[OFF] O niilismo (Final) – As máscaras do niilismo

Hieronymus Bosch, A Nau dos Loucos, Museu do Louvre, Paris

De fato, é justamente aquele niilismo que Nietzsche chama de niilismo incompleto que domina a todos hoje, repleto de obscuras ameaças e perigos.

Nietzsche diz ainda: “Ao valor do que permanece eternamente igual a si mesmo […] contrapõe-se o valor do que é mais breve e fugaz, o sedutor brilho dourado no ventre da serpente vida”.

Esses valores breves e fugazes parecidos com o sedutor brilho dourado no ventre da serpente vida são aqueles ligados à vontade de potência, e portanto constituem os antigos valores transvalorados segundo a doutrina nietzscheniana; mas em nada diferem dos disfarces niilistas dos antigos valores substituídos por novas máscaras multicoloridas, os quais, bem mais do que com o fugaz brilho dourado no ventre da serpente vida, se apresentam como as sereias que encantam, e que, vangloriando-se de ser portadores de salvação ou pelo menos de segurança, representam o perigo de arrastar de forma irreversível para o abismo do nada.

As causas profundas dos males do homem de hoje são justamente esses disfarces niilistas dos valores supremos que caíram (como tais) no esquecimento.

A meu ver, tais males e os vários disfarces niilistas dos valores perdidos a eles vinculados podem ser resumidos nos dez itens apresentados a seguir:

1) o cientificismo e o redimensionamento da razão do homem em sentido tecnológico;

2) o ideologismo absolutizado e o esquecimento do ideal do verdadeiro;

3) o praxismo, com sua exaltação da ação pela ação e o esquecimento do ideal da contemplação;

4) a proclamação do bem-estar material como sucedâneo da felicidade;

5) a difusão da Leia mais deste post

[OFF] O niilismo (VI): O niilismo levado às últimas consequências

Pieter Bruegel o velho, Torre de Babel (1563), Viena, Áustria

Diante de passagens como as acima citadas, convém perguntar se Nietzsche realmente inverteu os valores com algum saldo positivo, ou se, ao contrário, a posição que ele assumiu não passa de um niilismo destrutivo levado às últimas consequências.

Heidegger deu respostas exemplares, as quais se impõem mesmo quando desvinculadas das posições teóricas que em grande medida as sustentam.

Recordo aqui as três passagens mais significativas a esse respeito.

No primeiro Heidegger, esclarece-se o seguinte: “Não obstante toda derrubada e inversão da metafísica, Nietzsche não se desvia de seu curso ininterrupto quando concebe aquilo que a vontade de potência intui para a própria conservação como o ser, o ente, ou a verdade. A verdade resume-se, então, numa condição posta pela essência da vontade de potência, e precisamente na condição de conservação de sua potência. Resumindo-se nessa condição, a verdade é um valor. Como a vontade de potência só pode querer dispondo de algo permanente, a verdade torna-se um valor necessário para a vontade de potência e fundamenta sua essência. O termo verdade não significa nem o não-ser-escondido do ente, nem a concordância do conhecer com o objeto, nem a certeza como segurança daquilo que é posto no pôr representativo. A verdade é entendida aqui – num sentido que deriva historicamente das modalidades derivadas de sua essência – como certeza da presença disponível do círculo a partir do qual a vontade de potência quer a si mesma.

No segundo Heidegger, esses esclarecimentos aprofundam-se ainda mais: “O que resta do ser? Do ser resta o nada. E se justamente aqui se revelasse a essência do niilismo, que até agora ficou escondida? Será que o verdadeiro niilismo consistirá em Leia mais deste post

[OFF] O niilismo (III): A interpretação de Heidegger

Heidegger

O significado da afirmação da morte de Deus tem um alcance bem mais amplo do que o de exprimir uma forma de ateísmo comum, como Martin Heidegger demonstrou muito bem no magistral ensaio A sentença de Nietzsche “Deus está morto”.

