Tomás responde: Deus move o intelecto criado de maneira imediata?

Simone Martini (1285-1344), Santo Agostinho (1320-1325), Fitzwilliam Museum, Cambridge

Publicarei a partir de hoje três artigos muito interessantes sobre a ação de Deus em nosso intelecto, em nossa vontade e na natureza criada em geral. Talvez a linguagem utilizada seja um pouco mais difícil do que a que encontramos nos temas mais populares que costumo postar, então sugiro que baixem o vocabulário dos termos utilizados por Santo Tomás, na página de downloads. De qualquer modo, são artigos excelentes cuja leitura realmente vale a pena.

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Parece que Deus não move o intelecto criado de maneira imediata:

1. Com efeito, a ação do intelecto é daquele em que ele se encontra; não passa a uma matéria exterior, como se diz no livro IX da Metafísica. Ora, a ação daquele que é movido por outro não é daquele em que se encontra, mas do que move. Logo, o intelecto não é movido por outro. E assim, parece que Deus não pode mover o intelecto.

2. Além disso, aquilo que tem em si o princípio suficiente de seu movimento não é movido por outro. Ora, o movimento do intelecto é sua própria intelecção, como diz o Filósofo no livro III da Alma que intelecção e sensação são, de certa maneira, movimentos. Ora, o princípio suficiente da intelecção é a luz inteligível, impressa no intelecto. Logo, o intelecto não é movido por outro.

3. Ademais, assim como o sentido é movido pelo sensível, o intelecto é movido pelo inteligível. Ora, para nós, Deus não é inteligível, porque ultrapassa nosso intelecto. Logo, Deus não pode mover nosso intelecto.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o que ensina move o intelecto do que aprende. Ora, diz o Salmo 93: “Deus ensina ao homem a ciência”. Portanto, Deus move o intelecto do homem.

Nos movimentos corporais, chama-se motor aquele que dá a forma, que é princípio do movimento. Da mesma maneira, diz-se mover o intelecto o que causa a forma que é o princípio da operação intelectual, também chamada movimento do intelecto. Ora, no que conhece existem dois princípios da operação do intelecto: um, que é a própria potência intelectual. Esse princípio existe no que conhece mesmo quando em potência. O outro é o princípio da intelecção em ato, a saber, a semelhança da coisa conhecida no que conhece. Pode-se pois dizer que algo move o intelecto, seja quando dá ao que conhece a potência para conhecer, seja quando imprime nele a semelhança da coisa conhecida.

Deus move pois o intelecto criado dessas duas maneiras. Ele é o primeiro ente imaterial. Como a intelectualidade é consecutiva à imaterialidade, segue-se que ele é também Leia mais deste post

Tomás responde: O diabo desejou ser como Deus?

Gustave Doré, Satanás (clique para ampliar)

Parece que o diabo não desejou ser como Deus:

1. Na verdade, o que não é objeto do conhecimento não é do apetite, porque o bem conhecido move os apetites sensitivo, racional e intelectivo, porém só neste último há pecado. Ora, que uma criatura seja igual a Deus, isso não é objeto de conhecimento, pois implica contradição, porque o finito necessariamente seria infinito, se fosse igual ao infinito. Logo, o anjo não pôde desejar ser como Deus.

2. Além disso, o que é o fim da natureza pode-se desejar sem pecado. Ora, assemelhar-se a Deus é o fim ao qual tendem naturalmente todas as criaturas. Logo, se o anjo desejou ser como Deus, não por igualdade, mas por semelhança, parece que nisso não pecou.

3. Ademais, o anjo foi criado mais sábio que o homem. Ora, nenhum homem, a não ser totalmente sem entendimento, escolhe ser igual ao anjo ou a Deus, porque uma escolha tem por objeto coisas possíveis, que são o objeto da deliberação. Logo, o anjo, por maior razão, não pecou desejando ser como Deus.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz-se em Isaías, a respeito do diabo: “Subirei para o alto e serei semelhante ao Altíssimo” (14, 13-14). Diz também Agostinho: “cheio de soberba, quis ser considerado Deus”.

