Tomás responde: Cristo foi o primeiro a ressuscitar?

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Ressurreição de Lázaro
Mosaico do século IV na igreja de Sant’Apollinare Nuovo, em Roma

Parece que Cristo não foi o primeiro a ressuscitar:

1. Na verdade, lê-se que no Antigo Testamento algumas pessoas foram ressuscitadas por Elias e Eliseu, conforme diz a Carta aos Hebreus: “Mulheres encontraram seus mortos, pela ressurreição” (11, 35). Também Cristo, antes de sua paixão, ressuscitou três mortos. Portanto, Cristo não foi o primeiro a ressurgir.

2. Além disso, o Evangelho de Mateus narra que, entre outros milagres que ocorreram na paixão de Cristo, “os túmulos se abriram, os corpos de muitos santos já falecidos ressuscitaram” (27, 52). Portanto, Cristo não foi o primeiro a ressuscitar.

3. Ademais, assim como Cristo é, por sua ressurreição, a causa de nossa ressurreição, também é a causa, por sua graça, de nossa graça, conforme diz o Evangelho de João: “De sua plenitude todos nós recebemos” (1, 16). Ora, outros receberam a graça antes de Cristo, como todos os Patriarcas do Antigo Testamento. Logo, alguns também chegaram à ressurreição dos corpos antes de Cristo.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz a primeira Carta aos Coríntios: “Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que morreram” (15, 20), e comenta a Glosa: “Porque ressuscitou antes, no tempo e em sua dignidade”.

tomas_respondoA ressurreição é um retorno da morte para a vida. De dois modos pode alguém ficar livre da morte. Primeiro, somente da morte atual, quando alguém de algum modo começa a viver, depois de ter morrido. Segundo, quando alguém se livra não apenas da morte, mas também da necessidade e, mais ainda, da possibilidade de morrer. Essa é a verdadeira e perfeita ressurreição. De fato, enquanto alguém vive sujeito à necessidade de morrer, de certo modo a morte tem domínio sobre ele, como diz a Carta aos Romanos: “O vosso corpo, sem dúvida, está destinado à morte por causa do pecado” (8, 10). E o que tem possibilidade de existir, em certo sentido já existe, ou seja, potencialmente. É claro então que a ressurreição que livra alguém apenas da morte atual é considerada uma ressurreição imperfeita.

Falando, portanto, da ressurreição perfeita, Cristo é o primeiro a ressurgir, pois, ao ressuscitar, ele foi o primeiro a chegar à vida plenamente imortal, conforme diz a Carta aos Romanos: “Ressuscitado de entre os mortos, Cristo não morre mais” (6, 9). Falando, porém, de uma ressurreição imperfeita, alguns ressuscitaram antes de Cristo, para serem uma espécie de sinal da ressurreição dele.

É clara assim a Leia mais deste post

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Tomás responde: Cristo deveria nascer em Belém?

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Parece que Cristo não deveria nascer em Belém:

1. Com efeito, Isaías diz: “A lei virá de Sião e a palavra de Deus de Jerusalém” (2, 3). Ora, Cristo é a verdadeira Palavra de Deus. Logo, tinha de vir ao mundo em Jerusalém.

2. Além disso, está escrito a respeito de Cristo, diz o Evangelho de Mateus, que “será chamado nazareno” (2, 23). Isso está tomado da profecia de Isaías: “uma flor nascerá de sua raiz” (11, 1). Ora, ‘Nazaré’ quer dizer flor. Mas alguém é denominado sobretudo do lugar em que nasceu. Logo, parece que deveria ter nascido em Nazaré, onde também foi concebido e criado.

3. Ademais, o Senhor veio ao mundo para anunciar a fé na verdade, como diz o Evangelho de João: “Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade” (18, 37). Ora, tal missão teria resultado mais fácil se tivesse nascido na cidade de Roma que então dominava o mundo. Por isso Paulo, na Carta aos Romanos, diz: “No mundo inteiro se proclama a vossa fé” (1, 8). Logo, parece que não devia nascer em Belém.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, está escrito em Miquéias: “E tu, Bet-Lehem Efrata (…) de ti sairá para mim aquele que há de governar Israel” (5, 2).

Tomas_RespondoCristo quis nascer em Belém por dois motivos. Primeiro, porque “é da descendência de David segundo a carne”, como se diz na Carta aos Romanos (1, 3). É a David que foi feita uma promessa especial a respeito de Cristo, segundo o livro dos Reis: “Oráculo do homem posto no alto, do Messias do Deus de Jacó” (2Re 23, 1). Por isso quis nascer em Belém, onde nascera também David, para que, pelo lugar mesmo do nascimento, aparecesse a realização da promessa que lhe tinha sido feita. É o que mostra o evangelista ao dizer: “Porque era da casa e da família de David” (Lc 2, 4).

E em segundo lugar, porque, como diz Gregório: “Belém quer dizer ‘casa do pão’. E o próprio Cristo afirma: “Eu sou o pão vivo, que desceu do céu”.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que

1. David nasceu em Belém, mas escolheu Jerusalém para estabelecer nela a sede de seu reino e ali edificar o templo de Deus. Assim, Jerusalém viria a ser ao mesmo tempo a cidade real e sacerdotal. Mas o sacerdócio de Cristo, e o seu reino, se realizaram principalmente em sua paixão. Por isso era conveniente que, para nascer, escolhesse Belém e para a paixão Jerusalém. Leia mais deste post

Tomás responde: Deus Pai entregou Cristo à paixão?

