As idéias

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A descoberta

Qual o problema com que Platão tem de se haver? Com o mesmo problema que a metafísica grega vinha levantando desde Parmênides: com o problema do ser e do não-ser. Durante mais de um século, a filosofia helênica lutara para resolver a aporia de tornar compatível o ente – uno, imóvel e eterno – com as coisas – múltiplas, variáveis, perecíveis. Vimos que a filosofia pré-socrática posterior a Parmênides se constituíra em uma série de tentativas de solução desse problema central, que a rigor não ultrapassam a área intelectual em que o próprio Parmênides as tinha formulado. Platão, em contrapartida, dá à questão uma orientação decisiva: dá um passo para a frente, tão novo e genial que arrasta ele mesmo, e desde então terá de trabalhar arduamente em torno de seu próprio achado, de sua doutrina, que se transforma para ele no problema mais sério. Platão descobre nada menos que a idéia. Que quer dizer isso?

Platão busca o ser das coisas. Mas essa busca tropeça em várias dificuldades de diversas índoles, que o empurram, de modo coincidente, para uma solução radical e aparentemente paradoxal. Em primeiro lugar, Platão descobre que as coisas, propriamente, não são; se eu considero, por exemplo, uma folha de papel branco, verifico que a rigor não é branca; ou seja, não é totalmente b rança, mas tem um pouco de cinza ou de amarelo; é somente quase branca; o mesmo ocorre com sua suposta retangularidade: nem seus lados são total e absolutamente retos, nem são retos seus ângulos. Há mais ainda: esta folha de papel não existiu desde sempre, só há algum tempo; e daqui a alguns anos tampouco existirá. Portanto, é branca e não-branca, é retangular e não-retangular, é e não-é; ou – o que dá na mesma – não é plena e verdadeiramente.

Mas, se agora, em segundo lugar, nos detivermos no outro aspecto da questão, verificaremos que – embora a rigor não seja branca – a folha de papel é quase branca. Que quer dizer isso? Ao dizer de algo que é quase branco, negamos-lhe a absoluta brancura em comparação com o que é branco sem restrição; ou seja, para ver que uma coisa não é verdadeiramente branca, preciso saber o que é branco; mas como nenhuma coisa visível – nem a neve, nem a nuvem nem a espuma – é absolutamente branca, isso me remete a alguma realidade distinta de qualquer coisa concreta, que será a total brancura. Em outras palavras, o ser quase branco de muitas coisas requer a existência do verdadeiramente branco, que não é coisa alguma, que está fora das coisas. É a esse ser verdadeiro, distinto das coisas, que Platão chama de idéia.

Em terceiro lugar, esse problema adquire sua maior agudeza se tivermos presente o ponto de partida de Platão em relação ao conhecimento. Platão move-se no horizonte do pensamento socrático; no entanto, Sócrates – que, a rigor, não faz uma metafísica, mas estabelece o ponto de vista da verdade em filosofia – pretende conhecer o que são as coisas; isto é, busca as definições. Enquanto Parmênides se move no âmbito do ser e procura discernir o que é de verdade do que é mera aparência, Sócrates tenta dizer o que é aquilo que é, ou seja, definir, descobrir e fixar as essências das coisas. É precisamente nesse ponto que Platão inicia sua filosofia.

Pois bem, uma definição é, desde já, uma predicação de forma A é B. Nela deparo com um problema de unidade e multiplicidade. Quando digo “o homem é um animal que fala”, identifico o animal com o homem, digo que duas coisas são uma, que A é B. O que torna possível que eu faça uma predicação verídica? Reparemos que ao dizer A é B, A funciona duas vezes: primeiro como sujeito, quando digo A; mas, em segundo lugar, quando digo que é B, não estou só em B, pois neste predicado está incluído A: em outras palavras, não se trata de mencionar primeiro A e depois B, sem outra conexão, e sim de que este B é o ser B de A, e, por conseguinte, A funciona duas vezes. O pressuposto da predicação A é B é que A é A; isto é, a identidade de A consigo mesmo, que por sua vez se desdobra nestes dois momentos: 1º que A é uno; 2º que A é permanente.

