Tomás responde: O pecado venial é disposição para o mortal?

Johann Heinrich Füssli, O pecado seguido da morte (1794-1796)

Parece que o pecado venial não é disposição para o mortal:

1. Com efeito, um contrário não dispõe para o outro. Ora, o pecado venial e mortal se distinguem como contrários, como foi dito (q.88, a.1). Logo, o pecado venial não é disposição para o mortal.

2. Além disso, um ato dispõe para algo semelhante a si mesmo na espécie; e por isso Aristóteles diz que “de atos semelhantes procedem disposições e habitus semelhantes”. Ora, o pecado mortal e venial distinguem-se pelo gênero ou pela espécie, como foi dito (a.2). Logo, o pecado venial não dispõe para o mortal.

3. Ademais, se o pecado se diz venial porque dispõe para o mortal, tudo o que dispõe para o pecado mortal é necessário que seja pecado venial. Ora, todas as boas obras dispõem-se para o pecado mortal, pois diz Agostinho que “a soberba arma ciladas às boas obras para que pereçam”. Logo, também as boas obras são pecados veniais, e isso é inconveniente.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz o livro do Eclesiástico: “Quem despreza as coisas pequenas pouco a pouco cairá” (19, 1). Mas, aquele que peca venialmente, parece desprezar as coisas pequenas. Logo, pouco a pouco se dispõe a cair totalmente no pecado mortal.

O que dispõe é de certa maneira causa. Por isso, havendo dois modos de causa, são dois os modos de disposição. Há uma causa que move diretamente para o efeito, como o que é quente, aquece. Há também uma causa que move indiretamente removendo o impedimento, por exemplo, diz-se que quem remove uma coluna remove a pedra sobreposta. De dois modos, portanto, o ato do pecado dispõe para algo. Primeiro, diretamente, e assim dispõe para um ato semelhante segundo a espécie. Desse modo, primariamente e por si, o pecado venial por gênero não dispõe para o mortal por gênero, porque distinguem-se pela espécie. Mas, por esse modo o pecado venial pode dispor, por uma certa consequência, para o pecado que é mortal da parte de quem age. Aumentada a disposição ou o hábito pelos atos dos pecados veniais, o gosto de pecar pode crescer tanto que quem peca estabelece o seu fim no pecado venial, porque o fim de quem tem um hábito, enquanto tal, é agir de acordo com o hábito. E assim, muitas vezes, ao pecar venialmente se disporá para o pecado mortal.

Segundo, removendo o impedimento. Desse modo, o pecado venial por gênero pode dispor para o pecado mortal por gênero. Quem peca venialmente por gênero, despreza alguma ordem, e pelo fato de acostumar sua vontade, nas coisas pequenas, a não submeter-se à ordem devida, dispõe-se a não se submeter à ordem do fim último, escolhendo o que é pecado mortal por gênero.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. O pecado venial e o mortal não se distinguem como contrários, como duas espécies de um só gênero, como foi dito, mas como o acidente se distingue da substância. Por isso, assim como o acidente pode ser disposição para a forma substancial, assim também o pecado venial para o mortal.

2. O pecado venial não é semelhante ao mortal na espécie. É-lhe semelhante no gênero, enquanto ambos implicam uma deficiência da ordem devida, embora cada um a seu modo, como foi dito.

3. A boa obra não é por si disposição para o pecado mortal. Pode, contudo, ser matéria ou ocasião do pecado mortal, acidentalmente. Mas, o pecado venial dispõe por si para o mortal, como foi dito.

Suma Teológica I-II, q.88, a.3

Santo Tomás de Aquino, Igreja, Teologia, Filosofia

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