A necessidade da Graça II – Sem a graça pode o homem querer e fazer o bem?

El_Greco_Pentecostes

Parece que o homem pode querer e fazer o bem sem a graça:

1. Com efeito, está no poder do homem aquilo sobre o quê ele é senhor. Ora, como foi dito acima (I-II, q.1, a.1 e q.13, a.6), o homem é senhor de seus atos e principalmente do ato do querer. Logo, o homem pode querer e fazer o bem por si mesmo, sem o auxílio da graça.

2. Além disso, cada um tem mais poder sobre aquilo que é conforme à sua natureza do que sobre aquilo que é estranho a essa natureza. Ora, o pecado, como disse Damasceno, é contrário à natureza, e o ato da virtude, como foi dito, está de acordo com a natureza humana. Logo, o ser humano por si mesmo pode pecar, e com maior razão pode querer e fazer o bem por si mesmo.

3. Ademais, o bem do intelecto é o verdadeiro, disse o Filósofo. Ora, o intelecto pode conhecer o verdadeiro por si mesmo, uma vez que toda coisa pode realizar por si mesma a operação natural. Logo, com maior razão pode o homem querer e fazer por si mesmo o bem.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, como disse o Apóstolo: “Não pertence àquele que quer, o querer, nem ao que corre, o correr, mas a Deus que é misericordioso” (Rm 9, 16). E Agostinho diz que “sem a graça ninguém pode absolutamente fazer o bem: seja pensando, querendo, amando, ou agindo.

tomas_respondoA natureza humana pode ser considerada em dois aspectos diferentes: em sua integridade, tal como existiu em nosso primeiro pai antes do pecado; ou no estado de corrupção no qual estamos depois do pecado original. Nos dois estados, ela tem necessidade para fazer e querer o bem, de qualquer ordem que seja, do auxílio divino, considerado como primeiro movente, como foi dito. No estado de integridade, com respeito à capacidade da potência operativa, o homem podia, com suas forças naturais, querer e fazer o bem proporcionado à sua natureza, como é o bem da virtude adquirida, mas não um bem que a  ultrapassa, como é o bem da virtude infusa. No estado de corrupção, o homem falha naquilo que lhe é possível pela sua natureza, a tal ponto que ele não pode mais por suas forças naturais realizar totalmente o bem proporcionado à sua natureza. Entretanto, o pecado não corrompeu totalmente a natureza humana a ponto de privá-la de todo bem que lhe é natural. Assim, mesmo neste estado de corrupção o homem pode ainda fazer, por sua potência natural, algum bem particular, como construir casas, plantar vinhas, e outros trabalhos do mesmo gênero. Mas ele não é capaz de realizar em sua totalidade o bem que lhe é conatural, sem alguma falha. Ele parece um enfermo que pode ainda executar sozinho alguns movimentos, mas não pode mover-se perfeitamente como alguém em boa saúde, enquanto não obtiver a cura com a ajuda da medicina. Leia mais deste post

A necessidade da Graça I – Sem a graça pode o homem conhecer alguma verdade?

El_Greco_Pentecostes

 El Greco, Pentecostes

Parece que sem a graça o homem não pode conhecer verdade alguma:

1. Porque, sobre o texto da primeira Carta aos Coríntios: “Ninguém pode dizer Senhor Jesus, senão no Espírito Santo” (12, 3), diz a Glosa Ambrosiana: “Toda verdade, seja dita por quem for, vem do Espírito Santo”. Ora, o Espírito Santo habita em nós pela graça. Logo, sem a graça não podemos conhecer a verdade.

2. Além disso, Agostinho diz: “As mais certas doutrinas são como coisas que o sol ilumina para que possam ser vistas. Deus é que ilumina. A razão está para o  espírito como a vista para os olhos. E os olhos do espírito são os sentidos da alma”. Ora, os sentidos corporais, por mais puros que sejam, não podem ver um objeto se não estiverem iluminados pelo sol. Logo, a mente humana, seja qual for sua perfeição, não pode chegar por seu raciocínio à verdade sem a iluminação divina. Esta pertence ao auxílio da graça.

3. Ademais, a mente humana não pode entender a verdade a não ser raciocinando, como diz Agostinho. Ora, o Apóstolo diz: “Não somos capazes de pensar alguma coisa que , de fato, venha de nós” (2 Cor 3, 5). Logo, o homem não pode conhecer a verdade por si mesmo sem o auxílio da graça.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, Agostinho diz: “Não aprovo o que disse nesta oração: Ó Deus, quisestes que a verdade fosse conhecida somente pelos puros. Pode-se, entretanto, responder que muitos impuros conhecem muitas verdades”. Ora, é pela graça que o homem se torna puro, segundo o Salmo: “Um coração puro cria em mim, ó Deus; e um espírito reto renova em minhas entranhas” (50, 2). Logo, sem o auxílio da graça o homem não pode por si mesmo conhecer a verdade.

