Tomás responde: O homem é dotado de livre-arbítrio?

Lucas Cranach, Adão e Eva, 1526, óleo sobre madeira, Londres

Parece que o homem não é dotado de livre-arbítrio:

1. Com efeito, aquele que é dotado de livre-arbítrio faz o que quer. Ora, o homem não faz o que quer, segundo a Carta aos Romanos: “Não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero”(7, 15). Logo, o homem não é dotado de livre-arbítrio.

2. Além disso, aquele que é dotado de livre-arbítrio pode querer e não querer, agir e não agir. Ora, isso não cabe ao homem, pois segundo a Carta aos Romanos: “Nem o querer cabe àquele que quer, nem a corrida àquele que corre” (9, 16). Logo, o homem não é dotado de livre-arbítrio.

3. Ademais, “É livre o que é causa de si mesmo”, diz o livro I da Metafísica. Assim, o que é movido por outro não é livre. Ora, Deus move a vontade. “O coração do rei está na mão de Deus”, diz o livro dos Provérbios (21,1), “e Deus o dirige para onde quiser”. E a Carta aos Filipenses: “É Deus que opera em nós o querer e o agir” (2, 13). Logo, o homem não é dotado de livre-arbítrio.

4. Ademais, todo aquele que é dotado de livre-arbítrio é senhor de seus atos. Ora, o homem não o é, conforme está escrito em Jeremias: “Não está no homem o seu caminho, nem cabe ao homem dirigir seus passos” (10,23). Logo, o homem não é dotado de livre-arbítrio.

5. Ademais, “Como é cada um, assim lhe parece ser o fim”, diz o Filósofo no livro III da Ética. Ora, não está em nosso poder ser de tal ou tal maneira; isso nos é dado pela natureza. Portanto, é natural que sigamos um fim determinado. Logo, não o seguimos por livre-arbítrio.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, segundo o Eclesiástico: “Deus criou o homem no começo e o deixou na mão de seu conselho” (15, 14), isto é, “de seu livre-arbítrio”, diz a Glosa.

RESPONDO. O homem é dotado de livre-arbítrio, do contrário os conselhos, as exortações, os preceitos, as proibições, as recompensas e os castigos seriam vãos. Para demonstrá-los, deve-se considerar que certas coisas agem sem julgamento. Por exemplo, a pedra que se move para baixo, e igualmente todas as coisas que não têm o conhecimento. Outras coisas agem com julgamento, mas esse não é livre: como os animais. Por exemplo, a ovelha, vendo o lobo, julga que é preciso fugir: é um julgamento natural, mas não livre, pois não julga por comparação, mas por instinto natural. O mesmo acontece com todos os julgamentos dos animais. O homem, porém, age com julgamento, porque, por sua potência cognoscitiva julga que se deve fugir de alguma coisa ou procurá-la. Mas como esse julgamento não é o efeito de um instinto natural aplicado a uma ação particular, mas de uma certa comparação da razão, por isso, o homem age com julgamento livre, podendo se orientar para diversos objetos. Com efeito, a respeito do contingente, a razão pode seguir direções opostas, como vemos nos Leia mais deste post

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