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A morte de São José

São José em agonia, igreja de São José, Rio de Janeiro, detalhe

São José em Agonia, Igreja de São José, Rio de Janeiro

No dia 19 de março comemora-se a festa de São José. A propósito, é oportuno reproduzir o Conto inspirado no conjunto escultural representando São José em agonia (foto), que se venera na igreja de São José, no centro do Rio de Janeiro, ao lado da Assembleia Legislativa.

São José chegara ao fim de seus dias. Ninguém como ele, entre tantos varões veneráveis que o precederam na santidade, fora incumbido de missão tão alta. Ele era o guarda e protetor do Filho de Deus feito homem e de sua Mãe santíssima.

Deus Pai o escolhera pessoalmente para esse mister elevado entre todos. E São José cumprira sua missão com tanta perfeição, tanta dignidade, tanta humildade junto a seus inefáveis protegidos, tanta força e astúcia contra os inimigos de Jesus, insuflados por toda parte pelo demônio, que esteve inteiramente à altura dos desígnios divinos.

Tanto quanto é possível a uma simples criatura, ele teve proporção com o sublime encargo de ser esposo da Santíssima Virgem e pai adotivo do Verbo de Deus encarnado.

Quanto isto significa!

Aproximava-se, porém, o tempo em que Jesus iria iniciar sua missão pública; a Virgem Maria não mais se encontrava na situação de uma jovem mãe que precisa de proteção diante de um mundo hostil e de línguas aleivosas.

A missão de São José chegara magnificamente a seu termo, e ele agonizava placidamente.

De um lado e de outro da cama, Nosso Senhor e Nossa Senhora, emocionados, o contemplavam com amor e gratidão, tristes porque ele partia, mas supremamente consolados por saber que o aguardava a melhor das recompensas celestes.

Do lado de fora, como quer uma antiga tradição, a morte impaciente mas temerosa não ousava entrar para recolher sua presa, pois esperava um sinal do Altíssimo, postado ao lado do moribundo.

São José tivera sempre tal veneração pela Virgem Santíssima, uma ideia tão elevada de seus méritos e virtudes, tal respeito por sua virgindade imaculada, que jamais ousara tocar sequer um fio de seu cabelo.

Agora, posto ele em seu leito de morte, a Santíssima Virgem, como recompensa por tanta dedicação lhe segura a mão, num supremo ato de reconhecimento e amizade.

Aquele toque quase divino comunicou a São José, ainda lúcido, tal alegria sobrenatural, que ele, varão castíssimo, sentiu sua alma invadida por uma graça de superior virginalidade, como se a inundasse um rio de águas puríssimas, cristalinas e benfazejas.

Essa sensação inefável –– até então para ele desconhecida, porque acima do que a natureza humana pode alcançar –– o elevou a um patamar de indizível união com Deus, inacessível à nossa compreensão atual, mas que um dia no Céu ele poderá nos contar.

Estava São José nesse verdadeiro êxtase, quando sentiu pousar sobre seu ombro direito a mão amiga do Filho de Deus. Incontinenti, viu-se submerso em Deus, e Deus nele.

Era a visão beatífica, não concedida até então a nenhum mortal, pois o acesso ao Céu fora fechado pelo pecado de Adão, e lhe era comunicada por antecipação, ainda que fugazmente.

São José notou em seguida que uma coorte de pessoas se aproximava dele. Reconheceu na primeira fila o patriarca Abraão e o profeta Moisés, seguidos de todos os justos que o haviam precedido com o sinal da fé.

Só então ele se deu conta de que não estava mais nesta Terra, e que adentrara os umbrais do Limbo.

Todos os habitantes daquele lugar o interrogavam atropeladamente: Quando se consumará a Redenção?

Quando nos será aberto o Paraíso celeste que tanto esperamos, alguns há milhares de anos?

Como é o Filho de Deus? E sua Mãe Santíssima, como é a sua presença?

São José a todos respondia com atenção e bondade, mas já começando a sentir uma saudade imensa daqueles dois seres perfeitíssimos, com quem conviveu tão proximamente nesta Terra de exílio.

Por Gregório Vivanco Lopes

Fonte: Contos e Lendas da Era Medieval

São Vicente de Paulo: “Dos padres depende o cristianismo”

Sao_Vicente_de_PauloSão Vicente de Paulo

Entre as finalidades marcadas aos seus filhos por Vicente de Paulo, havia ainda uma terceira. É claro que tinham de santificar-se a si mesmos e levar aos pobres a Palavra de Deus, mas importava também “ajudar os eclesiásticos a adquirir as virtudes necessárias ao seu estado”. Esta terceira intenção não era, na verdade, senão consequência das duas primeiras. Para evangelizar o povo, era necessário evangelizar os pastores, que muitas vezes estavam igualmente necessitados de ajuda.

Como é natural, os decretos do Concílio de Trento não tinham bastado para pôr termo de golpe à decadência do clero. Muitos esforços seriam ainda necessários para subir de novo a encosta pela qual a Igreja deslizava havia mais de dois séculos Demasiados padres, especialmente nos campos, viviam ao nível do seu povo, de um povo cuja moralidade, depois de tantos anos de convulsões políticas, religiosas e sociais, não era lá muito alta. A falar verdade, a maior parte do clero não escandalizava por maus costumes, mas os seus costumes nada tinham de sacerdotais. Muitos deles eram preguiçosos – “a preguiça é o vício do clero”, confessava Vicente de Paulo -, indiferentes a qualquer esforço pastoral. Dada a falta de formação, eram muito ignorantes. Vicente talvez se lembrasse de certo pároco que conhecera durante as suas primeiras Missões em terras dos Gondi: nem sequer sabia a fórmula da absolvição. E o absenteísmo era algo normal.

Essa decadência do clero atormentava a alma verdadeiramente sacerdotal de Monsieur Vincent. Tinha palavras terríveis para a situação que pudera conhecer pessoalmente: “Vivendo como hoje vivem na grande maioria, os padres são os maiores inimigos da Igreja de Deus”. E ainda: “A depravação do estado eclesiástico é a principal causa da ruína da Igreja”. Críticas severas, mas que, para esse coração generoso, apenas significavam uma exigência profunda. “Tais os padres, tais os povos”. Ou: “Se um bom padre pode fazer um grande bem, ai!, quanto mal não faz um mau padre!” E acrescentava esta pequena frase, em que já parece falar o santo Cura d’Ars: “Não há nada tão grande como um bom padre”. Leia mais deste post

Poema à Virgem, de José de Anchieta

Anchieta Poema Virgem

Quadro pintado pelo artista Benedito Calixto retrata o jesuíta José de Anchieta escrevendo o “Poema à Virgem” enquanto era refém de indígenas no litoral brasileiro

Minha alma, por que tu te abandonas ao profundo sono?

Por que no pesado sono, tão fundo ressonas?

Não te move à aflição dessa Mãe toda em pranto,

Que a morte tão cruel do FILHO chora tanto?

 

E cujas entranhas sofre e se consome de dor,

Ao ver, ali presente, as chagas que ELE padece?

Em qualquer parte que olha, vê JESUS,

Apresentando aos teus olhos cheios de sangue.

 

Olha como está prostrado diante da Face do PAI,

Todo o suor de sangue do seu corpo se esvai.

Olha a multidão se comporta como ELE se ladrão fosse,

Pisam-NO e amarram as mãos presas ao pescoço.

 

Olha, diante de Anás, como um cruel soldado

O esbofeteia forte, com punho bem cerrado.

Vê como diante Caifás, em humildes meneios,

Aguenta mil opróbrios, socos e escarros feios.

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São Domingos e o Terço

Lucas Valdés (1661-1725), A Virgem do Rosário, São Domingos e Santa Catarina de Sena, Museu de Sevilha

A oração mais forte para vencer os inimigos da fé

Por padre Hernán Jiménez, O.P.

ROMA, quinta-feira, 31 de maio de 2012 (ZENIT.org) – São Domingos promoveu e popularizou a oração do Terço, como louvor à Santíssima Virgem Maria. A oração do Terço é um convite para meditar os mistérios de Cristo, na companhia de Nossa Senhora, que foi associada de forma especial à Encarnação, Paixão e Ressurreição do seu Filho.

São Domingos, que era um homem de grande oração, dedicava muito tempo para o seu encontro pessoal com Jesus e estudava a sua pessoa com grande dedicação. Era dotado de uma sensibilidade espiritual sutil que não passou despercebida pelos seus irmãos. Na verdade, foram justamente eles que conservaram os seus “Modos de Oração”.

Segundo uma lenda, Nossa Senhora ensinou São Domingos a rezar o Terço, porque é uma oração muito forte para vencer os inimigos da fé. Graças a esta oração muitos pecadores se converteram e se convertem ainda hoje à fé católica e a recitam para interceder e obter tantas graças.

São Domingos nos lembra que no coração da Igreja deve arder o fogo missionário que empurra inexoravelmente a transmitir o Evangelho, onde ele seja necessário: Cristo é o bem mais precioso e valioso, que cada homem e mulher de todos os tempos tem o direito de conhecer e amar. Na iconografia, a São Domingos se associaram vários símbolos, entre os quais o Santo Terço que era uma grande ajuda na sua pregação.

Nossa Senhora gosta muito da oração do Terço porque é a oração dos simples, dos humildes, mas que pode Leia mais deste post

São Gregório de Nissa e o Caminho para o conhecimento de Deus

São Gregório de Nissa

São Tomás de Aquino, justamente considerado como um dos mais ferrenhos defensores das exigências da razão, escreveu: “Diz-se que no final do nosso conhecimento, Deus é conhecido como o Desconhecido, porque o nosso espírito chega ao extremo do seu conhecimento de Deus quando finalmente percebe que a sua essência está acima de tudo o que pode conhecer aqui embaixo”

Quarta Pregação de Quaresma do Padre Raniero Cantalamessa

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 30 de março de 2012 (ZENIT.org) – Publicamos o texto da quarta pregação de Quaresma do padre Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap., pregador da Casa Pontifícia, feita nesta manhã na Capela “Redemptoris Mater” no Vaticano.

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1. As duas dimensões da fé

Santo Agostinho fez, com relação à fé, uma distinção que continua clássica até hoje: a distinção entre as coisas que se creem e o ato de acreditar nelas. “Aliud sunt ea quae creduntur, aliud fides qua creduntur” (Agostinho, De Trinitate XIII,2,5), a fidea quae e afides qua, como se diz na teologia. A primeira é conhecida também como fé objetiva, a segunda fé subjetiva. Toda a reflexão cristã sobre a fé se desenvolve entre estes dois pólos.

Traça-se duas orientações. Por um lado temos aqueles que enfatizam a importância do intelecto no crer e portanto a fé objetiva, como assentimento às verdades reveladas, por outro lado aqueles que enfatizam a importância da vontade e do afeto, portanto a fé subjetiva, o crer em alguém (“crer em”), mais do que crer em algo (“crer que”); por um lado aqueles que enfatizam as razões da mente e por outro aqueles que, como Pascal, enfatizam “as razões do coração”.

Esta oscilação reaparece sob formas diferentes em cada curva da história da teologia: na Idade Média, na ênfase diferente entre a teologia de Santo Tomás e aquela de São Boaventura; no tempo da Reforma entre a fé confiante de Lutero e a fé católica informada pela caridade; mais tarde, entre a fé dentro dos limites da pura razão de Kant e a fé com base no sentimento de Schleiermacher e do romantismo em geral; mais perto de nós, entre a fé da teologia liberal e aquela existencial de Bultmann, praticamente desprovida de todo conteúdo objetivo.

A teologia católica contemporânea se esforça, como em outras vezes no passado, por encontrar o justo equilíbrio entre as duas dimensões da fé. Superamos a fase em que, por razões polêmicas contingentes, toda a atenção nos manuais de teologia tinha acabado concentrando-se na fé objetiva (fides quae), ou seja, sobre o conjunto das verdades que devem ser cridas. “O ato de fé – lê-se num respeitável dicionário crítico de teologia – na corrente dominante de todas as confissões cristãs, é hoje a descoberta de um Tu divino. A apologética da prova tende a colocar-se detrás de uma pedagogia daexperiência espiritual que tende a começar uma experiência cristã, da qual se reconhece a possibilidade inscrita a priori em cada ser humano” (J.-Y. Lacoste et N. Lossky, “Foi“ , no Dictionnaire critique de Théologie, Presses Universitaires de France 1998, p.479, tradução nossa). Em outras palavras, mais que frizar a força da argumentação externa à pessoa, deve-se buscar ajudá-la a encontrar em si mesma a confirmação da fé, tentando despertar aquela centelha que existe no “coração inquieto” de cada homem pelo fato de ser criado “à imagem de Deus”.

Fiz essa premissa porque mais uma vez ela nos permite ver a contribuição que os Padres podem dar ao nosso esforço para dar de novo à nossa fé da Igreja o seu brilho e o seu poder de ataque. O maior entre eles são modelos insuperáveis de uma fé que é ao mesmo tempo objetiva e subjetiva, preocupada, isto é, pelo conteúdo da fé, ou seja, pela ortodoxia, mas ao mesmo tempo, acreditada e vivida com todo o ardor do coração. O Apóstolo tinha proclamado: “corde creditur” (Rm 10,10), com o coração se crê, e sabemos que com a palavra coração, a Bíblia entende as duas dimensões espirituais do homem, a sua inteligência e a sua vontade, o lugar simbólico do conhecimento e do amor. Neste sentido, os Padres são um elo indispensável para encontrar de novo a fé como se entende na Escritura.

2. “Creio em um só Deus”

Nesta última meditação nos aproximamos dos Padres para renovar a nossa fé no objeto principal da mesma, naquele que está comumente entendido pela palavra “acreditar” e segundo o qual separamos as pessoas entre crentes e não crentes: a fé na existência de Deus. Refletimos, nas meditações passadas, na divindade de Cristo, no Espírito Santo e na Trindade. Mas a fé no Deus Trino é o estágio final da fé, o “plus” sobre Deus revelado por Cristo. Para alcançar esta plenitude é preciso primeiro acreditar em Leia mais deste post

Trento, Pio V e a Suma de Santo Tomás

El Greco (1541-1614), Pio V

Um vento de austeridade soprou sobre a Igreja, a começar por Roma. A polícia pontifícia fez extensas rusgas, de que foram vítimas as raparigas de vida fácil; as corridas de cavalos, à moda do Palio de Siena, que se realizavam tradicionalmente diante da Basílica de São Pedro, foram relegadas para um bairro periférico e acabaram por cair em desuso; o intransigente pontífice desejaria suprimir o carnaval romano e, não podendo consegui-lo – teria desencadeado uma revolução -, fomentou a devoção das Quarenta Horas para desagravar pelas desordens desses dias, e ele próprio se recolheu em Santa Sabina para ali fazer penitência. Um dos seus gestos mais espetaculares e também mais discutidos foi mandar retirar dos palácios pontifícios todos os nus pagãos que pôde, gesto de que a cidade de Roma se aproveitou para constituir o seu museu do Capitólio.

