Eva

Albrecht Dürer (1471-1528), Adão e Eva (detalhe), Museu do Prado, Madrid

John Milton, Paraíso Perdido, Canto VIII

Foi grande o golpe e em um instante a cura.
Deus coas mãos a costela vai moldando,
Té que uma criatura dela forma
Mui semelhante a mim, mas de outro sexo.
Pareceu-me tão bela e tão amável,
Que tudo quanto dantes no Universo
Julgara belo agora o crê mediano –
Ou que do Mundo as formosuras todas
Em corpo tão gentil se resumiam,
Principalmente nos benignos olhos
Que desde então mimosos infundiram
Dentro em meu coração tanta doçura,
Qual nunca exp’rimentado havia dantes:
Do porte seu também logo exalaram
O espírito de amor, graças, deleites
Que em toda a Natureza se esparziam.
Nisto ela foge e me deixou em Leia mais deste post

Doutrina Católica: O pecado original (I)

INTRODUÇÃO

Uma antropologia completa deve levar em conta os dados da Revelação, porque o homem não é só um ser criado como os outros, mas tem um fim próprio (uma teleologia própria) ligado à natureza de ser inteligente. Todo ser criado tem uma teleologia que o transcende, pelo próprio fato de ser obra de um Deus transcendente. Instruídos, no entanto, pela Revelação Divina, sabemos que o homem foi chamado, já desde suas origens, a participar intimamente da vida divina e da familiaridade com Deus (justiça original); e que, por uma livre e pessoal transgressão do plano divino, ele se tornou réu de culpa, perdendo com isso os direitos de filho, que, muito acima dos dons puramente naturais, Deus lhe concedera (pecado original originante). Esta perda voluntária e responsável da adoção inefável no seio da família divina é transmitida individualmente a cada um dos descendentes do primeiro homem (pecado original originado).

Com efeito, por este pecado pessoal primitivo, toda a humanidade nasce ferida na sua íntima elevação sobrenatural, isto é, nasce privada do que de mais sublime pôs nela a livre bondade criadora de Deus: a condição de filho adotivo. Tal privação, causada pelo pecado pessoal do primeiro homem, torna-se, em cada um de seus descendentes, pecado da natureza, próprio de cada indivíduo, pelo fato mesmo de ser homem. Sendo esta condição de filho um dom gratuito de Deus, é evidente que, por suas próprias forças, jamais poderia o homem recuperá-la.

Sem dúvida, isto não se pode conhecer pela razão, nem existe documento histórico capaz de dissipar as névoas que envolvem a origem da humanidade. Mas o dogma do pecado original é o núcleo da antropologia revelada, sem o qual não se pode compreender a Leia mais deste post

Tomás responde: O pecado contra a natureza é uma espécie de luxúria?

Jan Gossaert (Mabuse)(1478-1532), Adão e Eva

Resolvi colocar este artigo da Suma depois de ler o artigo “Cale-se! Para onde está indo a liberdade de expressão?“, de Chuck Colson, no Mídia Sem Máscara.

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Parece que o pecado contra a natureza não é uma espécie de luxúria:

1. Com efeito, na lista das espécies de luxúria apresentada no artigo anterior, não se menciona esse vício. Logo, o vício contra  a natureza não é uma espécie de luxúria.

2. Além disso, a luxúria opõe-se a uma virtude e, como tal, está incluída na malícia. Ora, o vício contra a natureza não está contido na malícia, mas na bestialidade, como está claro no Filósofo. Logo, o vício contra a natureza não é uma espécie de luxúria.

3. Ademais, a luxúria tem como matéria os atos dirigidos à geração humana, como se viu acima (q.53 a.2). Ora, o vício contra a natureza consiste em atos dos quais não decorre geração. Logo, o vício contra a natureza não é uma espécie de luxúria.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, enumera-se o vício contra a natureza entre as outras espécies de luxúria, quando se diz: “E não se converteram de sua impureza, de seu desregramento e de sua devassidão” (2Cor 12, 21). E a Glosa comenta: “Impureza, isto é, luxúria contra a natureza”.

Há sempre uma espécie determinada de luxúria onde houver uma razão especial de deformidades, que torne o ato sexual indecente. Isso pode ocorrer de dois modos: primeiro, quando choca com a reta razão, como é o caso de todos os vícios de luxúria; depois, quando, além disso, se opõe à própria ordem natural do ato sexual próprio da espécie humana, o que constitui o chamado vício contra a natureza. Isso pode se dar de muitas formas.

Primeiramente, se se procura a ejaculação, sem conjunção carnal, só pelo prazer sexual, o que constitui o pecado da impureza, que outros chamam de masturbação.

Em segundo lugar, se se realiza o coito com Leia mais deste post

Tomás responde: O homem é dotado de livre-arbítrio?

Lucas Cranach, Adão e Eva, 1526, óleo sobre madeira, Londres

Parece que o homem não é dotado de livre-arbítrio:

1. Com efeito, aquele que é dotado de livre-arbítrio faz o que quer. Ora, o homem não faz o que quer, segundo a Carta aos Romanos: “Não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero”(7, 15). Logo, o homem não é dotado de livre-arbítrio.

