Fragmentos: A amizade com Deus

O que é próprio, por excelência, da amizade é viver na intimidade de seu amigo. Ora, a amizade do homem com Deus se realiza na contemplação de Deus, segundo o apóstolo dizia aos Filipenses (3, 20): “Nossa cidade se encontra nos céus”. Se é o Espírito Santo que nos torna amigos de Deus, é normal que seja ele que nos constitua contemplativos de Deus. Por isso o Apóstolo diz ainda (2Cor 3, 18): “Quanto a nós todos que contemplamos a glória de Deus com o rosto descoberto, seremos transformados de claridade em claridade nesta mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor”.

É próprio da amizade alegrar-se com a presença de seu amigo, encontrar sua alegria em sua palavra e em seus gestos, procurar nele o conforto em todas as inquietações; também nos momentos de tristeza procuramos refúgio e consolação sobretudo perto dos amigos. Ora, acaba-se de dizer, é o Espírito Santo que nos constitui amigos de Deus e o faz habitar em nós e nós nele; é pois normal que seja pelo Espírito Santo que nos venha a alegria de Deus e a consolação diante de todas as adversidades e assaltos do mundo. O Salmo (50, 14) diz: “Dá-me a alegria de tua salvação e que teu Espírito generoso me confirme”. São Paulo (Rm 14, 17) afirma que “o Reino de Deus é justiça, paz e alegria no Espírito Santo” … e o Senhor fala do Espírito Santo como sendo o “Paráclito”, isto é, o Consolador (Jo 14, 26).

Outra propriedade da amizade é concordar sua vontade com a de seu amigo. Ora, a vontade de Deus nos é manifestada por seus mandamentos. Cabe, pois, ao amor que temos por Deus o cumprimento dos seus mandamentos: “se me amais, guardai meus mandamentos” (Jo 14, 15). Uma vez que é o Espírito Santo que nos faz de Deus, é ele ainda que nos impele, por assim dizer, a cumprir os mandamentos de Deus, segundo a palavra do Apóstolo (Rm 8, 14): “São filhos de Deus aqueles que são movidos pelo Espírito de Deus”.

Deve-se observar que os filhos de Deus não são movidos pelo Espírito Santo como os escravos, mas como homens livres. Se o homem livre é “aquele que é senhor de si mesmo” (Aristóteles), nós fazemos livremente o que realizamos por nós mesmos, isto é, por nossa vontade. O que faríamos contra nossa vontade não seria livremente, mas servilmente executado. O Espírito Santo, ao fazer de nós amigos de Deus, nos inclina a agir de tal modo que nossa ação seja voluntária. Filhos de Deus que somos, o Espírito Santo nos concede agir livremente, por amor, e não servilmente, por temos. É o que diz o apóstolo (Rm 8, 15): “Não é um espírito de servidão que recebestes, para viver de novo no temor, mas o Espírito de adoção dos filhos”.

(Suma contra os gentios IV 22, n. 3585-3588)

 

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