Agir em vista do fim é próprio da natureza racional?

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Como vimos no artigo precedente, é próprio do homem agir em vista do fim, uma vez que as ações propriamente humanas são aquelas que procedem da razão e da vontade (vontade deliberada) e esta tem como objeto próprio o fim. Porém, o que dizer dos seres irracionais e insensíveis, daqueles que carecem totalmente de razão, como os animais, ou de vontade, como os seres insensíveis? Suas ações carecem de finalidade? Portanto, devemos entender essa questão como sendo “Agir em vista do fim é próprio SOMENTE da natureza racional?” Vejamos o que diz Santo Tomás.
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RESUMO ESQUEMÁTICO

ARTIGO

DIVERSOS

RESUMO ESQUEMÁTICO:

“Agir em vista do fim é próprio da natureza racional?”

A)

• É necessário que todo agente aja em vista do fim, pois:

– Das causas ordenadas entre si, se a primeira for supressa, as demais também o serão.

– A primeira de todas as causas é a causa final (o fim é o último na execução, mas primeiro na intenção daquele que age. Ver vocabulário: “Fins e Meios“).

• A razão disso é que a matéria não segue a forma senão movida pelo agente, pois nada passa por si mesmo de potência ao ato.

• E o agente não move senão pela intenção do fim:

– Se o agente não fosse determinado para um efeito, não faria isso em vez daquilo.

– Para que produza um efeito determinado, é necessário que esteja determinado a algo certo que tenha razão de fim.

• E esta determinação:

– Na natureza racional, faz-se pelo apetite racional, que se chama vontade;

– Nas outras, faz-se pela inclinação natural, que se chama apetite natural.

B)

Uma coisa tende para o fim, por sua ação ou por movimento, de duas maneiras:

1) Como o homem, que por si mesmo se move para o fim:

– Os que são dotados de razão movem-se para o fim porque tem o domínio de seus atos pelo livre-arbítrio, que é “faculdade da vontade e da razão” (ver Artigo 1, nº 1 do Resumo).

2) Sendo movido por outro para o fim (como a seta tende para determinado fim porque é movida pelo arqueiro):

– As coisas, carentes de razão, tendem para o fim por inclinação natural. São movidas por outras, e não por si mesmas, porque não conhecem a razão de fim.

– Assim, toda a natureza irracional está para Deus como instrumento para o agente principal.

Portanto:

• Como o bem e o fim são o objeto da vontade, é necessário que todas as coisas que carecem de razão sejam movidas para seus fins particulares por uma vontade racional que alcance o bem universal. E esta é a vontade divina.

ARTIGO:

QUANTO AO SEGUNDO, ASSIM SE PROCEDE: Parece que agir para um fim é próprio da natureza racional.

1. – Pois o homem, a quem é próprio agir para um fim, não age nunca para um fim desconhecido. Ora, há muitos seres que não conhecem o fim, ou porque carecem absolutamente de conhecimento, como as criaturas insensíveis, ou porque, como os brutos, não apreendem a noção de fim. Donde se conclui que é próprio da natureza racional agir para um fim.

2. – ALÉM DISSO, agir para um fim é ordenar para este a ação própria, o que é obra da razão, e portanto não convém aos seres que dela carecem.

3. – ADEMAIS, o bem e o fim são o objeto da vontade. Ora, a vontade está na razão, como diz Aristóteles. Logo, agir para um fim é próprio só da natureza racional.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o Filosofo, no livro II da Física,  prova que não só o intelecto, mas também a natureza, age para um fim.

RESPONDO – Todos os agentes agem necessariamente para um fim. Ora, eliminada a primeira, de várias causas ordenadas umas para as outras, necessário é sejam também essas outras eliminadas. Ora, a primeira de todas as causas é a final; pois, a matéria não busca a forma senão quando movida pelo agente, nada passando por si da potência para o ato. O agente porém só move visando um fim, pois se não fosse determinado a certo efeito não produziria antes um de preferência a outro. Ora, para produzir um determinado efeito, necessário é seja determinado a algo certo como natureza de fim. E esta determinação, operada em a natureza racional pelo apetite racional chamado vontade, o é, nos outros seres, pela inclinação natural denominada apetite natural.

Deve-se contudo considerar, que um ser tende para um fim pela sua ação ou pelo seu movimento, de duplo modo: movendo-se por si mesmo para o fim, como o homem; ou movido por outro, ao modo da seta tendendo para um fim determinado, movida pelo arqueiro, que dirige para ele a sua ação. Por onde, os seres dotados de razão a si mesmos se movem para o fim, por terem o domínio dos seus atos pelo livre arbítrio, faculdade da vontade e da razão. Ao passo que os privados dela tendem ao fim por inclinação natural, como que movidos por outro e não por si mesmos, por não conhecerem a noção de fim. E portanto, não podem ordenar nada para um fim, mas somente são para este ordenados por outro, pois toda a natureza está para Deus como o instrumento para o agente principal, conforme já se estabeleceu.

Por onde, é próprio da natureza racional tender para o fim, como conduzindo-se ou dirigindo-se para ele. Ao passo que a natureza irracional, como levada ou conduzida por outro; quer seja o fim apreendido, como pelos brutos dotados de conhecimento, quer não apreendido, como se dá com os seres totalmente dele privados.

QUANTO AO 1º. – O homem conhece o fim quando age para ele, por si mesmo; mas quando levado ou conduzido por outro. p.ex., quando age por império de outrem, ou quando movido por impulso de outrem, não é necessário conheça o fim. E isso se dá com as criaturas irracionais.

QUANTO AO 2º. – Ordenar para o fim é próprio de quem por si mesmo se dirige para ele. Ao passo que ser ordenado para o fim é próprio de ser, que para o mesmo é levado por outro; o que pode convir à natureza irracional, mas proveniente de um ser dotado de razão.

QUANTO AO 3º. – O objeto da vontade é o fim e o bem universais. Por onde, por não serem capazes de apreender o universal, os seres privados de razão e de intelecto não podem ter vontade, senão apenas o apetite natural ou sensitivo determinado a um bem particular. Ora, é claro que as causas particulares são movidas pela causa universal; assim, o governador da república, que visa o bem comum, move pelo seu império todas as funções particulares dela. Por onde e necessariamente, todos os seres privados de razão hão de ser movidos, para fins particulares, por alguma vontade racional, que alcance o bem universal e que é a vontade divina.

DIVERSOS:

Introdução dos Tratados: A Bem-Aventurança

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