2. Além disso, aquele que é dotado de livre-arbítrio pode querer e não querer, agir e não agir. Ora, isso não cabe ao homem, pois segundo a Carta aos Romanos: “Nem o querer cabe àquele que quer, nem a corrida àquele que corre” (9, 16). Logo, o homem não é dotado de livre-arbítrio.

3. Ademais, “É livre o que é causa de si mesmo”, diz o livro I da Metafísica. Assim, o que é movido por outro não é livre. Ora, Deus move a vontade. “O coração do rei está na mão de Deus”, diz o livro dos Provérbios (21,1), “e Deus o dirige para onde quiser”. E a Carta aos Filipenses: “É Deus que opera em nós o querer e o agir” (2, 13). Logo, o homem não é dotado de livre-arbítrio.

4. Ademais, todo aquele que é dotado de livre-arbítrio é senhor de seus atos. Ora, o homem não o é, conforme está escrito em Jeremias: “Não está no homem o seu caminho, nem cabe ao homem dirigir seus passos” (10,23). Logo, o homem não é dotado de livre-arbítrio.

5. Ademais, “Como é cada um, assim lhe parece ser o fim”, diz o Filósofo no livro III da Ética. Ora, não está em nosso poder ser de tal ou tal maneira; isso nos é dado pela natureza. Portanto, é natural que sigamos um fim determinado. Logo, não o seguimos por livre-arbítrio.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, segundo o Eclesiástico: “Deus criou o homem no começo e o deixou na mão de seu conselho” (15, 14), isto é, “de seu livre-arbítrio”, diz a Glosa.

RESPONDO. O homem é dotado de livre-arbítrio, do contrário os conselhos, as exortações, os preceitos, as proibições, as recompensas e os castigos seriam vãos. Para demonstrá-los, deve-se considerar que certas coisas agem sem julgamento. Por exemplo, a pedra que se move para baixo, e igualmente todas as coisas que não têm o conhecimento. Outras coisas agem com julgamento, mas esse não é livre: como os animais. Por exemplo, a ovelha, vendo o lobo, julga que é preciso fugir: é um julgamento natural, mas não livre, pois não julga por comparação, mas por instinto natural. O mesmo acontece com todos os julgamentos dos animais. O homem, porém, age com julgamento, porque, por sua potência cognoscitiva julga que se deve fugir de alguma coisa ou procurá-la. Mas como esse julgamento não é o efeito de um instinto natural aplicado a uma ação particular, mas de uma certa comparação da razão, por isso, o homem age com julgamento livre, podendo se orientar para diversos objetos. Com efeito, a respeito do contingente, a razão pode seguir direções opostas, como vemos nos Leia mais deste post

Tomás responde: A criatura corporal foi criada por Deus?

Albrecht Dürer (1471-1528), Adão e Eva, Museu do Prado, Madrid

Parece que a criatura corporal não foi criada por Deus:

1. Com efeito, lê-se no livro do Eclesiastes: “Aprendi que tudo o que Deus fez persevera para sempre” (3, 14). Ora, os corpos visíveis não perseveram para sempre, segundo se diz na segunda Carta aos Coríntios: “O que se vê é temporal, e o que não se vê é eterno” (4, 18). Logo, Deus não criou os corpos visíveis.

2. Além disso, diz o livro do Gênesis: “Deus viu as coisas que criou e que eram muito boas” (1, 31). Ora, as criaturas corporais são más, pois vemos muitas delas nocivas, como as serpentes, o calor do sol, etc. Por isso, uma coisa é dita má porque é nociva. Logo, as criaturas corporais não foram criadas por Deus.

3. Ademais, o que vem de Deus, dele não se afasta, mas leva a ele. Ora, as criaturas corporais afastam de Deus, razão por que escreveu o Apóstolo na segunda Carta aos Coríntios: “Não considerar as coisas que vemos” (4, 18). Logo, as criaturas corporais não foram criadas por Deus.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz o Salmo 145: “Aquele que fez o céu e a terra, o mar e tudo o que neles existe” (v. 6).

RESPONDO. Afirmaram alguns heréticos que as coisas visíveis não foram criadas por um Deus bom, mas por um princípio mau. E como argumento de seu erro, citam o Apóstolo na segunda Carta aos Coríntios: “O deus deste século cegou as mentes dos infiéis” (4, 4). Essa afirmação é de todo impossível. Se coisas diversas se unem em uma, é necessário haver uma causa dessa união, pois as coisas diversas por si mesmas não se unem. Por isso, sempre que há união dessas coisas diversas, é necessário que a união venha de uma causa. Por exemplo, muitos corpos quentes recebem o calor do fogo. Ora, o ser é comum a todas as coisas, embora diversas. Daí ser necessário que haja um único princípio do ser, em virtude do qual tudo o que existe de qualquer modo recebe o ser, quer sejam as coisas invisíveis e espirituais, quer sejam as visíveis e corporais. Ademais, se diz que o diabo é Leia mais deste post

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