[OFF] O niilismo (Final) – As máscaras do niilismo

Hieronymus Bosch, A Nau dos Loucos, Museu do Louvre, Paris

De fato, é justamente aquele niilismo que Nietzsche chama de niilismo incompleto que domina a todos hoje, repleto de obscuras ameaças e perigos.

Nietzsche diz ainda: “Ao valor do que permanece eternamente igual a si mesmo […] contrapõe-se o valor do que é mais breve e fugaz, o sedutor brilho dourado no ventre da serpente vida”.

Esses valores breves e fugazes parecidos com o sedutor brilho dourado no ventre da serpente vida são aqueles ligados à vontade de potência, e portanto constituem os antigos valores transvalorados segundo a doutrina nietzscheniana; mas em nada diferem dos disfarces niilistas dos antigos valores substituídos por novas máscaras multicoloridas, os quais, bem mais do que com o fugaz brilho dourado no ventre da serpente vida, se apresentam como as sereias que encantam, e que, vangloriando-se de ser portadores de salvação ou pelo menos de segurança, representam o perigo de arrastar de forma irreversível para o abismo do nada.

As causas profundas dos males do homem de hoje são justamente esses disfarces niilistas dos valores supremos que caíram (como tais) no esquecimento.

A meu ver, tais males e os vários disfarces niilistas dos valores perdidos a eles vinculados podem ser resumidos nos dez itens apresentados a seguir:

1) o cientificismo e o redimensionamento da razão do homem em sentido tecnológico;

2) o ideologismo absolutizado e o esquecimento do ideal do verdadeiro;

3) o praxismo, com sua exaltação da ação pela ação e o esquecimento do ideal da contemplação;

4) a proclamação do bem-estar material como sucedâneo da felicidade;

5) a difusão da Leia mais deste post

[OFF] O niilismo (VII) – O estado intermediário: o niilismo incompleto

Francisco de Goya (1746-1828), O Manicômio

Entre o estado caracterizado pela destruição dos valores supremos tradicionais e a transvaloração completa desses valores há, porém, um estado intermediário. Nos Fragmentos póstumos lemos: “Os supremos valores, para servir os quais o homem deveria viver, sobretudo quando o dominassem de forma muito pesada e excessiva: estes valores sociais foram edificados, com a finalidade de reforçar sua influência, sobre o homem, quase como se fossem mandamentos de Deus, como ‘realidade’, como mundo ‘verdadeiro’, como esperança e mundo futuro. Agora que a origem mesquinha de tais valores se evidencia, o universo nos parece desprovido de valor, ‘desprovido de sentido’… mas este é apenas um estado intermediário”.

Ora, esse estado intermediário pode dar origem (e aliás origem de maneira evidente) a um niilismo incompleto, que procura subtrair-se às consequências do próprio niilismo, com vários disfarces dos valores supremos, que vão do saber científico à práxis social, com uma série de matizes.

Nietzsche escreve: “Proposição principal. Em que sentido o perfeito niilismo é a consequência necessária dos ideais alimentados até agora. – O niilismo incompleto, suas formas: nós vivemos no meio dele. – As tentativas de fugir do niilismo sem transvalorar esses valores: produzem o contrário, agudizam o problema.

E ainda, dizendo um de seus categóricos “não” aos disfarces dos antigos valores, afirma: “Meu reconhecimento e minha identificação do ideal tradicional, o cristão, mesmo lá onde se eliminou a forma dogmática do cristianismo. O perigo do ideal cristão esconde-se em seus sentimentos de valor, naquilo que pode prescindir da expressão conceptual: minha luta contra o cristianismo latente (por exemplo na música, no socialismo)”.

O sentido da menção ao socialismo é claro; a música refere-se sobretudo ao Parsifal de Wagner, que repropõe o mistério da Páscoa.

Uma confirmação feita por Heidegger

Esse ponto também foi bem compreendido e esclarecido por Heidegger: “Se Deus, no sentido do Deus cristão, abandonou seu lugar no mundo supra-sensível, o lugar ainda existe, mesmo se vazio. Esta região vazia do mundo supra-sensível e do mundo ideal pode ser mantida. Ela requer então um novo ocupante e a substituição do Leia mais deste post

[OFF] O niilismo (I): A essência do niilismo

Mas em que consiste o niilismo?

