Tomás responde: A arte, como hábito intelectual, é uma virtude?

Josefa-natividade

Josefa de Óbidos (1630-1684), Natividade
Parece que a arte não é uma virtude intelectual:
 
1. Pois, diz Agostinho, que ninguém pode usar mal da virtude. Ora, podemos usar mal da arte; tal é o caso do artífice que obra mal de acordo com a ciência da sua arte. Logo, a arte não é uma virtude.
 
2. Além disso, não há virtude de virtude. Ora, há uma virtude da arte, como já se disse. Logo, a arte não é uma virtude.
 
3. Ademais, as artes liberais são mais excelentes que as mecânicas. Ora, assim como estas são práticas, aquelas são especulativas. Logo, se a arte fosse uma virtude intelectual, devia ser enumerada entre as virtudes especulativas.
 
EM SENTIDO CONTRÁRIO, o Filósofo embora considere a arte como virtude, não a enumera contudo entre as virtudes especulativas, cujo sujeito é, diz, a parte científica da alma.
 
Tomas_RespondoA arte não é mais que a razão reta de acordo com a qual fazemos certas obras. E a bondade destas não consiste em o apetite humano se comportar de um determinado modo, mas em ser boa, em si mesma, a obra feita. Pois, o que importa para o louvor do artista, como tal, não é a vontade com que faz a obra, senão a qualidade da obra feita. Por onde, propriamente falando, é um hábito operativo.
 
E contudo convém em algo com os hábitos especulativos. Pois, também a estes importa o modo de ser do objeto considerado, mas não como se comporta o apetite humano em relação a ele. Assim, desde que o geômetra demonstre a verdade, pouco importa como se comporte quanto à parte apetitiva, se está alegre ou irado; e o mesmo se dá com o artífice, segundo já se disse. Por onde, a arte supõe a noção de virtude do mesmo modo que os hábitos especulativos; pois, nem estes e nem aquela fazem a obra boa quanto ao uso — o que é próprio da virtude que aperfeiçoa o apetite mas só quanto à faculdade de agir retamente.
Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:
 
1. A má obra artística de quem possui uma arte não provém desta, mas é antes contra ela; do mesmo modo que quem mente, sabendo qual é a verdade, não fala de acordo, mas contra a sua ciência. Por onde, assim como a ciência sempre diz respeito ao bem, conforme já dissemos, assim também a arte, que por isso é considerada Leia mais deste post

Chestertoninas: A imoralidade na arte

 

“A teoria da imoralidade na arte se estabeleceu firmemente na classe artística; estão livres para produzir qualquer coisa que desejarem. São livres para escrever um poema como O Paraíso Perdido, em que  Satã conquistará Deus. Estão livres para escrever uma Divina Comédia em que o Paraíso pode estar abaixo do nível do Inferno. E  o que fizeram? Será que produziram, em geral, algo mais grandioso ou mais belo do que a criação do impetuoso gibelino católico ou do rígido mestre-escola puritano? Sabemos que produziram apenas uns poucos rondós [Tipo de verso usado na poesia inglesa que foi inventado por Algernon Charles Swinburne]. Milton não os vencia somente em sua devoção, vencia-os na própria irreverência. Em todos os livrecos de versos, não encontraremos um desafio a Deus mais sofisticado que o de Satã. Tampouco sentiremos a grandeza do paganismo da forma como aquele ardoroso cristão descrevera Faranata erguendo a cabeça em puro desdém pelo inferno. E a razão é muito clara. A blasfêmia é um efeito artístico, pois depende de uma convicção filosófica. A blasfêmia depende da crença e, com ela, definha. Caso alguém duvide disso, faça-o  tentar, com seriedade, ter pensamentos blasfemos a respeito de Thor. Penso que a família desse sujeito, ao fim do dia, o encontrará exausto.”

G. K. Chesterton, Hereges

Diálogo com El Greco

El Greco, O Sepultamento do Conde de Orgaz (veja texto abaixo)

Entrou um homem, vestido à moda castelhana do século XVI. Eu o interpelei.

– Senhor, gostaria de olhar por trás desse véu.

Sem dizer palavra, o homem se aproximou, afastou o véu que cobria um grande quadro, e deu dois passos atrás. Eu estava realmente em Toledo, diante da obra-prima de El Greco, L’Enterrement du comte d’Orgaz [O sepultamento do conde de Orgaz]. Contemplei, sem dizer uma palavra. Meu olhar passava da terra ao céu. O homem que havia afastado o véu rompeu por primeiro o silêncio.

– É a primeira vez que vem a Toledo, senhor?

– Oh não! A primeira vez foi em 1924. Eu tinha vinte e três anos. Eu vinha já para O sepultamento do conde. Naquela época, a sala não era tão iluminada como hoje. O quadro estava mergulhado na obscuridade. Para vê-lo, era preciso acender uma pequena lâmpada. Eu ainda me vejo. Ao clarão da chama, na fumaça luminosa, aos reflexos do latão, descobri a terra e os cavaleiros, o céu e os anjos e a alma do conde que subia da terra ao céu. Assim, ia eu do tempo à eternidade e da eternidade ao tempo, como os anjos do sonho de Jacó, que sobem e descem ao longo da escada estendida da terra ao céu. No alto, a Virgem me acolhia. Em baixo, havia um extático em oração. A armadura do conde era tão fria quanto seu rosto de pedra. Um bispo vestido com uma casula de ouro. Os rostos tinham a gravidade dos mais altos mistérios.

– Por que evocar essa lembrança?

– Naquele tempo, ninguém podia abarcar de uma só olhada todo o quadro. Era preciso ir de um lugar a outro e, às vezes, raciocinar para recompor o todo graças à imaginação. Hoje, ele se oferece a mim inteiramente de um só golpe. É a imagem da diferença entre nosso conhecimento aqui de cima e aquele lá de baixo.

– Guitton, você gosta de ver?

– Quando eu vivia no mundo, eu não gostava de ver. Preferia ter visto. Hoje, prefiro ver. (Pausa). É curioso, eu lhe falo desde o além e isso lhe parece normal. Ademais, você está vestido de uma maneira engraçada. Estamos no século XXI. É o carnaval? Quem é você?

– Eu sou El Greco.

– Você é El Greco!

– Tão verdadeiro quanto você é Jean Guitton. Você está sendo sepultado em Paris e você se encontra em julgamento. Eu gosto disso. Então, dado que você veio a Toledo, eu vim para Leia mais deste post

A arquitetura românica

Veja também: A arquitetura gótica

Catedral de Santiago de Compostela

(clique nas imagens para ampliar)

Das mãos fecundas dos mestres-de-obras saíram formas cuja história constitui talvez o capítulo mais apaixonante de toda a história da arte. No entanto, para o historiador da Igreja, será indiferente descrever os templos onde os fiéis da Idade Média oravam e os aspectos de que a casa de Deus se revestia para eles? Lembremo-nos de que são numerosas as que ainda hoje nos abrigam, e as nossas orações sobem muitas vezes até as mesmas abóbadas que ouviram rezar os cristãos do tempo de São Bernardo e São Luís.

No dobrar do ano mil, saindo da crisálida carolíngia, espalhara-se por quase todas as terras outrora governadas pelo grande imperador um estilo arquitetônico bem característico. Não era em nada uma arte “primitiva”, mas, pelo contrário, uma arte repleta de reminiscências, em que se acentuavam Leia mais deste post

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