Tomás responde: A bem-aventurança do homem consiste nas riquezas?

Autor anônimo, O homem rico e Lázaro (cerca de 1610), Amsterdam

Parece que a bem-aventurança do homem consiste nas riquezas:

1. Com efeito, sendo a bem-aventurança o último fim do homem, ela consiste naquilo que ao máximo domina o afeto humano. Ora, no livro do Eclesiastes se diz: “Tudo obedece ao dinheiro” (10, 19). Logo, a bem-aventurança consiste nas riquezas.

2. Além disso, segundo Boécio: “A bem-aventurança é o estado perfeito da junção de todos os bens”. Ora, parece que pelo dinheiro poderão se adquirir todas as coisas, porque o Filósofo, no livro V da Ética, afirma que o dinheiro se inventou para ser a fiança de tudo aquilo que o homem quisesse possuir. Logo, a bem-aventurança consiste nas riquezas.

3. Ademais, como o desejo do sumo bem jamais acaba, parece ser infinito. Ora, isso se encontra ao máximo nas riquezas, porque diz o Eclesiastes que “o avaro jamais se satisfaz com as riquezas” (5, 9). Logo, a bem-aventurança consiste nas riquezas.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, consiste o bem do homem mais em conservar a bem-aventurança do que em perdê-la. Ademais, Boécio diz: “Mais brilham as riquezas quando são distribuídas do que quando conservadas. Por isso, a avareza torna os homens odiosos, a generosidade os torna ilustres”.

É impossível que a bem-aventurança do homem consista nas riquezas. Conforme o Filósofo diz no livro I da Política, há duas espécies de riquezas, as naturais e as artificiais. As riquezas naturais são aquelas pelas quais o homem é ajudado a compensar as deficiências naturais, como sejam, a comida, a bebida, as vestes, os veículos, a habitação, etc. As riquezas artificiais são aquelas que por si mesmas não auxiliam a natureza, como o dinheiro, mas a arte humana os inventou para facilitar as trocas, para que fossem como medidas das coisas venais.

É evidente que a bem-aventurança do homem não pode estar nas riquezas naturais. Buscam-se essas riquezas em vista de outra coisa, para sustentarem a natureza humana. Por isso, não podem ser o último fim do homem, porque não se ordenam ao homem como fim. Donde, na ordem natural, todas elas estão abaixo do homem, e são feitas em vista dele, conforme o Salmo 8: “Submetestes todas as coisas a seus pés” (v.8).

Não se buscam as riquezas artificiais senão por causa das naturais, pois não se buscariam, se não fosse porque por elas é Leia mais deste post

Fragmentos: Seguir a Cristo

Não é uma grande coisa finalmente renunciar a tudo [muitos filósofos não têm nenhum cuidado com as riquezas, sublinha Tomás em outras passagens]. A perfeição consiste antes em seguir Cristo, e isso se faz pela caridade: “Se dou todos os meus bens aos pobres… senão tenho a caridade, tudo isso não me serve de nada” (1 Cor 13, 3). A perfeição não consiste em si em coisas exteriores: pobreza, virgindade, etc.; elas não são senão meios para a caridade. Por isso o Evangelista acrescenta: “E eles o seguiram”.

In Matthaeum 4,22,lect.2, n. 373

A perfeição consiste no seguimento de Cristo, enquanto o abandono das riquezas é apenas o caminho. Não basta pois, diz São Jerônimo, renunciar a seus bens; é preciso ainda acrescentar o que fez São Pedro: E nós te seguimos. [Encontramos aqui o exemplo de Abraão, que possuía grandes bens, mas a quem o Senhor pede simplesmente:] “Caminha diante de mim e sede perfeito”, mostrando assim que sua perfeição consistia precisamente em caminhar na presença do Senhor e em amá-lo perfeitamente até a renúncia de si mesmo e de todos os seus bens; o que ele mostrou de maneira eminente pelo sacrifício de seu filho.

De perfectione spiritualis vitae 8, Léon. T. 41, p. B 73

Quatro coisas que se correspondem devem ser consideradas: duas dependem de nós, em nosso agir em relação a Cristo, e duas dependem de Cristo, que as realiza em nós.

A primeira, que depende de nós, é a obediência a Cristo. … A segunda, que depende de Cristo, é a escolha que ele faz de nós e o amor que tem por nós. … A terceira, que novamente depende de nós, é a imitação de Cristo. … A quarta depende ainda de Cristo, e é a recompensa que lhe corresponde: “Eu lhes dou a vida eterna”. Como se ele dissesse, eles me seguem na terra no caminho da humildade e da inocência; farei com que eles me sigam ainda no céu e que eles entrem na alegria da vida eterna.

In Ioannem, 10,27-28, lect. 5, n. 1444-1449

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Teologia, Igreja

%d blogueiros gostam disto: