Tomás em quadrinhos

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Tomás: esboço de um retrato

Fra Bartolommeo (1472-1517), Santo Tomás de Aquino

Se for possível deixar por instantes o terreno sólido de textos e datas, gostaríamos agora de tentar recolher dos que o conheceram algumas indicações sobre o homem e o santo que foi Tomás. A tarefa não é fácil. Já há muito sabemos dos limites do gênero hagiográfico, e com razão apontou-se que os modelos do tipo não estavam ausentes da biografia composta por Tocco. O mesmo vale para o processo de canonização, no qual, como acabamos de dizer, a proporção de testemunhos “úteis” é pequena em relação aos dados estereotipados. Em muitos casos, só podemos chegar à idéia que os contemporâneos faziam de Tomás e à imagem que dele haviam conservado mediante o modo como concebiam a santidade, mas seria um erro, acreditamos, pecar por excesso de ceticismo e recusar-nos sistematicamente a examinar tudo o que aprendemos por essa via. Certos detalhes pessoais que não se harmonizam em absoluto com a idéia que os modernos fazem do Aquinate talvez tenham alguma probabilidade de ser verdadeiros.

Em primeiro lugar, seu retrato físico. Os testemunhos são convergentes. Ele era grande, gordo e com uma fronte calva: “fuit magne stature et pinguis et calvus supra frontem”, diz um cisterciense de Fossanova. Tomás deve por certo sua alta estatura à ascendência normanda; esta é também observada, assim como o excesso de peso, por um segundo observador: fuit magne stature et calvus et quod fuit etiam grossus et brunus. Remigio de Florença, que foi seu aluno em Paris, não hesita em acentuar que Tomás era bastante gordo: pinguissimus.

Tocco, que sugere pudicamente uma certa corpulência, exprime-se de maneira mais extensa: “Quanto à disposição natural de seu corpo e de seu espírito, diz-se que ele era grande de corpo (magnus in corpore), estatura alta e ereta a corresponder à retidão de sua alma. Era loiro como o trigo (coloris triticei), indício de seu temperamento bem equilibrado. Tinha uma grande cabeça, como exigem os órgãos perfeitos que requerem as faculdades sensíveis a serviço da razão. O cabelo, um pouco ralo (aliquantulum calvus).

Esse nobre retrato concorda, fundamentalmente, com as declarações mais sumárias de ambos os monges, mas além disso pretende mostrar que esses traços físicos correspondem a certa Leia mais deste post

São Domingos e o Terço

Lucas Valdés (1661-1725), A Virgem do Rosário, São Domingos e Santa Catarina de Sena, Museu de Sevilha

A oração mais forte para vencer os inimigos da fé

Por padre Hernán Jiménez, O.P.

ROMA, quinta-feira, 31 de maio de 2012 (ZENIT.org) – São Domingos promoveu e popularizou a oração do Terço, como louvor à Santíssima Virgem Maria. A oração do Terço é um convite para meditar os mistérios de Cristo, na companhia de Nossa Senhora, que foi associada de forma especial à Encarnação, Paixão e Ressurreição do seu Filho.

São Domingos, que era um homem de grande oração, dedicava muito tempo para o seu encontro pessoal com Jesus e estudava a sua pessoa com grande dedicação. Era dotado de uma sensibilidade espiritual sutil que não passou despercebida pelos seus irmãos. Na verdade, foram justamente eles que conservaram os seus “Modos de Oração”.

Segundo uma lenda, Nossa Senhora ensinou São Domingos a rezar o Terço, porque é uma oração muito forte para vencer os inimigos da fé. Graças a esta oração muitos pecadores se converteram e se convertem ainda hoje à fé católica e a recitam para interceder e obter tantas graças.

São Domingos nos lembra que no coração da Igreja deve arder o fogo missionário que empurra inexoravelmente a transmitir o Evangelho, onde ele seja necessário: Cristo é o bem mais precioso e valioso, que cada homem e mulher de todos os tempos tem o direito de conhecer e amar. Na iconografia, a São Domingos se associaram vários símbolos, entre os quais o Santo Terço que era uma grande ajuda na sua pregação.

Nossa Senhora gosta muito da oração do Terço porque é a oração dos simples, dos humildes, mas que pode Leia mais deste post

Reginaldo de Piperno

Rembrandt (1606-1669), Despedida de David e Jônatas (1642), São Petersburgo

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“Um amigo fiel é um poderoso refúgio, quem o descobriu descobriu um tesouro.” (Eclo 6, 14)

Entre todas essas testemunhas mais ou menos próximas, Reginaldo (ou Reinaldo) de Piperno (deformação de Privernum, atualmente Priverno – no Lácio meridional) merece menção especial; inúmeros testemunhos no processo de Nápoles apresentam-no como o socius continuus de Tomás. Segundo Humberto Romano, esses “companheiros que a ordem punha a serviço de seus leitores e mestres em teologia seguiam-nos por toda a parte, em viagem ou no convento, e ajudavam-nos pessoalmente na preparação de suas lições, não servindo-os como domésticos (acabamos de ver que Tomás dispunha de outra pessoa para esse tipo de tarefa), mas sim como assistentes e secretários. No presente caso as coisas iam ainda mais longe, pois, a crer em Reinaldo, ele exercia junto a Tomás o papel de uma “ama” (quase nutricis officium), a ponto de vigiar seu regime alimentar e fazê-lo comer, por temer que sua distração (abstractio mentis) fosse funesta para a sua saúde.

Essa contínua proximidade naturalmente acabaria por criar entre o mestre e seu socius laços de amizade; não é preciso muito esforço para vislumbrá-los entre Tomás e Reginaldo. A seu pedido, Tomás escreveu e lhe dedicou o Compendium theologiae, e foi bem explícito sobre seu destinatário, qualificando-o de “filho muito querido”. Segundo os catálogos de opúsculos, o De substantiis separatis e o De iudicis astrorum também foram escritos para ele. Se Reginaldo não era o único secretário de Tomás, era seu único socius permanente, e vemo-lo à sua disposição até mesmo em plena noite; alguns chegam a pensar que a colaboração entre ambos remonta à época em que Tomás se encontrava ainda em Paris. É o célebre episódio da passagem difícil do Super Isaiam, cujo sentido os santos Pedro e Paulo teriam explicado a Tomás; os editores leoninos, nisso seguindo A. Dondaine, inferem prudentemente que Reginaldo poderia estar presente junto a Tomás desde a época de redação do Super Isaiam. O fato torna-se problemático se aceitamos a sugestão feita acima de situar a redação dessa obra no período de Colônia; não se pode pensar que Tomás, na época não mais que um jovem frade, tivesse já um socius à disposição.

Esse pormenor não diminui em nada a amizade que pode ter havido entre Tomás e Reginaldo, e relata-se que Tomás teria realizado um milagre em seu favor, curando-o de Leia mais deste post

A morte de Tomás

William-Adolphe Bouguereau, O Dia da Morte (1859)

Em 29 de setembro de 1273, Tomás ainda participa do capítulo de sua província, em Roma, na qualidade de definidor. Mas, algumas semanas depois – segundo Bartolomeu de Cápua, que recebeu esse relato de João del Giudice, que o soube por Reinaldo -, quando celebrava a missa na capela de São Nicolau, Tomás sofreu impressionante transformação (fuit mira mutatione commotus): “Após essa missa, nunca mais escreveu ou ditou qualquer coisa, e até mesmo se livrou de seu material de escrever (organa scriptionis); encontrava-se na terceira parte da Suma, no tratado da penitência”. A um Reinaldo estupefato, que não compreende por que ele abandona sua obra, o Mestre responde simplesmente: “Não posso mais”. Voltando a questioná-lo um pouco depois, Reinaldo recebe a mesma resposta: “Não posso mais. Tudo o que escrevi me parece palha perto do que vi”.

A partir dessa data – por volta de 6 de dezembro (a festo beati Nicolai circa) -, Tomás parece profundamente mudado. Ele, que conhecemos tão robusto e que ainda ontem se levantava para orar antes de todos, faz-se acamado, e é enviado para repousar junto à sua irmã, a condessa Teodora, no castelo de São Severino, a sudeste de Nápoles, um pouco acima de Salerno. Ali só chega à custa de muito esforço (properavit cum difficultate magna), e mal consegue saudar sua irmã, que se inquieta por vê-lo tão taciturno; é então que Reinaldo confia a Teodora jamais ter visto o Mestre fora de si por tanto tempo. É difícil avaliar a duração dessa estada, mas após algum tempo Tomás e seu socius retornam a Nápoles – sem dúvida no final de dezembro de 1273 ou início de janeiro de 1274.

Já em fins de janeiro ou no início de fevereiro, devem novamente se pôr a caminho para o concílio que Gregório X convocou para o 1° de maio de 1274, em Lião, tendo em vista um entendimento com os gregos. Tomás então leva consigo o Contra errores graecorum, que compusera a pedido de Urbano IV. Pouco depois de Teano, absorto em seus pensamentos, não percebe uma árvore tombada no meio do caminho e bate a Leia mais deste post

Tentação e sonho

Francesco Gessi (1588-1649), A tentação de Santo Tomás de Aquino

Há ainda outro caso que é como uma segunda luz, ou seqüência, em que as circunstâncias externas dão um vislumbre do seu sentido interno. Depois do caso do tição ardente e da mulher que o tentou na torre, diz-se que teve um sonho em que dois anjos o cingiram com um cordão de fogo, que lhe causou terrível dor e ao mesmo tempo lhe deu uma terrível força, e que acordou, soltando grande grito na escuridão.

Isso também tem algo de muito impressionante naquelas circunstâncias, e provavelmente encerra verdades que algum dia serão mais bem compreendidas, quando os padres e os médicos tiverem aprendido a falar uns com os outros sem a etiqueta, já gasta, das negações do século XIX.

Seria fácil analisar um sonho, como o médico do século XIX fez em Armadale, estudando-o nos detalhes dos dias passados: primeiro a imagem do cordão, naquela sua luta contra os que lhe queriam arrancar o hábito de frade; depois a linha de fogo correndo através da tapeçaria da noite, proveniente do tição que ele tirara do fogo. Mas, se em Armadale o sonho se cumpriu misticamente, também muito misticamente se cumpriu em Santo Tomás. Porque ele, com efeito, após o incidente ficou completamente sossegado com respeito a essas lutas da sua natureza humana, conquanto seja muito provável que o incidente tenha causado nele uma elevação da sua humanidade normal – o que lhe produziu um sonho mais forte do que Leia mais deste post

Jesus, o amigo de Tomás

Santo Tomás de Aquino, Brooklyn Museum, entre 1700-1799

Ninguém supõe que Tomás de Aquino, quando Deus lhe deu a escolher dentre todos os seus dons, fosse pedir um milhar de libras, a coroa da Sicília ou um vinho raro da Grécia. Mas podia pedir coisas que efetivamente desejava, pois que era homem que podia ter aspirações como, por exemplo, a do manuscrito perdido de São João Crisóstomo. Podia pedir a solução de qualquer dificuldade antiga, ou o segredo de uma ciência nova, ou uma chispa do inconcebível espírito intuitivo dos anjos, ou uma das mil coisas que teria satisfeito realmente o seu vasto apetite viril, tão vasto como a própria vastidão e variedade do universo.

A questão é que, para ele, quando a voz falou entre os braços abertos de Jesus crucificado, estes braços estavam em verdade amplamente abertos e abrindo gloriosissimamente as portas de todos os mundos. Eram braços que apontavam para o oriente e o ocidente, para os extremos da terra, e para os próprios extremos da existência. Estavam em verdade abertos num gesto de onipotente generosidade: o próprio Criador a oferecer a própria criação, com todo o infinito mistério dos seres diversos e do coro triunfal das criaturas. É este o fundo esplendoroso da multiplicidade do ser, que dá força particular, e até uma espécie de surpresa, à resposta de Santo Tomás, quando levantou a cabeça finalmente e disse, com a audácia quase blasfema que forma uma só coisa com a humildade da sua religião:

– Quero-Te a Ti!

Para acrescentar a esta história a ironia final e decisiva, tão singularmente cristã para os que a Leia mais deste post

Retrato de Tomás, por Chesterton

Rafael, Disputa do SS. Sacramento (leia texto abaixo)

A aparência ou presença corpórea de Santo Tomás de Aquino é, em verdade, mais fácil de reconstituir que a de muitos que viveram antes da época dos retratos a óleo. Tem-se dito que no seu ser físico ou aspecto externo pouco havia de italiano; mas isto é, na melhor das hipóteses, consoante imagino, uma comparação inconsciente entre Santo Tomás e São Francisco, e, na pior, somente uma comparação entre ele e a lenda apaixonada de vivazes tocadores de realejo e de sorveteiros incendiários. Nem todos os italianos são vivazes tocadores de realejo, e muito poucos são como São Francisco. Uma nação jamais é um tipo, mas quase sempre é uma mescla de dois ou três tipos mais ou menos característicos.

Santo Tomás foi de certo tipo que não é tão comum na Itália como em italianos pouco comuns. A sua corpulência facilitou o considerarem-no humoristicamente um tipo desses barris ambulantes, freqüentes nas comédias de muitas nações. Ele próprio divertia-se com isso. Talvez seja ele, e não nenhum partidário irritado dos partidos agostiniano ou árabe, o responsável pelo sublime exagero de ser preciso cortar um pedaço da mesa, em forma de meia-lua, para que ele pudesse sentar-se a ela. É certo que foi um exagero; é certo que a sua estatura chamava mais a atenção que a sua gordura; mas, acima de tudo, é certo que aquela cabeça era bastante impressionante para dominar o corpo, e de tipo bem marcado e inconfundível, a julgar pelos retratos tradicionais e pelas descrições da sua pessoa. Era desse tipo de cabeças de largas maxilas e queixo pesado, de nariz romano e de grande fronte algo calva, que, apesar da plenitude, dá também, aqui e ali, uma curiosa impressão de concavidades como cavernas do pensamento.

Napoleão tinha uma cabeça como esta sobre um corpo pequeno. Mussolini tem-na hoje em cima de um corpo muito maior, mas igualmente ativo. Pode-se ver nos bustos de muitos imperadores romanos e, ocasionalmente, sobre o pobre colarinho de algum criado italiano, mas que é geralmente chefe de criados. O tipo é tão inconfundível, que não posso deixar de pensar que o vilão mais sagaz de novela ligeira, no sensacional romance vitoriano a Mulher de Branco, foi em verdade copiado por Wilkie Collins de um autêntico conde italiano; está em contraste total com o vilão convencional, magro, moreno e gesticulador que os vitorianos apresentavam geralmente como conde italiano. Alguns hão de lembrar-se (creio eu) de que o conde Fosco, cavalheiro calmo, corpulento e colossal, tinha a cabeça precisamente como um busto de Napoleão de proporções heróicas. Seria um vilão melodramático, mas era um italiano razoavelmente convincente… dessa espécie. Se lhe relembrarmos os modos calmos e o excelente senso comum das palavras e ações externas de todos os dias, teremos talvez uma imagem simplesmente material do tipo de Tomás de Aquino; com um leve esforço de imaginação, ter-se-á o conde Fosco transformado de repente em santo.

Os retratos de Santo Tomás, apesar de muitos terem sido pintados muito após a morte, são todos evidentemente retratos do mesmo homem. Aparece erguendo altivamente a cabeça napoleônica sobre o grande vulto escuro do corpo, como na Disputa do SS. Sacramento de Rafael (ver imagem no início do artigo). Certo retrato de Guirlandaio (ver imagem abaixo) realça algo que revela, especialmente, o que podemos chamar a sua esquecida qualidade italiana, e também pontos que são muito importantes no místico e no filósofo.

Domenico Ghirlandaio, Maria e o Menino entre anjos e santos (1486)

Afirma-se universalmente que Tomás de Aquino era o que comumente se chama um homem distraído, e este tipo tem sido muitas vezes representado na pintura, séria ou humorística, mas quase sempre em um dentre dois ou três modos convencionais. Às vezes a expressão dos olhos é vaga, como se a abstração significasse, em verdade, permanente distração. Outras vezes se representa, mais respeitosamente, com expressão de profunda ansiedade, como se estivesse desejando ardentemente algo muito afastado, que não pode ver mas somente desejar, como miragem indistinta.

Reparem nos olhos do retrato de Santo Tomás por Ghirlandaio (acima) e verão a profunda diferença. Enquanto os olhos estão Leia mais deste post

A revolução aristotélica

Luca della Robbia (1400-1481), Platão e Aristóteles (1437-1439), Florença

O que tornou a revolução aristotélica profundamente revolucionária foi o fato de ser religiosa. E é este um ponto tão fundamental, que julguei conveniente apresentá-lo nas primeiras páginas deste livro – que a revolta foi em grande parte uma revolta dos elementos mais cristãos da Cristandade. Santo Tomás, exatamente como São Francisco, sentiu no subconsciente que a massa da sua gente ia deixando a sólida doutrina e disciplina católica, gasta lentamente durante mais de mil anos de rotina, e que a fé precisava ser apresentada a uma nova luz e vista por ângulo diverso. Não tinha outro motivo senão o de desejar torná-la popular para a salvação do povo. De maneira geral, é verdade que por algum tempo ela fora demasiado platônica para ser popular. Precisava ele de algo como o toque sagaz e familiar de Aristóteles, para transformá-la de novo em religião de senso comum. Tanto o motivo como o método se manifestam na controvérsia de Tomás de Aquino com os agostinianos.

Antes de tudo, devemos recordar que a influência grega continuou a se fazer sentir desde o Império Grego, ou ao menos desde o mesmo centro do Império Romano, situado agora na cidade grega de Bizâncio e já não em Roma. Tal influência era bizantina em todos os sentidos, no bom e no mau. Como a arte bizantina, era severa, matemática e um tanto terrível; como a etiqueta bizantina, era oriental e ligeiramente decadente. Devemos ao saber do Sr. C. Dawson muita luz sobre o modo como Bizâncio lentamente se cristalizou numa espécie de teocracia asiática, mais semelhante à do sagrado imperador da China. Mas até as pessoas incultas podem ver a diferença no modo como o Cristianismo oriental simplificava tudo: no modo, por exemplo, como reduzia as imagens a ícones que melhor se poderiam chamar figurinos do que verdadeiros quadros com variedade e arte; e isso fez decidida e destrutiva guerra às estátuas.