Paralelamente a essa obra coercitiva e punitiva, Pio V empreendeu outra, de caráter mais construtivo. Obedecendo também nesta matéria aos decretos de Trento, considerou sua obrigação levar a bom termo e promulgar os livros que o Concílio achara indispensáveis. Não bastava eliminar as obras nocivas designadas pelo Index – corrigido -, de pois de a Congregação do mesmo nome as ter investigado. Era necessário dar aos fiéis o bom alimento de que as suas almas tinham fome. Com esse propósito, editaram-se sucessivamente quatro publicações que viriam a ser fundamentais: o Catecismo, o Breviário, o Missal e a Suma de São Tomás de Aquino.

Uma comissão presidida pelo cardeal Seripanto começara a redigir o Catecismo durante as últimas semanas do Concílio, e, após a dissolução deste, o cardeal Borromeu continuara o trabalho, ajudado por três teólogos dominicanos. Só apareceu em setembro de 1566, depois de cinco anos de esforços tenazes: mas que obra! Tudo o que um católico podia e devia crer – sobre o Credo, sobre os sacramentos, sobre a moral cristã e sobre a vida espiritual – estava ali explicitado em termos claros e precisos. Traduzido logo em todas as línguas, difundido por todo o mundo, esse livro-suma ia ser a Leia mais deste post

Chestertoninas: Joana d’Arc, Tolstoi, Nietzsche e a vaca

“E quando examino os inteligentes, admiráveis, enfadonhos e inúteis livros modernos, o título de um deles me desperta a atenção. Chama-se “Jeanne d’Arc“, de Anatole France. apenas lancei-lhe um olhar, mas foi o suficiente para que me viesse à mente a “Vie de Jésus“, de Renan. Tem o mesmo estranho método do cético reverente. Lança o descrédito sobre histórias sobrenaturais que não têm fundamento algum. Pelo fato de não podermos acreditar no que um santo fez, havemos de ter a pretensão de saber, exatamente, aquilo que ele sentiu. Não menciono, porém, qualquer destes livros com o objetivo de criticá-los, mas, simplesmente, porque a acidental combinação de nomes evocou em mim duas impressionantes imagens de saúde moral, que fizeram voar, em estilhaços, todos os livros que se encontravam diante de mim. Joana d’Arc nunca ficou imobilizada diante de uma encruzilhada, quer rejeitando todos os caminhos, como Tolstoi, quer aceitando-os todos, como Nietzsche; soube escolher um caminho e percorreu-o como um raio. E, quando me pus a meditar sobre ela, verifiquei que reunia em si tudo o que era verdadeiro, tanto em Tolstoi como em Nietzsche, e até aquilo que em qualquer deles era tolerável. Pensei em tudo o que se pode considerar nobre em Tostoi: o prazer das coisas simples, especialmente da piedade humilde, as atualidades da terra, a reverência para com os pobres, a dignidade do respeito. Joana d’Arc tinha todas estas coisas, e ademais, sofria a pobreza ao mesmo tempo em que a admirava, enquanto que Tolstoi era apenas um típico aristocrata que procurava adivinhar o segredo da mesma pobreza. Pensei, depois, em tudo o que há de heróico, de orgulhoso e de patético no nobre Nietzsche, bem como na sua rebeldia contra o vazio e a timidez dos nossos dias. Pensei no seu clamor em prol do equilíbrio estático do perigo, no seu desejo ardente da corrida dos grandes cavalos e no seu clamor às armas. Bem, Joana d’Arc tinha tudo isso, com a diferença de que não se limitou a admirar a luta, mas soube, também, lutar. Sabemos que ela não tinha medo de um exército, enquanto que Nietzsche, ao que parece, tinha medo de uma vaca.”

G. K. Chesterton, Ortodoxia

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Filosofia

Tomás responde: A morte pertence à razão de martírio?

Giorgio Vasari (1511-1574), O Martírio de Estêvão (1565)

Parece que a morte não pertence à razão de martírio:

1. Com efeito, Jerônimo escreve: “Direi com muita propriedade que a mãe de Deus é virgem e mártir, embora tenha terminado seus dias na paz”. E Gregório: “Embora não ofereça muitas oportunidades de perseguições, a paz tem também seu martírio, porque embora não submetamos nossos pescoços ao grilhão, contudo, trucidamos na mente os desejos carnais com a espada espiritual. Logo, pode haver martírio sem sofrer a morte.

2. Ademais, lemos que algumas mulheres, para conservar a integridade do corpo, louvavelmente, desprezaram a própria vida; assim, parece que a integridade corporal é preferida à vida corporal. Ora, às vezes, a integridade do corpo é subtraída, ou se ameaça subtrair, pela confissão da fé cristã. Como se vê no caso de Inez e de Luzia. Logo, parece que se deveria falar de martírio quando uma mulher perde a integridade de seu corpo pela fé em Cristo, mais do que quando perde também a própria vida. Daí esta palavra de Luzia: “se tu me fazes violência contra a minha vontade, minha castidade vai me valer uma coroa dupla”.

3. Além disso, o martírio é um ato da fortaleza. Como diz Agostinho, cabe a fortaleza não apenas não ter medo da morte, como também não ter medo de nenhuma outra adversidade. Ora, existem muitas outras adversidades, afora a morte, que podem suportar pela fé no Cristo: a prisão, o exílio, espoliação dos bens, como mostra a Carta aos Hebreus (10, 34). É assim que a Igreja celebra o martírio do Papa Marcelo, que no entanto morreu na cadeia. Logo, não é necessário sofrer a pena de morte para ser mártir.

