Fragmentos: A Prudência

A prudência é a virtude mais necessária à vida humana, pois viver bem consiste em agir bem. Ora, para agir bem é preciso não só fazer alguma coisa, mas fazê-lo também do modo certo, ou seja, por uma escolha correta e não por impulso ou paixão. Como a escolha visa aos meios para se conseguir um fim, para ser correta exigem-se duas coisas: o fim devido (debitum finem) e os meios adequados a esse fim … Quanto aos meios adequados a esse fim, importa que o homem esteja diretamente disposto pelo habitus da razão, porque aconselhar e escolher, que são ações relacionadas com os meios, são atos da razão. É necessário, pois, haver na razão alguma virtude intelectual que a aperfeiçoe, para que proceda com acerto em relação aos meios. Essa virtude é a prudência, virtude portanto necessária para bem viver.

(Suma Teológica P I-II,q.57)

A virtude moral pode existir sem certas virtudes intelectuais, como a sabedoria, a ciência e a arte. Não porém sem o intelecto e a prudência. Sem a prudência, não pode haver realmente virtude moral, já que esta é um habitus “eletivo” (electivus), isto é, que faz escolhas certas. Ora, para uma boa escolha, duas coisas se exigem: primeiro, que haja a devida intenção do fim, o que se faz pela virtude moral, que inclina a potência apetitiva para o bem conveniente com a razão, que é o fim devido. Segundo, que se usem corretamente os meios, e isso só se alcança por uma razão que saiba aconselhar, julgar e decidir bem, o que é próprio da prudência e de virtudes a ela conexas. Logo, a virtude moral não pode existir sem a prudência.

Por conseqüência, também não poderá haver virtude moral sem o intelecto, pois é por ele que são conhecidos os princípios naturalmente evidentes, seja na ordem especulativa, seja na prática. Assim, da mesma forma que a razão reta, na ordem especulativa, enquanto procede de princípios naturalmente conhecidos, pressupõe o intelecto deles, assim também a prudência, que é a razão reta do agir (recta ratio agibilium).

(Suma Teológica P I-II, q. 58, a. 4)

No homem virtuoso, não é necessário que o uso da razão seja vigente sob todos os aspectos, mas só em relação ao que ele deve fazer virtuosamente. E assim o uso da razão é vigente em todos os virtuosos. Donde até aqueles que parecem simples, porque desprovidos da astúcia do mundo, podem ser prudentes, conforme a palavra do Evangelho de Mateus (10, 16): “Sede prudentes como a serpente e simples como as pombas”.

(Suma Teológica P I-II, q. 58, a. 4 ad 2)

Tomás de Aquino, Santo Tomás, Suma Teológica, teologia, filosofia, doutrina sagrada

A doutrina sagrada é uma ciência?

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A doutrina sagrada é uma ciência?”

  • Existem dois tipos de ciência:
    • Algumas procedem de princípios que são conhecidos à luz natural do intelecto (aritmética, geometria);
    • Outras procedem de princípios conhecidos à luz de uma ciência superior (por ex.: perspectiva: princípios tomados à geometria; música: princípios tomados à aritmética).

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A doutrina sagrada é uma ciência?

QUANTO AO SEGUNDO ARTIGO, ASSIM SE PROCEDE: Parece não ser ciência a doutrina sagrada.

1. – Pois toda ciência provém de princípios por si evidentes, ao passo que procede a doutrina sagrada dos artigos da fé, inevidentes em si, por serem não universalmente aceitos; porque a fé não é de todos, diz a Escritura (II Ts. 3, 2). Logo, não é ciência a doutrina sagrada.

2. – Ademais, do indivíduo não há ciência. Mas a doutrina sagrada trata de fatos individuais, como sejam os feitos de Abraão, Isaac, Jacó e Leia mais deste post

É necessária outra doutrina, além das disciplinas filosóficas?

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“É necessária outra doutrina, além das disciplinas filosóficas?”

  • “Era necessário existir para a salvação do homem, além das disciplinas filosóficas, que são pesquisadas pela razão humana, uma doutrina fundada na REVELAÇÃO DIVINA.”
  • A vida do homem, criado por Deus, está ordenada para um fim (o próprio Deus).
  • Este fim ultrapassa a compreensão da razão.
  • Mas o homem deve conhecer este fim, para a ele dirigir suas intenções e ações.
  • Era necessário, portanto, que estas coisas que ultrapassam a razão fossem comunicadas por revelação divina.
  • A verdade sobre Deus pesquisada somente pela razão humana chegaria apenas a um pequeno número, depois de muito tempo e cheia de erros.
  • Mas como do conhecimento dessa verdade depende a salvação do homem, era necessário que ele fosse instruído por uma revelação divina.

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É necessária outra doutrina, além das disciplinas filosóficas?

QUANTO AO PRIMEIRO ARTIGO, ASSIM SE PROCEDE: Parece desnecessária outra doutrina além das disciplinas filosóficas.

1. – Pois não se deve esforçar o homem por alcançar objetos que ultrapassem a razão, segundo a Escritura (Ecle. 3, 22): Não procures saber coisas mais dificultosas do que as que cabem na tua capacidade. Ora, o que é da alçada racional ensina-se, com suficiência, nas disciplinas filosóficas; logo, parece escusada outra doutrina além das disciplinas filosóficas.

2. – Ademais, não há doutrina senão do ente, pois nada se sabe, senão o verdadeiro, que no ente se converte. Ora, de todas as partes do ser trata a filosofia, inclusive de Deus; por onde, um ramo filosófico se chama teologia ou ciência divina, como está no Filósofo. Logo, não é preciso que haja outra doutrina além das filosóficas.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz a segunda Carta a Timóteo (II Tm. 3, 16): Toda a Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, para repreender, Leia mais deste post

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