Vemos, assim, esta coisa estranha: o Oriente era a terra da cruz, e o Ocidente a terra do crucifixo. Os gregos estavam-se desumanizando por um símbolo radiante, enquanto os godos se iam humanizando por um instrumento de tortura. Só o Ocidente fez Leia mais deste post

Bom humor e brincadeiras em Santo Tomás

George Henry Harlow, Retrato de Duas Crianças

Leia também: Tomás responde: Pode haver alguma virtude na prática de jogos e brincadeiras?

Por Luiz Jean Lauand

( O Tratado sobre o brincar de Tomás de Aquino corresponde ao In X Libros Ethicorum, IV, 16 – Comentário à Ética de Aristóteles. A presente tradução foi feita a partir do texto latino da edição de Marietti, Turim, 1934).

Apresentamos, a seguir, o Tratado sobre o Brincar de S. Tomás de Aquino (1225-1274), o principal pensador medieval.

Dentre os diversos preconceitos a respeito da Idade Média, um dos mais injustos é o que a concebe como uma época que teria ignorado, ou mesmo combatido, o riso e o brincar. Na verdade, o homem medieval é muito sensível ao lúdico; convive a cada instante com o riso e com a brincadeira.

Comecemos pela fundamentação teológica do lúdico. Recordemos que o cristianismo (tão marcante na Idade Média), ao dar ao homem um vivo sentido de mistério e uma humildade anti-racionalista (não anti-racional; anti-racionalista!), dá-lhe também o senso de humor. Pois a leveza do riso pressupõe a aceitação da condição de criatura, de que o homem não é Deus, do mistério do ser, da não-pretensão de ter o mundo absoluta e ferreamente compreendido e dominado pela razão humana. O racionalismo, pelo contrário, é sério; toma-se demasiadamente a sério e, por isto mesmo, é tenso e não sabe sorrir.

O homem medieval brinca porque acredita vivamente naquela maravilhosa sentença bíblica que associa o brincar da Leia mais deste post

Tomás: inteligência e oração

Sasseta (Stefano di Giovanni, 1392-1450), Santo Tomás de Aquino em Oração (1430-1432), Budapest

Adaptam-se bem a São Tomás de Aquino as palavras do Evangelho que acabámos de ouvir proclamar:  “Quem portanto transgredir um só destes preceitos, mesmo mínimos [da Lei e dos Profetas], e ensinar aos homens a fazer o mesmo, será considerado mínimo no reino dos céus. Mas quem, ao contrário, os observar e os ensinar aos homens, será considerado grande no reino dos céus”.

Tomás começou de longe. O seu caminho foi longo. Sentia-se um apaixonado “filósofo cristão”:  “Por amor a ti estudei!”.

Perseguia uma consciência que, mesmo servindo-se de princípios racionais e métodos filosóficos, se abandonava às inspirações que emanam dos “dogmas”, trabalhava em contacto com eles, considerava-os hipóteses fecundas, servia-se das analogias que sugeriam e, mais do que outras coisas, sabendo que eram verdadeiras, imergia a sua mente de pensador no mistério do qual emergiam. Sabia valorizar as duas formas complementares de sabedoria: a filosófica,que se funda na capacidade que o intelecto possui, dentro dos limites que lhe são conaturais, de averiguar a realidade; e a teológica, que se funda sobre a Revelação e examina os conteúdos da fé, alcançando o mistério de Deus.

Protegia a sua inteligência, feita para a “santa verdade”. Alimentava o recolhimento interior porque, dizia, quando a inteligência trabalha intensamente, a vontade e as suas capacidades afectivas tendem para enfraquecer. Tomás fazia sua a exortação do Livro da Sabedoria: “Por isso pedi, e foi-me dada a inteligência; supliquei, e veio a mim o espírito de sabedoria” (Sb 7, 7). Rezava incessantemente, ou prostrado ou Leia mais deste post

Xeque-mate! Jogos Medievais

Exibição de manuscritos examina o papel dos jogos na sociedade medieval

Leia também: Pode haver alguma virtude na prática de jogos e brincadeiras?