Quando digo que o homem é um animal falante, é preciso que o homem seja unívoco e que, ademais, ao referi-lo ao ser falante, continue sendo homem. A definição no sentido socrático e platônico parte do pressuposto da identidade e permanência dos entes, questão certamente central. Quando quero dizer algo sobre o cavalo, constato antes de tudo que existem muitos cavalos; em segundo lugar, que os cavalos que agora encontro não são permanentes: nem existiam faz cinqüenta anos nem existirão dentro de outros cinqüenta; por último, quando digo que um cavalo é preto, não afirmo algo rigorosamente correto, porque ele tem algo de branco ou de cinza; o cavalo perfeito, o cavalo sem mais nem menos, não existe. Pode-se dizer que quase predicamos quase propriedades de quase coisas.

Platão, que se dá conta disso – e nisso consiste sua genialidade -, supõe – e isso é o fundamental – que se trata de um defeito do cavalo, porque este deveria ser um cavalo absoluto e absolutamente preto. Ante essa dificuldade, afasta-se do cavalo concreto, que é e não é, que não é por completo, para buscar o cavalo verdadeiro. E Platão tem de fazer duas coisas: encontrar o cavalo absoluto e a partir dele dar conta dos cavalos aproximados que galopam pelo mundo. Platão parte do mundo das coisas, que não permitem predicações rigorosas, e recorre ao mundo em que estas se dão, que chama de mundo das idéias. Mas que se entende por idéias?

O ser das idéias

A palavra “idéia” ou “eidos” quer dizer figura, aspecto: em suma, aquilo que se vê. Também é traduzida, em certos contextos, por forma; assim, em Aristóteles aparece como sinônimo de morphé, e por outro lado equivale nele a espécie. (Em latim, species tem a mesma raiz que o verbo spicio, ver ou olhar; entre as significações de species encontramos também a de beleza ou formosura, e equivale, portanto, a forma, de onde vem formosus.) Idéia é o que vejo quando vejo algo. Quando vejo um homem, vejo-o propriamente – isto é, vejo-o como homem – porque já tenho de antemão a idéia de homem, porque o vejo como participante dela; do mesmo modo, quando digo de um papel que não é totalmente branco, o que permite vê-lo como quase branco é a idéia de brancura. Quando leio uma palavra escrita, vejo-a instantaneamente porque já possuo sua idéia; caso se trate de uma palavra de uma língua totalmente estranha e desconhecida, não a vejo diretamente e como tal, mas só como um agregado de letras – cujas idéias respectivas, em contrapartida, possuo; e se passo para um vocábulo escrito em caracteres que ignoro, a rigor não vejo as letras, nem poderia reproduzi-las sem uma prévia redução, mediante um exame detalhado, a formas de traços conhecidos. Um homem que não saiba o que é ler – não simplesmente que não saiba ler – não vê um livro porque carece de sua idéia. A idéia é, portanto, o pressuposto do conhecimento e da visão das coisas como tais. A descoberta das idéias já estava parcialmente preparada na filosofia anterior; recordemos primeiro a perspectiva, mediante a qual as homeomerias de Anaxágoras podiam adotar formas diversas variando sua posição; em segundo lugar, a definição socrática, que não diz o que é cada coisa concreta, mas todas as compreendidas nela; ou seja, a espécie. Mas há uma grande distância entre esses antecedentes e a doutrina platônica.

O ser verdadeiro, que a filosofia vinha buscando desde Parmênides, não está nas coisas, mas fora delas: nas idéias. Estas são, portanto, entes metafísicos que encerram o verdadeiro ser das coisas; são o que é autenticamente. As idéias têm os atributos exigidos tradicionalmente do ente e que as coisas sensíveis não podem possuir: são unas, imutáveis, eternas; não têm mescla de não-ser; não estão sujeitas ao movimento nem à corrupção; são de modo absoluto e sem restrições. O ser das coisas, esse ser subordinado e deficiente, baseia-se no das idéias de que as coisas participam. Platão inicia a cisão da realidade em dois mundos: o das coisas sensíveis, que fica desqualificado, e o das idéias, que é o verdadeiro e pleno ser.

Vemos, pois, a necessidade da idéia: 1º Para que eu possa conhecer as coisas como o que são. 2º Para que as coisas, que são e não são – ou seja, não são de verdade -, possam ser. 3º Para explicar como é possível que as coisas cheguem a ser e deixem de ser – em geral, movam-se ou mudem -, sem que isso contradiga os predicados tradicionais do ente. 4º Para tornar compatível a unidade do ente com a multiplicidade das coisas.

(Juliám Marias, História da Filosofia, Martins Fontes, 1ª edição, págs 48-52)

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