Depois de reproduzir a primeira passagem que citamos acima, e de evocar também a segunda, justamente para explicar a menção explícita do Deus cristão, Heidegger escreve: “Essa passagem evidencia que a afirmação de Nietzsche acerca da morte de Deus refere-se ao Deus cristão. Mas também é certo, e deve ser levado em conta desde então, que as expressões ‘Deus’ e ‘Deus cristão’ são empregadas, no pensamento de Nietzsche, para indicar o mundo supra-sensível em geral. ‘Deus’ é o termo para designar o mundo das idéias e dos ideais. Desde Platão – ou melhor, desde o último período da filosofia grega e da interpretação cristã da filosofia platônica -, esse mundo do supra-sensível tem o mesmo valor que o mundo verdadeiro, o autenticamente real. Em oposição a ele, o mundo sensível é simplesmente o mundo terreno, o mundo mutável, aparente e irreal. O mundo terreno é o vale de lágrimas, em contraposição à eterna felicidade supraterrena. Se, como ainda faz Kant, entendemos o mundo sensível como mundo físico no sentido mais amplo, o mundo supra-sensível passará a ser o mundo metafísico. Assim, a expressão ‘Deus está morto’ significa que o mundo ultra-sensível não tem força real, não envolve nenhum tipo de vida. A metafísica, ou seja – para Nietzsche – a filosofia ocidental entendida como platonismo, está no fim. Nietzsche considera sua filosofia como a contracorrente da metafísica, isto é, para ele, do platonismo”.

Heidegger esclarece essa idéia numa página que é preciso reproduzir e ler tão atentamente quanto a anterior, porque chega ao núcleo do problema: “O niilismo, pensado em sua essência, é antes o movimento fundamental da história do Ocidente. Ele revela um curso tão profundamente subterrâneo, que seu desenvolvimento só poderá determinar catástrofes mundiais. O niilismo é o Leia mais deste post

[OFF] O niilismo (II): A morte de Deus

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Uma das passagens mais violentamente iconoclastas é sem dúvida a que está na obra A gaia ciência, que traz o título “O insensato”: “Nunca ouviram falar de um louco que, em pleno dia, acendeu uma lanterna, correu ao mercado e se pôs a gritar sem parar: ‘Procuro Deus! Procuro Deus!’ Como lá se encontravam muitos que não acreditavam em Deus, provocou muitas risadas. ‘Será que ele se perdeu?’, disse alguém. ‘Perdeu-se como uma criança?’, falou outro. ‘Ou será que está bem escondido? Tem medo de nós? Será que foi embora? Ou emigrou?’ – gritavam e riam em grande algazarra. O louco pulou no meio deles e traspassou-os com o olhar: ‘Para onde foi Deus?’ – bradou. – ‘Vou dizer-lhes para onde foi! Nós o matamos: vocês e eu! Nós todos somos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como pudemos esvaziar o mar, bebendo-o até a última gota? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos quando desprendemos a corrente que ligava esta terra ao sol? Para onde vai agora? Para onde vamos nós? Longe de todos os sóis? Não estaremos caindo incessantemente? Para a frente, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos errando como através de um infinito nada? Não sentiremos no rosto o sopro do vazio? Não está mais frio? Não surgem noites, cada vez mais noites? Não será preciso acender lanternas pela manhã? Não escutamos ainda o ruído dos coveiros que enterram a Deus? Não sentimos o mau cheiro da decomposição divina? Os deuses também se decompõem! Deus morreu! Deus continua morto! E nós o matamos! […] Jamais houve ação tão grandiosa e os que nascerem depois de nós pertencerão, em virtude dessa ação, a uma história mais elevada do que todas as histórias até hoje!’ Após pronunciar essas palavras, o insensato calou-se e dirigiu novamente o olhar a seus ouvintes; também eles se calavam como ele e o fitavam com espanto. Finalmente, atirou a lanterna ao chão de tal modo que se espatifou, apagando-se. ‘Venho muito cedo’ – prosseguiu -, ‘meu tempo ainda não chegou. Esse evento enorme está a caminho, aproxima-se e não chegou ainda aos ouvidos dos homens. É preciso tempo para o relâmpago e o raio, é preciso tempo para a luz dos astros, é preciso tempo para as ações, mesmo depois de concluídas, serem vistas e entendidas. […]’ Conta-se ainda que esse louco penetrou, nesse mesmo dia, em diversas igrejas e ali entoou o seu Requiem aeternam Deo. Expulso e interrogado, dizem que se limitou a responder sempre a mesma coisa: ‘De que servem Leia mais deste post

[OFF] O niilismo (I): A essência do niilismo

Mas em que consiste o niilismo?