Jogo de Dados em Livro das Horas, Jean de Mauléon, França, 1524

Estamos todos familiarizados com os monges a rezar, mas os monges a jogar? Um Livro de Horas de Flandres encontra-os no fundo de um jogo de “Blind Man’s Bluff”,  enquanto no lado oposto meninos camponeses desfrutam de um rigoroso jogo de hóquei. Essas imagens deliciosas de jogo inesperadamente são comuns nos manuscritos medievais. Nem enfadonhas nem perpetuamente piedosas, as pessoas medievais encontraram tempo para recreação nas margens de suas vidas e seus manuscritos.

Este é o tema para uma nova exposição no Museu de Arte Walters, em Baltimore, Maryland.  Em “Xeque-mate! Pessoas Medievais Jogando” (ou “brincando”) , as pessoas aparecem em muitos aspectos diferentes de jogo medieval, incluindo jogos de tabuleiro, desporto, jogo livre, cifras visuais e até mesmo jogos de amor. Tirada inteiramente da coleção do próprio Walters, a exposição apresenta 26 manuscritos, peças originais do jogo medieval e um soldado de brinquedo do século 13. Nas páginas destes livros, a batalha de cavaleiros com dados em vez de espadas, as crianças fugindo de suas obrigações de inverno para arremessar bolas de neve uns nos outros, crianças travessas dançam alegremente com “Ring-a-Around Rosy”, donzelas a esquecer a sua angústia e sair para uma tarde a caçar borboletas. Através dessas imagens, a exposição incentiva os visitantes de todas as idades para explorar o sentido de humor e diversão que é exclusivamente medieval, mas extraordinariamente relevante para nós hoje.

Na Escandinávia medieval, a torre de xadrez tomou a forma de um guarda de costas para um muro, em vez de uma torre de castelo medieval. Neste exemplo, o guarda sopra seu chifre para sinalizar problemas, segura uma espada, e é acompanhada de um ou outro lado de dois menores valores militares com escudos. Ele tem a assinatura “H” na sua base. Seis outros exemplos da mesma oficina sobreviveram, incluindo um rei, uma rainha e três torres, agora em coleções em Paris (Musée National du Moyen Age), Londres (British Museum) e Copenhagen (Royal Collection).


Planejamento para a exposição já estava em andamento quando Lynley Herbert, Carol Bates Fellow no Museu de Arte Walters, tornou-se o curador da exposição. “A idéia era montar uma exposição de nossa coleção de manuscritos medievais que viesse a complementar a exposição que teremos no próximo outono, do ilustrador de livros infantis Walter Wick, cujo trabalho muitas vezes inclui jogos e cifras visuais”, disse ela em entrevista com medievalistas. net. “Foi-me dado o tema ‘Jogos ‘ e o que eram, então eu continuei a busca através de Leia mais deste post

Catequese do Papa: São Tomás, mestre de vida também agora

Francisco Bayeu y Subías (1734-1795), Santo Tomás de Aquino vencendo aos hereges

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje eu gostaria de completar, com uma terceira parte, minhas catequeses sobre São Tomás de Aquino. Apesar dos mais de 700 anos de distância da sua morte, podemos aprender muito dele; isso foi recordado também pelo meu predecessor, o Papa Paulo VI, quem, em um discurso pronunciado em Fossanova, no dia 14 de setembro de 1974, por ocasião do 7º centenário da morte de São Tomás, perguntava-se: “Mestre Tomás, o que você pode nos ensinar?”. E respondia assim: “A confiança na verdade do pensamento religioso católico, como ele defendeu, expôs, abriu à capacidade cognoscitiva da mente humana” (Ensinamentos de Paulo VI, XII[1974], p. 833-834). E, no mesmo dia, em Aquino, referindo-se sempre a São Tomás, afirmava: “Todos nós, que somos filhos fiéis da Igreja, podemos e devemos, ao menos em alguma medida, ser seus discípulos” (ibid., p. 836).

Participemos, também nós, da escola da São Tomás e da sua obra prima, a Summa Theologiae. Esta ficou incompleta e, contudo, é uma obra monumental: contém 512 questões e 2669 artigos. Trata-se de um raciocínio compacto, no qual a aplicação da inteligência humana aos mistérios da fé procede com clareza e profundidade, concatenando perguntas e respostas, nas quais São Tomás aprofunda o ensinamento que vem da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja, sobretudo de Santo Agostinho. Nesta reflexão, no encontro com verdadeiras perguntas da sua época, que frequentemente são perguntas nossas também, São Tomás, utilizando o método e o pensamento dos Leia mais deste post

O fim da Cristandade (II): A crise do espírito

Andrea Mantegna, São Jerônimo Penitente no Deserto (1448-1451), Museu de Arte de São Paulo – MASP

