Jesus, o amigo de Tomás

Santo Tomás de Aquino, Brooklyn Museum, entre 1700-1799

Ninguém supõe que Tomás de Aquino, quando Deus lhe deu a escolher dentre todos os seus dons, fosse pedir um milhar de libras, a coroa da Sicília ou um vinho raro da Grécia. Mas podia pedir coisas que efetivamente desejava, pois que era homem que podia ter aspirações como, por exemplo, a do manuscrito perdido de São João Crisóstomo. Podia pedir a solução de qualquer dificuldade antiga, ou o segredo de uma ciência nova, ou uma chispa do inconcebível espírito intuitivo dos anjos, ou uma das mil coisas que teria satisfeito realmente o seu vasto apetite viril, tão vasto como a própria vastidão e variedade do universo.

A questão é que, para ele, quando a voz falou entre os braços abertos de Jesus crucificado, estes braços estavam em verdade amplamente abertos e abrindo gloriosissimamente as portas de todos os mundos. Eram braços que apontavam para o oriente e o ocidente, para os extremos da terra, e para os próprios extremos da existência. Estavam em verdade abertos num gesto de onipotente generosidade: o próprio Criador a oferecer a própria criação, com todo o infinito mistério dos seres diversos e do coro triunfal das criaturas. É este o fundo esplendoroso da multiplicidade do ser, que dá força particular, e até uma espécie de surpresa, à resposta de Santo Tomás, quando levantou a cabeça finalmente e disse, com a audácia quase blasfema que forma uma só coisa com a humildade da sua religião:

– Quero-Te a Ti!

Para acrescentar a esta história a ironia final e decisiva, tão singularmente cristã para os que a podem em verdade compreender, alguns julgam que a audácia se suaviza insistindo em que ele disse: “Só a Ti”.

Destes milagres, em sentido rigoroso, não há tantos como na vida de santos menos imediatamente influentes; mas são sem dúvida muito bem autenticados por ser ele, Santo Tomás, um conhecido homem público de posição eminente e, o que lhe é ainda mais favorável, por ter tido alguns inimigos altamente considerados, aos quais se poderia confiar a comprovação dos seus prodígios. Há ao menos um milagre de cura: o de uma mulher que lhe tocou o hábito; e vários incidentes que podemos considerar variantes da história do crucifixo de Nápoles. Entre eles há um de maior importância, por nos levar ao lado da sua vida religiosa mais íntima e pessoal, ou até emocional, que se exprimiu em poesia.

Quando estava em Paris, os outros doutores da Sorbonne lhe apresentaram um problema a respeito da natureza da transformação mística dos elementos no Santíssimo Sacramento, e ele escreveu logo, como era costume seu, uma demonstração muito cuidada e lúcida, com a sua opinião. Escusado é dizer que sentiu, com simplicidade de coração, a pesada responsabilidade e a gravidade de tão judicial decisão, e parece, naturalmente, ter-se preocupado muito mais do que costumava com a sua obra. Buscou luz na oração e intercessão mais prolongada que de costume, e por fim, com um desses poucos mas impressionantes gestos corporais que caracterizam as ocasiões importantes na sua vida, depôs a tese aos pés do crucifixo do altar, e ali a deixou ficar como à espera de julgamento. Depois se virou, desceu os degraus e ficou submerso uma vez mais em oração; diz-se, no entanto, que os demais frades estavam à espreita, e que tinham boas razões para o fazer, pois declararam mais tarde que viram, com os seus olhos mortais, a figura de Cristo descer da cruz e deter-se junto do manuscrito, dizendo:

– Tomás, escreveste bem a respeito do Meu Corpo!

G. K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino, LTr

 

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One Response to Jesus, o amigo de Tomás

  1. Gláucia says:

    muito bom adorei este fragmento

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