Tomás responde: Deus é onipotente?

Deus pode tudo? Pode desfazer o passado? (Este, na verdade, é o assunto do artigo seguinte desta questão). Pode não ser amor? Pode fazer um círculo quadrado? Pode deixar de ser Deus? Se não, então não é verdade que pode tudo. Mas o que, afinal, significa ser “onipotente”? Tomás responde!

À primeira vista, parece que Deus não é onipotente, pois:

1. Com efeito, ser movido e ser passivo é próprio de tudo. Ora, isso não cabe a Deus, pois Ele é imóvel, como já foi dito. Logo, não é onipotente.

2. Além disso, pecar é um agir. Ora, Deus não pode pecar, nem “renegar-se a si mesmo”, como se diz na segunda Carta a Timóteo (2, 13). Logo, Deus não é onipotente.

3. Ademais, diz-se de Deus que “mostra sua onipotência sobretudo perdoando e praticando a misericórdia”. Assim, o máximo que pode a potência divina é o perdão e a misericórdia. Ora, existem coisas muito maiores do que o perdoar e ter misericórdia; por exemplo, criar outro mundo ou algo semelhante. Logo, Deus não é onipotente.

4. Ademais, sobre as palavras da primeira Carta aos Coríntios: “Deus tornou louca a sabedoria do mundo” (1, 20), a Glosa diz: “Mostrando possível o que esta sabedoria julgava impossível”. Parece, pois, que não se deve julgar possível ou impossível segundo as causas inferiores, como julga a sabedoria deste mundo, mas segundo a potência divina. Portanto, se Deus é onipotente, tudo será possível. Nada haverá que seja impossível. Ora, negado o impossível, nega-se também o necessário, pois o que é necessário ser é impossível que não seja. Não haveria, então, nada necessário nas coisas, se Deus fosse onipotente. Ora, isso é impossível. Logo, Deus não é onipotente.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, está o que diz o Evangelho de Lucas: “Nenhuma palavra é impossível a Deus” (1, 37).

RESPONDO. Em geral, todos confessam que Deus é onipotente. Mas parece difícil determinar a razão da onipotência. Pois pairam dúvidas sobre o conteúdo desta afirmação: Deus pode todas as coisas. Mas, bem considerando, já que a potência se refere ao possível, quando se diz: Deus tudo pode, o mais correto é entender que pode tudo o que é possível e por isso se diz onipotente.

Ora, segundo o Filósofo, no livro V da Metafísica, o possível tem dupla acepção. Primeira, com relação a alguma potência. Por exemplo, é possível ao homem o que está sujeito a sua potência. Mas não se pode dizer que Deus seja onipotente porque pode tudo o que é possível à natureza criada, pois a potência divina se estende a muito mais. Mas dizer que Deus pode tudo o que é possível à potência divina é um circulo vicioso. Pois seria dizer que Deus é onipotente porque pode tudo o que pode. Portanto, deve-se dizer que Deus é chamado onipotente porque pode absolutamente todo o possível, o que é outra maneira de conceber o possível. Ora, uma coisa é possível ou impossível absolutamente segundo a relação dos termos: possível, porque o predicado é compatível com o sujeito, por exemplo, que Sócrates esteja sentado; o impossível absolutamente significa que o predicado é incompatível com o sujeito, por exemplo, que o homem seja um asno.

Como, no entanto, todo agente produz algo semelhante a si próprio, é preciso considerar que a toda potência ativa corresponde um possível como objeto próprio, conforme à razão do ato sobre o qual se funda a potência ativa. Por exemplo, a potência de esquentar se refere, como a seu objeto próprio, ao que é suscetível de aquecimento. Ora, o ser divino sobre o qual se funda a razão de potência divina é um ser infinito, e não limitado por qualquer gênero do ser, pois pré-contém em si a perfeição do todo ser. Por conseguinte, tudo o que pode ter a razão de ente se encontra contido nos possíveis absolutos, em relação aos quais Deus é chamado onipotente.

Ora, nada se opõe à razão de ente, senão o não-ente. Logo, o que é incompatível com a razão de possível absoluto, sujeito à onipotência divina, é o que implica em si mesmo simultaneamente o ser e o não-ser. Isto não está sujeito à onipotência divina, não em razão de uma deficiência dela, mas porque não pode ter a razão de factível nem de possível. Assim, todas as coisas que não implicam contradição estão compreendidas entre os possíveis em relação às quais Deus é chamado onipotente. Quanto às coisas que implicam contradição, não estão compreendidas na onipotência divina, pois não comportam a razão de possíveis. Por conseguinte, convém mais dizer delas que não podem ser feitas, do que dizer: Deus não pode fazê-las. – Tal doutrina não contradiz a palavra do anjo: “A Deus nenhuma palavra é impossível”. Pois o que implica contradição não pode ser palavra, porque nenhum intelecto pode concebê-la.

Quanto aos argumentos iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. Deus é onipotente segundo a potência ativa, não segundo a passiva, como foi dito. Por conseguinte, que não possa ser movido ou ser passivo não é incompatível com a onipotência.

