As vantagens de ter uma perna

Chesterton

UM AMIGO MEU, que estava visitando uma pobre mulher enlutada e procurava alguma frase de consolo que não fosse insolente nem fraca, disse, enfim: “Acredito que é possível atravessar essas grandes penas e sair delas melhor do que se entrou. O que desgasta são as pequenas preocupações”. “É bem verdade”, respondeu a velha senhora com ênfase, “e eu sei bem disso, considerando que tive uma dezena delas.” É, talvez, neste sentido que é profundamente verdadeiro que as pequenas preocupações são as mais desgastantes. Em seu significado mais vago, embora a expressão contenha uma verdade, contém também algumas possibilidades de auto-engano e erro. As pessoas que têm tanto grandes quanto pequenos problemas têm o direito de dizer que consideram piores os pequenos, e é indubitavelmente verdade que as costas que estão vergadas sob fardos incríveis conseguem sentir um leve aumento sob eles: um gigante sustentando a terra e toda a sua criação animal poderia achar que o gafanhoto é um fardo a mais. Mas temo que a máxima de que as menores preocupações são as piores seja às vezes usada e abusada pelas pessoas porque elas não têm senão as menores de todas as penas. A dama pode desculpar a si mesma por irritar-se com uma pétala de rosa amassada refletindo sobre a extraordinária dignidade com que ela usaria a coroa de espinhos – se fosse preciso. O cavalheiro pode permitir-se maldizer o jantar e imaginar que se portaria muito melhor se fosse mera questão de passar fome. Não é preciso negar que o gafanhoto no ombro de um homem é um fardo; mas não precisamos respeitar excessivamente o cavalheiro que está sempre dizendo que preferiria carregar um elefante quando sabe que não há elefantes no país. Podemos admitir que uma palha pode quebrar as costas de um camelo, mas gostamos de saber que é realmente a última palha e não a primeira. Admito que aqueles que sofrem grandes males têm um direito real de queixar-se, desde que se queixem sobre outra coisa. É um fato singular que, se são pessoas sãs, quase sempre queixam-se mesmo sobre outras coisas. Falar de forma racional sobre os próprios problemas reais é a forma mais rápida de

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O vento e as árvores

chesterton

ESTOU SENTADO sob árvores altas, com uma forte ventania varrendo suas copas como se fossem ondas, de tal forma que seu carregamento vivo de folhas balança e ruge com algo que é ao mesmo tempo exultação e agonia. Sinto-me, de fato, como se estivesse realmente sentado no fundo do mar entre meras âncoras e cordas, enquanto sobre a minha cabeça e a penumbra verde da água soassem o eterno fragor das ondas e as dificuldades e colisões e naufrágios de navios tremendos. O vento puxa as árvores como se pudesse arrancá-las da terra com raiz e tudo feito fossem tufos de grama. Ou, para tentar usar ainda outra desesperada figura de linguagem para essa energia indescritível, as árvores estão repuxando e rasgando e açoitando o ar como se fossem uma tribo de dragões amarrados pelas caudas. Enquanto olho estes gigantes cabeçudos torturados por um violento e invisível feitiço, uma frase volta à minha mente. Lembro-me de um menininho meu conhecido que estava uma vez andando em Battersea Park sob um céu tão tormentoso e árvores tão agitadas quanto hoje. Ele não gostava nem um pouco do vento: soprava demais em sua face, fazia-o fechar os olhos e arrancava seu chapéu, do qual tinha muito orgulho. Tinha, se me lembro bem, quatro anos. Após reclamar repetidamente da instabilidade atmosférica, disse enfim para sua mãe: “Bem, por que você não manda as árvores embora e faz parar de ventar?” Nada poderia ser mais inteligente ou natural que esse engano. Qualquer um que olhasse as árvores pela primeira vez poderia imaginar que eram na verdade vastos e titânicos leques, que por seu simples balanço agitavam o ar por milhas ao seu redor. Nada, penso eu, poderia ser mais humano e desculpável do que a crença de que são as árvores que causam o vento. Com efeito, é tão humana e desculpável que é, na prática, a crença de aproximadamente noventa e nove de cada cem filósofos, reformadores, sociólogos e políticos da grande época em que vivemos. Meu pequeno amigo era, de fato, muito semelhante aos principais pensadores modernos; só que muito mais simpático.

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O país de pernas para o ar

chesterton

SEMANA PASSADA, em uma metáfora despretensiosa, tomei o balanço das árvores e a secreta energia do vento como um típico exemplo do mundo visível movendo-se sob a violência do invisível. Usei essa metáfora simplesmente porque estava escrevendo o artigo num bosque. Porém, agora que retornei a Fleet Street (que me parece, confesso, muito melhor e mais poética do que todas as florestas selvagens do mundo), sou estranhamente perseguido por essa comparação acidental. Os vultos das pessoas parecem uma floresta, e suas almas o vento. Todas as personalidades humanas que me falam ou fazem sinais parecem ter essa característica fantástica da orla da floresta contra o céu. Aquele homem que fala comigo: que é senão uma árvore articulada? Aquele motorista de caminhão que gesticula selvagemente para que eu saia do caminho: que é senão um feixe de galhos agitados por um vento espiritual, um objeto silvestre que posso continuar a contemplar com calma? Aquele policial que ergue a mão para avisar três ônibus do perigo que correm de encontrar-se com minha pessoa: que é senão um arbusto sacudido por um momento por aquela rajada de lei humana que é algo mais forte do que a anarquia? Gradualmente, essa impressão de floresta se esvai. Mas o absoluto contraste entre o visível e o invisível, essa profunda sensação de que a única crença essencial é a crença no invisível como contrário do visível, súbita e sensacionalmente é trazida de volta a minha mente. Exatamente no momento em que Fleet Street se torna mais familiar (isto é, mais desconcertante e esplendorosa), meus olhos caem sobre um cartaz de vívido violeta, em que posso ver escritas em grandes letras pretas estas palavras extraordinárias: “Balconistas de Lojas Deveriam Casar-se?” Quando vi aquelas palavras o mundo todo poderia ter virado de cabeça para baixo. Os homens em Fleet Street poderiam estar andando com as mãos. A cruz de St. Paul poderia estar pendurada no ar de cabeça para baixo. Pois percebo que realmente entrei em um país dos avessos; entrei no país em que os homens definitivamente acreditam que o balanço das árvores é o que provoca o

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A vaca, o burro e nós

BurroVaca

Quem não compreende o mistério do Natal, não compreende o elemento decisivo do Cristianismo. Quem não aceitou isto não pode entrar no Reino do Céu – e foi isso que São Francisco de Assis quis recordar novamente aos cristãos do seu tempo, e das sucessivas gerações.

Francisco ordenou que a vaca e o burro deviam estar presentes no presépio na gruta de Greccio na noite de Natal. Disse ao nobre João: “Desejo em toda a realidade acordar a lembrança da criança tal como nasceu em Belém e todas as dificuldades que teve de suportar na sua infância. Desejo ver com os seus olhos corporais o que significou ter de repousar numa manjedoura e dormir na palha, entre uma vaca e um burro.”

A partir de então a vaca e o burro tiveram o seu lugar em todos os presépios – mas de onde vêm na realidade? É bem sabido que não são mencionados nas narrativas de Natal do Novo Testamento. Quando investigamos esta questão descobrimos um factor importante em todas as tradições associadas ao Natal e, na verdade, em toda a piedade do Natal e da Páscoa na Igreja, tanto na liturgia como nas devoções populares.

A vaca e o burro não são simplesmente produtos piedosos da imaginação: a fé da Igreja na unidade do Antigo e Novo Testamento deu-lhes um papel no acompanhamento do evento do Natal. Lemos em Isaías: “O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende” (1,3). Os padres da Igreja viram nestas palavras uma profecia que apontava para o novo povo de Deus, a Igreja composta tanto por judeus como por gentios.

Diante de Deus todos os homens, Judeus e Gentios, eram como a vaca e o burro, sem razão nem conhecimento. Mas a criança no presépio abriu-lhes os olhos e agora reconhecem a voz do seu Mestre, a voz do seu Senhor. É notável como nas imagens medievais da Natividade os artistas dão aos dois animais faces quase humanas e como eles se colocam diante do mistério da criança e baixam as cabeças em atenção e reverência.

Mas isto era, na verdade, uma questão de lógica uma vez que os dois animais eram considerados símbolos proféticos para o mistério da Igreja – o nosso próprio mistério, uma vez que não passamos de vacas e burros diante do Deus Eterno, vacas e burros cujos olhos se abrem na noite de Natal, para que possam reconhecer o seu Senhor no presépio. Quem o reconheceu e quem não o reconheceu? Mas será que o reconhecemos mesmo?

Quando colocamos uma vaca e um burro junto ao presépio devemos lembrar-nos da passagem inteira de Isaías, que é não apenas a boa nova – no sentido de uma promessa de um conhecimento futuro – mas também o juízo pronunciado sobre a cegueira contemporânea. A vaca e o burro têm conhecimento, “mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende”.

Quem são a vaca e o burro hoje, e quem são “o meu povo” que não compreende? Como podemos reconhecer a vaca e o burro? Como podemos reconhecer “o meu povo”? E porque é que o irracional reconhece, enquanto a razão é cega?

Para descobrirmos a resposta devemos regressar com os Padres da Igreja ao primeiro Natal. Quem o reconhece? E quem não o reconhece? E porquê? Leia mais deste post

A necessidade da Graça II – Sem a graça pode o homem querer e fazer o bem?

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Parece que o homem pode querer e fazer o bem sem a graça:

1. Com efeito, está no poder do homem aquilo sobre o quê ele é senhor. Ora, como foi dito acima (I-II, q.1, a.1 e q.13, a.6), o homem é senhor de seus atos e principalmente do ato do querer. Logo, o homem pode querer e fazer o bem por si mesmo, sem o auxílio da graça.

2. Além disso, cada um tem mais poder sobre aquilo que é conforme à sua natureza do que sobre aquilo que é estranho a essa natureza. Ora, o pecado, como disse Damasceno, é contrário à natureza, e o ato da virtude, como foi dito, está de acordo com a natureza humana. Logo, o ser humano por si mesmo pode pecar, e com maior razão pode querer e fazer o bem por si mesmo.

3. Ademais, o bem do intelecto é o verdadeiro, disse o Filósofo. Ora, o intelecto pode conhecer o verdadeiro por si mesmo, uma vez que toda coisa pode realizar por si mesma a operação natural. Logo, com maior razão pode o homem querer e fazer por si mesmo o bem.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, como disse o Apóstolo: “Não pertence àquele que quer, o querer, nem ao que corre, o correr, mas a Deus que é misericordioso” (Rm 9, 16). E Agostinho diz que “sem a graça ninguém pode absolutamente fazer o bem: seja pensando, querendo, amando, ou agindo.

tomas_respondoA natureza humana pode ser considerada em dois aspectos diferentes: em sua integridade, tal como existiu em nosso primeiro pai antes do pecado; ou no estado de corrupção no qual estamos depois do pecado original. Nos dois estados, ela tem necessidade para fazer e querer o bem, de qualquer ordem que seja, do auxílio divino, considerado como primeiro movente, como foi dito. No estado de integridade, com respeito à capacidade da potência operativa, o homem podia, com suas forças naturais, querer e fazer o bem proporcionado à sua natureza, como é o bem da virtude adquirida, mas não um bem que a  ultrapassa, como é o bem da virtude infusa. No estado de corrupção, o homem falha naquilo que lhe é possível pela sua natureza, a tal ponto que ele não pode mais por suas forças naturais realizar totalmente o bem proporcionado à sua natureza. Entretanto, o pecado não corrompeu totalmente a natureza humana a ponto de privá-la de todo bem que lhe é natural. Assim, mesmo neste estado de corrupção o homem pode ainda fazer, por sua potência natural, algum bem particular, como construir casas, plantar vinhas, e outros trabalhos do mesmo gênero. Mas ele não é capaz de realizar em sua totalidade o bem que lhe é conatural, sem alguma falha. Ele parece um enfermo que pode ainda executar sozinho alguns movimentos, mas não pode mover-se perfeitamente como alguém em boa saúde, enquanto não obtiver a cura com a ajuda da medicina. Leia mais deste post

A necessidade da Graça I – Sem a graça pode o homem conhecer alguma verdade?

