Tomás responde: É permitido no comércio vender algo mais caro do que se comprou?

Santo_OmobonoSanto Omobono, padroeiro dos comerciantes

Parece que no comércio não é permitido vender algo mais caro do que se comprou:

  1. Com efeito, Crisóstomo declara: “Todo aquele que compra uma coisa, para revendê-la inteira e tal e qual a adquiriu, com o fito de obter lucro, é um daqueles vendilhões, expulsos do templo”. E comentando as palavras da Escritura: “Porque não sei escrever”, ou, segundo outra versão: “porque ignoro o comércio”. Cassiodoro diz o mesmo: “Que é o comércio, senão comprar mais barato e vender mais caro?”. E acrescenta: “Tais comerciantes, o Senhor os expulsou do templo”. Ora, ninguém é expulso do templo a não ser por algum pecado. Logo, tal comércio é pecado.
  2. Além disso, é contra a justiça vender algo mais caro ou comprá-lo mais barato do que vale, como já ficou elucidado. Ora, o comerciante que vende um objeto mais caro do que comprou, necessariamente ou o comprou mais barato ou o vende mais caro do que vale. Logo, não há como evitar o pecado.
  3. Ademais, Jerônimo escreve: “Do clérigo comerciante, que de pobre virou rico, de plebeu se fez nobre, foge como de uma peste”. Ora, a prática do comércio não teria sido proibida aos clérigos se não fosse pecado. Logo, no comércio, comprar mais barato e vender mais caro é pecado.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, comentando o texto do Salmo: “porque não sei escrever…” (70,15) Agostinho declara: “O negociante, na sua avidez de ganhar, blasfema quando perde, mente nos preços e perjura. Mas esses são vícios do homem, não da profissão, que se pode exercer sem eles”. Logo, negociar não é em si mesmo ilícito.

[Nota: A resposta começa lembrando a posição aristotélica: concebido em si mesmo, o negócio possui alguma coisa de “malsão” (quandam turpitudinem habet, que nosso texto traduz com mais elegância: “possui algo de vergonhoso”), pois não se relaciona a um fim honesto e necessário (= produção, transformação ou melhoria dos bens). Mas, em seguida, essa doutrina aristotélica é ultrapassada pela consideração do lucro como um objetivo, indiferente em si, mas capaz de subordinar-se às finalidades mais necessárias: ao bem da família, à utilidade social ou como uma recompensa do trabalho despendido. Uma tal justificação do comércio lucrativo vai no sentido dos títulos de legitimação da propriedade propostos em II-II, q.66, a.2. O interesse particular, a busca do lucro são aceitos, reconhecidos até como indispensáveis à produção dos bens necessários; mas, ao mesmo tempo, exige-se que não sejam “fins últimos”, que subordinem-se aos objetivos da justiça e da solidariedade, para não incorrer nos vícios da acumulação de riquezas e da avareza. As posições aqui ilustradas parecem resultar de uma atenção do teólogo ao desenvolvimento comercial de seu tempo, e à prática das pessoas honestas que se dedicam cada vez mais, em boa consciência, aos ofícios lucrativos.]

tomas_respondoÉ próprio dos negociantes praticar a comutação dos bens. Ora, como explica o Filósofo, há duas sortes de comutações. Uma, como que natural e necessária, em que se troca uma coisa por outra, ou uma coisa por dinheiro, para satisfazer às necessidades da vida. Esse tipo de comutações não é próprio dos negociantes, mas dos chefes da casa ou da cidade, os quais devem prover a família ou a população, das coisas necessárias à vida. Outra espécie de comutação é a de dinheiro, ou de quaisquer objetos por dinheiro, não pelas necessidades da vida, mas em vista do lucro E tal é o negócio que pertence propriamente aos negociantes. Segundo o Filósofo, a primeira espécie de troca é louvável, pois está a serviço de uma necessidade natural. A segunda, porém, é reprovada com justiça, porque, de si mesma, fomenta a cobiça do lucro, que não conhece limite, mas tende ao infinito. Por isso, o comércio encarado em si mesmo, possui algo vergonhoso, pois, por sua natureza, não visa nenhum fim honesto ou necessário. Leia mais deste post

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