O apogeu da Escolástica: São Tomás de Aquino

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No coração do céu, onde reinam as Três Pessoas, ladeado por Aristóteles e Platão, tendo a seus pés Averróis vencido, enquanto um concílio reunido reconhece a sua grandeza, o corpulento dominicano, com a vista tão fixa que parece não ter olhares senão para o interior, meditativo, plana no tempo e no espaço. Foi assim que Benozzo Gozzoli o representou no célebre quadro do Louvre, e é também assim que a história da Igreja o pode representar.

Entre os estudantes que, no ano de 1248, seguiam os cursos de Alberto Magno no Studium dominicano de Colônia, não se fazia notar – a não ser pelas suas dimensões físicas – um rapaz enorme, de rosto plácido, que parecia ruminar sem parar não se sabe que ausência de pensamento. Os condiscípulos chamavam-lhe o “boi mudo”, a tal ponto a sua grande calma e a sua espantosa capacidade de ficar em silêncio lhes parecia estúpidas. Mas quando, por acaso, numa discussão, esse rochedo se movia, era para esmagar, com dez palavras, todos os adversários. E, um dia, o seu mestre, que o conhecia bem e que, como se murmurava, o utilizava como colaborador nos seus prodigiosos trabalhos, referindo-se à alcunha irônica que lhe tinham dado, exclamou: “Sim, um boi mudo, mas eu vos garanto que há de mugir tão alto que abalará o universo inteiro”.

Chamava-se Tomás e tinha vinte e quatro anos. Nunca dissera a ninguém que essa família de Aquino, no seio da qual nascera em 1224, era uma das mais nobres de toda a Itália, que tinha o imperador Barba-Roxa como tio e Frederico II como primo, e que teria tido o direito de esquartelar o seu escudo com quatro ou cinco armas reais se, há muito tempo, não tivesse abandonado não só esse escudo, mas também todas as vaidades do mundo, para só conhecer como brasão a cruz negra de Cristo. Pequeno oblato do Monte Cassino que, aos seis anos, espantava os mestres perguntando-lhes inopinadamente: “Que é Deus?”, tinha encontrado aos quinze anos, quando estudava em Nápoles, a corrente do jovem fervor dominicano, e nela se lançara com alegria. Nada pôde arrancá-lo dessa vocação, que ele considerava providencial: nem os gritos do pai, nem os afagos da irmãs, nem as violências dos irmãos, pouco lisonjeados com a idéia de verem um Aquino mendicante. Enquanto a família o mantinha preso no segredo de um dos seus castelos, resolveram enviar-lhe a mais atraente das tentadoras, mas a “mensageira de Satanás” passou vergonha e escapou por pouco do tição que Tomás brandiu contra ela. Queria ser dominicano e dominicano seria: nem abade do Monte Cassino nem arcebispo de Nápoles! Ninguém seria capaz de vencer a sua santa obstinação.

Foi assim que, em Paris, durante seis anos, e depois, dois anos e pouco em Colônia, Tomás seguiu, como noviço dominicano, os ensinamentos do maior mestre da Ordem. Em 1251, estava formado, na posse de uma cultura imensa e de um discernimento cuja maturidade causava espanto. Não seria conveniente que começasse a dedicar-se também ao ensino? Atraiu as multidões instantaneamente. Nunca ninguém comentara com tanta originalidade o famoso Livro das Sentenças de Pedro Lombardo nem tirara dessa obra conclusões tão ricas. E isso não agradou àqueles que viam com crescente mau humor o assalto dos mendicantes aos baluartes da inteligência. Por ordem formal de Alexandre IV, em 1256, Tomás entrava para o corpo docente da Universidade de Paris, ao mesmo tempo em que São Boaventura, seu amigo franciscano.

Desde então, reconhecido já por muitos dos seus contemporâneos como um luminar, iria prosseguir – com o mesmo impulso maciço que caracterizava sua maneira de ser – a tríplice tarefa de professor, de escritor e de conselheiro dos papas. Depois de ficar três anos em Paris, foi chamado para o corte pontifícia e assistiu sucessivamente Alexandre IV, Urbano IV e Clemente IV, como uma espécie de teólogo oficial da Cúria. Voltou a Paris por mais três anos, e de lá partiu para Nápoles, onde fundou a Universidade e continuou a semear idéias, sempre a mãos-cheias, entre auditórios entusiastas. Mas, ao mesmo tempo – por que milagre? -, escrevia, comentava, discorria ao longo de milhares de páginas marcadas com o selo da originalidade e do gênio: a Suma Teológica saía das suas poderosas mãos.

O seu destino de pensador parecia traçado de antemão, quando, em 1274, Gregório X lhe ordenou que, como uma das mais seguras testemunhas das suas intenções, se dirigisse a Lyon para assistir ao Concílio, onde também estaria São Boaventura. O franciscano ainda pôde tomar parte na assembléia antes de entregar a sua santa alma ao Senhor. São Tomás, menos feliz, ficou detido no caminho. No canvento cisterciense de Fossanuova, a doença, que se desenvolve à vontade nesses organismos robustos, acabou por derrubá-lo. Morreu em 7 de março, com menos de cinqüenta anos.

Qualquer esboço de retrato psicológico de um homem desta envergadura seria uma tarefa irrisória. Os contrários harmonizam-se nele numa unidade tão paradoxal que desencoraja toda a análise. Esse gigante calmo, de traços vigorosos e plácidos, de olhar direto, é também aquele cuja brusca violência explode quando se trata de uma causa que lhe é cara, ou que, quando a seiva das idéias referve dentro dele, percorre a passos largos e apressados os corredores de um claustro. Esse manejador de idéias, que julgaríamos ocupado unicamente em alinhar os parágrafos da Suma, é o mesmo que, tendo uma questão difícil para resolver, cola a sua frente na porta do tabernáculo; o mesm o que se emociona até as lágrimas com o mistério de Cristo imolado; ou ainda, o mesmo que, com a simplicidade de um estudante, põe o seu trabalho sob a proteção da Santíssima Virgem; o mesmo também que confessa ter conhecido, em visões místicas, “coisas ao pé das quais todos os seus escritos são simplesmente palha”; o mesmo finalmente que, na hora da morte, pede que lhe leiam o livro mais ternamente espiritual da Escritura, o Cântico dos Cânticos.

Que devemos admirar mais neste gênio prodigioso: a capacidade de apreensão, o poder de organização, a fecundidade quase inadmissível, ou essa capacidade quase napoleônica de enfrentar ao mesmo tempo quatro ou cinco problemas, e de ditar a quatro ou cinco secretários respostas pertinentes às questões mais obscuras? Mas temos de admirar também esse dom de ver as coisas com justeza e de longe, de ir diretamente ao essencial, de apreender o transcendente no testemunho dos sentidos, e essa maneira tão simples de aceitar o real e submeter-se às suas lições! E tudo isso, que define a grandeza desse homem perante os outros homens, não é nada ao lado daquilo que o caracteriza aos olhos de Deus: a sua modéstia, a sua fé, a sua pureza angélica, a sua caridade sobrenatural, e essa visível luz que irradiava da sua fronte, a luz de um verdadeiro cristão…

Como escritor, é também muito difícil defini-lo. É uma banalidade louvar a sua lucidez, a sua acuidade de espírito, o seu dom de formulação incisiva e de exposição clara. Mas podemos avaliá-lo de algum modo quando imaginamos a amplitude da fundamentação teórica da sua obra – existem nela mais de oitenta mil referências ou alusões -, o poder genial que era necessário a esse espírito para não sucumbir sob o peso dos seus conhecimentos e para não fazer de todo esse material um saco de gatos, mas uma obra! E, quando o imaginamos como um doutor empoeirado dos pés à cabeça ou como um enorme rato de biblioteca, roendo ao longo dos capítulos o seco pergaminho dos argumentos, devemos lembrar-nos do poeta que ele foi, do autor do Lauda Sion e do Pange língua, autênticas obras-primas.

A simples enumeração dos títulos da sua obra escrita encheria páginas e páginas. Não há praticamente nenhum assunto que São Tomás não tenha abordado à sua maneira, que era sempre régia e definitiva. Ninguém como ele concebeu com vistas mais largas e mais genialmente o sonho de ultrapassar os conhecimentos particulares para atingir uma ciência universal, onde se encontrasse, hierarquicamente ordenado e exploicado, tudo aquilo que interessa ao homem.

Escritos exegéticos, consagrados tanto a Isaías, a Jó e ao Cântico dos Cânticos, como aos Evangelhos ou a São Paulo; inumeráveis sermões, que só conhecemos imperfeitamente, mas que nos consta que chegavam a comover os auditórios até as lágrimas; tratados de ascética e de mística, entre os quais o dos Dois preceitos da Caridade e o da Saudação angélica são verdadeiras jóias; a grande obra de apologética polêmica, a Suma contra os gentios, que arrasa os descrentes e os pagãos; livros filosóficos, em que se perscrutam a Lógica, a Física, as Ciências Naturais, a Moral a Política e a Metafísica, e esses Comentários às obras de Aristóteles, inacabados, que são como os fundamentos do conjunto; e finalmente as obras teológicas, muitas delas provenientes dessas questões disputadas que ele abordava com os seus alunos – toda essa lista basta para fazer compreender até que ponto é sumário reduzir São Tomás à Suma Teológica. Não há dúvida de que ela não deixa de ser a nave do edifício, mas nem as capelas laterais nem o recinto do coro podem ser negligenciados.

Foi em Roma. Entre 1265 e 1267, que São Tomás teve a idéia de empreender uma Suma, conforme os costumes da época. Já não se sentia à vontade no marco oficial dos Comentários sobre Pedro Lombardo. Empenhou-se durante nove anos nessa tarefa que só a morte viria a interromper. Esta obra, que confunde o espírito pela sua extensão e profundidade, era aos olhos do próprio autor uma simples iniciação sumária à teologia especulativa, que certamente teria exposto se tivesse vivido. O seu fim, portanto, não era outro senão oferecer aos estudantes um ensino preciso e sistemático, visto que as Sumas anteriores eram desordenadas e incompletas. Mas, ao visar um propósito tão modesto, realizou uma obra de uma importância única. A Suma Teológica é a suma do seu gênio e é também a experiência mais completa dos conhecimentos que a Idade Média tinha adquirido em matéria religiosa. Nunca o termo “Suma” teve, como neste caso, o seu pleno sentido.

Redigida sob a forma de perguntas e respostas, como era corrente na Escolástica, a Suma Teológica é ao mesmo tempo uma obra de análise e de síntese. De análise, porque apresenta as questões determinantes uma após outra., perscrutadas com uma espantosa arte de dissecação intelectual. De síntese, porque os elementos assim identificados são, de certa forma, recriados segundo uma nova ordem, colocados sob perspectivas até então desconhecidas. Deus, objeto central de toda teologia, está sempre presente ao longo dos capítulos: direta ou indiretamente, é sempre Ele a única questão. Na parte inicial, é estudado como Ser, primeiro em si mesmo – Deus uno e Deus trino -, e depois fora de si, como princípio, tal como o podemos conhecer nas suas obras – Deus criador e senhor do mundo – e através do comportamento do universo espiritual e temporal, incluído o da humanidade. A segunda parte considera Deus como Bem, isto é, como o fim que as criaturas racionais devem atingir, o que leva o autor a considerar sucessivamente os atos humanos, as paixões, os princípios de comportamento, a lei pela qual Deus nos instrui e a graça com que nos ajuda. Em seguida, tomando no seu conjunto as obrigações morais a que o homem se deve submeter para dirigir-se a Deus, analisa todas as virtudes, teologais, cardeais, humanas, e os vícios contrários, o que o leva a concluir com a análise dos modos de vida e dos dons que permitem praticar as virtudes e evitar os vícios. Finalmente, na terceira parte, quer mostrar Deus como caminho, não só para o homem em si, abstrato e teórico, mas para o homem de carne e de pecado, decaído pela falta original, mas que Cristo redimiu pela Encarnação e pelo Sacrifício. Esta parte, mais curta – que deixou inacabada e que o seu amigo e discípulo Reginaldo de Piperno completou como pôde, segundo algumas notas e outros trabalhos -, teria sem dúvida ultrapassado as anteriores em poder de emoção e ardor, a julgar pelo que dela conhecemos sobre as questões cristológicas e sobre os sacramentos.

Foi um plano prodigioso, que não deixava de fora nenhum dos grandes problemas que o homem enfrenta. Nessa intenção de São Tomás podemos ver uma correspondência com aquela outra que, na mesma ocasião, levava o Papa a querer unificar toda a Igreja num só corpo vivo, do qual ele seria a cabeça. A Suma, obra de unificação do espírito cristão…

Há um ponto, em todo o caso, em que São Tomás foi plenamente ao encontro dos desejos expressos pelos soberanos pontífices a partir de 1231: em vez de rejeitar Aristóteles, aproveitar para bem da Igreja o que havia nele de válido. E, nesse sentido, iria mais longe, muito mais longe do que o seu mestre Alberto Magno. Estudou toda a obra do Estagirita, que o seu confrade dominicano Guilherme de Moerbeke lhe traduzira fielmente, e esse estudo deixou-o profundamente admirado, pois viu nele o filósofo antigo mais poderoso pela sua dialética e o mais útil pelo seu método experimental. Colocar as suas doutrinas ao serviço de Cristo foi, portanto, um dos primeiros fins que São Tomás se propôs. Longe de por em perigo as verdades da fé, o aristotelismo poderia apoiá-la, fornecendo-lhe argumentos, e, em sentido inverso, só um pensamento impregnado do Evangelho e iluminado pela Revelação poderia, na escola de Aristóteles, atingir uma completa compreensão do mundo. É certo que o tomismo não é somente um aristotelismo cristão e que há na obra do grande dominicano muitas contribuições pessoais; mas, resolvendo o problema da difícil integração de Aristóteles no campo da inteligência cristã, São Tomás prestou à Igreja um serviço inapreciável; ofereceu-lhe novos meios de conhecimento e de demonstração[1].

O que ele foi buscar de essencial em Aristóteles foi a idéia de que o homem pode servir-se da razão. Para o neoplatonismo (e para o agostinismo), a razão é uma etapa na vida religiosa, um esboço da iluminação sobrenatura. No aristotelismo, ela vale por si: a sua vocação não é conhecer as coisas sobrenaturais e divinas, mas proceder a um trabalho de abstração sobre os resultados adquiridos pelos sentidos. Portanto, razão e fé têm cada uma a sua ordem, o seu campo de ação; e eis assim resolvido o famoso problema das relações entre elas. “O filósofo considera nas criaturas o que as caracteriza segundo a sua própria natureza; o crente não considera nelas senão aquilo que as caracteriza em relação a Deus”. Mas a razão e a fé não podem opor-se, porque a verdade é una, sendo Deus a verdade total. A verdade segundo a razão e a verdade segundo a fé devem, portanto, coincidir nos seus resultados e ajudar-se mutuamente. Assim como o astrônomo e o físico, por caminhos diferentes, concluem que a Terra é redonda, assim também, pela razão natural e pela revelação sobrenatural, se atingirá a única verdade.

O tomismo é, portanto, simultaneamente, uma filosofia e uma teologia, separadas nos seus âmbitos e unidas nas suas intenções. É como uma pirâmide do espírito; as bases assentam firmemente no chão do real, do concreto, do sensível, mas o cume mergulha no infinito e no invisível. O homem é captado por ele no seu conjunto, na sua natureza, na sua vida mortal, com os seus defeitos e os seus limites. Já que é ao mesmo tempo corpo e alma – ontologicamente associados -, nada nos autoriza a desprezar os andrajos carnais, como se inclinavam a fazer os discípulos de Platão; pelo contrário, se Deus dotou o homem de sentidos, é da experiência sensorial que se deve partir para conhecer o mundo e descobrir Deus na sua criação. Ao passo que São Boaventura pensava que deter-se nas coisas da experiência era “desfrutar da árvore proibida do bem e do mal”, São Tomás afirma o respeito pelo criado, pelo carnal, pelo humano. Com esta nova posição, a moral cristã ver-se-á renovada e, mais tarde, surgirão daí a sociologia e a economia cristãs.

É sobre estes dados fatuais que a razão trabalhará, para abstrair, caracterizar e concluir. Fará progredir o conhecimento, mas segundo a sua ordem, isto é, deixará fora das suas indagações o campo da fé e da Revelação. O seu verdadeiro trabalho consiste em estabelecer a verdade sobre bases tão sólidas que nada as possa abalar, e São Tomás pensa que, sendo Deus a verdade, basta apresentar lucidamente toda a verdade para que ela se manifeste de modo irrecusável. Sem negar o papel das iluminações sobrenaturais, não lhes atribui a importância decisiva que lhes atribuem um Santo Anselmo ou um São Boaventura; sabe perfeitamente que se pode atingir Deus por um arroubo interior ou por um dom da alma, mas essas vias, tão freqüentemente subjetivas, são menos seguras aos seus olhos e têm um valor menos universal do que a clara razão. E se nem tudo é explicável por meio da razão, se parece haver antinomias entre a fé e a razão, é porque o espírito do homem é o de um ser finito, incapaz de penetrar no infinito e no invisível, que pertencem propriamente ao domínio da Revelação. A fé, para a qual tende todo o esforço racional, é, portanto, o seu último coroamento.