4. Ademais, o martírio é um ato meritório. Ora, não existe ato meritório após a morte. Logo, este ato precede a morte. E como tal não pertence à razão do martírio.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, Máximo diz, em um panegírico de mártir: “Ele é vencedor, morrendo pela fé e seria vencido se sem fé continuasse vivendo”.

Chama-se de mártir aquele que é como que uma testemunha da fé cristã que nos propõe desprezar o mundo visível pelas realidades invisíveis, segundo a Carta aos Hebreu (11). Pertence, pois, ao martírio que o homem dê testemunho de sua fé, mostrando por fatos que despreza as coisas presentes para alcançar os bens futuros invisíveis. Ora, enquanto o homem conserva a vida do corpo, não mostra ainda, pelos fatos, que despreza todas as realidades corporais, pois os homens costumam, para conservarem a vida, menosprezar os parentes e as riquezas, e até mesmo a suportar os sofrimentos físicos. De onde aquela insinuação de Satanás contra Jó: “Pele por pele! E tudo aquilo que o homem possui, ele o dará por sua alma”, quer dizer, por sua vida corporal. Portanto, para a Leia mais deste post

Fragmentos: A lei do Espírito

“Toda coisa parece ser aquilo que nela é principal”, diz o Filósofo no livro IX da Ética. Aquilo que é principal na lei do Novo Testamento, e em que toda a virtude dela consiste, é a graça do Espírito Santo, que é dada pela fé em Cristo. E assim principalmente a lei nova é a própria graça do Espírito Santo, que é dada aos fiéis de Cristo. … O que faz dizer Santo Agostinho em sua obra Sobre o Espírito e a Letra … (XXI, 36): “O que são as leis de Deus escritas pelo mesmo Deus nos corações senão a própria presença do Espírito Santo?” … Deve-se, pois, dizer que principalmente a lei nova é lei infusa, mas que, secundariamente, ela é lei escrita.

Suma Teológica I-II, q.106, a.1

Deve-se saber que se apoiando nestas palavras: “Onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade”, assim como nas palavras seguintes: “Para o justo não há lei” (1Tm 1, 9), alguns ensinaram falsamente que os homens espirituais não estão submetidos aos preceitos da lei divina. O que é falso, porque os mandamentos de Deus são a regra do agir humano. …

O que foi dito do “justo para o qual não há lei”, deve-se compreender assim: não foi para os justos, que são movidos do interior às coisas que a lei de Deus prescreve, que a lei foi promulgada, mas para os injustos, sem que por essa razão os justos não sejam obrigados à lei.

Igualmente, “Onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” deve-se compreender assim: é livre aquele que dispõe de si mesmo (líber est qui est causa sui), enquanto o servo (servus) depende de seu senhor. Aquele, pois, que age por si mesmo age livremente, mas aquele que age sob o impulso de outro não age livremente. Assim, aquele que evita o mal não porque é mal, mas por causa do mandamento de Deus, este não é Leia mais deste post

Tomás responde: O martírio é um ato de virtude?

Henryk Siemieradzki (1843-1902): Mulher cristã é martirizada sob Nero, numa recriação do mito de Dirce (1897), Museu Nacional de Varsóvia

Parece que o martírio não é um ato de virtude:

1. Com efeito, todo ato de virtude é um ato voluntário. Ora, o martírio nem sempre é voluntário, como se vê pelos santos inocentes assassinados por causa do Cristo, a respeito dos quais Hilário escreve: “Foram levados ao ápice das alegrias eternas pela glória do martírio”. Logo, o martírio não é um ato de virtude.

2. Além disso, nenhum ilícito pode ser ato de virtude. Ora, matar a si próprio é ilícito. Entretanto, alguns martírios foram consumados desta maneira, conforme o relato de Agostinho: “No tempo das perseguições, algumas santas mulheres, para evitar os perseguidores de seu pudor, se lançaram ao rio e assim morreram; e seu martírio é celebrado na Igreja Católica com grande veneração”. Logo, o martírio não é um ato de virtude.

3. Ademais, é louvável que alguém se ofereça espontaneamente para cumprir um ato de virtude. Ora, não é louvável que alguém se apresente para o martírio, pois isto pode parecer presunçoso e perigoso. Logo, o martírio não é um ato de virtude.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, somente um ato de virtude pode merecer a recompensa da bem-aventurança eterna. Ora, esta recompensa se deve ao martírio, conforme a palavra do Evangelho: “Felizes aqueles que sofrem perseguição pelo amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus (Mt 5, 10). Logo, o martírio é um ato de virtude.

