A Psicologia e os valores

Hieronymus_Bosch_A_extracao_pedra_loucuraHieronymus Bosch, A Extração da Pedra da Loucura (1475-1480), Museu do Prado, Madrid

Em fins de agosto de 1984, realizou-se em Garderen, na Holanda, um seminário baseado numa ampla pesquisa sobre valores atuais da Europa. Nele estavam presentes as maiores autoridades mundiais em assuntos relacionados com o tema, ou seja, especialistas em Teologia, Filosofia, Moral, Medicina, Sociologia, Bioética e Biogenética. Vinham eles dos EUA, do Canadá, da Finlândia, do Japão, das Filipinas, da Indonésia, do Brasil e de diversos países da Europa.

A pesquisa, realizada em nove países europeus e cujos resultados preencheram 11 mil folhas de computador, foi compilada num livro escrito por Jean Stoezel, professor da Universidade René Descartes de Paris e trouxe informações profundamente interessantes e surpreendentes. Uma das conclusões mostra que, na realidade, o mundo atual, diferente do que se supõe, não apresenta uma mudança radical no conceito dos valores. Há muito mais uma variação de acordo com a idade do que em função da época em que vivemos. As pessoas, quando jovens, têm opiniões diferentes das que têm quando adultos. A idade de 30 anos é, em média, a época em que se operam essas mudanças. Após os 30 anos, surge, então, um outro tipo de conceito de valores, o qual em sua essência é semelhante entre os diversos povos. No que diz respeito aos valores moral-religiosos, também esses tendem a se assemelhar entre si e se aproximam do código dos Dez Mandamentos que nos foi legado por Moisés.

A pesquisa, portanto, não confirma a existência real do relativismo moral, mas expõe uma linha uniforme, que se conserva através dos tempos. O estudo, de certa forma, comprova – sem o afirmar, mas pelo que se pode deduzir dos dados que oferece – que o ser humano traz dentro de si um código ético o qual, em seu conteúdo básico, não é em função dos costumes e não depende da aprendizagem social. Ainda que os conceitos de valores tendam a mudanças na juventude, retornam a uma uniformidade na idade adulta.

Pelo método da Abordagem Direta do Inconsciente, realizou-se, com a equipe TIP, o atendimento terapêutico a aproximadamente cinco mil casos até a data mencionada desse seminário. E a experiência confirma, renovadamente, os dados que a pesquisa mencionada levantou: o homem traz em si diretrizes básicas de comportamento moral que são comuns aos homens em geral. Em bora essa moral intrínseca possa ser temporariamente perturbada por influências externas, pelo meio ambiente, pela aprendizagem e pelos costumes vigentes, conserva-se de forma autêntica no inconsciente, como que ansiando por uma redescoberta. Enquanto o homem individual não der ouvidos a este clamor interno, irá ampliando esta ansiedade, irá gerando progressivamente a angústia, a somatização, a autodestruição, encontrando dificuldades no seu relacionamento com os outros e em sua vida profissional, nunca conseguindo atingir plenamente sua saúde total e integração pessoal e social.

Isso acontece porque o homem, quando se comporta de forma contrária ao que lhe sugere seu código ético intrínseco e natural, tende a se autopunir e não se permite o direito de usufruir do bem-estar.

Entre os assuntos que abordamos neste livro, a constatação acima referida pareceu-nos uma das mais importantes para ajudar ao homem sofredor dos nossos dias. É muito significativo o alto índice de doenças físicas e psíquicas, cuja causa nada mais é do que o sentimento de culpa, resultante, na maioria das vezes, do não seguimento dessas normas éticas internas, donde também surge o bloqueio do impulso natural de autotranscendência que quer a doação ao próximo e o encontro com Deus. Assim, a conhecida e antiga norma religiosa de orientar os fiéis para um exame de consciência diário e o consequente rito de reconciliação com Deus tinham um alcance muito mais amplo do que, talvez, os próprios religiosos e fiéis imaginassem, ou seja, o de preservar o psiquismo do sentimento de culpa e o organismo psicofísico da autodestruição inconsciente, de desequilíbrios e de doenças físicas somatizadas.

Se o homem se detivesse mais na introspecção, na busca dos ditames de sua consciência, há muito já teria compreendido essa realidade. Mas o homem foge de si mesmo. Tem medo de olhar para dentro de si. E assim, sem o perceber, cai na armadilha dos tempos modernos, cresce no sucesso exterior na mesma medida em que fracassa, desequilibra e destrói o homem interior. Sempre foi bem mais fácil dominar a técnica, a ciência e, hoje, o computador e o cosmo do que controlar o homem interno, do que enfrentar a si mesmo.

O homem está perdendo, cada vez mais, a sua identidade e sua dignidade diante de novas e renovadas teorias históricas, sociais, psicológicas e até religiosas, diante do cientificismo e do tecnicismo. Parece que a fuga inconsciente da incapacidade de compreender o ser humano em sua realidade total – porque não se quer admitir sua constituição intrinsecamente estável e transcendental – lança as pesquisas e os estudos para o ambiente que o cerca, desviando o objetivo da atenção apenas para o observável, o quantitativo, o manipulável, enfoques que não permitem encontrar o homem.