RESPONDO. Indubitavelmente pecou o anjo desejando ser igual a Deus. Isso pode ser entendido de duas maneiras: primeiro, por igualdade; segundo, por semelhança. Por igualdade, não foi possível o demônio desejar ser Deus, porque sabia por conhecimento natural ser isso impossível; nem a seu primeiro pecado precedeu o hábito ou a paixão impedindo seu intelecto de, errando num caso particular, escolher o impossível, como, às vezes, nos acontece. Todavia, dado que fosse possível, isso seria contra o desejo natural. Há em todas as coisas o desejo natural da Leia mais deste post

A ação dos anjos sobre os homens (IV): O anjo pode agir sobre os sentidos humanos?

Giotto di Bondone (1266-1337), Vida de Cristo, Lamentação, Capela Scrovegni de Pádua, detalhe (clique para ampliar)

Parece que o anjo não pode agir sobre os sentidos humanos:

1. Com efeito, a operação dos sentidos é vital, e tal operação não provém de um princípio extrínseco. Logo, não pode ser causada por um anjo.

2. Além disso, a potência sensitiva é mais nobre que a nutritiva. Ora, parece que o anjo não pode agir sobre a potência nutritiva, nem sobre outras formas naturais. Logo, nem pode agir sobre a potência sensitiva.

3. Ademais, os sentidos movem-se naturalmente pelas coisas sensíveis. Ora, o anjo não pode agir sobre Leia mais deste post

A ação dos anjos sobre os homens (III): O anjo pode agir sobre a imaginação do homem?

Giotto di Bondone (1266-1337), Vida de Cristo, Lamentação, Capela Scrovegni de Pádua, detalhe (clique para ampliar)

Parece que o anjo não pode agir sobre a imaginação do homem:

1. Com efeito, segundo o livro da Alma, a fantasia é “um movimento realizado pelo sentido em ato”. Ora, se fosse feito por uma ação causada pelo anjo, não teria sido feita pelo sentido em ato.

2. Além disso, as formas que estão na imaginação, por serem espirituais, são mais nobres que aquelas que estão na matéria sensível. Ora, os anjos não podem imprimir Leia mais deste post

A ação dos anjos sobre os homens (II): Os anjos podem agir sobre a vontade do homem?

Giotto di Bondone (1266-1337), Vida de Cristo, Lamentação, Capela Scrovegni de Pádua, detalhe (clique para ampliar)

Parece que os anjos podem agir sobre a vontade do homem:

1. Com efeito, a propósito da passagem da Carta aos Hebreus: “Aquele que faz de seus anjos espíritos e de seus ministros chama de fogo” (1, 7), diz a Glosa: “São fogo porque têm o espírito ardente e queimam nossos vícios”. Ora, isso só é possível se podem agir sobre a vontade. Logo, os anjos podem agir sobre a vontade.

2. Além disso, Beda diz que “o diabo não inspira os maus pensamentos, mas os excita”. Já Damasceno vai mais longe, dizendo que também eles os inspiram, e acrescenta: toda malícia e as paixões imundas foram imaginadas pelos demônios e lhes foi concedido inspirá-las aos homens. Pela mesma razão, os anjos bons também Leia mais deste post

A ação dos anjos sobre os homens (I): O anjo pode iluminar o homem?

Giotto di Bondone (1266-1337), Vida de Cristo, Lamentação, Capela Scrovegni de Pádua, detalhe (clique para ampliar)

Uma vez que, como já vimos, os homens são guardados por anjos e cada homem é guardado por um anjo, resta agora saber como exatamente isso acontece, ou seja, como agem os anjos em nós, como se comunicam? Santo Tomás desenvolve o tema em quatro artigos, a saber:

1. O anjo pode iluminar o homem?

2. Os anjos podem agir sobre a vontade do homem?

3. O anjo pode agir sobre a imaginação do homem?

4. O anjo pode agir sobre os sentidos humanos?

Abaixo segue o primeiro artigo.

Parece que o anjo não pode iluminar o homem:

1. Com efeito, o homem é iluminado pela fé, tanto que Dionísio atribui a iluminação ao batismo, o sacramento da fé. Ora, a fé vem diretamente de Deus, como se diz na Carta aos Efésios: “É pela graça que vós sois salvos por meio da fé; e isso não depende de vós, é dom de Deus” (2, 8). Logo, o homem não é iluminado pelo anjo, mas imediatamente por Deus.

2. Além disso, a passagem da Carta aos Romanos que diz: “Deus lhes manifestou” (1, 19), a Glosa diz: “Não somente a razão natural foi útil manifestando aos homens as coisas divinas, mas ainda o próprio Deus lhes revelou por meio de sua obra”, ou seja Leia mais deste post

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