Tomás responde: Deus pode mover a vontade criada?

Andrea Mantegna (1431-1506), Agonia no Getsêmani (cerca de 1460)
“…contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres!” (Mt 26,39)

Parece que Deus não pode mover a vontade criada:

1. Com efeito, tudo o que é movido de fora é coagido. Ora, a vontade não pode ser coagida. Logo, não pode ser movida de fora. Desse modo, Deus não pode movê-la.

2. Além disso, Deus não pode fazer com que as contraditórias sejam verdadeiras ao mesmo tempo. Ora, isso resultaria se ele movesse a vontade, pois, ser movido voluntariamente é ser movido por si próprio e não por outro. Logo, Deus não pode mover uma vontade.

3. Ademais, o movimento é atribuído ao motor muito mais que ao que é movido, razão pela qual não se atribui o homicídio à pedra, mas àquele que a atira. Se pois Deus move a vontade, segue-se que as obras voluntárias do homem não lhe serão imputadas nem para o mérito nem para o demérito, o que é falso. Por conseguinte, Deus não move a vontade.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz-se na Carta aos Filipenses: “É Deus quem opera em nós o querer e o fazer” (2,13).

Assim como o intelecto é movido pelo objeto e por aquele que deu a potência intelectiva como foi dito, assim também a vontade é movida pelo objeto, que é o bem, e por aquele que cria a potência volitiva. Ora, a vontade pode ser movida por um bem qualquer, como por um objeto, mas só Deus é capaz de movê-la de maneira suficiente e eficaz. Algo, na verdade só pode mover de maneira suficiente se sua potência ativa exceder, ou pelo menos igualar, a potência passiva do que é movido. A potência passiva da vontade abrange o bem em sua universalidade, porque seu objeto é o bem universal, assim como o objeto do intelecto é o ente universal. Ora, todo bem criado é um bem particular, só Deus é o bem universal. Daí que somente Deus preenche a vontade e a move suficientemente, como objeto.

Da mesma forma, só Deus é causa da potência volitiva. O querer, na realidade, nada mais é que certa inclinação para o Leia mais deste post

O fim da Cristandade (II): A crise do espírito

Andrea Mantegna, São Jerônimo Penitente no Deserto (1448-1451), Museu de Arte de São Paulo – MASP

Leia também: O fim da Cristandade (I): Uma intensa e dolorosa fermentação

A causa imediata desta crise deve ser procurada na história da cultura e no próprio papel que a Igreja assumira em relação a ela. Pedagoga da inteligência, a Mater Ecclesia tinha, como já vimos, ensinado os seus filhos a refletir, a aprofundar os grandes problemas, a construir sistemas do mundo; mas acontecia-lhe o mesmo que acontece à maior parte dos pedagogos, que vêem seus discípulos, já adultos, voarem com as suas próprias asas, muitas vezes em direções opostas àquelas que lhes foram designadas.A razão, que a própria Igreja ensinara a usar, tendia a rebelar-se contra os princípios a serviço dos quais fora posta inicialmente. O direito, que a Igreja tanto ajudara a reconstituir, opor-lhe-ia teses em que ela já não teria nenhum papel a desempenhar. Observava-se, portanto, em todos os terrenos um movimento de rebelião – embora continuassem a respeitar-se as formas exteriores da obediência. E muitas forças novas da época cooperavam com esse movimento: as dos orgulhosos burgueses, cujas riquezas os impeliam a presumir de ateus vociferantes (esprits forts), e as das jovens monarquias, que não conseguiam satisfazer as suas ambições sob a incômoda tutela da Igreja.

O perigo poderia ter sido ultrapassado, como outros o tinham sido, se a Igreja, no dobrar dos anos 1300, tivesse contado no seu seio com cérebros bastante poderosos para arrostar as forças antagonistas, rebater os argumentos dos adversários e integrar o que neles podia existir de válido numa nova síntese cristã. Infelizmente, também neste domínio a seiva parecia escassa. A ausência de um São Tomás de Aquino Leia mais deste post

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