Todos os grandes problemas se inscrevem neste gigantesco sistema e nele encontram a sua solução: o problema da existência de Deus, do conhecimento, da liberdade e das relações entre a natureza e o sobrenatural. Pela aplicação dos princípios, as questões que se põem à consciência receberão também a sua solução, quer se trate de moral, de sociologia ou de política: o tomismo explica tudo. O poder incomparável do sistema justifica-se pela solidez com que tudo, do mais humilde ao mais importante, se ordena, se articula, se equilibra, enfeixado pelas mãos firmes de um gênio da organização. Não se trata de um laborioso decalque de uma filosofia antiga transposta para o cristianismo, nem de um simples mosaico de idéias e referências. É verdadeiramente uma síntese nova, que atende à imensa expectativa do pensamento cristão. O tomismo não criou os dogmas, mas permitiu que os homens aderissem melhor a eles.

Perante um monumento de tal envergadura, como não ficarmos entusiasmados? Mesmo que hesitemos em admitir o lugar de destaque que São Tomás atribui à razão nas operações do intelecto, mesmo que verifiquemos que algumas das suas referências científicas envelheceram, não podemos deixar de contemplar essa obra como um dos mais admiráveis testemunhos do gênio do Ocidente. Assim foi considerada por muitos, mesmo durante a vida do seu autor. Como prova disso, basta ler a carta que, no dia seguinte ao da morte do santo, os mestres da Universidade de Paris dirigiram ao Capítulo geral dos Pregadores: São Tomás era, diziam eles, “a estrela que guia o mundo, o luminare maius de que fala o Gênesis, o sol que preside ao dia”. Cinqüenta anos depois de sua morte, em 1323, a Igreja canonizava-o e, em 1567, aquele que em vida fora chamado o “Doutor Angélico” era oficialmente inscrito na categoria dos Doutores. A partir de Leão XIII e da sua Encíclica Aeterni Patris, ele é, com efeito, o guia oficial dos estudos filosóficos e teológicos, e todas os papas, desde então, têm exaltado sempre a sua sabedoria, o seu espírito benfazejo e o seu gênio[2].

No coração do céu, onde reinam as Três Pessoas, ladeado por Aristóteles e Platão, tendo a seus pés Averróis vencido, enquanto um concílio reunido reconhece a sua grandeza, o corpulento dominicano, com a vista tão fixa que parece não ter olhares senão para o interior, meditativo, plana no tempo e no espaço. Foi assim que Benozzo Gozzoli o representou no célebre quadro do Louvre, e é também assim que a história da Igreja o pode representar.

Daniel-Rops, A Igreja das Catedrais e das Cruzadas, Ed. Quadrante, 1993, págs 367-374.


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[1] São Tomás teve muitas vezes que defender o aristotelismo, de que se fizera ardoroso paladino, contra adversários que vinham de dois lados. Uns, os tradicionalistas, viam nele uma novidade inquietante, mais ou menos herética, e esses velhos guardiães agostinianos e neoplatônicos tinham amizades altamente colocadas, como o bispo de Paris, Estêvão Tempier. Os outros, muito mais perigosos, eram aristotélicos extremistas e fanáticos, que procuravam não tanto submeter Aristóteles ao Evangelho como submeter Cristo ao Estagirita. Profundamente influenciados pelo muçulmano Averróis, arriscavam-se a cair num puro e simples racionalismo e, pelas confusões que criavam, comprometiam toda a doutrina do santo. São Tomás teve que travar batalhas contra o mais notório dentre eles, Sigério de Brabante.

[2] No entanto, a Igreja não impõe o tomismo como filosofia única. Consultada, depois do Motu próprio de Pio X (de 29 de junho de 1914), a Congregação de Estudos resumiu o tomismo em 24 proposições, que ela declarou “propor como doutrina segura, mas não impor”.

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2 Responses to O apogeu da Escolástica: São Tomás de Aquino

  1. David says:

    Com certeza o comentário “para tudo muito sem noção total” vem de uma pessoa muito inteligente e culta. Desculpe-nos (a mim, a Tomás de Aquino, a Chesterton, etc.) por estarmos tão abaixo do seu nível intelectual…

  2. nathy says:

    odiei esse site, para tudo muito sem noção total

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