El_Greco_Pentecostes

 El Greco, Pentecostes

Parece que sem a graça o homem não pode conhecer verdade alguma:

1. Porque, sobre o texto da primeira Carta aos Coríntios: “Ninguém pode dizer Senhor Jesus, senão no Espírito Santo” (12, 3), diz a Glosa Ambrosiana: “Toda verdade, seja dita por quem for, vem do Espírito Santo”. Ora, o Espírito Santo habita em nós pela graça. Logo, sem a graça não podemos conhecer a verdade.

2. Além disso, Agostinho diz: “As mais certas doutrinas são como coisas que o sol ilumina para que possam ser vistas. Deus é que ilumina. A razão está para o  espírito como a vista para os olhos. E os olhos do espírito são os sentidos da alma”. Ora, os sentidos corporais, por mais puros que sejam, não podem ver um objeto se não estiverem iluminados pelo sol. Logo, a mente humana, seja qual for sua perfeição, não pode chegar por seu raciocínio à verdade sem a iluminação divina. Esta pertence ao auxílio da graça.

3. Ademais, a mente humana não pode entender a verdade a não ser raciocinando, como diz Agostinho. Ora, o Apóstolo diz: “Não somos capazes de pensar alguma coisa que , de fato, venha de nós” (2 Cor 3, 5). Logo, o homem não pode conhecer a verdade por si mesmo sem o auxílio da graça.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, Agostinho diz: “Não aprovo o que disse nesta oração: Ó Deus, quisestes que a verdade fosse conhecida somente pelos puros. Pode-se, entretanto, responder que muitos impuros conhecem muitas verdades”. Ora, é pela graça que o homem se torna puro, segundo o Salmo: “Um coração puro cria em mim, ó Deus; e um espírito reto renova em minhas entranhas” (50, 2). Logo, sem o auxílio da graça o homem não pode por si mesmo conhecer a verdade.

tomas_respondo Conhecer a verdade é o exercício ou o ato da luz intelectual, porque segundo o Apóstolo: “Tudo o que se torna manifesto é luz” (Ef 5, 13). O exercício implica em movimento: tomando movimento num sentido amplo, de tal modo que o entender e o querer podem ser ditos um movimento, como o Filósofo deixa claro. Vemos nos corpos que o movimento não exige apenas sua forma que é o princípio do movimento ou da ação; mas também requer-se a moção do primeiro movente. O primeiro movente na ordem dos corpos é o corpo celeste. Assim, mesmo que o fogo tivesse o calor perfeito, não queimaria sem a moção do corpo celeste. Fica claro, do mesmo modo, que os movimentos dos corpos dependem do movimento do corpo celeste, considerado como primeiro movente corporal. Assim todos os movimentos, corporais ou espirituais, dependem do primeiro movente absoluto que é Deus. É por isso que, seja qual for a perfeição de uma natureza corporal ou espiritual, não poderá chegar a produzir o seu ato se não for movido por Deus. Esta moção é conforme à razão de sua providência e não à necessidade da natureza, como é a moção do corpo celeste. Além disso, não é apenas a moção que vem de Deus, considerado como primeiro movente, mas também vem dele, como do ato primeiro, toda perfeição formal. Assim, a ação do intelecto e de qualquer ente criado depende de Deus, de duas maneiras: primeiro, enquanto d’Ele recebe a forma pela qual age; depois, enquanto é movido por Ele para agir.
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Sínodo da Amazônia: Igreja opressora dos índios???

