Tomás responde: o mal é algo?

Giotto di Bondone (1267-1337), Juizo Final, detalhe do inferno

RESPONDO. Deve-se dizer que, como o branco, também o mal se diz de dois modos. Pois, de um modo, quando se diz branco, pode entender-se o que é sujeito da brancura; de outro modo, branco se diz do que é branco enquanto branco, ou seja, do acidente mesmo. E, semelhantemente, o mal pode entender-se, de um modo, como o que é sujeito do mal, e neste sentido é algo; de outro modo, pode-se entender como o próprio mal, e neste sentido não é algo, mas sim a privação mesma de algum bem particular.

Para maior compreensão disto, é preciso saber que propriamente o bem é algo enquanto é apetecível, pois, segundo o Filósofo no livro I da Ética, definiram corretamente o bem os que disseram ser o bem o que todas as coisas apetecem; mas o mal se diz do que se opõe ao bem, donde ser conveniente que o mal seja o que se opõe ao apetecível enquanto tal. É impossível, todavia, que este seja algo, o que se manifesta por três razões.

Em primeiro lugar, certamente, porque o apetecível tem razão de fim; mas a ordem dos fins é, por assim dizer, também a ordem dos agentes. Com efeito, na medida em que algum agente é mais elevado e mais universal, nesta mesma medida também o fim por que atua é um bem mais universal, pois todo e qualquer agente atua por um fim e por algum bem; e isto se mostra, patentemente, nas coisas humanas. Sim, porque o governante de uma cidade tende a um bem particular, que é o bem da cidade. Mas o rei, que é superior a ele, tende a um bem universal, a saber: a paz do reino todo. Logo, não sendo próprio das causas agentes proceder ao infinito, sendo porém necessário chegar a uma Leia mais deste post

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