Fragmentos: A lei da caridade

Manifestamente, todos não podem passar o seu tempo em trabalhosos estudos. Cristo nos deu uma lei cuja brevidade a torna acessível a todos, e assim ninguém tem o direito de ignorá-la: esta é a lei do amor divino, esta “palavra breve” que o Senhor declara ao universo.

Esta lei, reconheçamos, deve ser a regra de todos os atos humanos. A obra de arte obedece a cânones. Igualmente o ato humano, justo e virtuoso quando segue as normas da caridade, perde sua retidão e sua perfeição se ele vem a se afastar delas. Eis, pois, o princípio de todo bem: a lei do amor. Mas ela traz consigo muitas outras vantagens.

Em primeiro lugar ela é fonte de vida espiritual. É um fato natural e manifesto que o coração amante é habitado pelo que ele ama. Quem ama Deus o possui em si. “Quem permanece na caridade permanece em Deus e Deus nele” (Jo 4, 16). E tal é a natureza do amor que ele transforma no ser amado. Se amarmos coisas vis e passageiras nos tornaremos vis e instáveis, se amarmos Deus seremos totalmente divinos: “Quem se une ao Senhor é o mesmo espírito com ele” (1Cor 6, 17). Santo Agostinho assegura: “Deus é a vida da alma, como esta o é do corpo que ela anima” … Sem a caridade ela não age mais: “Quem não ama permanece na morte” (1Jo 3, 14). Se tiverdes todos os carismas do Espírito Santo, sem a caridade estareis mortos. Dom das línguas ou de ciência, dom da fé ou de profecia, todos os dons que quiserdes não farão de vós um vivente se não amardes. Esta morte, revestida de ouro e de pedrarias, é apenas um cadáver.

A caridade assegura a observância dos preceitos divinos: “O amor de Deus jamais está em repouso”, diz são Gregório; “se é verdadeiramente o amor, age e faz grandes coisas. Se não age, então não é a caridade”. O sinal manifesto da caridade é a prontidão para cumprir os preceitos divinos. Quem ama, vemos empreender grandes e difíceis trabalhos pelo amado. Nosso Senhor nos diz: “Se alguém me ama, observará minha palavra” (Jo 14, 23). Compreendamos bem: observar o mandamento do amor é cumprir toda a lei. Tratando-se de preceitos positivos, a caridade dá ao seu cumprimento a plenitude que não é outra que o amor com o qual se lhes obedece. Tratando-se de interdições, é ainda a caridade que obedece, porque “ela nada faz de inconveniente” (1Cor 13, 4).

A caridade é ainda uma proteção contra a adversidade. Quem a possui, nada pode lhe prejudicar. “Os amigos de Deus”, diz São Paulo, “tudo concorre para o bem deles” (Rm 8, 29). Contrariedade e dificuldades parecem cheias de doçura para aquele que ama. Tal é a experiência do amor.

A caridade, enfim, conduz à felicidade. Somente aos amigos de Deus a bem-aventurança eterna é prometida. Sem a caridade tudo o mais permanece insuficiente … E, se há entre os bem-aventurados alguma diferença, ela se deve ao grau de amor e não a outras virtudes. Muitos foram mais abstinentes que os apóstolos, mas estes ultrapassam todos em bem-aventurança pela iminência da caridade…

A caridade perdoa os pecados. Manifesta a experiência do amor: que aquele que me ofendeu venha a me amar do fundo do coração, o amor esquecerá as ofensas … O exemplo de Maria Madalena é claro: “Numerosos pecados lhe serão perdoados”, diz o Senhor. E por que? “Porque ela muito amou” (Lc 7, 47). Mas se dirá talvez: se a caridade basta, para que a penitência? Sabei que ninguém ama verdadeiramente se ele não se arrepende verdadeiramente…

A caridade ilumina o coração. “Somos cercados de trevas”, diz Jó (37, 19); não sabendo muitas vezes o que fazer, o que desejar: a caridade nos ensina tudo o que é necessário para a salvação, “sua unção vos ensinará tudo” (1Jo 2, 27). A razão disso é que onde está a caridade, aí também está o Espírito Santo que sabe tudo e nos conduz na via reta. … A caridade nos dá a alegria perfeita … ela dá também a paz perfeita…

É ela, enfim, que faz a grandeza do homem. … Do servo a caridade faz um amigo. Assim eis-nos não somente livres, mas tornados filhos, levando esse nome e o sendo de verdade. “O Espírito Santo dá ao nosso espírito o testemunho de que somos filhos de Deus. E se somos filhos somos igualmente herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo” (Rm 8, 17) …

Todos os dons descem do Pai das luzes, mas nenhum que ultrapasse a caridade. Pode-se ter outros dons sem a graça e sem o Espírito Santo, mas com a caridade tem-se necessariamente o Espírito Santo: “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5, 5).

De decem preceptis II-IV

Tomás de Aquino, Santo Tomás, Igreja

 

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One Response to Fragmentos: A lei da caridade

  1. Jorge says:

    Gostei muito do seu blog, apesar de ter o meu blog Almas Castelos, faço parte da Irmandade dos Blogs Catolicos e tomei a liberdade de inserir seu link na Irmandade para maior divulgação. Confira.
    Se puder visite tambem meu blog.
    Que Deus lhe abençoe

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