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OBSERVAÇÕES E SUBSÍDIOS SOBRE O SÍNODO DA AMAZÔNIA

[EXTRATO]

Dr. Guzmán M. Carriquiry Lecour

Uma amnésia histórica

É evidente que não se pode pedir ao documento preparatório do Sínodo Pan-
Amazônico uma história da evangelização da Amazônia, porém o breve capítulo

dedicado à “memória histórica eclesial” é muito insuficiente. Não é verdade o que
afirma quando se escreve que “até o século XX, as vozes em defesa dos povos
indígenas eram frágeis, ainda que não ausentes”, fortalecendo-se somente depois do
Concílio Vaticano II.
A Igreja não tem nenhuma dificuldade em confessar seu “mea culpa” ante os
comprometimentos que ofuscaram a evangelização da América Latina com a
conquista e colonização do Novo Mundo e a opressão e exploração dos povos
indígenas. No entanto, ninguém pode negar, por respeito à verdade histórica, que
desde a primeiríssima colonização do Novo Mundo foi uma legião de missionários
quem empreendeu a primeira grande batalha profética pela justiça em defesa e
proteção dos indígenas. A cruz se tornou uma autocrítica radical da espada. Os
próprios bispos exibiam como lema: “defensores dos índios”. Houve mártires,
violências sofridas, todo tipo de atentados e controvérsias provocadas pelos
“encomenderos”, colonos e bandeirantes. Não houve até hoje na história da Igreja na
América Latina um combate evangélico e profético de tal magnitude como o dos
primeiros tempos fundadores.
No século XVII a Igreja começou a penetrar na Amazônia. E no dia 22 de abril de
1639, aniversário do descobrimento do Brasil, o Papa Urbano VIII promulgou um
Breve, Commissum Nobis, proibindo, sob pena de excomunhão, “aprisionar […] os
índios, vendê-los, comprá-los, separá-los de suas mulheres e filhos, privá-los de
qualquer modo da liberdade, retê-los na servidão […]”. Este Breve papal –que está em
perfeita continuidade com a bula Sublimis Deus do papa Paulo III em 1537, que foi a
primeira e muito dura condenação papal da escravidão dos índios e afirmação do
respeito devido à sua dignidade e a seus bens, provocou revoltas lideradas pelas
Câmaras Municipais em São Paulo, Santos e Rio de Janeiro.
A partir de 1600 a presença da Igreja na Amazônia, evangelizando e defendendo
os índios, foi fundamental. Numerosas aldeias e missões religiosas, principalmente por
obra dos jesuítas, surgiram na Amazônia. Destacam-se a respeito as fundações de
Cametá na foz do Tocantins; Airão, Carvoeiro, Moura e Barcelos no Rio Negro;
Santarém na foz do Tapajós; Faro no rio Nhamundá; Borba no rio Madeira; Tefé, São
Paulo de Olivença e Coari no Solimões; e no Amazonas, Itacoatiara e Silves.
Como pode-se dizer que eram vozes “frágeis” as da Companhia de Jesus e sua
cadeia de “reduções” indígenas, desde o Alto Uruguai e Paraná, em combate
permanente contra os bandeirantes, escravistas de índios, às de Moxos e Chiquitos na
floresta boliviana e às do oriente peruano e equatoriano, até os “llanos orientales” da
Colômbia (prefigurando o que seria a rodovia da floresta)?

Depois caberia agregar todo o trabalho de penetração da Amazônia dos
Salesianos a partir do oriente peruano e equatoriano, criando escolas de arte e ofícios
para os indígenas, assim como de outras congregações religiosas.
Os informes e escritos de Mons. Giovanni Genocchi, enviado como visitador
apostólico à América Latina (1911-1913) e que visitou as terras amazônicas, são de
uma dureza impressionante quando denunciam em repetidas ocasiões a escravidão
que de fato sofrem os indígenas sob a caça dos seringueiros durante o «boom» da
produção de borracha, assim como as dificuldades e adversidades que sofrem os
responsáveis pelas primeiras prefeituras apostólicas e missões nas regiões
amazônicas dependentes de “Propaganda Fidei”, cuja proteção dos indígenas é vista
pelos colonos como “fumo negli occhi”. Este grave estado de coisas seria retomado e
condenado com muita força por Pio X na Encíclica missionária dirigida à América
Latina: Lacrimabili statu Indorum, ponto de referência para os sucessivos pontificados,
se se tem em conta as frequentes citações desse documento nas instruções
comunicadas aos Representantes Pontifícios na América Latina. Este documento
denunciava os abusos e violências que se cometiam contra os indígenas e apontava o
dever de defender sua vida, liberdade e propriedade, através do desenvolvimento das
missões católicas e da evangelização, junto a todas as iniciativas idôneas para a
promoção humana dos indígenas.
É certo que depois no Concílio Vaticano II e sobretudo no caminho sinodal de
Medellín a Aparecida despertou-se com novas luzes e vigor profético essa tradição de
defesa e custódia dos indígenas, que nas décadas imediatamente anteriores parecia
apagada (mas, por favor, que não se defina o documento de Puebla como o
documento da “participação e comunidades de base”, pois ele teve uma abrangência
muito maior e rica!).
Fazer memória verdadeira da presença e missão da Igreja na Amazônia durante
os últimos séculos é muito importante para aprender da história os acertos e os erros
da missão e para deixar-se contagiar pela doação total – inclusive até ao martírio – de
muitos irmãos e irmãs nossos que deram suas vidas por Cristo e por amor aos
amazônicos.