Vejamos as respostas dadas por Nietzsche, que atingem uma clareza exemplar.

Num fragmento, sempre de 1887 (o ano crucial em que Nietzsche amadureceu essa problemática), lemos: “Niilismo: falta o fim; falta a resposta ao ‘por quê?’; o que significa niilismo? – que os valores supremos se desvalorizam”.

Os pressupostos do niilismo são “Que não exista uma verdade; que não exista uma constituição absoluta das coisas, uma ‘coisa em si’”.

E eis um violento destaque desse conceito: “Contra a suposição de que um ‘em si das coisas’ deveria ser necessariamente bom, feliz, verdadeiro, uno, a interpretação de Schopenhauer do ‘em si’ como vontade foi um passo essencial; contudo, ele não soube divinizar essa vontade: deteve-se no ideal moral cristão. Schopenhauer ainda estava dominado a tal ponto pelos valores cristãos que era obrigado a ver a coisa em si – depois que ela deixou de significar ‘Deus’ para ele – como má, estúpida, como algo que se devia rejeitar de uma vez por todas. Ele não compreendera que pode haver infinitas formas de poder-ser-outro e até de poder-ser-Deus. Maldição daquela dualidade limitada: bem e mal”.

Explicitando os pontos básicos desses esclarecimentos, poderíamos dizer que o niilismo leva à desvalorização e à negação dos seguintes princípios:

a) princípio primeiro, Deus;

b) fim último;

c) ser;

d) bem;

e) verdade.

Segundo Nietzsche, pode-se ver o niilismo como um aspecto “de crescimento da potência do espírito”, ou seja, como “niilismo ativo”, pois tem a força destrutiva da fé nos valores que perderam sentido, embora Leia mais deste post

Pedrinhas e estrelas

gifindiceLa_strada(clique na imagem para baixar o filme em rmvb)

Antes de adentrarmos nas elevadas salas da “fábrica dos céus”, observemos o que acontece numa pequena estrada de nossas periferias:

Louco – Eu sou ignorante, mas li um ou outro livro… Você não vai acreditar, mas tudo o que existe neste mundo serve para alguma coisa. Veja… pegue… aquela pedra ali, por exemplo… (Gelsomina o interrompe e pergunta desconsoladamente:)

Gelsomina – (voz fora de cena) Qual?

Louco – E… Esta, qualquer uma… (O Louco se abaixa para pegar uma pedrinha e a mostra a Gelsomina.) Bem… até isto serve para alguma coisa… até esta pedrinha.

Gelsomina – (olhando atentamente para a pedra que o Louco tem na mão) E serve para quê?

Louco – Serve… sei lá! Se soubesse, sabe o que eu seria?

Gelsomina – (voz fora de cena) Quem?

Louco – Deus, que sabe tudo. Quando nascemos. Quando morremos. Quem pode saber isso? (O Louco chega mais perto de Gelsomina.) Não… não sei para que serve esta pedrinha, mas deve servir para alguma coisa… porque se isto é inútil, então tudo é inútil… (olha para o céu)… até as estrelas. (Joga a pedrinha para o alto e volta a apanhá-la.) Pelo menos eu acredito. (Senta-se ao lado de Gelsomina e continua enternecidoJ E você também… você também serve para alguma coisa… com sua cabeça de alcachofra…

O leitor deve ter reconhecido uma das cenas mais tocantes de A estrada da vida de Federico Fellini (1954). Pagaria de bom grado o ingresso para que, em algum cineclube, esse filme pudesse ser assistido por certos cientistas que exaltam o caos e por todos os cientistas que os seguem. Não por acaso, Fellini atribui as palavras sobre o sentido das coisas ao personagem chamado “o Louco”: um artifício realmente shakespeariano, porque, afinal, “a loucura tem algum método”.

(Giovanni Reale, O Saber dos Antigos, Ed. Loyola, 2ª edição, págs 203-204)

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