O Ser (I) – Parmênides: o princípio como ser

Rafael, Escola de Atenas, Palácio Apostólico, Vaticano

Aristóteles nos informa que a metafísica, que é o mesmo que a filosofia, iniciou-se com a pergunta e a pesquisa a respeito do princípio de todas as coisas. Leiamos o texto: “A maioria dos que por primeiro filosofaram pensaram que princípios de todas as coisas fossem apenas os materiais. Com efeito afirmam que aquilo de que são constituídos os seres e aquilo de que originariamente derivam e em que finalmente se resolvem, é elemento e princípio dos seres, à medida que é uma realidade que permanece idêntica também em meio à mudança dos seus estados. E é por esta razão que acreditam que nada seja gerado e nada seja destruído, uma vez que uma realidade deste tipo permanece sempre. E assim como não dizemos que Sócrates é gerado em sentido absoluto quando se torna belo ou músico, nem dizemos que ele perece quando perde estes modos de ser, pelo simples fato de que o substrato – quer dizer, o próprio Sócrates – continua a existir, assim também devemos dizer que não se corrompe, em sentido absoluto, nenhuma das outras coisas: com efeito, deve existir alguma realidade natural (uma só ou mais de uma) da qual derivam todas as outras coisas, enquanto ela continua a existir inalterada”.

(Aristóteles, Metafísica)

O devir exerce sua função de princípio enquanto é. Isto significa que o devir remete a algo, que é aquilo pelo qual (= princípio) o devir desenvolve a sua função unificadora: em última análise, não é o devir que é princípio, mas aquilo pelo qual o devir é. O princípio é, portanto, o ser, ou seja, o princípio é aquilo que se apresenta com a universalíssima determinação pela qual não é nada, mas é ser. Captar, entretanto, o ser como princípio comporta uma série de implicações.

a) Só o ser pode exercer a função de princípio, pois não é possível ir além do ser. Enquanto todos os outros princípio permanecem ultrapassáveis, ou seja, a respeito deles se pode, e se deve, fazer uma pergunta ulterior, um por que ulterior, ultrapassar o ser significa cair no nada, quer dizer, no não-ser, que não é. É neste sentido que o ser possui uma primariedade absoluta.

b) O ser não pode ser outra coisa senão ser. Rigorosamente pensando, ou seja, atendo-nos ao puro plano do ser, o outro diferente do ser é essencialmente o nada, quer dizer, voltando ao que já foi dito, o não-ser, que não é.

c) O ser, não podendo ser outra coisa senão ser, não pode devir, isto é, não pode nem ser gerado (pois toda geração implica que o ser derive do não-ser) nem se Leia mais deste post

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