Plus movent exempla quam verba

Palma il Giovane (Jacopo Palma)(1548-1628), Lava-Pés

O fato de que Cristo representa o modelo absoluto da vida cristã basta evidentemente para explicar a insistência de Tomás nesse ponto. Compreenderemos melhor suas razões se voltarmos à leitura de sua meditação sobre o lava-pés. Como um verdadeiro mestre espiritual, Tomás não teme insistir no aspecto prático:

[Jesus Cristo] disse: Fiz isso para vos dar o exemplo, e por isso deveis lavar-vos os pés uns aos outros, porque era isso que eu tinha em vista agindo assim. Com efeito, no agir dos homens, os exemplos são mais eficazes que as palavras (plus movent exempla quam verba). O homem age e escolhe segundo o que lhe parece bom; por isso, pelo fato mesmo de que ele escolheu isso ou aquilo mostra que isso lhe parece bom, muito antes de dizer que era preciso escolhê-lo. Segue-se daí que se diz uma coisa e se faz outra. O que se faz persuade os outros muito mais do que aquilo que se diz. Por isso é da mais alta necessidade unir o exemplo à palavra.

Mas o exemplo de um homem, simplesmente homem, não bastava para a imitação de todo o gênero humano, seja porque a razão humana é incapaz de conceber o todo [da v ida ou do bem], seja porque se engana na consideração das coisas em si mesmas. Por isso nos foi dado o exemplo do Filho de Deus que não se pode enganar e que é mais do que suficiente em todos os domínios. Se santo Agostinho assegura que “o orgulho não pode ser curado a não ser pela humildade divina”, acontece o mesmo com a avareza e os outros vícios.

Refletindo bem sobre isso, era sumamente “conveniente” que o Filho de Deus nos fosse dado como exemplo de todas as virtudes. Ele é, com efeito, a Arte do Pai e portanto, assim como foi o exemplar primeiro da criação, é também o exemplar primeiro da santidade (1Pd 2, 21): “Cristo sofreu por vós, deixando-vos um exemplo a fim de que caminheis em seus vestígios” … .

 

Plus movent exempla quam verba. O tom foi dado. Essa fórmula da Lectura super Ioannem, Tomás a conhece desde muito tempo, uma vez que se pode lê-la entre os motivos da encarnação recolhidos em Contra gentiles e ele a retoma textualmente na Suma Teológica com um apelo significativo à experiência comum. Trata-se, sem dúvida, de um lugar-comum da sabedoria humana, mas é aventurar-se demais pensar em herança dominicana de nosso Doutor, uma vez que se repete de são Domingos que pregava pelo exemplo tanto quanto pela palavra (verbo et exemplo).

A exemplaridade de Cristo e de seu agir para toda a vida cristã se encontra em numerosas obras, notavelmente nos opúsculos escritos em defesa da vida religiosa, mas retomaremos isso em outro contexto quando falarmos do seguimento de Cristo na vida religiosa. Poder-se-ia também colher na segunda parte da Suma um conjunto de textos que mostram que Tomás jamais a perde de vista. Mas esse trabalho estando já bem feito, será mais fecundo seguir o desenvolvimento da terceira parte para daí retirar algumas menções repetidas das virtudes ilustradas por Cristo e propostas à imitação dos seus. Assim, na continuação das razões da encarnação, Tomás explica que convinha que Cristo tomasse um corpo passível, “para nos dar um exemplo de paciência suportando com coragem os sofrimentos e os limites humanos” (P3Q14A1). Ao contrário, ele não quis assumir o pecado, porque nisso não poderia dar um exemplo de humanidade – porque o pecado não pertence à definição da natureza humana – nem exemplo de virtude, uma vez que o pecado lhe é contrário (P3Q15A1). Em compensação, se quis orar, foi para nos convidar à oração confiante repetida (P3Q21A3); se aceitou submeter-se à circuncisão e aos outros preceitos da lei, foi para nos dar um exemplo vivo de humildade e de obediência (P3Q37A4); do mesmo modo, seu batismo nos incita pelo exemplo a receber também o batismo (P3Q39A2).

Cada acontecimento da vida de Jesus (jejum, tentações, vida no meio da multidão) dá lugar a semelhantes observações; de modo que Tomás pode resumir: “Pela maneira como ele viveu (conversatio), o Senhor deu a todos o exemplo da perfeição em tudo aquilo que por si pertence à salvação” (P3Q40A2). Melhor ainda esta fórmula chamativa: “O agir de Cristo foi nosso ensinamento (Christi actio fuit nostra instructio)” (P3Q39A2). Sob uma forma levemente diferente segundo os contextos, esse axioma que Tomás recebe de Cassiodoro por Pedro Lombardo volta dezessete vezes em sua obra. Mesmo se ele se preocupa em sublinhar que não se trata exatamente da mesma coisa no caso de Cristo e no nosso, e que é necessário ler essa asserção à luz da verdadeira fé para bem compreendê-la, não contesta jamais sua verdade fundamental, e essa freqüência é muito significativa de sua vontade de tomar seriamente o agir concreto de Cristo tanto quanto o seu ensinamento.

