Tomás responde: O pão pode converter-se no corpo de Cristo?

Milagre de Lanciano (clique para ampliar)

Parece que o pão não pode converter-se no corpo de Cristo:

1. Com efeito, a conversão é uma certa mudança. E em toda mudança, deve haver um sujeito, que está primeiro em potência e depois em ato, como diz o Filósofo: “O movimento é o ato que existe em potência.” Ora, não existe um sujeito comum da substância do pão e do corpo de Cristo. Pois, faz parte do ser substância não “estar no sujeito”. Logo, não é possível que toda a substância do pão se converta no corpo de Cristo.

2. Além disso, a forma daquilo em que alguma coisa se converte começa a existir na matéria do que se converte; assim como quando o ar se converte em fogo que antes não existia, a forma do fogo começa a existir na matéria do ar; e, de modo semelhante, quando o alimento se converte em um homem que antes não existia, a forma do homem começa a existir na matéria do alimento. Portanto, se o pão se converte no corpo de Cristo, é necessário que a forma do corpo de Cristo comece a existir na matéria do pão: o que é falso. Logo, o pão não se converte na substância do corpo de Cristo.

3. Ademais, quando duas realidades são por si mesmas opostas, nunca uma delas se torna a outra: assim como a brancura nunca se torna negrura, mas o sujeito da brancura torna-se sujeito da negrura, como diz o Filósofo. Ora, assim como duas formas contrárias são essencialmente opostas, ao existirem como princípios da diferença formal, assim também duas matérias determinadas são por si mesmas opostas, ao existirem como princípio da divisão material. É portanto impossível que esta matéria do pão se faça esta matéria pela qual o corpo de Cristo é individualizado. E assim é impossível que a substância deste pão se converta na substância do corpo de Cristo.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, Eusébio de Emesa afirma: “Tu não deves julgar inaudito e impossível que elementos terrenos e mortais se convertam na substância de Cristo”.

RESPONDO. Uma vez que neste sacramento está o verdadeiro corpo de Cristo e ele não começa a estar aí pelo movimento local; uma vez que também o corpo de Cristo não está aí como em um lugar, é necessário dizer que ele aí começa a estar pela conversão da substância do pão nele.

Esta conversão, porém, não se assemelha às conversões naturais, mas é totalmente sobrenatural, realizada unicamente pelo poder de Deus. Daí Ambrósio dizer: “É claro que a Virgem gerou alem da ordem da natureza. E o que consagramos é o corpo nascido da Virgem. Portanto, por que procuras no corpo de Cristo a ordem da natureza, uma vez que foi além Da natureza que a Virgem deu à luz o próprio Senhor Jesus?” E a respeito do texto de João: “As palavras que eu vos disse”, a saber, sobre este sacramento, “são espírito e vida” (6, 64), Crisóstomo explica: “São palavras espirituais, nada têm de carnal nem seguem uma lógica natural, mas são livres de toda necessidade terrestre e das leis que regem aqui em baixo”.

É claro que todo agente age enquanto está em ato. Ora, todo agente criado está determinado no seu ato, uma vez que faz parte de determinado gênero e espécie. Portanto, a ação de todo agente criado visa um ato determinado. A determinação, porém, de toda coisa na sua existência é feita por sua forma. Por isso, o agente natural ou criado só pode agir para mudar uma forma. E, por esta razão, toda conversão, que acontece segundo as leis da natureza, é formal. Ora, Deus é o ato infinito, como se viu na I Parte. Por isso, sua ação se estende a toda natureza do ser. Portanto, ele não só pode realizar a conversão formal de modo que as diversas formas se sucedam num mesmo sujeito; mas também a conversão de todo o ser, de modo que toda substância de um ser se converta em toda a substância de um outro.

E isso se realiza, portanto, neste sacramento pelo poder divino. Com efeito, toda substância do pão se converte em toda substância do corpo de Cristo, e toda substância do vinho em toda a substância do sangue de Cristo. Por isso, esta conversão não é formal, mas substancial. Não se classifica entre as diversas espécies de movimento natural, mas pode-se chamar com o nome apropriado de “transubstanciação”.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. A objeção em questão vale da mudança formal: porque é próprio da forma existir na matéria ou sujeito. Mas isso não vale da conversão de toda a substância. Daí, uma vez que esta conversão implica uma certa ordem entre as substâncias, das quais uma se converte na outra, ela está como no seu sujeito em cada uma das substâncias, à maneira das relações de ordem e número.

2. Esta objeção também vale da conversão formal ou mudança: porque é necessário, como se disse, que a forma esteja na matéria ou no sujeito. Isso, porém, não acontece na conversão de toda a substância, já que aí não se encontra nenhum sujeito.

3. Pelo poder de um agente finito uma forma não pode mudar-se em outra, nem uma matéria em outra. Mas pelo poder do agente infinito cuja ação atinge todo o ser, tal conversão pode ser feita: pois, ambas as formas e ambas as matérias pertencem à mesma natureza do ser. E o que há de ser em uma, pode o autor do ser converter naquilo que há de ser na outra, suprimindo o que as distinguia.

Fonte: ST III, 75, 4

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One Response to Tomás responde: O pão pode converter-se no corpo de Cristo?

  1. Parabéns!
    Gostei muito do material disponibilizado.
    Espero poder usufruir de muito mais.

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