Diálogo com Bergson

O filósofo Jean Guitton (1901-1999)

– Guitton, por que você acredita em Cristo?

– Mestre, que poderia eu dizer que você já não saiba e numa luz muito mais alta!

– Responda-me, Guitton. Não é para mim, é para você. A santa frisou bem que seria preciso que você mesmo respondesse. Guitton, por que você acredita em Cristo?

– Porque me é sempre difícil crer nele.

– Explique-me isso.

– Nada mais simples. Sou um homem religioso. Estudei muito Plotino, fiz minha tese sobre ele. Na minha opinião, Plotino é o paradigma do homo naturaliter religiosius [homem naturalmente religioso], e até mesmo do homo naturaliter mysticus [homem naturalmente místico].

– Estou de pleno acordo com você.

– A religião natural é uma ascensão do homem para Deus. Ela propõe uma auto-realização do homem. Deus é uma meta, como o cume da montanha é uma meta para o alpinista.

– Isso não se encontraria também no cristianismo? São João da Cruz não fala disso na Subida ao Monte Carmelo?

– É verdade, Bergson. Apesar de tudo, no cristianismo, Deus se impõe. Não é que ele nos tiranize, mas, de qualquer forma, Ele entra em nossa vida sem nos pedir autorização. Nós gostaríamos de organizar tranquilamente nossa subida em direção ao Céu. Deus toma a liberdade de descer do Céu sobre a Terra.

– É melhor, não?

– De jeito nenhum. Fico muito contrariado pela conduta de Deus. Eu não lhe pediria tanto. Ele fez demais. Ele não fica no seu lugar. Não joga seu jogo.

– Ora, ora, você pensa assim. Minha natureza é diferente.

– Não é sua natureza, Bergson, mas sua cultura. Você é hebreu e impregnado de Deus há quatro mil anos até a medula dos ossos. Você acabou por achar normal que o Absoluto se misture sem cessar em seus negócios. Quanto a mim, sou de velha estirpe pagã e lhe garanto que me é muito difícil aceitar um Deus que não fique em seu lugar.

– E você pode dizer-me por que essa dificuldade em crer é para você um motivo de fé?

– Porque para mim é claro que eu jamais teria inventado uma tal religião. Certamente para você, que tem isso nos genes, por assim dizer, é natural situar-se na intuição e no dinamismo dessa vida religiosa; então, basta-lhe prolongar o movimento para antecipar, de certa maneira, a revelação plenária do Amor divino no Messias. Eu, porém, que não tenho absolutamente nada de judeu, asseguro-lhe que esta religião é completamente Leia mais deste post

Quatro características da religião medieval

Missal Weingarten, iluminura sobre pergaminho, cerca de 1210, 29,2×20,3 cm, Pierpoint Morgan Library, NY

A religião cristã, por muito fiel que seja a si própria e por mais unida que esteja à sua Tradição, adquire, no entanto, matizes peculiares de acordo com cada época. Hoje, no catolicismo francês, enfatiza-se mais o aspecto social do Credo, o necessário retorno às fontes bíblicas e patrísticas, e um conhecimento mais profundo da liturgia. Durante os grandes séculos medievais, observam-se também algumas características, quatro das quais mais acentuadas.

A primeira e a mais essencial é o caráter profundamente escriturístico da vida religiosa. A Sagrada Escritura, a Bíblia, é sem dúvida alguma conhecida pela generalidade dos homens, ao menos por alto. Nos conventos e nas universidades lêem-se muitos outros textos, especialmente os dos Padres da Igreja e em particular Santo Agostinho, mas o que o conjunto dos fiéis conhece é o Leia mais deste post

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