Leia também: O fim da Cristandade (I): Uma intensa e dolorosa fermentação

A causa imediata desta crise deve ser procurada na história da cultura e no próprio papel que a Igreja assumira em relação a ela. Pedagoga da inteligência, a Mater Ecclesia tinha, como já vimos, ensinado os seus filhos a refletir, a aprofundar os grandes problemas, a construir sistemas do mundo; mas acontecia-lhe o mesmo que acontece à maior parte dos pedagogos, que vêem seus discípulos, já adultos, voarem com as suas próprias asas, muitas vezes em direções opostas àquelas que lhes foram designadas.A razão, que a própria Igreja ensinara a usar, tendia a rebelar-se contra os princípios a serviço dos quais fora posta inicialmente. O direito, que a Igreja tanto ajudara a reconstituir, opor-lhe-ia teses em que ela já não teria nenhum papel a desempenhar. Observava-se, portanto, em todos os terrenos um movimento de rebelião – embora continuassem a respeitar-se as formas exteriores da obediência. E muitas forças novas da época cooperavam com esse movimento: as dos orgulhosos burgueses, cujas riquezas os impeliam a presumir de ateus vociferantes (esprits forts), e as das jovens monarquias, que não conseguiam satisfazer as suas ambições sob a incômoda tutela da Igreja.

O perigo poderia ter sido ultrapassado, como outros o tinham sido, se a Igreja, no dobrar dos anos 1300, tivesse contado no seu seio com cérebros bastante poderosos para arrostar as forças antagonistas, rebater os argumentos dos adversários e integrar o que neles podia existir de válido numa nova síntese cristã. Infelizmente, também neste domínio a seiva parecia escassa. A ausência de um São Tomás de Aquino Leia mais deste post

Dante encontra Tomás: dia de festa no Paraíso

Philipp Veit, O Céu do Sol, com Dante e Beatriz, Tomás de Aquino, Alberto Magno, Pedro Lombardo e outros, 1817-1827, Casa Massimo, Roma (clique para ampliar)

“Um anho fui da santa grei que chama
De Domingos a voz pelo caminho,
Onde prospera só quem mal não trama.

“Tomás de Aquino sou; me está vizinho,
À destra de Colônia o grande Alberto
A quem de aluno e irmão devo o carinho.

[O primeiro espírito à direita é o de Alberto Magno, de Colônia, que foi o primeiro mestre de Santo Tomás de Aquino]

“Se dos mais todos ser desejas certo,
Na santa c’roa atenta cuidadoso,
A tua vista a voz siga-me perto.

“Nesse esplendor sorri-se jubiloso
Graciano que num e noutro foro
Di’no se fez de ser no céu ditoso.

[Francisco Graciano, monge italiano do século XII, que estudou a relação entre as duas leis, a civil e a canônica]

“Aquele outro ornamento deste coro Leia mais deste post

Dante e a Divina Comédia

Dante, de Domenico di Michelino (1417-1491), igreja de Santa Maria del Fiore, Florença (clique para ampliar)

Depois de ler, baixe A Divina Comédia na página de download.

Por Otto Maria Carpeaux

Epopéias são leitura difícil. O gênero morreu há muito, deixando inúmeras falhas e uns poucos monumentos grandiosos que representam épocas passadas da humanidade; por isso, é indispensável conhecer Homero e Virgílio, Ariosto e Spencer, Camões, Tasso e Milton. Mas é mais fácil admirá-los do que gostar deles. Se desaparecessem todas as imposições da escola e da convenção de uma “cultura geral”, teríamos de confessar que as grandes epopéias são hoje pouco legíveis. É preciso estudá-las; teremos de admirar inúmeros pormenores geniais e o plano grandioso; mas é impossível lê-las assim como se lê uma obra de literatura viva. Dante é a única exceção.

É possível ler a Divina Comédia assim como se fosse uma obra de hoje, apesar das mil dificuldades criadas pelas alusões eruditas e políticas. É uma obra viva, capaz de despertar paixão e entusiasmo; porque não é uma epopéia. Entre as grandes obras da literatura universal às quais a convenção chama “epopéia”, a Divina Comédia é a única que não tem Leia mais deste post

O fim da Cristandade (I): Uma intensa e dolorosa fermentação

Gustave Doré, Canto XIX da Divina Comedia, Inferno (simonia), de Dante Alighieri. Cena: Dante se dirige ao Papa Nicolau III (clique para ampliar)

Leia também: O fim da Cristandade (II): A crise do espírito

Estava a Igreja fatigada pelos esforços que fizera para manter e reforçar a sua autoridade no Ocidente? Tinha esgotado a sua seiva ao multiplicar os grandes empreendimentos? Seja como for, era visível em todos os terrenos que o seu impulso interior já não era o de antes e que havia menos vibração, menos fervor. Bastava olhar em volta para comprová-lo.