Esse valor exemplar do agir de Cristo culmina, é muito claro, nos últimos dias de sua vida terrestre. À questão de saber se havia um meio mais apropriado do que a paixão para libertar o gênero humano, Tomás responde, como habitualmente, com toda uma série de conveniências. Em primeiro lugar, e essa prioridade é significativa, a paixão mostra ao homem “como Deus o ama, provocando assim em retorno seu próprio amor, no que consiste a perfeição da salvação”. Em segundo lugar, Cristo nos deu por sua paixão “um exemplo de obediência, de humildade, de constância, de justiça e de outras virtudes manifestadas então, que são também necessárias para a salvação do homem. Por isso são Pedro escreve (1Pd 2, 21): “Cristo sofreu por nós, deixando um exemplo a fim de que sigamos seus passos” (P3Q46A3).

Essas breves anotações da Suma bastam, sem dúvida, para nos assegurar de que o exemplarismo crístico está sem cessar presente na reflexão de Mestre Tomás, mas não revelam a emoção que pode animá-lo quando fala disso em seus cursos ou em sua pregação. Será bom ler uma ou outra dessas páginas, e acrescentar ao comentário do lava-pés que salientava a humildade de Cristo esta passagem que fala do amor que inspirava sua obediência:

 

A observação dos mandamentos é um feito da caridade divina. Não somente daquela pela qual amamos, mas daquela pela qual [Jesus] nos amou. Pelo fato de que nos ama, ele nos estimula e nos ajuda a observar seus mandamentos, que não podem ser observados senão pela graça. Nisto consiste seu amor: não fomos nós que amamos Deus, foi ele que nos amou primeiro (1Jo 4, 10).

A isso acrescenta o exemplo dizendo: Como eu guardei os mandamentos do meu Pai. Com efeito, assim como o amor pelo qual o Pai o ama é o exemplo do amor pelo qual nos ama, assim quis que sua obediência fosse exemplo da nossa. Cristo mostra assim que permanece no amor do Pai pelo fato de que guarda seus mandamentos em todas as coisas. Porque foi até a morte (Fl 2, 8): Ele se fez obediente até a morte, e morte de cruz; ele se absteve do pecado (1Pd 2,22): ele não cometeu pecado, e nos seus lábios nenhuma mentira. É preciso compreender isso de Cristo segundo sua humanidade (Jo 8, 29): Não me abandona jamais, porque faço sempre o que lhe agrada. Por isso, pode dizer: eu permaneço em seu amor, porque nada há em mim (sempre segundo sua humanidade) que seja contrário a seu amor (In Ioannem, 15,10,lect. 2, n. 2002-2003).

 

Compreende-se sem dificuldade que textos como esse estão no ponto mais alto para ilustrar uma teologia que se quer inspiradora para a vida cristã. Sem insistir mais, terminaremos essa evocação por um texto da pregação sobre o Credo em que encontramos a bela meditação sobre o sentido da cruz:

 

Como diz santo Agostinho, a paixão de Cristo basta para nos instruir completamente sobre a nossa maneira de viver. Quem quer levar uma vida perfeita não tem outra coisa a fazer senão desprezar o que Cristo desprezou sobre a cruz e desejar o que ele desejou.

Não há, com efeito, um só exemplo de virtude que não nos dê a cruz. Procuras um exemplo de caridade? “Não há maior amor do que dar a sua vida por aqueles que se ama”. E Cristo o fez sobre a cruz…

Procuras um exemplo de paciência? A mais perfeita se encontra sobre a cruz… Um exemplo de humildade? Olha o Crucificado. Um exemplo de obediência? Põe-te a seguir aquele que se fez obediente ao Pai até a morte… Um exemplo de desprezo das coisas terrenas? Caminha atrás dele que é o Senhor dos Senhores e o Rei dos Reis, em quem se encontram todos os tesouros da sabedoria e que no entanto, sobre a cruz, aparece nu, objeto de risos, batido, coroado de espinhos, servido de fel e de vinagre, condenado à morte (In Symbolum 4, n. 919-924).

 

Deve-se afirmar que esses acentos apaixonados não transparecem nas obras maiores. E é de se lamentar que as outras obras sejam tão pouco conhecidas, porque aí se descobre outra face do gênio de Tomás. Elas não passaram despercebidas para todos os seus leitores, e alguns deles, como Louis Chardon, tiraram proveito dessas passagens em que transparece o amor da cruz do irmão dominicano. Voltaremos a isso um pouco adiante quando falarmos dos caminhos para Deus que ele propõe a seus discípulos.

Tomás não pára aí sua consideração do mistério de Cristo. Depois da paixão e da cruz, vêm evidentemente a ressurreição, a ascensão e a exaltação de Cristo à direita do Pai. O tratamento será diferente e logo o veremos, mas já se deve saber que Tomás nada deixa de lado sobre a Páscoa de Cristo. Nisso ele é fiel ao programa que foi traçado em seu estudo: ter em conta tudo o que Cristo fez e sofreu por nós (Facta et passa Christi in carne).

Jean-Pierre Torrel, Santo Tomás de Aquino – Mestre Espiritual, Loyola, 2ª ed.

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