Cabe à virtude conservar alguém no bem da razão. Mas o bem da razão consiste na verdade, como em seu objeto próprio; e na justiça, como sendo seu efeito próprio. Ora, pertence à razão do martírio que o mártir se mantenha firme na verdade e na justiça contra os assaltos dos perseguidores. E fica assim claro que o martírio é um ato de virtude.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. Alguns autores sustentaram que o uso do livre-arbítrio se tinha desenvolvido milagrosamente entre os santos Inocentes, de tal maneira que eles teriam sofrido o martírio voluntariamente. Mas, como isso não é confirmado por nenhum texto da Escritura Sagrada, é melhor dizer que a glória do martírio, que outros mereceram por sua própria vontade, aquelas crianças assassinadas conseguiram pela graça de Deus. Porque a efusão de sangue pelo Cristo faz as vezes do batismo. Portanto, assim como, para as crianças batizadas, o mérito de Cristo age, pelo batismo, para obter a glória, assim também, no caso das Leia mais deste post

Tomás responde: Paulo, quando foi arrebatado, viu a essência de Deus?

Caravaggio, Conversão de São Paulo a caminho de Damasco (1600-1601)

Parece que Paulo, quando foi arrebatado, não viu a essência de Deus:

1. Com efeito, assim como se lê que Paulo “foi arrebatado até o terceiro céu”, lê-se também que Pedro “caiu em êxtase”. Ora, Pedro, nesse êxtase, não viu a essência de Deus, mas uma certa visão imaginária. Logo, parece que tampouco Paulo viu a essência divina.

2. Além disso, a visão de Deus torna a pessoa bem-aventurada. Ora, Paulo, durante seu arrebatamento não foi bem-aventurado; do contrário, não teria jamais voltado às misérias desta vida, e seu corpo teria sido glorificado pela redundância da glória da alma, como sucederá com os santos depois da ressurreição, o que evidentemente é falso. Logo, Paulo, quando foi arrebatado, não viu a essência de Deus.

3. Ademais, a fé e a esperança não podem coexistir com a visão da essência divina, como diz a primeira Carta aos Coríntios (13, 8). Ora, Paulo, naquele estado, teve a fé e a esperança. Logo, não viu a essência de Deus.

4. Ademais, segundo Agostinho, na visão imaginária se vêem certas “imagens dos corpos”. Ora, durante o arrebatamento, Paulo parece ter visto certas imagens, a saber, do “terceiro céu” e do “paraíso”, como ele narra. Logo, parece que foi arrebatado antes a uma visão imaginária que à visão da essência divina.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, Agostinho afirma que “a própria essência de Deus pôde ser vista por certos homens durante esta vida; como, por exemplo, Moisés e Paulo, que, durante o arrebatamento ‘ouviu palavras inefáveis que ao homem não é permitido pronunciar’”.

Alguns disseram que Paulo, durante o seu arrebatamento, não viu a própria essência de Deus, mas um certo reflexo da sua claridade. Contudo, Agostinho professa manifestamente a opinião contrária, não só no livro Da Visão de Deus, como também em seu Comentário literal sobre o Gênese. E essa opinião se encontra igualmente na Glosa sobre a segunda Carta aos Coríntios. E as próprias palavras do Apóstolo o declaram, pois diz ter ouvido “palavras inefáveis que ao homem não é permitido pronunciar”. Ora, o mesmo parece se dar com a visão dos bem-aventurados, que excede a condição da vida presente, segundo diz o livro de Isaías: “O olho não viu, exceto tu, ó Deus, o que tens preparado para os que te amam”. Por isso, parece mais conveniente dizer que Leia mais deste post

Fragmentos: A lei da caridade

Manifestamente, todos não podem passar o seu tempo em trabalhosos estudos. Cristo nos deu uma lei cuja brevidade a torna acessível a todos, e assim ninguém tem o direito de ignorá-la: esta é a lei do amor divino, esta “palavra breve” que o Senhor declara ao universo.

Esta lei, reconheçamos, deve ser a regra de todos os atos humanos. A obra de arte obedece a cânones. Igualmente o ato humano, justo e virtuoso quando segue as normas da caridade, perde sua retidão e sua perfeição se ele vem a se afastar delas. Eis, pois, o princípio de todo bem: a lei do amor. Mas ela traz consigo muitas outras vantagens.

Em primeiro lugar ela é fonte de vida espiritual. É um fato natural e manifesto que o coração amante é habitado pelo que ele ama. Quem ama Deus o possui em si. “Quem permanece na caridade permanece em Deus e Deus nele” (Jo 4, 16). E tal é a natureza do amor que ele transforma no ser amado. Se amarmos coisas vis e passageiras nos tornaremos vis e instáveis, se amarmos Deus seremos totalmente divinos: “Quem se une ao Senhor é o mesmo espírito com ele” (1Cor 6, 17). Santo Agostinho assegura: “Deus é a vida da alma, como esta o é do corpo que ela anima” … Sem a caridade ela não age mais: “Quem não ama permanece na morte” (1Jo 3, 14). Se tiverdes todos os carismas do Espírito Santo, sem a caridade estareis Leia mais deste post

Retrato de Tomás, por Chesterton

Rafael, Disputa do SS. Sacramento (leia texto abaixo)

A aparência ou presença corpórea de Santo Tomás de Aquino é, em verdade, mais fácil de reconstituir que a de muitos que viveram antes da época dos retratos a óleo. Tem-se dito que no seu ser físico ou aspecto externo pouco havia de italiano; mas isto é, na melhor das hipóteses, consoante imagino, uma comparação inconsciente entre Santo Tomás e São Francisco, e, na pior, somente uma comparação entre ele e a lenda apaixonada de vivazes tocadores de realejo e de sorveteiros incendiários. Nem todos os italianos são vivazes tocadores de realejo, e muito poucos são como São Francisco. Uma nação jamais é um tipo, mas quase sempre é uma mescla de dois ou três tipos mais ou menos característicos.