Para além da “leyenda negra”

Recuperar uma correta memória eclesial sobre a Amazônia não é necessário
somente por respeito à verdade histórica e como homenagem de gratidão aos que,
em meio a grandes dificuldades e sacrifícios, nos precederam na tarefa
evangelizadora, mas também para saber contrariar os lugares comuns da “leyenda
negra” que, às vezes, correm o risco de ser repetidos inocentemente por agentes
pastorais desprevenidos. Há acaso quem pense que todo o realizado pela missão da
Igreja na Amazônia desde o século XVII é irrelevante e inclusive prejudicial e
descartável?
Como é notório, as potências emergentes nos séculos XVII e XVIII –França,
Holanda, Inglaterra– não só tenderam a substituir-se no domínio mundial a uma
Espanha decadente, com a força econômica e militar, mas também se propuseram
derrotá-la carregando-a ideologicamente com todas as ignomínias. Uma propaganda
difusa por toda parte apresentou a colonização espanhola como o concentrado de
violências, crueldades e barbáries alheias aos “países civilizados”. Foi uma agressão
ideológica muito grosseira sem um verdadeiro discernimento sobre as luzes e sombras
da expansão hispânica no Novo Mundo. Leia mais deste post

Mário? Qual Mário?

Calma lá! Antes de responder, vejamos este comentário de Olavo de Carvalho:

Não tenho a menor dúvida de que, quando passar a atual fase de degradação intelectual e moral do país e for possível pensar numa reconstrução, essa obra, mais que qualquer outra, deve tornar-se o alicerce de uma nova cultura brasileira. A obra, em si, não precisa disso: ela sobreviverá muito bem quando a mera recordação da existência de algo chamado “Brasil” tiver desaparecido. O que está em jogo não é o futuro de Mário Ferreira dos Santos: é o futuro de um país que a ele não deu nada, nem mesmo um reconhecimento da boca para fora, mas ao qual ele pode dar uma nova vida no espírito.

Agora vamos conhecer o tal Mário.

Fonte: Papo de Homem

MarioFerreiraDosSantos

Filósofo brasileiro, nasceu em Tietê, São Paulo, em 1907.

Na primeira vez que ouvi esse nome, eu pensei comigo mesmo: “Mais um brasileiro”. Ignorante, permeado pelo vitimismo típico de brasileiro, imaginava que filósofos eram só estrangeiros.

Curioso como sou, não resisti e decidi investigar a respeito, ao ler sobre a vida deste autor fiquei assustado. Não no aspecto negativo, mas no positivo, do tipo de susto que resulta em admiração. Dividirei com vocês as minhas impressões.

Antes do perfil, porém, uma pequena história.

Como fortalecer o inimigo antes de meter porrada

Mário Ferreira dos Santos demoliu com maestria vários modismos intelectuais da época, com destaque ao vexame imposto a Caio Prado Júnior, um intelectual comunista muito prestigiado. Na ocasião, foi convidado para um debate, onde estariam figuras conhecidas como Luis Carlos Prestes. Após Caio Prado terminar sua apresentação, Mário se levantou e disse mais ou menos o seguinte:

“Me desculpe, mas creio que o comunismo tem elementos mais fortes que esses que expôs. Vou refazer sua exposição e assim depois farei a minha. Aqui está presente o secretário do partido comunista, e ele poderá averiguar se errarei em algo.”

Mário então refez a exposição de Caio de tal modo que alguns de seus amigos presentes, espantados, colocavam a mão na cabeça dizendo: “Meu Deus! O professor virou comunista!”. Depois que terminou a apresentação, Mário começou a sua própria exposição e refutou a si mesmo.

Tais demonstrações de força intelectual não eram raras na vida do filósofo.

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Mário Ferreira dos Santos e as cinco vias de Santo Tomás de Aquino

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Esta é, sem dúvida, a melhor explicação das cinco vias de Santo Tomás de Aquino que já li. Boa leitura!

 

Artigo tirado do site “Contra os Acadêmicos

As Cinco Vias de Tomás de Aquino explicada por Mário Ferreira dos Santos: uma apreciação definitiva.

 

Retirado do livro “O Homem Perante o Infinito”.

DAS PROVAS A POSTERIORI — AS CINCO “VIAS” DE TOMÁS DE AQUINO

Os argumentos a posteriori da existência de Deus — os que partem de fatos da experiência e não apenas de noções, e que se apoiam no princípio de razão suficiente — são clas­sificados em:

  1. a) Provas cosmológicas;
  2. b) Provas psicológicas;
  3. c) Provas morais.

As provas cosmológicas fundam-se nos fatos de experiên­cia externa, por meio da qual conhecemos o mundo exterior, É sobre tais fatos que Tomás de Aquino construiu suas pro­vas, através de cinco vias.

Como se trata aqui de matéria que merece uma exposição cuidadosa e a mais fundada nos textos, reproduzimos a seguir os comentários prévios apresentados por Muniz a tais provas.

“Toda via para demonstrar a existência de Deus constará de um ponto de partida, do ímpeto nas coisas criadas; de um recorrido ou ponto, que não pode ser outro que a causalidade extrínseca, e de um termo de chegada, que é a causa, Deus.

O ponto de partida é sempre um efeito sensível, manifesto, um fato de experiência certo: a existência do movimento, a subordinação de causas eficientes, a contingência dos seres sen­síveis, a gradação de perfeiçoes transcendentais, e a ordenação a um fim. Como destes fatos de experiência pode a razão elevar-se a Deus?

O primeiro passo que tem que dar a razão é demonstrar que tais fatos entranham a condição de efeitos: que são cau­sados; por exemplo, o que se move é movido por outro; uma causa subordinada é movida por outra superior; o ser contin­gente é causado por um ser necessário; uma perfeição parti­cipada em distintos graus é causada pela mesma existente em máximo grau; um ser cognoscitivo, que opera por fim, é cau­sado, movido e dirigido por uma inteligência. Bem assegurado este caráter de efeito, a razão, em vir­tude do princípio de causalidade, passa a demonstrar a exis­tência da causa.

Um segundo passo, comum a todas as vias, é que, numa subordinação per se de causas, não se pode proceder ao infi­nito, mas que é absolutamente necessário chegar a uma pri­meira causa, da qual dependem todas as outras.

Logo, tem de existir um primeiro motor que tudo move, uma primeira causa que põe em actividade todas as outras; um ser necessário, que é a causa de todos os seres necessários e contingentes; um primeiro ser, que é fonte e origem do ser em quantas coisas existem; e uma primeira inteligência, que dirige todas as coisas a seus respectivos fins.

Esta última causa é Deus.

