Ambas foram em Cristo as maiores dores na presente vida. E assim foi por quatro motivos.

Primeiro, pelas causas da dor. Pois a causa da dor sensível foi a lesão corporal, que se tornou pungente não só pela extensão do sofrimento, da qual se falou, mas também pelo gênero de sofrimento. É que a morte dos crucificados é muitíssimo cruel, pois são transfixados em locais de nervos muito sensíveis, ou seja, nas mãos e nos pés; o próprio peso do corpo suspenso aumenta continuamente a dor; e é uma dor que perdura, uma vez que o crucificado não morre logo, como os que são mortos pela espada. Já a causa da dor interior foi, em primeiro lugar, todos os pecados do gênero humano, pelos quais, sofrendo, Cristo dava satisfação, a ponto de, por assim dizer, assumi-los para si, como declara o Salmo 21: “As palavras das minhas faltas”. Em segundo lugar, especialmente a culpa dos judeus e dos demais que tramaram sua morte, mas de modo particular dos discípulos, que se escandalizaram com a paixão de Cristo. Em terceiro lugar, a perda da vida corporal, que por natureza é horrível à condição humana.

Segundo, a extensão do sofrimento pode ser considerada pela sensibilidade do paciente. Ora, ele tinha uma ótima compleição física, pois seu corpo fora formado de Leia mais deste post

Tomás responde: Fomos libertados do pecado pela paixão de Cristo?

Parece que não fomos libertados do pecado pela paixão de Cristo:

1. Na verdade, cabe a Deus libertar do pecado, conforme diz Isaías: “Sou eu que apago, em consideração a mim, as tuas iniqüidades” (43, 25). Ora, Cristo não sofreu como Deus, mas como homem. Logo, a paixão de Cristo não nos libertou do pecado.

2. Além disso, o que é corporal não tem ação sobre o que é espiritual. Ora, a paixão de Cristo é corporal, ao passo que Leia mais deste post

Tomás responde: Cristo suportou todos os sofrimentos?

Giotto di Bondone: “Crucifixão” na Cappella degli Scrovegni, em Pádua (1304-1306) (clique para ampliar)

Parece que Cristo suportou todos os sofrimentos:

1. Com efeito, diz hilário: “O Unigênito de Deus, para completar o sacramento de sua morte, atesta ter recapitulado em si todo tipo de sofrimento humano, quando, ao inclinar a cabeça, entregou o espírito”. Portanto, parece ter suportado todos os sofrimentos humanos.

2. Além disso, diz Isaías: “Eis que meu servo crescerá, ele será exaltado, elevado, enaltecido grandemente. Da mesma forma que as multidões ficaram horrorizadas a seu Leia mais deste post

Tomás responde: Haveria outro modo mais conveniente de libertação humana do que a paixão de Cristo?

Jacopo Tintoretto, 1565 (clique para ampliar)

Parece que haveria outro modo mais conveniente de libertação humana do que a paixão de Cristo, pois:

1. Com efeito, a natureza em sua operação imita a obra divina, pois é movida e regulada por Deus. Ora, a natureza não emprega dois meios quando apenas um é suficiente. Logo, como Deus poderia libertar o homem somente por meio de sua vontade, parece não ter sido conveniente que para a libertação humana acrescentasse a paixão de Cristo.

2. Além disso, o que se faz segundo a natureza realiza-se de modo mais conveniente do que o que se faz com violência, pois a violência é “de certo modo um rompimento ou um desvio do que se comporta conforme a natureza”, como se diz no livro Do Céu. Ora, a paixão de Cristo levou a uma Leia mais deste post

Tomás responde: A instituição da eucaristia ocorreu de modo conveniente?

A Última Ceia a partir da Heilig-Blut-Altar por Tilman Riemenschneider, em St-Jakobskirche, Rothenburg ob der Tauber, Alemanha (clique para ampliar)
Nota: O que é tratado aqui é quase exclusivamente o momento histórico escolhido para a instituição deste sacramento. É somente em artigos posteriores que é abordado, por exemplo, as palavras de Cristo na Ceia (q. 78).

Parece que a instituição deste sacramento não foi como convém:

1. Com efeito, segundo o Filósofo, “somos nutridos dos mesmos elementos que nos fazem existir”. Ora, pelo batismo que é o novo nascimento espiritual, recebemos o ser espiritual, como diz Dionísio. Portanto, somos nutridos também pelo batismo. Logo, não era necessário instituir este sacramento como alimento espiritual.

2. Além disso, Leia mais deste post

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