Tomás responde: Deus é totalmente simples?

Rafael Sanzio (1483-1520), Deus Pai (1500-1501), Nápoles

Parece que Deus não é totalmente simples:

1. Com efeito, as coisas que procedem de Deus se parecem com Ele, daí que do primeiro ente derivam todos os entes, e do primeiro bem, todos os bens. Ora, entre as obras de Deus, nada há de totalmente simples. Logo, Deus não é totalmente simples.

2. Além disso, tudo o que há de melhor há de ser atribuído a Deus. Ora, entre nós, as coisas compostas são melhores que as simples; como os corpos mistos com respeito aos elementos, e os elementos às suas partes. Logo, não se deve dizer de Deus que seja totalmente simples.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, Agostinho afirma: “que Deus é verdadeira e sumamente simples”.

Que Deus seja totalmente simples se pode provar de várias maneiras:

1. Pelo que precede. Como em Deus não há composição nem de partes quantitativas, pois não é um corpo; nem de forma e de matéria, nem distinção de natureza e supósito; nem de essência e ser; nem composição de gênero e diferença, nem de sujeito e de acidente, fica claro que Deus não é composto de nenhuma maneira, mas totalmente simples.

2. Porque todo composto é posterior a seus componentes e dependente deles. Ora, Deus é o primeiro ente, como já foi demonstrado (q.2 a.3).

3. Porque todo composto tem uma causa. Assim as coisas que por si são diversas não conformam uma unidade, a não ser por uma causa que as unifique. Ora, Deus não tem causa, como foi demonstrado (q.2 a.3), sendo a primeira causa eficiente.

4. Porque em todo composto, há de existir Leia mais deste post

Tomás responde: O ato sexual pode existir sem pecado?

Raffaello Sanzio (1483-1520), As Três Graças, 1504-1505

Parece que não pode haver ato sexual sem pecado:

1. Com efeito, nada parece ser obstáculo à virtude como o pecado. Ora, todo ato sexual é um obstáculo máximo à virtude, pois Agostinho diz: “Creio que nada derruba tanto o ânimo varonil como as carícias femininas e as intimidades corporais”. Logo, parece que não há ato sexual sem pecado.

2. Além disso, onde houver algo excessivo que nos aparte do bem racional, aí haverá algo vicioso, pois tanto o excesso como a falta destroem a virtude, ensina o Filósofo. Ora, em todo ato sexual há um excesso de prazer, que absorve a razão de tal forma que “ela não consegue refletir sobre coisa alguma nesse momento”, diz o Filósofo e, adverte Jerônimo, nesse ato o espírito de profecia não tocava o coração dos profetas. Logo, nenhum ato sexual pode ocorrer sem pecado.

3. Ademais, a causa é mais importante que o efeito. Ora, o pecado original é transmitido às crianças pela concupiscência, sem a qual não pode existir o ato sexual, como demonstra Agostinho. Logo, nenhum ato sexual pode realizar-se sem pecado.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz Agostinho: “Já foi bastante explicado aos hereges, se é que eles querem compreender: não existe pecado no que não contraria a natureza, nem os costumes, nem a lei”. E ele está falando do ato carnal, que os antigos patriarcas praticavam com várias esposas. Logo, nem todo ato sexual é pecado.

RESPONDO. Nos atos humanos, o pecado consiste naquilo que contraria a ordem racional e essa ordem exige que se oriente cada coisa ao seu fim. Não há pecado, portanto, quando o homem usa de certas coisas respeitando o fim para o qual existem, na medida e na ordem convenientes, desde que esse fim seja, realmente, bom. Ora, como é realmente um bem conservar a natureza corpórea do indivíduo, assim também é um bem excelente conservar a natureza da espécie. E como o alimento está destinado à conservação da vida individual, assim também a atividade sexual está dirigida à conservação de todo o gênero humano. Razão por que Agostinho pode dizer: “O que é a comida para a vida individual é a relação sexual para o bem da espécie”. Portanto, como pode a alimentação ser sem pecado, feita na ordem e medida devidas, como o requer a saúde do corpo, também pode Leia mais deste post

Tomás responde: Havia necessidade de Cristo ressuscitar?

Rafael Sanzio – Ressurreição de Cristo ou Ressurreição Kinnaird
Óleo sobre madeira, 52 X 44 cm, 1499-1502
Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – MASP

Parece que não era necessário ter Cristo ressuscitado:

1. Na verdade, diz Damasceno: “A ressurreição é o levantar-se por segunda vez de um animal, que se decompôs e que caiu”. Ora, Cristo não caiu pelo pecado nem seu corpo se decompôs. Logo, não lhe convinha propriamente ressurgir.

2. Além do mais, quem ressurge é alçado a uma situação mais elevada, porque levantar-se significa mover-se para cima. Ora, o corpo de Cristo, depois da morte, ficou unido à divindade e, assim, não pôde ser alçado Leia mais deste post

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