tomas_respondo Conhecer a verdade é o exercício ou o ato da luz intelectual, porque segundo o Apóstolo: “Tudo o que se torna manifesto é luz” (Ef 5, 13). O exercício implica em movimento: tomando movimento num sentido amplo, de tal modo que o entender e o querer podem ser ditos um movimento, como o Filósofo deixa claro. Vemos nos corpos que o movimento não exige apenas sua forma que é o princípio do movimento ou da ação; mas também requer-se a moção do primeiro movente. O primeiro movente na ordem dos corpos é o corpo celeste. Assim, mesmo que o fogo tivesse o calor perfeito, não queimaria sem a moção do corpo celeste. Fica claro, do mesmo modo, que os movimentos dos corpos dependem do movimento do corpo celeste, considerado como primeiro movente corporal. Assim todos os movimentos, corporais ou espirituais, dependem do primeiro movente absoluto que é Deus. É por isso que, seja qual for a perfeição de uma natureza corporal ou espiritual, não poderá chegar a produzir o seu ato se não for movido por Deus. Esta moção é conforme à razão de sua providência e não à necessidade da natureza, como é a moção do corpo celeste. Além disso, não é apenas a moção que vem de Deus, considerado como primeiro movente, mas também vem dele, como do ato primeiro, toda perfeição formal. Assim, a ação do intelecto e de qualquer ente criado depende de Deus, de duas maneiras: primeiro, enquanto d’Ele recebe a forma pela qual age; depois, enquanto é movido por Ele para agir.
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Doutrina Católica: A graça (IV)

Indiculus (séc. V)

Do pecado original e do livre-arbítrio

Cap. 1. Na desobediência de Adão todos os homens perderam o poder natural [naturalem possibilitatem] e a inocência, e ninguém teria podido, pelo livre-arbítrio, erguer-se do abismo daquela ruína, se a graça do Deus misericordioso não o levantasse, como o declara e diz o Papa Inocência, de feliz memória, na carta ao Concílio de Cartago: “Depois de outrora ter experimentado mal [perpessus] o livre-arbítrio, ao usar insensatamente seus próprios bens, ficou [o homem], ao cair, submerso nas profundezas de seu pecado, e nada achou por onde pudesse dali levantar-se; e, enganado para sempre por sua liberdade, teria ficado prostrado pela opressão desta ruína se mais tarde não o tivesse levantado, com Sua graça, a vinda de Cristo, que, por meio da purificação de um novo nascimento [novae regenerationis], lavou, com as águas do Batismo [sui Baptismatis lavacro], toda a mancha [vitium] passada”.

Da necessidade da graça

2. Ninguém é bom por si mesmo se não lhe der a participação de Si Aquele que é o único Bom [qui solus est bônus] (cf. Mt 19,17; Mc 10,18; Lc 18,19). Isto é declarado no trecho da mesma carta do mesmo Pontífice, que diz: “Acaso podemos, daqui para a frente, esperar algo de bom daqueles espíritos que pensam que seja por mérito próprio que são justos, sem levar em consideração Aquele de quem recebem diariamente a graça e que confiam poderem conseguir tão grande coisa sem Ele? (Inocêncio I, Epistola In requirendis)

3. Ninguém, nem mesmo depois de ter sido renovado pela graça do Batismo, é capaz de escapar das ciladas do demônio e dominar as concupiscências da carne, se não receber de Deus a ajuda diária da perseverança na boa conduta. Isso é confirmado pelo ensinamento do mesmo Leia mais deste post

Doutrina Católica: A graça (III)

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Indiculus (séc. V)

INTRODUÇÃO

Embora o pelagianismo, como tendência a negar o mundo sobrenatural e a graça, sobreviva ainda em muitos espíritos, como problema dogmático a questão foi definitivamente liquidada nos concílios africanos do séc. V, aprovados pela Igreja universal, de tal modo que o pelagianismo propriamente dito acabou no séc. V. Outra coisa é o que chamaríamos semipelagianismo. O termo é relativamente moderno e seria melhor falar de antiagostinismo, porque na prática foi uma reação excessiva contra algumas frases de Santo Agostinho sobre a economia da graça e sobre a relação entre a livre vontade do homem e a ação de Deus na ordem da salvação.

Santo Agostinho sempre defendeu a supremacia da graça ao sustentar quatro teses: 1. Todos os atos que conduzem à salvação são praticados com a ajuda da graça; 2. A salvação é um dom gratuito de Deus; 3. Deus quer a salvação de todos; 4. A liberdade humana permanece intacta, mesmo sob o influxo da graça. Quatro verdades que, já em vida de Santo Agostinho, parecia difícil conciliar.