2. Pecar é falhar na perfeição do ato; em conseqüência, poder pecar é poder falhar no agir, o que incompatível com a onipotência. Por isso Deus não pode pecar, ele que é onipotente. No entanto, o Filósofo escreve no livro IV dos Tópicos: “Deus e o sábio podem praticar atos maus”. Isto, porém, se deve entender como uma proposição condicional cujo antecedente é impossível; por exemplo quando se diz que Deus pode praticar o mal, se quiser. Nada impede que uma proposição condicional seja verdadeira mesmo que seu antecedente e seu conseqüente sejam impossíveis; por exemplo, se o homem fosse um burro teria quatro patas. Ou então, quer dizer que Deus pode fazer coisas aparentemente más, que no entanto seriam boas, se as fizesse. Ou então, fala segundo a opinião comum dos gentios, que diziam poderem os homens ser divinizados, como Júpiter ou Mercúrio.

3. A onipotência de Deus se manifesta sobretudo perdoando e praticando a misericórdia, porque, por essas ações, se mostra que Deus tem o supremo poder: ele perdoa livremente os pecados. Quem está ligado à lei de um superior não pode livremente perdoar os pecados. Ou, então, porque perdoando os homens e praticando a misericórdia, Deus os conduz à participação do bem infinito, que é o efeito supremo do poder divino. Ou ainda porque, como foi dito antes, o efeito da misericórdia divina é o fundamento de todas as obras divinas, pois nada a ninguém é devido a não ser em razão daquilo que lhe foi dado gratuitamente por Deus. Ora, a onipotência divina se manifesta sobretudo em que a ela pertence a primeira instituição de todos os bens.

4. Não se afirma o possível absoluto nem em relação às causas superiores, nem em relação às inferiores, mas em si mesmo. Ao passo que o que é possível em relação a alguma potência é chamado possível em relação à sua causa próxima. Quando se trata de coisas cuja natureza exige ter a Deus por único autor, como a criação, a justificação, etc., diz-se que são possíveis em relação à causa superior. Ao contrário, das que podem ser realizadas pelas causas inferiores diz-se que são possíveis em relação a estas causas. Pois é segundo a condição da causa próxima que o efeito comporta contingência ou necessidade, como acima foi dito. Declara-se louca a sabedoria do mundo, porque julgava ser impossível ao próprio Deus o que é impossível à natureza. Vemos assim que a onipotência de Deus não exclui das coisas nem a impossibilidade nem a necessidade.

Fonte: ST I, 25, 3

Anúncios

4 Responses to Tomás responde: Deus é onipotente?

  1. Rafael says:

    Primeiramente nada pode ser onipotente. por um conceito lógico como por exemplo: Se eu disser a algum ser que se diz onipotente para criar algo indestrutivel, uma pedra por exemplo e este ser assim fizer e entao em seguida eu pedir para que este ser destrua a tal pedra e ele nao conseguir pois a pedra é indestrutivel, logo este ser nao é onipotente mas se ele conseguir destruir a pedra ele tambem nao será onipotente pois ele nao conseguiu criar a pedra indestrutivel, Logo nada pode ser onipotente.

  2. Czar says:

    Calvino foi muito mais acertivo ao descrever a soberania de Deus e a liberdade do homem, postulando que ambas são indecifráveis. Aquino deveria ter lido Calvino se o pudesse.

  3. lucas says:

    Uma resposta a seu texto que realmente nos faz refletir.Deus é mesmo onipotente.Repare:
    Deus tem todo o poder mas não o usa frequentemente para manter a ordem.Vamos começar do inicio por exemplo:você citou no primeiro parágrafo ”Pode desfazer o passado?”.
    sim pode.Mas imagine se ele o fizesse,mudar o curso da história iria alterar tempo espaço e matéria trazendo consequências inimagináveis. Poderia argumentar:mas poderia te evitado guerras e genocídios.Sim poderia, mas Deus não vai intervir toda vez que a humanidade fizer besteiras.Ele já nos dotou com capacidades extraordinárias, para garantirmos nós mesmos um futuro melhor.Você também citou “mostra sua onipotência sobretudo perdoando e praticando a misericórdia”.Pare de achar que a bíblia vai ser suficiente para descrever a onipotência de Deus, Ele já mostrou seu poder criando luz e trevas cometas, e planetas, quasares e galáxias.
    Na verdade o paraíso é tão perfeito que se as pessoas o vissem se suicidariam para ir pra lá.

  4. ISAQUE says:

    O HOMEM DEU NOME A TODAS PALAVRAS ,MAIS DEUS QUE DEU O HOMEM O DON DA FALA GEN 2:19
    AS PALAVRAS IMPOSSIVEL E POSSIVEL PARA O HOMEM TEM UM SENTIDO INVENTADO POR ELES MESMO E DEUS USOU DESSAS PALAVRAS PARA QUE O HOMEM INTENDA
    QUE TUDO FOI ELE QUE CRIOU E É O UNICO QUE PODE DESFAZER QUALQUER COISA
    SE ELE QUISER FAZER SE DEUS QUISER QUE UM CIRCULO TORNE-SE QUADRADO ELE PODE DEUS NAO PECA MAIS SE ELE FAZER ALGO QUE PRA NOS É PECAR DE FORMA ALGUMA SERIA ERRADO POIS ELE E TODA VERDADE E QUE SEJA DEUS VERDADEIRO E TODO HOMEM MENTIROSO ROM 3:14

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: