A resposta cristã ao racionalismo

Beato John Henry Newman (1801-1890)

Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap.

3ª Pregação do Advento

“ESTAI SEMPRE PRONTOS A DAR A RAZÃO DA VOSSA ESPERANÇA.”

(1 Pe 3,15)

A resposta cristã ao racionalismo


1. A razão usurpadora

O terceiro obstáculo que faz parte da cultura moderna, “refratária” ao Evangelho, é o racionalismo. Sobre isso falaremos nesta última meditação do Advento.

O cardeal e, agora, Beato John Henry Newman, deixou-nos um discurso memorável, proferido em 11 de dezembro de 1831, na Universidade de Oxford, intitulado The Usurpation of Raison, a usurpação ou a prevaricação da razão. Neste título já está a definição do que entendemos como racionalismo1. Numa nota explicativa a este discurso, escrita no prefácio à sua terceira edição, de 1871, o autor explica o que quer dizer com esse termo. Por usurpação da razão – diz – se entende “certo abuso generalizado dessa faculdade quando se fala de religião sem um conhecimento íntimo ou sem o respeito devido aos princípios fundamentais desta. Essa ‘razão’ é chamada ‘sabedoria do mundo’ nas Escrituras é a compreensão de religião dos que têm a mentalidade secularista e se baseiam em máximas do mundo, que lhes são intrinsecamente alheias” 2.

Em outro de seus sermões na universidade, intitulado “Fé e Razão comparadas”, Newman ilustra por que a razão não pode ser o juiz supremo em matéria de religião e de fé, com a analogia da consciência:

“Ninguém – escreve – dirá que a consciência se opõe à razão, ou que seus preceitos não podem ser apresentados em forma de argumento; no entanto, quem, a partir disso, argumentará que a consciência não é um princípio original, mas que, para atuar, precisa atender o resultado de um processo lógico-racional? A razão analisa os fundamentos e os motivos da ação, sem ser ela mesma um destes Leia mais deste post

Tomás responde: Era necessário que fosse anunciado à Bem-aventurada Virgem o que iria realizar-se nela?

Domenico Beccafumi, Anunciação (1545-1546)

Parece que não era necessário que fosse anunciado à Bem-aventurada Virgem o que iria realizar-se nela:

1. Com efeito, parece que a anunciação só seria necessária para obter o consentimento da virgem. Ora, tal consentimento não perece ter sido necessário, porque a concepção de uma virgem já estava anunciada de antemão pela profecia de predestinação que “se realiza sem a nossa decisão”, como diz uma Glosa. Logo, não era necessário que se realizasse tal anunciação.

2. Além disso, a bem-aventurada Virgem acreditava na encarnação, pois sem essa fé ninguém poderia estar em estado de salvação, porque, como diz a Carta aos Romanos: “A justiça de Deus é dada pela fé em Jesus Cristo” (3,22). Ora, quando alguém crê algo com certeza não precisa de ulteriores explicações. Logo, não era necessário à bem-aventurada Virgem que lhe fosse anunciada a encarnação do Filho.

3. Ademais, assim como a bem-aventurada Virgem concebeu a Cristo corporalmente, assim também toda alma santa o concebe espiritualmente; por isso diz o apóstolo na Carta aos Gálatas: “Meus filhinhos a quem de novo dou à luz, até que se forme Cristo em vós” (4, 19). Ora, aos que devem conceber Cristo espiritualmente não lhes é anunciada tal concepção. Logo não havia por que anunciar à bem-aventurada Virgem que iria conceber no seu seio o Filho de Deus.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o anjo, segundo o Evangelho de Lucas, lhe disse: “Eis que conceberás em teu seio e darás à luz um filho” (1, 31).

RESPONDO. Era conveniente que fosse anunciado à bem-aventurada Virgem que iria conceber Cristo:

1º. Para que fosse guardada a ordem que convinha à união do Filho de Deus com a Virgem, ou seja, que o seu espírito fosse preparado antes que ela o concebesse corporalmente. Por isso Agostinho diz: “Maria foi mais feliz de receber a fé em Cristo do que de conceber a carne de Cristo”. E acrescenta a seguir: “De nada teria servido a Maria a intimidade materna, se não tivesse sido mais feliz por levar a Cristo em seu coração do que em seu corpo”.

2º. Para que pudesse ser firme testemunha deste mistério, uma vez que fora instruída por Deus a respeito dele.

3º. Para que oferecesse a Deus os Leia mais deste post

Cur Deus homo

Agnolo Bronzino, o nascimento de Jesus, 1535-40

Conformes ao propósito dessa iniciação, gostaríamos de fazer descobrir outra face de sua aproximação ao mistério. Sem refazer todo o seu percurso, seria mais esclarecedor retomar aqui a questão que os teólogos se punham desde muito tempo: Cur Deus homo? Por que Deus se fez homem?

Já evocamos a parte mais conhecida da resposta de Mestre Tomás, mas não conseguimos esgotar tudo o que disse sobre esse assunto. Como ele se recusa a falar de uma necessidade pura e simples da encarnação  – uma vez que não podemos limitar a onipotência de Deus, que poderia nos salvar de qualquer outro modo -, procura antes as razões de conveniência que podem ajudar a entender alguma coisa do incompreensível amor que levou Deus a tal extremo. Depois de Santo Agostinho, de Santo Anselmo e de tantos outros, os quais a Escritura orientava nessa direção, ele apela naturalmente à cura da ferida causada pelo pecado (remedium peccati), à restauração (reparatio) da humanidade na amizade com Deus, à satisfação pelo pecado, que aparecem como os motivos mais manifestos. É assim que o tema da satisfação, presente nas Sentenças e perfeitamente formulado no Compendium theologiae, persiste ainda na Suma Teológica:

 

A encarnação liberta o homem da servidão, o que, como Agostinho diz, “teve de ser feito de tal sorte que o demônio fosse vencido pela justiça do homem Jesus Cristo”. E isso se fez pela satisfação de Cristo por nós. Um simples homem não poderia satisfazer por todo o gênero humano; Deus não o devia; portanto era necessário que Jesus Cristo fosse Deus e homem (Homo autem Purus satisfacere non poterat, Deus autem satisfacere non debebat). [O balanço das fórmulas bastaria para revelar o sinal de origem, Anselmo foi nisso apenas um intermediário. Longe de dissimulá-lo, Tomás o anuncia, e após citar Agostinho continua com Leão:] “A fraqueza é assumida pela força, a humildade pela majestade; para que, conforme era necessário para nossa cura, um só e o mesmo mediador entre Deus e os homens (1Tm 2,5) pudesse morrer como homem e ressurgir como Deus. Se não fosse verdadeiro Deus, não poderia trazer-nos o remédio; se não fosse verdadeiro homem, não nos daria o exemplo”.(P3Q1A2)

 

Não obstante sua pertinência e sua persistência, o tema da reparação do equilíbrio perdido pelo pecado corre sempre o risco de favorecer uma visão antropocêntrica das coisas: o pecado parece impor a Deus uma finalidade não prevista por ele. Na busca de uma via nova, Tomás parece tê-la encontrado na Leia mais deste post

%d blogueiros gostam disto: