Introdução à Oração (ou: Para não cair em “esquizofrenia mental”, “perturbações psíquicas” e “aberrações morais”)

santa teresa de ávila

Teresa de Ávila (1615),

Peter Paul Rubens (Flamengo, 1577–1640)

Carta aos bispos da Igreja Católica acerca de alguns aspectos da meditação cristã, 1989

Congregação para a Doutrina da Fé (prefeito: Joseph Cardeal Ratzinger)

[Excertos]

… É à Igreja que a oração de Jesus é entregue («assim vós deveis rezar», Mt. 6, 9), e por isso a oração cristã, mesmo quando se realiza em solidão, possui na realidade o seu ser no interior daquela «comunhão dos santos», na qual e com a qual se reza, tanto em forma pública e litúrgica como em forma privada.

… Contra o extravio da pseudo-gnose, os Padres afirmam que a matéria foi criada por Deus e por isso não é má. Além disso, asseveram que a graça, cujo manancial é sempre o Espírito Santo, não é um bem próprio da alma, mas deve ser obtida de Deus como dom. Por isso, a iluminação ou conhecimento superior do Espírito («gnose») não torna supérflua a fé cristã. Por último, para os Santos Padres, o sinal autêntico dum conhecimento superior, fruto da oração, é sempre a caridade cristã.

… Com a atual difusão dos métodos orientais de oração no mundo cristão e nas comunidades eclesiais, encontramo-nos de frente a um acentuado renovar-se da tentativa, não isenta de riscos e erros, de fundir a meditação cristã com a não cristã. As propostas nesta direção são numerosas e mais ou menos radicais: algumas utilizam os métodos orientais somente com a finalidade duma preparação psicofísica em vista duma contemplação realmente cristã; outras vão mais além e procuram produzir, com técnicas diversas, experiências espirituais análogas àquelas de que se fala nos escritos de certos místicos católicos; outras ainda não receiam colocar o absoluto sem imagens e conceitos, próprio da teoria budista, no mesmo plano da majestade de Deus revelada em Cristo, a qual transcende toda a realidade finita. Nesse sentido, servem-se duma espécie de «teologia negativa» que supera qualquer afirmação dotada de conteúdo a propósito de Deus, negando que as coisas do mundo possam ser vistas como um vestígio que reenvia para a sua Infinidade. Por esta razão, propõem que se abandone não somente a meditação das obras salvadoras realizadas na história pelo Deus da Antiga e da Nova Aliança, mas também a ideia mesma de Deus Uno e Trino, que é amor, em favor duma imersão «no abismo indeterminado da divindade».

… Para encontrar a reta «via» da oração, o cristão deverá ter presente o que se disse precedentemente a propósito dos traços salientes da via de Cristo, cujo «alimento é fazer a vontade d’Aquele que O enviou e consumar a sua obra» (Jo 4, 34). Jesus não vive uma Leia mais deste post

Padre Paulo Ricardo e Santo Tomás: por que rezar?

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São Domingos e o Terço

Lucas Valdés (1661-1725), A Virgem do Rosário, São Domingos e Santa Catarina de Sena, Museu de Sevilha

A oração mais forte para vencer os inimigos da fé

Por padre Hernán Jiménez, O.P.

ROMA, quinta-feira, 31 de maio de 2012 (ZENIT.org) – São Domingos promoveu e popularizou a oração do Terço, como louvor à Santíssima Virgem Maria. A oração do Terço é um convite para meditar os mistérios de Cristo, na companhia de Nossa Senhora, que foi associada de forma especial à Encarnação, Paixão e Ressurreição do seu Filho.

São Domingos, que era um homem de grande oração, dedicava muito tempo para o seu encontro pessoal com Jesus e estudava a sua pessoa com grande dedicação. Era dotado de uma sensibilidade espiritual sutil que não passou despercebida pelos seus irmãos. Na verdade, foram justamente eles que conservaram os seus “Modos de Oração”.

Segundo uma lenda, Nossa Senhora ensinou São Domingos a rezar o Terço, porque é uma oração muito forte para vencer os inimigos da fé. Graças a esta oração muitos pecadores se converteram e se convertem ainda hoje à fé católica e a recitam para interceder e obter tantas graças.

São Domingos nos lembra que no coração da Igreja deve arder o fogo missionário que empurra inexoravelmente a transmitir o Evangelho, onde ele seja necessário: Cristo é o bem mais precioso e valioso, que cada homem e mulher de todos os tempos tem o direito de conhecer e amar. Na iconografia, a São Domingos se associaram vários símbolos, entre os quais o Santo Terço que era uma grande ajuda na sua pregação.

Nossa Senhora gosta muito da oração do Terço porque é a oração dos simples, dos humildes, mas que pode Leia mais deste post

Fragmentos: A oração, intérprete da esperança

Embora [Deus] por sua disposição providencial vele sobre toda a criação, ele tem um cuidado particular das criaturas racionais, revestidas da dignidade de ser sua imagem, que podem chegar até ele pelo conhecimento e pelo amor no senhorio de seus atos, tendo a livre escolha do bem e do mal. Regenerados pelo batismo, os homens têm uma esperança mais elevada, a de obter de Deus a herança eterna. … Pelo Espírito de adoção que recebemos podemos dizer “Abbá, Pai” (Rm 8,15), e para nos mostrar que era necessário orar nesta esperança o Senhor começou sua oração pela palavra “Pai”. Essa simples palavra prepara o coração do homem para orar com sinceridade para obter o que ele espera, porque os filhos devem se conduzir como imitadores de seus pais. Quem, pois, confessa a Deus como seu Pai deve se esforçar por viver como imitador de Deus, evitando tudo o que torna dessemelhante a Deus e praticando tudo o que nos assemelha a Deus.

Compendium theol. II 4

Dado que a ordem da Providência divina atribui a cada ser uma maneira de chegar a seu fim segundo a sua natureza, o homem também recebeu uma maneira própria de obter de Deus o que ele espera dele de acordo com o curso habitual da condição humana. Pertence à condição humana pedir para obter de um outro, e sobretudo de um superior, o que se espera dele. É assim que a oração foi prescrita aos homens por Deus para receber dele o que eles esperam. [Não certamente para fazer conhecer as nossas necessidades a Deus, mas antes para tomar consciência das nossas. A oração cristã te, entretanto, uma particularidade:] Quando se trata da oração a um homem, devemos ter com ele certa familiaridade para estar autorizado a nos dirigir a ele. A oração a Deus, ao contrário, nos faz penetrar em sua intimidade; quando o adoramos em espírito e em verdade, nosso espírito se eleva até ele e entra com ele num colóquio de afeto espiritual. Orando assim, esta intimidade afetuosa nos prepara em caminho para recomeçar a orar com mais confiança. Assim diz o Salmo (16, 6): “Eu chamei”, orando com confiança, “e tu me ouviste, ó Deus”: como se a primeira oração, tendo adquirido a intimidade divina, pudesse continuar com mais confiança. Por essa razão, a assiduidade na oração e a freqüência dos pedidos não são importunos, mas agradáveis a Deus (Lc 18, 1): “Deve-se sempre orar sem jamais se cansar”. O Senhor nos convida a  isso (Mt 7, 7): “Pedi e recebereis, procurai e encontrareis, batei e vos será aberto”. Na oração dirigida aos homens, pelo contrário, a insistência do pedido torna-se inoportuna.

Compendium theol. II 2

Tomás de Aquino, Santo Tomás, Igreja

 

Tomás responde: Os maus podem fazer milagres?

Fra Angelico, A Disputa de São Domingos e o Milagre do Livro (1430-1432)

Parece que os maus não podem fazer milagres:

1. Com efeito, os milagres se obtêm pela oração. Ora, a oração do pecador não merece ser ouvida, conforme dz o Evangelho de João: “Nós sabemos que Deus não ouve os pecadores” (9, 31), e no livro dos Provérbios: “Quem desvia os seus ouvidos para não ouvir a Lei, até a sua oração será execrável” (28, 9). Logo, parece que os maus não podem fazer milagres.

2. Além disso, os milagres se atribuem à fé, segundo afirma o Senhor: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda direis a este monte: Transporta-te daqui para lá, e ele se transportará” (Mt 17, 19). Ora, “a fé sem obras é morta”, diz a Carta de Tiago (2, 20); assim ela não parece ter uma operação própria. Logo, parece que os maus, que não praticam boas obras, não podem fazer milagres.

3. Ademais, os milagres são testemunhos divinos, pois se lê na Carta aos Hebreus: “comprovando Deus o seu testemunho por meio de sinais e maravilhas e vários milagres” (2, 4). Eis por que, na Igreja, alguns são canonizados pelo testemunho dos milagres. Ora, Deus não pode ser testemunha do erro. Logo, parece que os maus não podem fazer milagres.

4. Ademais, os bons estão mais unidos a Deus que os maus. Ora, nem todos os bons fazem milagres. Logo, muito menos os maus.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, o Apóstolo escreve na primeira Carta aos Coríntios: “Ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada (13, 2). Ora, todo aquele que não tem caridade é mau; como escreve Agostinho: “É só este dom do Espírito Santo que distingue os filhos do Reino dos filhos da perdição”. Logo, parece que até os maus podem fazer milagres.

RESPONDO. Entre os milagres, há os que não são verdadeiros, mas fatos imaginários, que enganam o homem, fazendo-o ver o que não existe. Outros, são fatos reais, embora não mereçam verdadeiramente o nome de milagres, pois são produzidos por certas causas naturais. Ora, essas duas categorias de milagres podem ser feitas pelos demônios.

Os verdadeiros milagres não podem ser realizados senão pelo poder divino, pois Deus os produz para a utilidade do homem. E isto de dois modos:

Primeiro, para confirmar a verdade sagrada.

Segundo, para manifestar a santidade de alguém, que Deus quer propor como exemplo de santidade.

Ora, no primeiro caso, os milagres podem ser Leia mais deste post

Tomás responde: a oração deve ser vocal?

Rembrandt, São Tiago em Oração (1661)

Parece que a oração não deve ser vocal:

1. Com efeito, a oração dirige-se principalmente a Deus. Ora, ele conhece as palavras do coração. Logo, é inútil empregar a oração vocal.

2. Além disso, a alma do homem deve elevar-se a Deus. Ora, as palavras impedem o homem de elevar-se à contemplação de Deus, como também as demais coisas sensíveis. Logo, não se devem usar palavras na oração.

3. Ademais, a oração deverá ser feita a Deus ocultamente, segundo o Evangelho de Mateus: “Quando orares, entra no teu aposento, fecha a porta, e ora ao teu Pai em oculto” (6, 6). Ora, pela palavra a oração se torna conhecida. Logo, a oração não deve ser vocal.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz o Salmista: “Pela minha palavra clamei ao Senhor, pela minha palavra supliquei ao Senhor” (Sl 141, 2).

RESPONDO. A oração é coletiva ou particular. A oração coletiva é a que é oferecida a Deus pelos ministros da Igreja em nome de todo o povo fiel. Assim sendo, é necessário que ela seja conhecida por todo o povo, em cujo nome é proferida, o que é possível pela oração vocal. Por isso, com razão foi instituído que os ministros da Igreja pronunciem essa oração também em voz elevada, para que ela possa ser ouvida por todos.

A oração particular é a que é Leia mais deste post

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