Bom humor e brincadeiras em Santo Tomás

George Henry Harlow, Retrato de Duas Crianças

Leia também: Tomás responde: Pode haver alguma virtude na prática de jogos e brincadeiras?

Por Luiz Jean Lauand

( O Tratado sobre o brincar de Tomás de Aquino corresponde ao In X Libros Ethicorum, IV, 16 – Comentário à Ética de Aristóteles. A presente tradução foi feita a partir do texto latino da edição de Marietti, Turim, 1934).

Apresentamos, a seguir, o Tratado sobre o Brincar de S. Tomás de Aquino (1225-1274), o principal pensador medieval.

Dentre os diversos preconceitos a respeito da Idade Média, um dos mais injustos é o que a concebe como uma época que teria ignorado, ou mesmo combatido, o riso e o brincar. Na verdade, o homem medieval é muito sensível ao lúdico; convive a cada instante com o riso e com a brincadeira.

Comecemos pela fundamentação teológica do lúdico. Recordemos que o cristianismo (tão marcante na Idade Média), ao dar ao homem um vivo sentido de mistério e uma humildade anti-racionalista (não anti-racional; anti-racionalista!), dá-lhe também o senso de humor. Pois a leveza do riso pressupõe a aceitação da condição de criatura, de que o homem não é Deus, do mistério do ser, da não-pretensão de ter o mundo absoluta e ferreamente compreendido e dominado pela razão humana. O racionalismo, pelo contrário, é sério; toma-se demasiadamente a sério e, por isto mesmo, é tenso e não sabe sorrir.

O homem medieval brinca porque acredita vivamente naquela maravilhosa sentença bíblica que associa o brincar da Leia mais deste post

Tomás responde: Pode haver alguma virtude na prática de jogos e brincadeiras?

Pieter Brueghel, Jogos de Criança, 1560 (clique para ampliar)

Parece que nas atividades lúdicas não pode haver alguma virtude:

1. Com efeito, afirma Ambrosio: “o Senhor diz, ‘Ai de vós, os que rides, porque chorareis!’. Penso, então, que é preciso evitar não só os divertimentos exagerados, mas todos”. Ora, o que pode ser praticado virtuosamente, não deve ser evitado de todo. Logo, não pode haver virtude alguma nos jogos.

2. Além disso, “a virtude é algo pelo qual Deus age em nós, sem nós”, como foi dito antes (I-II, q. 55, a. 4). Ora, Crisóstomo diz: “Não é Deus que nos inspira ao jogo, mas o diabo. Ouve o que, certa feita, aconteceu com os que se divertiam: Leia mais deste post

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