Vejamos as respostas dadas por Nietzsche, que atingem uma clareza exemplar.

Num fragmento, sempre de 1887 (o ano crucial em que Nietzsche amadureceu essa problemática), lemos: “Niilismo: falta o fim; falta a resposta ao ‘por quê?’; o que significa niilismo? – que os valores supremos se desvalorizam”.

Os pressupostos do niilismo são “Que não exista uma verdade; que não exista uma constituição absoluta das coisas, uma ‘coisa em si’”.

E eis um violento destaque desse conceito: “Contra a suposição de que um ‘em si das coisas’ deveria ser necessariamente bom, feliz, verdadeiro, uno, a interpretação de Schopenhauer do ‘em si’ como vontade foi um passo essencial; contudo, ele não soube divinizar essa vontade: deteve-se no ideal moral cristão. Schopenhauer ainda estava dominado a tal ponto pelos valores cristãos que era obrigado a ver a coisa em si – depois que ela deixou de significar ‘Deus’ para ele – como má, estúpida, como algo que se devia rejeitar de uma vez por todas. Ele não compreendera que pode haver infinitas formas de poder-ser-outro e até de poder-ser-Deus. Maldição daquela dualidade limitada: bem e mal”.

Explicitando os pontos básicos desses esclarecimentos, poderíamos dizer que o niilismo leva à desvalorização e à negação dos seguintes princípios:

a) princípio primeiro, Deus;

b) fim último;

c) ser;

d) bem;

e) verdade.

Segundo Nietzsche, pode-se ver o niilismo como um aspecto “de crescimento da potência do espírito”, ou seja, como “niilismo ativo”, pois tem a força destrutiva da fé nos valores que perderam sentido, embora Leia mais deste post

Pedrinhas e estrelas

gifindiceLa_strada(clique na imagem para baixar o filme em rmvb)

Antes de adentrarmos nas elevadas salas da “fábrica dos céus”, observemos o que acontece numa pequena estrada de nossas periferias:

Louco – Eu sou ignorante, mas li um ou outro livro… Você não vai acreditar, mas tudo o que existe neste mundo serve para alguma coisa. Veja… pegue… aquela pedra ali, por exemplo… (Gelsomina o interrompe e pergunta desconsoladamente:)

Gelsomina – (voz fora de cena) Qual?

Louco – E… Esta, qualquer uma… (O Louco se abaixa para pegar uma pedrinha e a mostra a Gelsomina.) Bem… até isto serve para alguma coisa… até esta pedrinha.

Gelsomina – (olhando atentamente para a pedra que o Louco tem na mão) E serve para quê?

Louco – Serve… sei lá! Se soubesse, sabe o que eu seria?

Gelsomina – (voz fora de cena) Quem?

Louco – Deus, que sabe tudo. Quando nascemos. Quando morremos. Quem pode saber isso? (O Louco chega mais perto de Gelsomina.) Não… não sei para que serve esta pedrinha, mas deve servir para alguma coisa… porque se isto é inútil, então tudo é inútil… (olha para o céu)… até as estrelas. (Joga a pedrinha para o alto e volta a apanhá-la.) Pelo menos eu acredito. (Senta-se ao lado de Gelsomina e continua enternecidoJ E você também… você também serve para alguma coisa… com sua cabeça de alcachofra…

O leitor deve ter reconhecido uma das cenas mais tocantes de A estrada da vida de Federico Fellini (1954). Pagaria de bom grado o ingresso para que, em algum cineclube, esse filme pudesse ser assistido por certos cientistas que exaltam o caos e por todos os cientistas que os seguem. Não por acaso, Fellini atribui as palavras sobre o sentido das coisas ao personagem chamado “o Louco”: um artifício realmente shakespeariano, porque, afinal, “a loucura tem algum método”.

(Giovanni Reale, O Saber dos Antigos, Ed. Loyola, 2ª edição, págs 203-204)

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