[OFF] O niilismo (V): A transvaloração de todos os valores e a vontade de potência

Angelo Bronzino (1503-1572), A Loucura (detalhe), National Gallery, Londres

Nietzsche sabe muito bem que, mesmo depois da anulação completa de todos os ideais e valores considerados supremos no passado, a vida do mundo e do homem continuam. Mas é evidente que os valores são uma condição que, ao ser eliminada, torna a vida absurda.

Vejamos, em poucas palavras, quais são suas conclusões.

Os valores não se baseiam no ser e no verdadeiro, não constituem algo “em si e para si”, mas são pontos de vista, são meramente aquilo que, a partir de determinado ponto de vista, se impõe como condição de preservação e de progresso da vida.

O devir e a vida são “vontade de potência”, e os valores estão estreitamente ligados a tal “vontade de potência”, que se impõe como fonte de todos os valores “transvalorados”.

Escreve Nietzsche: “Os valores e sua variação estão relacionados com o aumento da potência de quem põe os valores; a medida de incredulidade, de uma reconhecida “liberdade do espírito” como expressão do aumento de potência; niilismo como ideal de suprema potência do espírito, de vida riquíssima: em parte destrutivo, em parte irônico”.

 A transvaloração dos valores proposta por Nietzsche comporta, pois, uma inversão dos antigos valores e um deslocamento destes da esfera da transcendência para a esfera da vontade de potência.

Contudo, essa expressão pode levar facilmente a equívocos: de fato, tem um significado muito mais complexo do que teria se se assumissem os significados que têm os termos “vontade” e “potência” na linguagem comum.

Como os mais conceituados intérpretes de nosso filósofo esclareceram, a “vontade” em sentido nietzschiano deve ser entendida como uma auto-imposição e uma ordem e, precisamente, como uma imposição para um aumento de si mesma.

Eis uma das passagens mais eloquentes: “Reabsorva-se novamente aquele que faz no fazer, depois de tê-lo extraído conceptualmente, esvaziando assim o fazer. Retome-se de novo no fazer o fazer alguma coisa, a ‘meta’, a ‘intenção’, o ‘fim’, depois de se ter extraído artificialmente do fazer a finalidade, esvaziando assim o fazer. Todos os ‘propósitos’, as ‘metas’, os ‘significados’ não passam de expressões e metamorfoses da única vontade que é inerente a cada acontecimento, a vontade de potência; ter objetivos, metas, intenções, querer em geral equivalem a um querer se tornar mais fortes, a um querer crescer, e, além disso, a querer também os meios; o instinto mais universal e elementar, em todo fazer e querer, permaneceu o mais desconhecido e escondido justamente porque, na prática, seguimos sempre sua ordem, porque somos esta ordem… Todos os juízos de valor são apenas conseqüências e perspectivas restritas a serviço dessa única vontade; o próprio julgar é apenas essa vontade de potência; uma crítica do ser com base em qualquer um desses valores é algo como um contra-senso e um equívoco; mesmo se tudo isso entrasse num processo de decadência, esse processo serviria ainda àquela vontade…”.

A realização da vontade de potência em suas várias possibilidades e os modos em que ela se constitui, estruturando-se e articulando-se de várias maneiras, é a “arte”, que vem portanto a se impor como uma espécie de valor supremo.

E por “arte” Nietzsche entende não apenas a arte no significado comum do termo (a arte dos diversos “artistas” que atuam no interior da esfera da busca do belo), mas a força mesma da vontade de potência, que a estimula e a impele a se desdobrar em sentido cósmico em todos os níveis. Em tal sentido, a “arte” vem a ser, além da fonte, a própria realização da possibilidade da vida.

Uma passagem intitulada A vontade de potência. Tentativa de uma transvaloração de todos os valores resume perfeitamente os conceitos fundamentais de que estamos falando: “A concepção do mundo em que se baseia este livro [Nascimento da tragédia, 1872] é singularmente fosca e desagradável; entre os tipos de pessimismo conhecidos até agora parece que nenhum tenha alcançado o mesmo grau de maldade. Aqui falta a contraposição entre um mundo verdadeiro e um mundo aparente: há apenas um mundo, e ele é falso, cruel, contraditório, corrupto, sem sentido… Um mundo desses é o verdadeiro mundo… Nós precisamos da mentira para derrotar esta realidade, esta ‘verdade’, ou seja, para viver… Que a mentira seja necessária para viver, também isso faz parte deste terrível e problemático caráter da existência… A metafísica, a moral, a religião, a ciência – neste livro são considerados apenas como diferentes formas da mentira: com seu subsídio, acredita-se na vida. ‘A vida deve inspirar confiança’: a tarefa, posta dessa forma, é imensa. Para leva-la a termo, o homem deve ser, já por sua natureza, um mentiroso, deve ser, antes de qualquer outra coisa, um artista… E ele o é: metafísica, moral, religião, ciência – nada mais são do que criaturas de sua vontade de arte, de mentira, de fuga diante da ‘verdade’, de negação da ‘verdade’. Essa mesma faculdade, graças à qual ele violente a realidade com a mentira, esta faculdade artística por excelência do homem – ele a compartilha com tudo o que existe; aliás, ele próprio é uma parte de realidade, de verdade e de natureza – ele próprio é também uma parte do gênio da mentira… Que o caráter da existência seja menosprezado – é o profundo e supremo fim recôndito da ciência, da religiosidade, da tendência artística. Nunca ver muitas coisas, ver outras falsamente e ver muitas outras que não existem… Oh, como somos espertos, mesmo nas situações em que estamos bem longe de nos considerar espertos! O amor, o entusiasmo, ‘Deus’ – não passam de sutilezas de um extremo engano de si mesmo, de seduções que impelem a viver! Nos momentos em que o homem se torna o enganado, em que acredita novamente na vida, em que enganou a si mesmo: oh, como ele então se vangloria! Que delícia! Que sentido de potência! Quanto triunfo do artista há na vontade de potência!… O homem afirmou ainda uma vez sua soberania sobre a ‘matéria’ – sua soberania sobre a verdade!… E cada vez que o homem se alegra, é sempre o mesmo em sua alegria: alegra-se como artista, usufrui de si mesmo como potência. A mentira é a potência… A arte e nada mais que a arte. Ela é a grande criadora da possibilidade de viver, a grande sedutora da vida, o grande estímulo para viver…”.

A esta inversão de todos os valores em função da vontade de potência liga-se estreitamente também o significado de “super-homem”. Não se trata de um tipo de superespécie de homem, mas vem a ser aquele tipo de homem que se põe na base justamente da vontade de potência e age de acordo com as estruturas e as articulações dessa vontade.

[CONTINUA]

Giovanni Reale, O Saber dos Antigos – Terapia para os tempos atuais

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2 Responses to [OFF] O niilismo (V): A transvaloração de todos os valores e a vontade de potência

  1. noemiagodinho says:

    Este pedido é urgente, reencaminhe para quem puder! Obrigada, Deus o abençoe. Noémia Godinho Date: Sun, 6 Jul 2014 22:45:29 +0100 Subject: Fwd: FW: FW: Vamos ajudar a Margarida!

  2. Noémia Godinho says:

    Avé Maria,Boa tarde irmãos em Cristo, nosso Mestre e Senhor. Gostaria de ser informada o como posso comentar, uma vez que ao colocar o meu mail, não o aceita e nem sei que senha será válida. Obrigada, que Deus vos encha de bençãos para continuarem o vosso importante trabalho. Noémia, escrava de Maria.
    Date: Tue, 11 Sep 2012 11:01:06 +0000
    To: noemiagodinho@live.com.pt

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