Tomás responde: A esperança é abundante nos jovens e nos ébrios?

Diego Velázquez, Os Bêbados ou O Triunfo de Baco (1629), Museu do Prado, Madrid

Parece que a juventude e a embriaguez não são causa de esperança:

1. Com efeito, a esperança implica certeza e firmeza, por isso é comparada a uma âncora, na Carta aos Hebreus. Ora, os jovens e os ébrios carecem de firmeza, pois têm o espírito facilmente mutável. Logo, a juventude e a embriaguez não são causa de esperança.

2. Além disso, o que aumenta o poder é sobretudo causa de esperança, como acima foi dito (art. precedente). Ora, a juventude e a embriaguez são acompanhadas de uma certa fraqueza. Logo, não são causa de esperança.

3. Ademais, como se disse, a experiência é causa de esperança. Ora, falta aos jovens a experiência. Logo, juventude não é causa de esperança.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o Filósofo diz no livro III da Ética: “Os bêbados são cheios de esperança”. E no livro II da Retórica: “os jovens têm boa esperança”.

A juventude é causa de esperança por três motivos, como diz o Filósofo no livro II da Retórica. Esses três motivos podem tomar-se segundo três condições do bem, objeto da esperança: que seja futuro, árduo e possível, como foi dito (art. 1). Com efeito, os jovens têm muito futuro e pouco passado: e assim como a memória é do passado e a esperança do futuro, eles têm pouca memória e vivem de muita esperança. Além disso, os jovens, por terem a natureza quente, têm muitos “espíritos”, e neles o coração se amplia. Por ter o coração dilatado é que se tende para as coisas difíceis. Por isso os jovens são animosos e têm boa esperança. Igualmente, quem não sofreu rejeição nem experimentou obstáculos em suas tentativas, julga facilmente que as coisas são possíveis. Por isso os jovens, pela falta de experiência dos obstáculos e das deficiências, facilmente julgam que as coisas lhes são possíveis. E por isso têm boa esperança.

Duas destas coisas se encontram nos ébrios: o calor e a multiplicação dos espíritos, por causa do vinho; e também a irreflexão sobre os perigos e as deficiências. Pela mesma razão também todos os estúpidos e os estouvados se atrevem a tudo e têm boa esperança.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. Embora os jovens e os ébrios não tenham na verdade firmeza, eles pensam que a têm e acreditam conseguir firmemente o que esperam.

2. Igualmente os jovens e os bêbados são fracos, mas em sua opinião têm poder, pois não conhecem suas deficiências.

3. Não é só a experiência, mas também a inexperiência que é causa de esperança, como foi dito (art. precedente).

Suma Teológica I-II, q.40, a.6

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