Por conseguinte, todas as vias de Tomás de Aquino terão, pelo menos:

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Gigante com Pés de Barro

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Quando Marx e Engels lançaram seu “Manifesto Comunista”, no Ano da Graça de 1.848, havia nele algo que parece ter chamado pouco a atenção do, digamos, “militante comum”, mas que, bem captado pelos líderes e pensadores do movimento, tornou-se uma verdadeira bomba destinada a remodelar toda a sociedade ocidental no século e meio seguinte, ainda que o modelo de comunismo lá proposto viesse a se revelar uma espantosa sucessão de fracassos e de tragédias. Falo, aqui, do ódio (a palavra não é um exagero) de ambos à família tradicional. Eles o dizem abertamente e com um certo ar de arrogância: seu desejo é o de destruir a família “burguesa”, vista como célula de exploração da mulher e dos filhos pelo homem. Para os que não o creem, abro aqui um espaço para que eles mesmos o digam:

A supressão da família! Mesmo os mais radicais exaltam-se com esse infame desígnio…

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Santo Tomás de Aquino, por Chesterton

Artigo de G. K. Chesterton, publicado originalmente na revista The Spectator, em 27 de fevereiro de 1932, antes do autor lançar seu livro sobre Santo Tomás de Aquino.

Tradução: Rafael Carneiro Rocha

A dificuldade de falar sobre Santo Tomás de Aquino neste breve artigo é selecionar qual aspecto de sua mente multifacetada seria melhor para sugerir a dimensão ou a escala dela. Por causa do seu corpo opulento que carregava seu igualmente maciço cérebro, ele era chamado de “O boi”. É assim: qualquer tentativa de reduzir tamanha inteligência para um artigo de tablóide se parece com todas as piadas possíveis sobre um boi numa xícara de chá. Ele foi um dos dois ou três gigantes; um dos dois ou três maiores homens que já viveram; e eu não ficaria surpreso se ele realmente fosse, independentemente da santidade, o maior deles. Outra maneira de considerar Santo Tomás de Aquino com outros gigantes é assumir que a proporção varia de acordo com o que os outros homens são comparáveis ou não a ele. Não teremos uma escala de grandiosidade até constatar que poucas criaturas históricas poderiam rivalizar com o santo.

Assim, para começar, poderemos situá-lo no contexto da vida ordinária de seu tempo e narrar suas aventuras no meio dos contemporâneos dele. Sozinho, ele lançou uma luz sobre a história, a despeito da luz que lançara sobre a filosofia. Nascido em berço de ouro, não muito distante de Nápoles, quando este filho de um grande nobre de Aquino revelou seu desejo de se tornar monge, pareceria, de acordo com aquela época, que tudo seria facilitado para ele. Uma figura influente poderia ser admirada, com decoro, na hoje antiga rotina dos beneditinos; como o filho mais novo de um escudeiro teria se tornado um pároco daquelas redondezas. Mas o mundo de então havia sido pisoteado em todos os seus caminhos por uma revolução religiosa. Quando o jovem Tomás insistiu em se tornar um dominicano – um frade vagante e pedinte – seus irmãos se utilizaram de táticas como perseguição, sequestro e silêncio no cárcere. Era como se o filho de um latifundiário se tornasse um cigano ou um comunista. Contudo, ele conseguiu se tornar frade e o discípulo preferido do grande Santo Alberto Magno (1). Em seguida, se estabeleceu em Paris, onde foi um proeminente defensor das ordens mendicantes (2) que surgiam em Sorbonne e onde quer que fosse. Adiante, ele se encontrou no cerne da controvérsia sobre Averróis (3) e Aristóteles, que refletiu na reconciliação entre a fé cristã e a filosofia pagã. Mesmo em sua vida social, as preocupações de espírito lhe ocupavam muito. Homem grande, corpulento, manso e bem-humorado, às vezes era dado a transes. Durante um jantar com São Luís (4), o rei francês, Santo Tomás ensimesmou-se de tal forma que, subitamente, bateu na mesa com o punho e bradou: “Isto vai liquidar os maniqueus!” O rei, com a fineza irônica e inocente, pediu para um serviçal anotar o raciocínio de Santo Tomás, para que as palavras não fossem esquecidas.

Então, ele poderia ser comparado com santos e teólogos mais místicos do que dogmáticos. Como homem sensato, Santo Tomás era místico privadamente e, em público, um filósofo. Tudo bem que ele tinha “experiência religiosa”; mas ele não pedia, à maneira moderna, que outras pessoas racionalizassem sua Leia mais deste post

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