Tomás responde: Tudo o que Deus faz fora da ordem natural das coisas é milagre?

Jacopo Tintoretto (1518-1594), Santo Agostinho curando os aleijados (1550)

Parece que nem tudo o que Deus faz fora da ordem natural das coisas é milagre:

1. Com efeito, a criação do mundo, das almas e a justificação dos ímpios, Deus as faz fora da ordem natural, porque não são feitas pela ação de uma causa natural. No entanto, não se diz que são milagres. Logo, nem tudo o que faz fora da ordem natural das coisas é milagre.

2. Além disso, considera-se milagre algo difícil e insólito, que ultrapassa os poderes da natureza e a esperança de quem o admira. Ora, há coisas que se fazem fora da ordem natural e que não são difíceis. Acontecem nas mínimas coisas como na restauração de jóias, ou na cura dos doentes. Outras coisas não são insólitas porquanto acontecem com certa frequência: por exemplo, os doentes que eram deixados nas praças para serem curados pela sombra de Pedro. Há ainda outras que não estão acima dos poderes da natureza, como a cura das febres. Outras que não estão acima da esperança: todos nós esperamos a ressurreição dos mortos, que no entanto acontecerá fora da ordem natural. Logo, nem tudo o que se faz fora da ordem da natureza é milagre.

3. Ademais, a palavra milagre toma-se de admiração. Ora, a admiração se refere a coisas que se manifestam aos sentidos. Ocorrem, porém, às vezes, fora da ordem natural, algumas coisas não perceptíveis aos sentidos. Por exemplo, quando os apóstolos ficaram repletos de ciência sem a terem procurado nem aprendido. Por conseguinte, nem tudo o que se faz fora da ordem natural é milagre.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz Agostinho: “Quando Deus faz alguma coisa fora do curso conhecido e habitual da natureza, nós dizemos que é grandioso e admirável”.

A palavra milagre toma-se de admiração. A admiração se dá quando os efeitos são manifestos e a causa, oculta. Por exemplo, uma pessoa admira quando vê um eclipse do sol, mas ignora a causa, como se diz no início do livro da Metafísica. Ora, a causa de um efeito aparente pode ser conhecida de alguns e ignorada por outros; portanto, isso pode parecer admirável para uns e para outros não: o rude admira o eclipse do sol; o astrônomo, não. Chama-se, pois, milagre o que é cheio de admiração, no sentido de que a causa fica absolutamente oculta para todos. Esta causa é Deus. Portanto, as coisas feitas por Deus fora das causas por nós conhecidas são chamadas de milagres.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. A criação e a justificação do ímpio, embora só Deus as possa fazer, não são no entanto chamadas propriamente milagres. Porque, por sua natureza, não são feitas por outras causas, e assim não acontecem fora da ordem natural. Na realidade, não pertencem a essa ordem.

2. O milagre é difícil, não em razão da dignidade da coisa em que se faz, mas porque ultrapassa o Leia mais deste post

Tomás responde: Um milagre é maior que outro?

Pedro Berruguete (1450-1504), Milagre de S. Domingos de Gusmão frente aos albigenses (séc. XV)

Parece que um milagre não é maior que o outro:

1. Com efeito, diz Agostinho: “Nas coisas feitas de modo admirável, toda a razão do feito está na potência daquele que faz”. Ora, a mesma potência, a saber, Deus, faz todos os milagres. Logo, um não é maior que outro.

2. Além disso, a potência de Deus é infinita. Ora, o infinito ultrapassa sem proporção tudo o que é finito. Logo, um efeito desse poder não pode mais ser mais admirável que outro. Logo, um milagre não é maior que outro.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o Senhor diz no Evangelho de João, a propósito das obras milagrosas: “As obras que faço, aquele que crê em mim as fará também, e ainda maiores” (14,12).

Nada pode ser chamado de milagre em referência à potência divina, porque tudo o que é feito, comparado à potência de Deus, é mínimo, como diz Isaías: “As nações são como gota d’água num balde, como um grão de poeira na balança” (40,15). Uma coisa, porém, se diz milagre por comparação com o poder da natureza, que é ultrapassado. Portanto, na medida em que mais ultrapassa o poder da natureza, nessa mesma medida se diz que o milagre é maior.

Uma coisa ultrapassa o poder da natureza de três maneiras. Primeiro, quanto à substância do fato: como quando dois corpos se encontram ao mesmo tempo num mesmo lugar, ou quando o sol retrocede, ou quando um corpo humano é glorificado; pois a natureza não pode fazer isso de modo algum. Estes são os milagres de primeiro grau.

Em segundo lugar, uma coisa ultrapassa o poder da natureza não quanto àquilo que se faz, mas quanto àquilo em que se faz: como a ressurreição dos mortos, ou a cura dos cegos, ou outros casos semelhantes. A natureza pode causar a vida, mas não em um cadáver; ela pode dar a visão, mas não a um cego. Milagres desse tipo pertencem Leia mais deste post

Jesus, o amigo de Tomás

Santo Tomás de Aquino, Brooklyn Museum, entre 1700-1799

Ninguém supõe que Tomás de Aquino, quando Deus lhe deu a escolher dentre todos os seus dons, fosse pedir um milhar de libras, a coroa da Sicília ou um vinho raro da Grécia. Mas podia pedir coisas que efetivamente desejava, pois que era homem que podia ter aspirações como, por exemplo, a do manuscrito perdido de São João Crisóstomo. Podia pedir a solução de qualquer dificuldade antiga, ou o segredo de uma ciência nova, ou uma chispa do inconcebível espírito intuitivo dos anjos, ou uma das mil coisas que teria satisfeito realmente o seu vasto apetite viril, tão vasto como a própria vastidão e variedade do universo.

A questão é que, para ele, quando a voz falou entre os braços abertos de Jesus crucificado, estes braços estavam em verdade amplamente abertos e abrindo gloriosissimamente as portas de todos os mundos. Eram braços que apontavam para o oriente e o ocidente, para os extremos da terra, e para os próprios extremos da existência. Estavam em verdade abertos num gesto de onipotente generosidade: o próprio Criador a oferecer a própria criação, com todo o infinito mistério dos seres diversos e do coro triunfal das criaturas. É este o fundo esplendoroso da multiplicidade do ser, que dá força particular, e até uma espécie de surpresa, à resposta de Santo Tomás, quando levantou a cabeça finalmente e disse, com a audácia quase blasfema que forma uma só coisa com a humildade da sua religião:

– Quero-Te a Ti!

Para acrescentar a esta história a ironia final e decisiva, tão singularmente cristã para os que a Leia mais deste post

Tomás responde: O pão pode converter-se no corpo de Cristo?

Milagre de Lanciano (clique para ampliar)

Parece que o pão não pode converter-se no corpo de Cristo:

1. Com efeito, a conversão é uma certa mudança. E em toda mudança, deve haver um sujeito, que está primeiro em potência e depois em ato, como diz o Filósofo: “O movimento é o ato que existe em potência.” Ora, não existe um sujeito comum da substância do pão e do corpo de Cristo. Pois, faz parte do ser substância não “estar no sujeito”. Logo, não é possível que toda a substância do pão se converta no corpo de Cristo.

2. Além disso, a forma daquilo em que alguma coisa se converte começa a existir na matéria do que se converte; assim como quando Leia mais deste post

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