Santo Tomás foi de certo tipo que não é tão comum na Itália como em italianos pouco comuns. A sua corpulência facilitou o considerarem-no humoristicamente um tipo desses barris ambulantes, freqüentes nas comédias de muitas nações. Ele próprio divertia-se com isso. Talvez seja ele, e não nenhum partidário irritado dos partidos agostiniano ou árabe, o responsável pelo sublime exagero de ser preciso cortar um pedaço da mesa, em forma de meia-lua, para que ele pudesse sentar-se a ela. É certo que foi um exagero; é certo que a sua estatura chamava mais a atenção que a sua gordura; mas, acima de tudo, é certo que aquela cabeça era bastante impressionante para dominar o corpo, e de tipo bem marcado e inconfundível, a julgar pelos retratos tradicionais e pelas descrições da sua pessoa. Era desse tipo de cabeças de largas maxilas e queixo pesado, de nariz romano e de grande fronte algo calva, que, apesar da plenitude, dá também, aqui e ali, uma curiosa impressão de concavidades como cavernas do pensamento.

Napoleão tinha uma cabeça como esta sobre um corpo pequeno. Mussolini tem-na hoje em cima de um corpo muito maior, mas igualmente ativo. Pode-se ver nos bustos de muitos imperadores romanos e, ocasionalmente, sobre o pobre colarinho de algum criado italiano, mas que é geralmente chefe de criados. O tipo é tão inconfundível, que não posso deixar de pensar que o vilão mais sagaz de novela ligeira, no sensacional romance vitoriano a Mulher de Branco, foi em verdade copiado por Wilkie Collins de um autêntico conde italiano; está em contraste total com o vilão convencional, magro, moreno e gesticulador que os vitorianos apresentavam geralmente como conde italiano. Alguns hão de lembrar-se (creio eu) de que o conde Fosco, cavalheiro calmo, corpulento e colossal, tinha a cabeça precisamente como um busto de Napoleão de proporções heróicas. Seria um vilão melodramático, mas era um italiano razoavelmente convincente… dessa espécie. Se lhe relembrarmos os modos calmos e o excelente senso comum das palavras e ações externas de todos os dias, teremos talvez uma imagem simplesmente material do tipo de Tomás de Aquino; com um leve esforço de imaginação, ter-se-á o conde Fosco transformado de repente em santo.

Os retratos de Santo Tomás, apesar de muitos terem sido pintados muito após a morte, são todos evidentemente retratos do mesmo homem. Aparece erguendo altivamente a cabeça napoleônica sobre o grande vulto escuro do corpo, como na Disputa do SS. Sacramento de Rafael (ver imagem no início do artigo). Certo retrato de Guirlandaio (ver imagem abaixo) realça algo que revela, especialmente, o que podemos chamar a sua esquecida qualidade italiana, e também pontos que são muito importantes no místico e no filósofo.

Domenico Ghirlandaio, Maria e o Menino entre anjos e santos (1486)

Afirma-se universalmente que Tomás de Aquino era o que comumente se chama um homem distraído, e este tipo tem sido muitas vezes representado na pintura, séria ou humorística, mas quase sempre em um dentre dois ou três modos convencionais. Às vezes a expressão dos olhos é vaga, como se a abstração significasse, em verdade, permanente distração. Outras vezes se representa, mais respeitosamente, com expressão de profunda ansiedade, como se estivesse desejando ardentemente algo muito afastado, que não pode ver mas somente desejar, como miragem indistinta.

Reparem nos olhos do retrato de Santo Tomás por Ghirlandaio (acima) e verão a profunda diferença. Enquanto os olhos estão Leia mais deste post

Tomás responde: As almas separadas conhecem o que se faz aqui no mundo?

Michelangelo Buonarroti, O Último Julgamento (entre 1537 e 1541), Capela Sistina

Parece que as almas separadas conhecem o que se faz aqui no mundo:

1. Com efeito, se as almas separadas não conhecessem o que aqui acontece, não se ocupariam com isso. Ora, elas se ocupam, segundo consta no Evangelho de Lucas: “Tenho cinco irmãos, que se lhes transmitam essas coisas, a fim de que não venham também eles a cair neste lugar de suplícios” (16, 28). Logo, as almas separadas conhecem o que aqui acontece.

2. Além disso, acontece freqüentemente que os mortos aparecem aos vivos, quer no sono quer no estado de vigília, e os advertem a respeito do que aqui acontece. Assim Samuel apareceu a Saul. Ora, isso seria impossível se não conhecessem o que aqui acontece. Logo, conhecem o que aqui acontece.

3. Ademais, as almas separadas conhecem o que acontece entre elas. Se, portanto, não conhecessem o que acontece entre nós, é que a distância local as impediria no conhecimento; ora, isso foi anteriormente negado (artigo precedente).

EM SENTIDO CONTRÁRIO, está dito no livro de Jó: “Que seus filhos estejam na honra ou no rebaixamento, ele não tomará conhecimento de nada” (14, 21).