Não era só o papado que estava em causa, embora os pontífices se sucedessem, há bastante tempo, a um ritmo demasiado rápido para poderem ser eficazes, e embora as vacâncias da Santa Sé se prolongassem de forma inquietante (dez anos de vacância entre 1241 e 1305), e em breve o papado se transferisse de Roma para Avinhão. A cruzada pertencia agora ao passado; tanto sangue derramado não tinha evitado que o Santo Sepulcro permanecesse em poder dos infiéis. Em 1291, caía São João d’Acre. O zelo dos construtores de catedrais declinava; continuava-se a trabalhar para concluir grandes obras em andamento, mas já não era com o Leia mais deste post

Download: Catedral de Chartres

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Documentário da National Geographic sobre a catedral de Chartres. O arquivo tem 469 Mb e está em formato AVI. Detalhe: áudio original, pois não encontrei legenda para o documentário (nem em inglês!). Algumas informações sobre a catedral, tiradas da Wiki:

Catedral de Chartres teve a sua construção iniciada em 1145 e foi reconstruída após um incêndio de 1194. Marca o zénite da arte gótica na França. A vasta nave, em puro estilo ogival, os adornos com estátuas finamente esculpidas de meados do século XII e as magníficas janelas com vitrais dos séculos XII e XIII, todas em Leia mais deste post

Uma arte oratória bem sucedida: a pregação

O púlpito de Siena, feito em mármore de Carrara, foi esculpido em 1265, por Nicola Pisano e seu filho, Giovanni Pisano, bem como seus assistentes Arnolfo di Cambio, Lapo di Ricevuto e vários outros artistas. É a obra mais antiga da igreja. Nicola Pisano ganhou essa encomenda a partir de seu trabalho no púlpito de Pisa. Esse em Siena é mais ambicioso e é considerado sua obra-prima. Toda a mensagem do púlpito é centrada na doutrina da Salvação e no Julgamento Final. A escadaria foi feita em 1543 por Bartolomea Neroni. Mostra as influência do Gótico do norte, adaptados por Pisano, e ainda várias influências clássicas.
O chão em opus sectile é um dos mais decorados da Itália e cobre toda a área da Catedral. Sua construção durou dois séculos e quarenta artistas trabalharam na obra. São 56 painéis em diferentes tamanhos. O chão inteiro pode ser visto apenas durante três semanas ao ano. Para o proteger, no resto do ano, o pavimento é coberto e poucas áreas podem ser vistas.

Como é que a Igreja difunde as grandes noções dogmáticas que estão na base destas devoções, os dados da Escritura e da hagiografia? Essencialmente, pela pregação, cuja importância na época só compreenderemos se abstrairmos dos nossos hábitos modernos. Hoje, cada um de nós tem à sua disposição numerosos e cômodos meios de informação e entretenimento, mas devemos lembrar-nos de que na Idade Média não existiam jornais, nem rádio, nem televisão, nem cinema, nem reuniões políticas. Tudo isso, que absorve muito tempo e atenção dos nossos contemporâneos, era substituído naquela época pelas Leia mais deste post

Os grandes temas da Idade Média (II): A criação

Na imagem temos uma amostra das mais velhas galáxias jamais vistas opcticamente, formadas há 13 mil milhões de anos, quando o Universo tinha apenas 5% da sua idade actual. O tempo de exposição da imgem é de loucos: três meses a olhar sempre o mesmo local (!), permite-nos, através do seu estudo, perceber melhor como as estrelas e as galáxias se formaram no início do Universo.
Leia também: Os grandes temas da Idade Média (I): Os universais

O cristão parte de uma posição essencialmente distinta da grega, ou seja, da niilidade do mundo. Em outras palavras, o mundo é contingente, não necessário; não tem em si a sua razão de ser, mas a recebe de outro, que é Deus. O mundo é um ens ab alio, diferentemente do ens a se divino. Deus é criador, e o mundo, criado: dois modos de ser profundamente distintos e talvez irredutíveis. A criação é, portanto, o primeiro problema metafísico da Idade Média, do qual derivam, em suma, todos os demais.

A criação não deve ser confundida com o que os gregos chamam de gênese ou geração. A geração é um modo do movimento, o movimento substancial; este pressupõe um sujeito, um ente que se move e passa de um princípio a um fim. O carpinteiro que faz uma mesa a faz de Leia mais deste post

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