Tenta-se, por vezes, estender o estudo ao homem em seu interior. É quando se preparam psicólogos, médicos-psiquiatras e outros profissionais, em número cada vez maior. Mas estes, paradoxalmente, acabam sendo envolvidos pela mentalidade da época e aprendem, desde as universidades, a cuidar de seus pacientes, prescindindo do humano, atendo-se muito mais ao corpo, ao psiquismo, ao cérebro, enfim, ao ser animal que ao ser humano em si. Existe uma espécie de escrúpulo, um medo de considerar o homem no que o define como tal, no que o distingue dos outros seres, apesar de que todos os homens, mesmo os mais incultos, sabem intuitiva e vivencialmente da existência de uma realidade noológica no homem. E, se o objetivo da Ciência é o de investigar a veracidade dos fatos, talvez experimentemos muitas vezes mais um preconceito científico do que um método científico, o qual não poderia fugir da constatação fiel e do estudo dos fatos da forma como se apresentam na natureza humana.

E o fruto do que é ilegítimo e inautêntico é a contradição: assim, sob o pretexto de se defender uma sociedade ideal, sacrifica-se, com frequência, a pessoa individual e gera-se um alheamento, um distanciamento sempre maior do bem comum. Desejando e promovendo-se mudanças externas no homem, engendradas pela força, pela violência, pela criação de estruturas ou molduras de encaixe igualitário, geram-se conjuntos aparentemente organizados, mas rígidos, controlados pelo medo, monótonos, sem colorido e sem vida, porque reduzem a um só nível o incomensurável potencial criativo do ser humano. No campo psicológico, continua-se enfatizando a necessidade da expansão livre dos impulsos psicofisiológico, orientando o paciente para a dispensa do autocontrole e, portanto, impedindo o seu amadurecimento como ser humano. Motivam-se as pessoas para o uso da liberdade, indicando para isso, paradoxalmente, o caminho da escravidão aos impulsos e aos sentidos. Focalizando-se os objetivos diretamente sobre a busca do prazer e da satisfação, dificulta-se ou impossibilita-se este encontro. A sintomatologia externa dos problemas sofridos por um paciente tenta-se resolver com soluções que criam conflitos internos, que conduzem à angústia existencial ou à autodestruição física e psicológica. E até a mensagem de Cristo, toda centralizada sobre o homem-pessoa, quer-se corrigir, dando-lhe outras conotações ou interpretações, que em nada ajudam mas que perturbam sempre, abalando a fé daqueles que crêem. Esse emaranhado de confusões torna-se gradativamente letal ao ser humano, especialmente para a juventude, a nova geração da qual depende a humanidade futura.

É necessário redescobrir e valorizar o homem. Somente pela mudança interna do ser humano atingem-se todos os homens e melhora-se a humanidade. Diante do enfoque do homem interno, pode-se fazer melhor justiça, porque o ângulo do julgamento é mais autêntico. Nessa perspectiva, há de se perceber que todos os homens têm em si tanto riquezas quanto pobrezas. Assim, como disse um sacerdote num sermão de domingo na cidade de Wetzlar, Alemanha: “Pobre é aquele que se vê isolado do mundo ou que se fecha no egocentrismo, que não oferece aos outros homens os dons particulares que Deus lhe deu e que empobrece aos que com ele convivem; e rico é todo aquele que, independente de possuir ou não bens materiais, sabe doar a si mesmo, porque enriquece aos outros com cada um dos seus gestos, mesmo com o mais humilde!”

Pelo enfoque do homem interno, equilibram-se poderosos com fracos, porque há fraquezas semelhantes aos humildes nos poderosos e muita força em pessoas humildes. Por esse meio, elimina-se a distância das divisões em classes sociais, porque, em qualquer classe ou cultura, os casais se amam e se desentendem, o homem é doente ou sadio, sofre ou é feliz, pode ser mau ou bom, pode construir ou destruir. Somente quando focalizamos o homem-pessoa em seu interior e integralmente é que podemos descobrir os traços comuns de todos os homens para distingui-los daquilo que é específico de cada um. Só pela compreensão desse homem é que se pode ajuda-lo com eficácia. E apenas o homem recuperado em sua estrutura interna poderá prestar ajuda verdadeira aos outros. De fato, não se concebe uma pessoa equilibrada e sadia que não queira contribuir para um mundo melhor, uma vez que sua própria auto-realização depende de sua ação útil e produtiva.

Renate Jost de Moraes, As Chaves do Inconsciente, Agir, 12ª edição

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2 Responses to A Psicologia e os valores

  1. Heitor Azevedo says:

    David, Bom dia.
    Mas que belo presente você nos deu.
    Este texto especialíssimo, vem do começo ao derradeiro final num ritmo em “crescente” de um raciocínio límpido; todas as argumentações em sintonia entre si.
    Ou seja:” O Evangelho Universal” ali se faz presente sob todos os aspectos. Cravado em ferro e fogo pelo Criador em todas as almas que pelo mundo passam.
    PARABÉNS!
    Heitor

  2. Pingback: Quer divertir-se um pouco com os ateus? | Suma Teológica - Summae Theologiae

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