Por conhecimento natural, do qual agora se trata, as almas dos mortos não sabem o que aqui acontece. E a razão disso pode ser encontrada no que foi dito: a alma separada conhece os singulares ou porque está, de certo modo, determinada em relação a eles, ou por causa de um vestígio deixado por um conhecimento ou uma afeição anterior, ou então por uma disposição divina. Ora, as almas dos mortos, segundo o plano divino, e segundo sua maneira de existir, são separadas da sociedade dos vivos e incorporadas à sociedade das substâncias espirituais que estão separadas do corpo. Por isso ignoram o que acontece entre nós. Gregório dá uma explicação: “Os mortos não sabem como está organizada a vida daqueles que, depois deles, vivem na carne: a vida do espírito é bem diferente da vida da carne. Assim como as coisas corpóreas e as incorpóreas diferem em gênero, também se distinguem pelo conhecimento”. A Agostinho parece exprimir a mesma idéia quando escreve: “As almas dos mortos não estão presentes aos acontecimentos dos vivos”.

Se, porém, se fala das almas dos bem-aventurados, parece que Gregório e Agostinho sustentam opiniões diferentes. Gregório acrescenta: “Não se deve no entanto pensar Leia mais deste post

Catequese do Papa: São Tomás, mestre de vida também agora

Francisco Bayeu y Subías (1734-1795), Santo Tomás de Aquino vencendo aos hereges

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje eu gostaria de completar, com uma terceira parte, minhas catequeses sobre São Tomás de Aquino. Apesar dos mais de 700 anos de distância da sua morte, podemos aprender muito dele; isso foi recordado também pelo meu predecessor, o Papa Paulo VI, quem, em um discurso pronunciado em Fossanova, no dia 14 de setembro de 1974, por ocasião do 7º centenário da morte de São Tomás, perguntava-se: “Mestre Tomás, o que você pode nos ensinar?”. E respondia assim: “A confiança na verdade do pensamento religioso católico, como ele defendeu, expôs, abriu à capacidade cognoscitiva da mente humana” (Ensinamentos de Paulo VI, XII[1974], p. 833-834). E, no mesmo dia, em Aquino, referindo-se sempre a São Tomás, afirmava: “Todos nós, que somos filhos fiéis da Igreja, podemos e devemos, ao menos em alguma medida, ser seus discípulos” (ibid., p. 836).

Participemos, também nós, da escola da São Tomás e da sua obra prima, a Summa Theologiae. Esta ficou incompleta e, contudo, é uma obra monumental: contém 512 questões e 2669 artigos. Trata-se de um raciocínio compacto, no qual a aplicação da inteligência humana aos mistérios da fé procede com clareza e profundidade, concatenando perguntas e respostas, nas quais São Tomás aprofunda o ensinamento que vem da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja, sobretudo de Santo Agostinho. Nesta reflexão, no encontro com verdadeiras perguntas da sua época, que frequentemente são perguntas nossas também, São Tomás, utilizando o método e o pensamento dos Leia mais deste post

Tomás responde: Os santos que estão no céu oram por nós?

Fra Angelico, 1428-30, Galeria Nacional, Londres (clique para ampliar)

Parece que os santos que estão no céu não oram por nós:

1. Com efeito, o ato é mais meritório para quem o pratica do que para os outros. Ora, os santos que estão no céu não merecem para si, nem mesmo para si oram, porque já atingiram o termo. Logo, também não oram por nós.

2. Além disso, a vontade dos anjos está perfeitamente identificada com a de Deus, e eles não querem senão o que Ele quer. Ora, a vontade de Deus é sempre cumprida. Logo, seria inútil os santos orarem por nós.

3. Ademais, assim como os santos, que estão no céu, são superiores a nós, também o são as almas do purgatório, pois não podem mais pecar. Ora, as almas do purgatório não oram por elas mesmas, nós é que rezamos por elas. Logo, nem os santos que estão no céu oram por nós.

4. Ademais, se os santos do céu orassem por nós, a oração dos mais santos seria também mais eficaz. Logo, não convém pedir a intercessão dos menos santos, mas, somente a dos mais santos.

5. Ademais, a alma de Pedro não é Pedro. Portanto, se as almas dos santos orassem por nós enquanto estão separadas dos corpos, não deveríamos pedir a Pedro para orar por nós, mas à sua alma. Ora, a Igreja faz o contrário. Logo, os santos, ao menos antes da ressurreição, não oram por nós.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, lê-se nas Escrituras: “Este é Jeremias, o profeta de Deus, que muito ora pelo povo e por toda a cidade santa” (2Mac 15, 14).

RESPONDO. Escreve Jerônimo: “Errou Vigilâncio quando escreveu que enquanto na terra vivemos, podemos orar muito uns pelos outros. Após a morte, porém, não será ouvida a oração pelos outros de ninguém, como não foram, sobretudo as dos mártires, que pediam a vingança do seu sangue”. Mas isso é falso. Quanto mais perfeitos em caridade são os santos nos céus, tanto mais oram pelos que estão na terra que podem ser auxiliados pela oração. Ademais, quanto mais estão unidos a Deus, tanto mais Leia mais deste post

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