A espiritualidade de Tomás (I): trinitária, da deificação e objetiva

Carlo Crivelli, Santo Tomás de Aquino, 1476

Uma espiritualidade trinitária

Se tentamos retomar as linhas mestras que nossa leitura permitiu salientar, é evidentemente isso que é preciso pôr no primeiro plano. Tomada como é no movimento de “saída” da Trindade e de “volta” para ela, pela iniciativa do Pai e graças à obra conjunta do Filho e do Espírito, a vida cristã segundo Tomás é uma realidade decididamente teologal, trinitária. Ela encontra o seu cume na vinda e na presença em nós das pessoas divinas, conhecidas e amadas numa experiência íntima e direta, em que a alma se torna dia a dia mais conforme ao seu modelo divino, até o dia em que totalmente transformada pela graça, tendo enfim adquirido a semelhança perfeita, entrará de maneira definitiva no movimento das trocas intratrinitárias.

A pessoa do pai se encontra aí especialmente honrada, uma vez que ela é a fonte da qual tudo parte e o cume ao qual tudo volta. Mas ela oferece à contemplação um abismo insondável que não se pode senão pressentir na espera da visão bem-aventurada. Longe de pensar poder se apropriar como mestre do mistério de Deus por seus conceitos e raciocínios, Tomás não cessa de estar consciente de que o mistério escapa a todas as compreensões, e ele convida o seu discípulo a se prostrar com ele na adoração do Inefável. Longe e conceber o mistério do Todo-Outro à maneira do sagrado misterioso e longínquo da história das religiões, ele o identifica ao Todo-Próximo, ao Pai de nosso irmão e Senhor Jesus que nos gera para a sua vida à imagem de seu Filho amado.

Nessa compreensão da realidade cristã, a pessoa do Filho é também salientada de maneira muito específica. Como Verbo, preside a primeira criação das coisas; como Verbo encarnado, encabeça a volta da humanidade para Deus. Segundo a linguagem proposta, ele é Leia mais deste post

Espírito Santo, o vínculo do amor (o Filioque)

Rubens, Anunciação (1628)

Seguindo Santo Agostinho, que realizou nesse campo uma obra inovadora e marcou com seu gênio toda a reflexão trinitária latina – distinguindo-se da tradição grega, que tomou outra via -, os teólogos da Idade Média ocidental gostavam de falar do Espírito Santo como do amor mútuo pelo qual o Pai e o Filho se amam entre si. Para Agostinho, o Espírito Santo é “a unidade das duas outras Pessoas, ou sua santidade ou seu amor”; e isso o é pessoalmente, com efeito, “que ele seja sua unidade porque é o seu amor, e seu amor porque ele é sua santidade, é claro que não é nenhuma das duas primeiras Pessoas, nas quais se operaria sua união mútua”. Não se saberia nomear melhor a não ser a partir da obra que ele realiza:

Se a caridade pela qual o Pai ama o Filho e pela qual o Filho ama o Pai nos revela a inefável comunhão de um com o outro, não seria de todo indicado atribuir como próprio o nome de Caridade ao Espírito comum do Pai e do Filho?

(De Trinitate XV 19,37)

Tomás não faz exceção a esta unanimidade e em sua primeira obra desenvolve o tema com certa complacência:

Se o Espírito Santo procede como amor, pertence-lhe ser a união do Pai e do Filho (unio Patris et Filii) em razão dessa maneira própria de proceder. Pode-se, com efeito, considerar o Pai e o Filho seja segundo eles pertençam à mesma essência, e eles são unidos assim na essência, seja segundo sejam pessoalmente distintos, e então eles são unidos pela convergência do amor (per consonantiam amoris); se se supusesse por impossível que eles não estão unidos por essência, seria necessário ainda admitir entre eles uma união de amor a fim de que sua alegria seja perfeita.

(Sent. I d. 10 q.1 a.3)

Nessa perspectiva, o Espírito é, pois, um ato de amor subsistente, que o Pai e o Filho emitem em comum, o ato pelo qual se amam reciprocamente e que os une à maneira tendencial e estática pela qual o amor une o amante ao amado. A profunda beleza dessa visão das coisas explica a sedução que ela exerceu e continua a exercer nos espíritos. Mas tem o inconveniente de Leia mais deste post

A imagem da Trindade

Andrei Rublev, Trindade (ver final do texto abaixo)

O leitor da Suma não pode não observar que o autor dividiu em duas seções distintas o que tinha a dizer sobre o homem: enquanto as questões 75-89 tratam da natureza normal do homem, as questões 90-102 falam de sua criação (de productione prima hominis). Se for filósofo e um pouco apressado, esse leitor limitará seu estudo à primeira parte e deixará a segunda ao teólogo. Seria um erro fatal que lhe impediria compreender o propósito de seu autor, porque este diz claramente que é em sua qualidade de teólogo que pretende considerar a natureza do homem. Deixando o estudo do corpo ao médico, falará sobretudo da alma e da relação que ela entretém com o seu corpo. Ao mesmo tempo anunciará firmemente que seu estudo do homem não terminará antes que ele tenha falado da imagem de Deus, porque é o fim que Deus se propôs ao criar o homem. Como disse excelentemente um filósofo, Tomás compreendeu o tema da imagem “como a apresentação da causa final da produção do homem. O ser humano foi produzido para ser à imagem de Deus. Se as palavras fim ou termo têm um sentido, deve-se dizer que o ser humano é, foi criado, e portanto querido e concebido finalmente por seu Criador não para ser uma substância pensante, por exemplo, ou um animal racional, mas para ser à sua imagem” (L. B. Geiger, L’homme image de Dieu). Falando de outro modo, na sua exegese de Gênesis 1, 26, o Mestre de Aquino vê em ação e simultaneamente a eficiência e a finalidade: Deus em ato de criação do homem é movido pela intenção de lhe comunicar sua semelhança.

Santo Tomás falou muitas vezes da imagem de Deus nos lugares principais de suas elaborações teológicas, mas parece que ele, mesmo mantendo o fundo comum de suas primeiras pesquisas, esteve em constante progresso graças à atenção renovada com a qual releu a obra de Santo Agostinho.

Enquanto não for tratado ex professo, quase no fim da Prima Pars, o tema da imagem de Deus se encontra desde as primeiras páginas da Suma, e é referindo-se a ele que Tomás esclarece o tipo de semelhança que a criatura pode ter com Leia mais deste post

O Artista Divino

Albrecht Dürer, Adoração da Santíssima Trindade, 1511

A doutrina da criação (de Santo Tomás) é cheia de implicações doutrinais e espirituais de todas as espécies que se manifestarão pouco a pouco na continuação destas páginas. A primeira que se oferece à meditação é a de Deus artesão e até artista que imprime em sua obra um vestígio de sua beleza. É um lugar-comum do pensamento medieval, que encontrou sua tradução até na pintura – conhece-se a miniatura da escola de Chartres em que o criador, com o compasso na mão, se põe a fazer uma terra perfeitamente esférica. Não se pode dizer que a arte imita a natureza, uma vez que antes da criação não há nada. Era necessário, portanto, que o criador divino se tomasse a si mesmo por modelo. Sendo reconhecido o princípio geral pelo qual o efeito se assemelha à sua causa e, mais precisamente, a obra a seu autor, se é obrigado a concluir que a criação se assemelha ao criador:

Deus é a causa primeira exemplar de todas as coisas. Para se ter clareza disso é preciso considerar que um exemplar é necessário à produção de uma coisa para que o efeito assuma determinada forma. De fato, o artífice produz determinada forma na matéria por causa do exemplar que tem diante de si, seja ele um exemplar que se vê exteriormente, seja um exemplar concebido interiormente pela mente. Ora, é manifesto que as coisas produzidas pela natureza seguem uma forma determinada. Essa determinação das formas deve ser atribuída como a seu primeiro princípio, à sabedoria divina, que pensou a ordem do universo consistente na disposição diferenciada das coisas. Portanto, é preciso dizer que na sabedoria divina estão as razões de todas as coisas, que acima chamamos de “idéias”, isto é, formas exemplares existentes na mente divina. Embora sejam múltiplas conforme se referem às coisas, não se distinguem da essência divina, uma vez que da semelhança com Deus podem participar diversas coisas de modos variados. Assim, Deus é o primeiro exemplar de tudo. (P1,Q44,A3)

Embora seja aproximativa, a comparação do Artista divino com um artesão desta terra em trabalho de criação é por si mesma altamente evocativa. E mais ainda porque não se pensaria nela numa primeira abordagem, porque é a Trindade que está na origem desta obra de arte que é o mundo, e vimos que cada Pessoa aí participa conforme lhe é próprio segundo a ordem das processões. Se é assim, nova conclusão se impõe: encontrar-se-á necessariamente uma Leia mais deste post

Tomás responde: O Filho é igual ao Pai em grandeza?

Cristo Pantocrator, Catedral de Monreale, Sicília, Itália (clique para ampliar)

Parece que o Filho não é igual ao Pai em grandeza:

1. Com efeito, ele próprio diz: “O Pai é maior do que eu” (Jo 14, 28). E o Apóstolo, na primeira Carta aos Coríntios: “O próprio Filho será submetido àquele que tudo lhe submeteu” (18, 28).

2. Além disso, a paternidade faz parte da dignidade do Pai. Ora, a paternidade não convém ao Filho. Portanto, o Filho não possui toda a dignidade do Pai. Logo, ele não é igual ao Pai em grandeza.

3. Ademais, onde há todo e parte, várias partes são mais do que um só ou que um número menor dessas partes. Por exemplo, três homens fazem Leia mais deste post

%d blogueiros gostam disto: