Chesterton e a democracia

Chesterton

Traduzido do inglês por Pedro G. Menezes

Do ensaio “Sobre o industrialismo” da obra “All I Survey”;
o ensaio original foi publicado como coluna no Illustrated London News em 16 de julho de 1932.
 

Está cada dia mais evidente que aqueles dentre nós, que se agarram a credos e dogmas esfarelados e defendem as tradições moribundas da Idade das Trevas, logo defenderão sozinhos o mais obviamente decadente dentre todos esses antigos dogmas: a ideia chamada Democracia. Não levou nem uma geração, nem mesmo minha própria geração, para derrubá-la do topo do sucesso, ou suposto sucesso, rumo a um profundo fracasso, ou renomado fracasso. Ao final do século dezenove, milhões de pessoas aceitavam a democracia sem saberem por quê. Ao final do século vinte, milhões de pessoas provavelmente rejeitarão a democracia, também sem saberem por quê. Nesta linha reta, estritamente lógica e inabalável, a mente do homem avança pelo grande caminho do progresso.

De qualquer modo, neste momento a democracia está sendo não apenas abusada, mas abusada muito injustamente. Os homens acusam o sufrágio universal simplesmente porque não são esclarecidos o suficiente para acusar o pecado original. Há um teste simples para determinar se os males políticos comuns tem origem no pecado original, um teste que nenhum ou pouquíssimos desses descontentes modernos fazem: definir qualquer tipo de afirmação moral para algum tipo de sistema político. A essência da democracia é muito simples e, como disse Jefferson, auto-evidente. Se dez homens naufragaram juntos numa ilha deserta, a comunidade consiste nesses dez homens, o bem-estar deles é o objeto social, e normalmente a vontade deles é a lei social. Se eles não tem uma reivindicação natural para governarem a si mesmos, qual deles terá a reivindicação natural para governar os outros? Dizer que o mais inteligente ou o mais corajoso deve governar é invocar uma questão moral. Se seus talentos são usados para a comunidade, ao planejar viagens ou destilar água, então ele é servo da comunidade, e ela é, neste sentido, seu soberano. Se seus talentos são usados contra a comunidade, roubando rum ou envenenando a água, por que a comunidade deveria se submeter a ele? E há chance de que ela o fará? Em um caso simples como este, todos podem ver o fundamento popular da coisa e a vantagem do governo por consenso. O problema com a democracia é que ela, nos tempos modernos, nunca tem a ver com um caso tão simples. Em outras palavras, o problema da democracia é que não é democracia. São certas coisas artificiais e antidemocráticas que de fato tem adentrado no mundo moderno para frustrar e destruir a democracia.

Modernidade não é democracia; maquinaria não é democracia; a submissão de tudo à troca e ao comércio não é democracia. Capitalismo não é democracia — é, por tendência e sabor, e admitidamente, bem contrário à democracia. Plutocracia, por definição, não é democracia. Mas todas essas coisas modernas entraram forçadas no mundo mais ou menos no momento, ou logo após ele, em que grandes idealistas como Rousseau e Jefferson pensavam sobre o ideal democrático da democracia. Pode-se dizer que o ideal era muito idealista para vingar. Mas não se pode dizer que o ideal que fracassou fosse o mesmo das realidades que vingaram. Uma coisa é dizer que um tolo entrou na selva e foi devorado por feras selvagens; outra é dizer que o tolo sobreviveu como a única fera selvagem. Na prática, a democracia tinha tudo contra ela, e isso, em teoria, talvez seja algo contra a democracia. Pode-se argumentar que a vida humana está contra ela. Mas é certo que a vida moderna, em qualquer dimensão, está contra ela. O mundo industrial e científico dos últimos cem anos é um lugar muito mais inadequado para a experiência do autogoverno do que aquele encontrado nas antigas condições da vida agrária ou nômade. A vida senhorial do feudo não era uma democracia, mas poderia se transformar em uma democracia muito mais facilmente. A vida camponesa posterior na França e na Suíça foi, de fato, transformada em democracia com facilidade. Porém, é terrivelmente difícil transformar aquilo que chamamos de democracia industrial moderna em uma democracia.

É por isso que hoje muitos homens passaram a dizer que o ideal democrático afastou-se do espírito moderno. Concordo plenamente, e obviamente prefiro o ideal democrático, que ao menos é um ideal e, portanto, uma ideia, ao espírito moderno, o qual é simplesmente moderno e, portanto, já está ficando velho. Percebo que os excêntricos, que podem ser chamados educadamente de idealistas, já se apressam a descartar este ideal. Um conhecido pacifista, com quem debati em jornais radicais na minha época radical e que depois tornou-se um modelo de republicano da nova república, apareceu outro dia para dizer: “a voz do povo é geralmente a voz de Satanás”. A verdade é que esses liberais nunca acreditaram de verdade no governo popular, não mais do que qualquer coisa popular, como os pubs ou a loteria de Dublin. Eles não acreditaram na democracia que invocaram contra reis e padres. Mas eu acreditei nela, e ainda acredito nela, embora prefira invocá-la contra arrogantes e modistas. Eu ainda acredito que ela seria o tipo de governo mais humano, se pudesse ser experimentada numa época mais humana.

Infelizmente, o humanitarismo tem sido a marca de uma época desumana. E por desumanidade não me refiro à mera crueldade, mas à situação em que até mesmo a crueldade deixa de ser humana. Refiro-me à situação na qual o homem rico, ao invés de enforcar seis ou sete inimigos que ele odeia, simplesmente permite que mendiguem e morram de fome seis ou sete mil pessoas que ele não odeia e nunca viu, porque elas vivem no outro lado do mundo. Refiro-me à situação na qual o empregado do homem rico, ao invés de preparar com animação um veneno raro e original para os Borgias ou esculpir um punhal ricamente ornamentado para os propósitos políticos dos Médici, trabalha com monotonia em uma fábrica apertando um pequeno parafuso, que vai se encaixar numa placa que ele nunca verá, a qual será uma peça de uma arma que ele nunca verá, que será usada numa batalha que ele nunca verá, uma luta que ele conhece muito menos do que o vassalo da Renascença conhecia sobre os propósitos do veneno e do punhal. Em resumo, o problema do industrialismo é a falta de direção; o fato de que nada é direto, que todos os caminhos são tortuosos mesmo quando deviam ser retos. No mais indireto dos sistemas, tentamos encaixar a mais direta das ideias. A democracia, um ideal excessivamente simples, foi levianamente aplicada a uma sociedade complexa ao ponto da loucura. Não é surpresa que esta visão tenha-se desvanecido nesse ambiente. Pessoalmente gosto da visão, mas o mundo contém os mais variados tipos; e há seres humanos, perambulando calmamente à luz do dia, que parecem realmente gostar desse ambiente.

Fonte: Sociedade Chesterton Brasil

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Chestertoninas: Democracia de ricos e pobres

“Tudo em nossa época, quando examinado com cuidado, tem essa qualidade fundamentalmente não democrática. Em religião e moral devemos admitir, em abstrato, que os pecados das classes educadas são tão numerosos quanto, ou talvez mais numerosos que, os pecados do pobre e ignorante. Mas, na prática, a grande diferença entre a ética medieval e a nossa é que a nossa concentra a atenção nos pecados dos ignorantes e, praticamente, nega que os educados tenham pecados. Sempre falamos sobre o pecado da intemperança em relação à bebida, pois é muito óbvio que o pobre o comete mais que o rico. Mas sempre negamos que exista algo como o pecado do orgulho, pois é muito óbvio que o rico o comete mais que o pobre. Estamos sempre prontos a transformar um homem educado, que visite os casebres para dar gentis conselhos aos pobres, num santo ou num profeta. Mas a idéia medieval de santo ou profeta era algo completamente diferente. O santo ou profeta medieval era um homem iletrado que entrava nas casas elegantes para dar gentis conselhos aos homens educados. Os antigos tiranos tinham suficiente insolência para despojar os pobres, mas não tinham suficiente insolência para fazer-lhes pregações. Eram os cavalheiros que oprimiam os bairros miseráveis; mas eram os bairros pobres que exortavam os cavalheiros. E assim como não somos democráticos em fé e moral, pela nossa própria natureza de propósito em tais questões, não somos democráticos no tom da prática política. Prova suficiente de que não somos essencialmente democráticos é estarmos sempre imaginando o que Leia mais deste post

Tomás responde: Qual é a melhor forma de governo?