Matthias Gothart Grünewald, Crucifixão (1512-1516)

Parece que Deus Pai não entregou Cristo à paixão:

1. Com efeito, parece ser iníquo e cruel que um inocente seja entregue à paixão e à morte. Ora, diz o livro do Deuteronômio que “Deus é fiel e sem nenhuma iniquidade” (32, 4). Logo, não entregou Cristo inocente à paixão e à morte.

2. Além disso, não é verossímil que alguém morra por suas próprias mãos e também por mãos de outrem. Ora, Cristo se entregou à morte por nós, como diz Isaías: “Entregou sua alma à morte” (53, 12). Logo, parece que não foi Deus Pai quem o entregou.

3. Ademais, Judas é censurado por ter entregue Cristo aos judeus, como diz o Evangelho de João: “’Um de vós é o diabo!’ Dizia isso por causa de Judas que o haveria de entregar” (6, 71-72). Igualmente, também os judeus são censurados por tê-lo entregue a Pilatos, conforme ele mesmo diz: “A tua própria nação, os sumos sacerdotes te entregaram a mim” (Jo 19,16). Além disso, “Pilatos lhes entregou Jesus para ser crucificado”. Ora, diz a segunda Carta aos Coríntios: “Não há união da justiça com a iniquidade” (6,14). Logo, parece que Deus Pai não entregou Cristo à paixão.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz a Carta aos Romanos: “Ele, que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por nós todos” (8,32).

Como foi dito acima (art. anterior), Cristo sofreu voluntariamente, em obediência ao Pai. E de três modos Deus Pai entregou Cristo à paixão. Primeiro porque, conforme sua eterna vontade, determinou a paixão de Cristo para a libertação do gênero humano, de acordo com o que diz Isaías: “O Senhor fez recair sobre ele a iniquidade de todos nós” (53,6) e “O Senhor quis tritura-lo pelo sofrimento” (v.10).

Segundo, por que lhe inspirou a vontade de sofrer por nós, ao lhe infundir o amor. E na mesma passagem se lê: “Ofereceu-se por que quis” (v.7).

Terceiro, por não livrá-lo da paixão, expondo-o a seus perseguidores. Assim, lemos no Evangelho de Mateus que o Senhor, pendente da cruz, dizia: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (27,46), ou seja, porque o expôs ao Leia mais deste post

Fragmentos: Cristo – sacerdote, profeta e rei

Na antiga aliança dava-se a unção aos sacerdotes e aos reis, como foi o caso de Davi (1 Sm 16) e de Salomão (1 Rs 1). E os profetas também recebiam a unção, como foi o caso de Eliseu, que foi ungido por Elias (1 Rs 19). Essas três [unções] convém a Cristo, que foi rei: “Reinará sobre a casa de Jacó para sempre” (Lc 1, 33). Foi também sacerdote e se ofereceu a Deus em sacrifício (Ef 5, 2). Foi igualmente profeta e proclamou a via da salvação: “O Senhor suscitará um profeta entre os filhos de Israel (Dt 18, 15). Como foi ungido? Não por um óleo visível, porque seu “reino não é deste mundo” (Jo 18, 36). E como não realizou um sacerdócio material não foi ungido com um óleo material mas com o óleo do Espírito Santo… .

In Sl. 44,5

Os outros homens possuem certas graças particulares, mas Cristo, como cabeça de todos os homens, possui em perfeição todas as graças. Por isso, no que diz respeito aos outros homens, um é legislador, o outro sacerdote, o outro rei; em Cristo, ao contrário, tudo isso se reúne como na fonte de todas as graças. Por isso é dito em Isaías (33, 32): “O Senhor é nosso juiz, o Senhor é nosso legislador, o Senhor é nosso rei. Ele virá e nos salvará”.

Suma Teológica III, q.22, a.1

[Depois de ter lembrado a significação da unção e o sentido da palavra Cristo, Tomás continua:] Cristo é rei… é também sacerdote… foi igualmente profeta… convinha-lhe, pois, ser ungido com o óleo de santificação e de alegria. É dele que vêm os sacramentos que são os instrumentos da graça … mas esta unção convém igualmente aos cristãos. Eles são, com efeito, reis e sacerdotes: “Vós sois uma raça eleita, um sacerdócio real” (1 Pd 2, 9), “Fizeste de nós para Deus um reino de sacerdotes” (Ap 5, 10). Eles têm igualmente o Espírito Santo, que é o Espírito de profecia: “Espalharei meu Espírito sobre toda carne” (Jl 2, 28; cf. At 2, 17). Por isso todos são ungidos com uma unção invisível: “Aquele que nos firmou convosco em Cristo e que nos deu a unção é Deus” (2 Cor 1, 21); “Recebestes a unção vinda do Santo e sabeis tudo” (1 Jo 2, 20). Mas que relação existe entre Cristo ungido e os cristãos ungidos como ele? Ei-la: ele tem a unção a título principal e primeiro, nós e os outros a recebemos dele … Por isso os outros são chamados santos, mas ele é o Santo dos santos. Ele é a fonte de toda santidade.

In ad Hebraeos 1,9, lect. 4, n. 64-66

Santo Tomás de Aquino, Igreja, Teologia

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