A resistência mais obstinada veio dos monges do sul da França: contra Santo Agostinho levantaram-se em particular João Cassiano e São Vicente de Lérins, que escreveu o Commonitorium, provavelmente dirigido, em polêmica, ao santo Doutor. Enquanto a tese agostiniana era de que Deus predestinava gratuitamente a quem Ele quisesse, a objeção dos adversários era de que Leia mais deste post

Doutrina Católica: A graça (II)

O Pelagianismo e o XVI Concílio de Cartago

 
I. O PELAGIANISMO
 

O primeiro ataque perigoso ao dogma católico do pecado original proveio do pelagianismo, que deitava raízes bem mais profundas: na negação da ordem sobrenatural e, portanto, da graça. Segundo os pelagianos Adão foi criado nas mesmas condições em que agora se acha o homem, ou seja, mortal e com todas as qualidades inerentes à natureza humana, sem nenhuma elevação sobrenatural à adoção divina e à participação da vida do Criador. Pelo pecado se tornou merecedor de castigo, mas a culpa – afirmam os pelagianos – permanece circunscrita só a ele, Adão, e não a seus descendentes, a não ser pelo mau exemplo. Além disso, tanto Adão como os seus descendentes possuem uma vontade livre, absolutamente independente de Deus e dotada de poderes ilimitados, quer para o bem, quer para o mal. São dois, portanto, os pilares e linhas mestras desta heresia: um naturalismo que exclui a ordem sobrenatural e a independência da vontade humana com relação a Deus.

É claro que os pelagianos falam também da graça, mas para eles ela não passa de dons externos, como a Revelação, a lei, o exemplo de Cristo e sobretudo a liberdade, que é a capacidade de fazer o bem, que Pelágio chama graça por excelência.

 
 
XVI Concílio de Cartago (1.5.418)
 
Depois da denúncia de Santo Agostinho, foi trabalho deste concílio mostrar a inconsistência das teses pelagianas.

TEXTO: Msi 4, 327-329

3. Igualmente foi decisão [deste concílio] que quem disser que a graça de Deus, pela qual o homem recebe a justificação [iustificatur] por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo, só vale para a remissão dos pecados já cometidos, mas não como ajuda para não cometê-los – seja anátema**.

[NOTA: Aqui a graça é designada por gratia qua iustificatur homo; no cânon 5, por gratia iustificationis. Pelo contexto deve-se entender a graça como um auxílio sobrenatural de Deus, essencialmente diferente da natureza. Compreende, portanto, a graça santificante e a graça atual.]

 

Graça e conhecimento

4. Igualmente, quem disser que a graça de Deus por Jesus Cristo Nosso Senhor só nos ajuda a não pecar, porque por ela nos é revelado e manifestado o sentido dos preceitos [intellegentia mandatorum] para sabermos o que devemos desejar, o que evitar, mas que por ela não nos é dado amar também e fazer o que Leia mais deste post

Doutrina Católica: A graça (I)

INTRODUÇÃO

A lei da graça é como a atmosfera que dá oxigênio a toda a teologia católica; mais: o próprio conceito de teologia inclui o da graça, porque o cristianismo é uma religião revelada: não um produto da razão humana, mas um dom de Deus comunicado ao homem para lhe confidenciar Sua vontade misericordiosa. A teologia cristã, propriamente dita, nasce do estudo da Revelação, isto é, do debruçar-se sobre o que Deus revelou, de modo inteiramente gratuito, sobre Si mesmo, sobre o homem, sobre seu destino e do mundo. Sem esta mensagem vinda dos céus, e portanto sem a graça, é inconcebível a existência da teologia cristã, porque a Revelação, a que deve corresponder, da parte do homem, a humilde aceitação dos mistérios da Fé, é um conhecimento sobrenatural que eleva a humanidade a um novo modo de existir superior, intangível só por seus recursos naturais. É ainda a Revelação que nos diz o que Deus quis ser para nós e o que quis que fosse o homem para Ele: um amigo pessoal e próximo, que Se comunica no amor e na familiaridade recíproca, que Se dá ao homem numa doação absolutamente insuspeitada que penetra até o íntimo da natureza humana para elevá-lo às alturas inacessíveis em que habita a Trindade, onde então participará eternamente de uma vida semelhante à de Deus.

Esta antropologia cristã é ensinada pela Sagrada Escritura quando narra que o homem foi constituído na justiça original, mas que a perdeu pelo pecado. Sem a noção da graça é impossível compreender esta antropologia e os problemas que lhe são inerentes na dialética cristã do natural-sobrenatural, da natureza-graça, muito menos ainda se pode compreender o que seja o pecado como ruptura transcendental das relações de amizade com um Deus que Se tinha dado gratuitamente ao homem. O Deus que infunde a graça não é, porém, um ser abstrato, um motor imóvel: é o único Deus verdadeiro e pessoal: Pai, Filho e Espírito Santo. Donde se conclui que Leia mais deste post

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