Moisés, de Michelangelo

Duas coisas devem ser consideradas acerca da boa ordenação dos príncipes numa cidade ou povo. Uma das quais é que todos tenham alguma parte no principado. Com efeito, por meio disso conserva-se a paz do povo e todos amam e guardam tal ordenação, como se diz no livro II da Política. Outra coisa é o que se considera segundo a espécie de regime ou de ordenação dos príncipes. Como há diversas espécies de regime, como diz o Filósofo, as principais são o reino, no qual um só governa com poder; e a aristocracia, isto é, o poder dos melhores, na qual alguns poucos governam com poder. Donde a melhor ordenação dos príncipes numa cidade ou reino é aquela na qual um é posto como chefe com poder, o qual a todos preside; e sob o mesmo estão todos os que governam com poder; e assim tal principado pertence a todos, quer porque podem ser escolhidos dentre todos, quer porque também são escolhidos por todos. Tal é, com efeito, o melhor governo, bem combinado: de reino, enquanto um só preside; de aristocracia, enquanto muitos governam com poder; e de democracia, isto é, com o poder do povo, enquanto os príncipes podem ser eleitos dentre as pessoas do povo, e ao povo pertence a eleição dos príncipes.

E isto foi instituído segundo a lei divina. Moisés, com efeito, e seus sucessores governam o povo como governando singularmente a todos, o que é uma espécie de reino. Eram escolhidos setenta e dois anciãos segundo a virtude: diz-se no livro do Deuteronômio (1, 15): “Tirei de vossas tribos homens sábios e nobres e os constituí príncipes”; e isso era aristocrático. Entretanto, era democrático que esses tivessem sido escolhidos dentre todo o povo; diz-se no livro do Êxodo (18, 21): “Providencie de todo o povo homens sábios” etc.; e também que o povo os escolhia; donde se diz no livro do Deuteronômio (1, 13): “Daí dentre vós homens sábios” etc. Portanto, fica claro que foi a melhor ordenação dos príncipes que a lei instituiu.

( Do artigo “A lei antiga ordenou convenientemente a respeito dos príncipes?” da Suma Teológica – 1ª 2ae, q.105 a.1)

Tomás de Aquino, Santo Tomás

Tomás e a política: qual a melhor forma de governo?

Andrea di Bonaiuto, Igreja Santa Maria Novella, Firenze

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Tomás responde: Qual é a melhor forma de governo?
Tomás responde: Qualquer um pode fazer leis?
Tomás responde: É efeito da lei tornar os homens bons?
Tomás responde: Os atos da lei (ordenar, proibir, permitir e punir) são convenientemente enumerados?

“Dois pontos devem ser considerados acerca da boa organização do governo de uma cidade ou de uma nação. Primeiramente, que todos tenham alguma participação no governo, porque, segundo o livro II da Política, existe aí uma garantia de paz civil, e todos amam e guardam uma tal ordenação.”

“Por isso, a melhor organização para o governo de uma cidade oude um reino é aquela em que à cabeça é posto, em razão de sua virtude, um chefe único tendo autoridade sobre todos. Assim sob sua autoridade se encontra um determinado número de chefes subalternos, qualificados segundo a virtude. E assim o poder definido pertence à multidão, porque todos aí têm, ou a possibilidade de serem eleitos, ou a de serem eleitores. Este é o regime perfeito, bem combinado (politia bene commixta) de monarquia, pela preeminência de um só, de aristocracia, pela multiplicidade de chefes virtuosamente qualificados, de democracia, enfim, ou de poder popular, pelo fato de que cidadãos simples podem ser escolhidos como chefes, e que a escolha dos chefes pertence ao povo.”

A afirmação da autonomia do político em relação ao religioso nada diz ainda da questão sensivelmente diferente da melhor forma de governo que convém a uma sociedade adotar. A bem dizer, Tomás jamais se estendeu muito sobre esse assunto, mas vê-se de imediato que as duas questões não existem sem relações. Não somente porque se trata de uma parte e de outra do bem comum da multidão, mas também porque os dados de base que comandam as opções nos dois casos são finalmente os mesmos. Tanto a exigência do respeito mútuo das diversas competências da Igreja e do Estado, quanto o apelo a uma ética de responsabilidade pessoal no governo da cidade terrestre estão inscritos na Leia mais deste post

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